Mostrar mensagens com a etiqueta Cormac McCarthy. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Cormac McCarthy. Mostrar todas as mensagens
11/12/12
24/07/11
A book a day keeps the doctor away: "Nas Trevas Exteriores", Cormac McCarthy
Talvez Emmanuel Levinas estivesse certo quando escreveu: "A questão metafísica primordial já não é a de Leibniz, de saber porque existe algo em vez de nada, mas porque existe mal em vez de bem".
Não sei se Cormac McCarthy leu Levinas; o facto é que é dos poucos escritores contemporâneos a pegar a besta de caras.
Nas Trevas Exteriores – “Amarrai-lhe os pés e as mãos e lançai-o nas trevas exteriores; ali haverá choro e ranger de dentes (Mateus, 22: 13) – é o seu mais recente livro publicado em Portugal. Data originalmente de 1968 e trata-se do segundo romance assinado pelo autor de Este País Não É Para Velhos.
Culla e Rinthy Holme são irmãos; a história começa com o nascimento de uma criança fruto da relação incestuosa entre ambos. Culla livra-se do recém-nascido, abandonando-o na floresta, e tenta convencer a irmã de que o bebé morreu após o parto. Quando Rinthy se apercebe da mentira, foge da cabana miserável onde os dois vivem escondidos e lança-se em busca do filho. Culla segue-lhe os passos e parte no seu encalço.
Nas Trevas Exteriores é o relato dessa errância, organizado em capítulos autónomos e desacertados, numa espiral de vagarosa violência que amplia a angústia do leitor. Como diz cirurgicamente no Prefácio Paulo Faria, o tradutor, confrontamo-nos “com uma experiência de genuíno desconforto físico, e a intensidade desse desconforto traduz a exacta medida da mestria literária de Cormac McCarthy”.
A escrita do americano é tudo menos consoladora. “God is war”, garantia o desapiedado juiz Holden em Meridiano de Sangue, personagem de quem podemos adivinhar alguns dos traços, aqui, em Trevas Exteriores, na trindade funesta com quem Culla se cruza ao longo do seu deambular vagabundo e sonâmbulo:
“Pra ondé que tu ias, vamos lá a saber?
Pra lugar nenhum, respondeu Holme.
Pra lugar nenhum.
Isso.
Ainda és capaz de lá chegar, comentou o homem. Caminhou ao longo da orla do fogo e deteve-se, olhando Holme de alto. Holme via-lhe apenas as pernas e as de Harmon, um pouco mais além. O lume esmorecera e havia somente uma única labareda em forma de língua de serpente, bífida e amarela, a assomar entre as brasas. Um terceiro par de botas acercou-se e Holme olhou-as. Tinham as biqueiras ligeiramente voltadas para dentro e estavam calçadas nos pés trocados.
Não é tudo, pois não? indagou o homem.
Eu cá não tenho mais nada, declarou Holme.”
Descendente de uma tradição sulista que inclui nomes como Flannery O’Connor ou William Faulkner, Cormac McCarthy combina, como aqueles, o sentido da tragédia humana com o grotesco, laço bem visível em alguns diálogos que roçam a idiotia ou, quiçá, a genialidade:
“E o qué um casco-de-mula? perguntou Holme. (...)
Têm a unha assim comá da mula.
Queres dizer que não têm o casco fendido?
Não têm fenda nenhuma.
Nunca na minha vida vi nenhum porco desses, disse Holme.
Isso não me espanta, comentou o porqueiro. Mas olha que podes aqui ver um, se tiveres isso na vontade.
Eu até gostava, disse Holme.
O porqueiro tornou a trocar o cajado de um braço para o outro. Dá-me impressão que isto vai contra o que diz a Bíblia, o qué que tu achas?
Sobre o quê?
Sobres estes porcos. Que são impuros por causa de terem o casco fendido.
Eu cá nunca ouvi dizer tal coisa, disse Holme.
Eu ouvi um pregador a dizer isto num sermão. O fulano sabia imenso do assunto. Disse que o demónio tinha a pata comá dos porcos. Jurou que ‘tava escrito na Bíblia, por isso eu acho que deve de ‘tar.
Também acho.
Disse que os judeus não comiam carne de porco por causa disso.
O qué isso, os judeus?
São umas gentes antigas que vêm na Bíblia. Mas ainda assim, isso não nos diz nada sobre um porco casco-de-mula, pois não? Em qué que ficamos, afinal?
Não sei, respondeu Holme. Em qué que ficamos?
Bom, afinal de contas é um porco ou não é? A fazer fé na Bíblia.
Eu cá diria que um porco é um porco, mesmo que nem sequer tenha patas.
Eu sou capaz de dizer o mesmo, concordou o porqueiro, porque, caso tivesse patas, a gente ‘tava à espera que fossem patas de porco. É como se um porco não tivesse cabeça, a gente continuava a perceber que era um porco, apesar de tudo. Mas se víssemos um porco a andar por aí com uma cabeça de mula, já a pessoa era capaz de ficar baralhada.
É verdade, anuiu Holme.
Sim, senhor. Faz um tipo pôr-se a matutar um bocado sobre a Bíblia e também sobre os porcos, hem?”
As conotações bíblicas da obra de McCarthy estão por demais assinaladas. A forma blasfema como transfigura linguagem e conteúdos sagrados, denuncia, porém, um feroz pessimismo ontológico, arredado de qualquer escatologia redentora: o Mal é uma realidade, não uma simples ausência de Bem.
Assim acontece neste título. A queda do casal de irmãos pelo pecado do incesto traduz-se num caminho sem expiação. Culla Holme, culpado do abandono da criança, vai semeando (involuntariamente?) um rasto de morte à sua passagem; Rinthy, na sua quase inocência, consegue escapar à vivência directa do inferno, para atravessar o livro num limbo de desespero silencioso.
Fantasmas andarilhos, ambos, personagens de uma estranha parábola que, apesar da absoluta materialidade da escrita de McCarthy, surge envolta num manto de irrealidade, são o Adão e Eva deste romance negro, tragédia anunciada nos pequenos textos a itálico que moram entre capítulos. E depois (ou antes de tudo) há o cego. Poderá a cegueira salvar-nos? Existirá salvação?
Nas mãos do leitor, um exemplo de genialidade literária e desassombro.
Nas Trevas Exteriores, Cormac McCarthy, 2011, Relógio D´Água, tradução de Paulo Faria
21/07/11
What a Dick!
Eduardo Pitta não pára de me surpreender. Após Cormac McCarthy, o versátil crítico comenta agora Por Este Mundo Acima, de Patrícia Reis, na revista Sábado.
Eduardo Pitta diz que Patrícia Reis “em poucos anos, marcou o território da voz própria”. Acrescenta que a “geografia dos afectos sobrepõe-se à desolação”, que o livro é um “corajoso exercício de mnemónica” e que “as personagens discreteiam com naturalidade sobre os mais diversos temas”.
Ficamos também a saber que há uma personagem chamada Pedro e que “o passado cabe inteiro num quarteirão em ruínas”.
Pitta exemplifica a “dimensão de destruição, terrífica, monumental, inesperada […] para mim como uma moldura do Mal onde Pedro se desloca, estrangeiro” (in Por Este Mundo Acima), citando outra passagem do romance que é assim: “A livraria municipal, a pastelaria da moda, o Galeto que fechava às duas e servia refeições a toda a hora.”
Apresenta-nos depois Sofia, “mulher-bunker” (Pitta) que não terá tido tempo de ser menina. Segundo o crítico, “entre os 7 e os 11 anos, o pai, veterano de guerra, não deixou. Cala os abusos e advém mulher”.
A seguir a Sofia advém um rapaz, Eduardo, cujo "altruísmo faz dele um homem"(Pitta), o qual, a dado momento, “parte outra bolacha em quatro, desajeitado, e oferece-me dois pedaços.” (in Por Este Mundo Acima)
Na "moldura do Mal" de Patrícia Reis há (Pitta dixit) uma “estação do metropolitano que sobra intacta para instalar um centro de dia.”; “No Inverno é um bom sítio para estar; para evitar o contacto com a chuva” (in Por Este Mundo Acima).
Mas onde a crítica de Pitta nos alucina mesmo é neste parágrafo: “Não sei se Patrícia Reis é ou foi leitora omnívora de Philip K. Dick, mas alguma coisa do seu (dele) universo fantasmático passou para este romance de uma Lisboa pós-hecatombe. A tradição oral sobrevive num punhado de versos de Ary dos Santos: “Agarro a madrugada/como se fosse uma criança,/uma roseira entrelaçada,/uma videira de esperança.”
Cormac McCarthy; Patrícia Reis; Philip K. Dick; Ary dos Santos. Insondáveis são os caminhos de Pitta!
Eduardo Pitta diz que Patrícia Reis “em poucos anos, marcou o território da voz própria”. Acrescenta que a “geografia dos afectos sobrepõe-se à desolação”, que o livro é um “corajoso exercício de mnemónica” e que “as personagens discreteiam com naturalidade sobre os mais diversos temas”.
Ficamos também a saber que há uma personagem chamada Pedro e que “o passado cabe inteiro num quarteirão em ruínas”.
Pitta exemplifica a “dimensão de destruição, terrífica, monumental, inesperada […] para mim como uma moldura do Mal onde Pedro se desloca, estrangeiro” (in Por Este Mundo Acima), citando outra passagem do romance que é assim: “A livraria municipal, a pastelaria da moda, o Galeto que fechava às duas e servia refeições a toda a hora.”
Apresenta-nos depois Sofia, “mulher-bunker” (Pitta) que não terá tido tempo de ser menina. Segundo o crítico, “entre os 7 e os 11 anos, o pai, veterano de guerra, não deixou. Cala os abusos e advém mulher”.
A seguir a Sofia advém um rapaz, Eduardo, cujo "altruísmo faz dele um homem"(Pitta), o qual, a dado momento, “parte outra bolacha em quatro, desajeitado, e oferece-me dois pedaços.” (in Por Este Mundo Acima)
Na "moldura do Mal" de Patrícia Reis há (Pitta dixit) uma “estação do metropolitano que sobra intacta para instalar um centro de dia.”; “No Inverno é um bom sítio para estar; para evitar o contacto com a chuva” (in Por Este Mundo Acima).
Mas onde a crítica de Pitta nos alucina mesmo é neste parágrafo: “Não sei se Patrícia Reis é ou foi leitora omnívora de Philip K. Dick, mas alguma coisa do seu (dele) universo fantasmático passou para este romance de uma Lisboa pós-hecatombe. A tradição oral sobrevive num punhado de versos de Ary dos Santos: “Agarro a madrugada/como se fosse uma criança,/uma roseira entrelaçada,/uma videira de esperança.”
Cormac McCarthy; Patrícia Reis; Philip K. Dick; Ary dos Santos. Insondáveis são os caminhos de Pitta!
19/07/11
Eduardo Pitta comenta Cormac McCarthy: o resultado é apocalíptico
Eduardo Pitta escreveu sobre Cormac McCarthy na última edição da revista Sábado. Confirmei o que já sabia. Cormac McCarthy é um escritor de génio. Eduardo Pitta é um “crítico” medíocre.
Transcrevo o texto de Pitta com algumas anotações a itálico. Peço-vos só que não adormeçam: é que ele a mim dá-me sono.
«Por causa de um filme dos irmãos Coen, “Este País não É para Velhos”, Cormac McCarthy (n.1933) tornou-se o santo-e-senha das classes médias urbanas. [Escreve-se tornou-se no... mas isso ainda será o menos]
«Antes disso, quando comparado com Melville ou Faulkner, ainda McCarthy era ignorado pela maioria dos actuais devotos. Não se percebe. [Eu de certeza que não percebo. Terá McCarthy deixado, entretanto, de ser comparado a Melville ou a Faulkner por causa dos actuais devotos?]
«Afinal, há mais de duas décadas que o autor de “Nas Trevas Exteriores” é uma figura incontornável da literatura de língua inglesa. [Adoro o adjectivo “incontornável”: é quase tão bom como “giro” ou “interessante"]
«Dupla injustiça, se pensarmos que estão traduzidos em Portugal nove dos 10 romances que escreveu. Paulo Faria traduziu oito, um deles (“Meridiano de Sangue”, 1985) duas vezes, sendo a nova versão do fim de 2010.» [Longe de mim pôr em causa os dotes contabilísticos de Eduardo Pitta, um reformado do Ministério da Economia, mas não seria já altura de falar do livro? A não ser que se entenda que toda a prosa anterior visa insinuar que o incontornável Pitta há pelo menos duas décadas que lê Cormac McCarthy e nada de misturas com os actuais-devotos-das-classes-médias-urbanas, esses parolos que antes do filme dos Coen nunca tinham ouvido falar do homem...]
«”Nas Trevas Exteriores”, segundo livro de McCarthy, acaba de chegar às livrarias. A tragédia de Rinthy e Culla Holme foi publicada em 1968 sem que o tema do incesto entre irmãos tivesse provocado a rejeição universal que suscitaria hoje. [Alguém que explique a Pitta o que é uma parábola que eu agora não tenho tempo para temas fracturantes. E, já agora, alguém que lhe explique também que, não, o Nabokov não queria – na realidade – dormir com a Lolita].
«Pelo contrário, ajudou a consolidar a reputação sanguinária do autor, corroborada por críticos tão diferentes como Harold Bloom e James Wood. [Se o Pitta me conseguir mostrar onde é que os críticos citados chamaram sanguinário ao McCarthy, juro que vou de joelhos a Fátima].
«A tradução traz o selo inconfundível de Faria: “A criança lançou brados como imprecações, amaldiçoando o obscuro mundo paludoso da sua natividade, urro após urro, enquanto ele ali jazia a balbuciar com os gonzos da mandíbula paralisados, as mãos a repelir a noite como um Paracleto néscio sitiado por todos os clamores do limbo.” McCarthy e Faria dão o mais alto conseguimento ao horror, ilustrado na imagem do esqueleto do bufarinheiro a desfazer-se ao vento, “suspenso naquela floresta solitária como uma gaiola feita de osso.”
«Centrada em Appalachia, uma região inóspita da Virgínia, a intriga é linear: Rinthy e Culla Holme têm um filho que o rapaz abandona (ainda bebé) na floresta. [1. Se Pitta se tivesse dado ao trabalho de ler pelo menos o Prefácio do tradutor que tanto parece elogiar teria lido isto: “Se nos três outros romances da primeira fase da obra de McCarthy [...] a minuciosa localização geográfica serve de matriz a uma narrativa tantas vezes habitada por espectros e por criaturas fantásticas, em Nas Trevas Exteriores o local onde tudo se passa é bem menos claro: estamos no Sul dos Estados Unidos, é certo, mas onde? No Tennessee onde McCarthy viveu infância e juventude não deverá ser, já que aí não existem aligátores que possam soltar bramidos surdos nas margens dos rios. O cenário impreciso reforça a atmosfera onírica que tudo envolve...” 2. E se se tivesse dado ao trabalho de ler apenas as 12 primeiras páginas do livro saberia que Culla Holme não abandona o filho ainda bebé – mas imediatamente após Rinthy ter dado à luz. 3. Quanto à “intriga linear”, aconselhava-o a ler um pouco mais do que resumos na NET...]
«O interesse radica na economia discursiva com que o autor narra os factos, sem trair preciosismos dialectais dos nativos. [Querem lá ver que o Pitta leu o livro no original e decifrou os "preciosismos dialectais dos nativos", enquanto os próprios americanos continuam às aranhas?]
«Os excessos barrocos da linguagem de McCarthy sobrelevam a violência e devastação geral, detalhe que se tornou lugar-comum em livros posteriores. [1. Não há nenhuma devastação geral em "Nas Trevas Exteriores" (Pitta deve ter visto “A Estrada” do John Hillcoat, filme inspirado no livro homónimo de McCarthy e confundiu tudo...) e se houvesse nunca seria um detalhe; 2. alguém lhe devia explicar a diferença entre “comum” e “lugar-comum”]
«Não obstante, “Nas Trevas Exteriores” tem uma quota nítida: “Holme viu a lâmina relampejar à luz como um comprido olho de gato, oblíquo e malévolo, e um sorriso escuro irrompeu na garganta do menino e alargou-se, todo ele disforme, sobre a pele do pescoço.” [A quota será nítida, mas que raio quererá Pitta dizer?]
«McCarthy faz a cartografia da violência americana como ninguém antes ou depois dele. [Blá... blá... blá...]
«Contudo, apesar de toda a eloquência, “Nas Trevas Exteriores” está longe da fúria apocalíptica de “Meridiano de Sangue”. [Dado o extraordinário naco de prosa transcrito, sei lá eu se Pitta folheou o “Meridiano de Sangue”!]
Resumindo: Ainda falam da Lili Caneças!
Transcrevo o texto de Pitta com algumas anotações a itálico. Peço-vos só que não adormeçam: é que ele a mim dá-me sono.
«Por causa de um filme dos irmãos Coen, “Este País não É para Velhos”, Cormac McCarthy (n.1933) tornou-se o santo-e-senha das classes médias urbanas. [Escreve-se tornou-se no... mas isso ainda será o menos]
«Antes disso, quando comparado com Melville ou Faulkner, ainda McCarthy era ignorado pela maioria dos actuais devotos. Não se percebe. [Eu de certeza que não percebo. Terá McCarthy deixado, entretanto, de ser comparado a Melville ou a Faulkner por causa dos actuais devotos?]
«Afinal, há mais de duas décadas que o autor de “Nas Trevas Exteriores” é uma figura incontornável da literatura de língua inglesa. [Adoro o adjectivo “incontornável”: é quase tão bom como “giro” ou “interessante"]
«Dupla injustiça, se pensarmos que estão traduzidos em Portugal nove dos 10 romances que escreveu. Paulo Faria traduziu oito, um deles (“Meridiano de Sangue”, 1985) duas vezes, sendo a nova versão do fim de 2010.» [Longe de mim pôr em causa os dotes contabilísticos de Eduardo Pitta, um reformado do Ministério da Economia, mas não seria já altura de falar do livro? A não ser que se entenda que toda a prosa anterior visa insinuar que o incontornável Pitta há pelo menos duas décadas que lê Cormac McCarthy e nada de misturas com os actuais-devotos-das-classes-médias-urbanas, esses parolos que antes do filme dos Coen nunca tinham ouvido falar do homem...]
«”Nas Trevas Exteriores”, segundo livro de McCarthy, acaba de chegar às livrarias. A tragédia de Rinthy e Culla Holme foi publicada em 1968 sem que o tema do incesto entre irmãos tivesse provocado a rejeição universal que suscitaria hoje. [Alguém que explique a Pitta o que é uma parábola que eu agora não tenho tempo para temas fracturantes. E, já agora, alguém que lhe explique também que, não, o Nabokov não queria – na realidade – dormir com a Lolita].
«Pelo contrário, ajudou a consolidar a reputação sanguinária do autor, corroborada por críticos tão diferentes como Harold Bloom e James Wood. [Se o Pitta me conseguir mostrar onde é que os críticos citados chamaram sanguinário ao McCarthy, juro que vou de joelhos a Fátima].
«A tradução traz o selo inconfundível de Faria: “A criança lançou brados como imprecações, amaldiçoando o obscuro mundo paludoso da sua natividade, urro após urro, enquanto ele ali jazia a balbuciar com os gonzos da mandíbula paralisados, as mãos a repelir a noite como um Paracleto néscio sitiado por todos os clamores do limbo.” McCarthy e Faria dão o mais alto conseguimento ao horror, ilustrado na imagem do esqueleto do bufarinheiro a desfazer-se ao vento, “suspenso naquela floresta solitária como uma gaiola feita de osso.”
«Centrada em Appalachia, uma região inóspita da Virgínia, a intriga é linear: Rinthy e Culla Holme têm um filho que o rapaz abandona (ainda bebé) na floresta. [1. Se Pitta se tivesse dado ao trabalho de ler pelo menos o Prefácio do tradutor que tanto parece elogiar teria lido isto: “Se nos três outros romances da primeira fase da obra de McCarthy [...] a minuciosa localização geográfica serve de matriz a uma narrativa tantas vezes habitada por espectros e por criaturas fantásticas, em Nas Trevas Exteriores o local onde tudo se passa é bem menos claro: estamos no Sul dos Estados Unidos, é certo, mas onde? No Tennessee onde McCarthy viveu infância e juventude não deverá ser, já que aí não existem aligátores que possam soltar bramidos surdos nas margens dos rios. O cenário impreciso reforça a atmosfera onírica que tudo envolve...” 2. E se se tivesse dado ao trabalho de ler apenas as 12 primeiras páginas do livro saberia que Culla Holme não abandona o filho ainda bebé – mas imediatamente após Rinthy ter dado à luz. 3. Quanto à “intriga linear”, aconselhava-o a ler um pouco mais do que resumos na NET...]
«O interesse radica na economia discursiva com que o autor narra os factos, sem trair preciosismos dialectais dos nativos. [Querem lá ver que o Pitta leu o livro no original e decifrou os "preciosismos dialectais dos nativos", enquanto os próprios americanos continuam às aranhas?]
«Os excessos barrocos da linguagem de McCarthy sobrelevam a violência e devastação geral, detalhe que se tornou lugar-comum em livros posteriores. [1. Não há nenhuma devastação geral em "Nas Trevas Exteriores" (Pitta deve ter visto “A Estrada” do John Hillcoat, filme inspirado no livro homónimo de McCarthy e confundiu tudo...) e se houvesse nunca seria um detalhe; 2. alguém lhe devia explicar a diferença entre “comum” e “lugar-comum”]
«Não obstante, “Nas Trevas Exteriores” tem uma quota nítida: “Holme viu a lâmina relampejar à luz como um comprido olho de gato, oblíquo e malévolo, e um sorriso escuro irrompeu na garganta do menino e alargou-se, todo ele disforme, sobre a pele do pescoço.” [A quota será nítida, mas que raio quererá Pitta dizer?]
«McCarthy faz a cartografia da violência americana como ninguém antes ou depois dele. [Blá... blá... blá...]
«Contudo, apesar de toda a eloquência, “Nas Trevas Exteriores” está longe da fúria apocalíptica de “Meridiano de Sangue”. [Dado o extraordinário naco de prosa transcrito, sei lá eu se Pitta folheou o “Meridiano de Sangue”!]
Resumindo: Ainda falam da Lili Caneças!
12/07/11
24/05/11
"They say Wilder is out of touch with his times. Frankly, I regard it as a compliment. Who the hell wants to be in touch with these times?"
Cito o meu mestre, Billy Wilder, e proponho o visionamento disto (não aconselhável a pessoas sensíveis). Ou, pelo menos, a leitura da notícia.
Como dizia o velho xerife de Este País Não É Para Velhos: "Porque muitas das vezes que eu digo que o mundo está a ir direitinho para o Inferno ou alguma coisa do género, as pessoas limitam-se a fazer-me um sorriso e dizem-me que estou a ficar velho. Que este é um dos sintomas. Mas cá no meu entender, se alguém não vê a diferença entre violar e assassinar pessoas e mascar pastilha elástica é porque tem um problema muito mais grave do que o meu.”
Como dizia o velho xerife de Este País Não É Para Velhos: "Porque muitas das vezes que eu digo que o mundo está a ir direitinho para o Inferno ou alguma coisa do género, as pessoas limitam-se a fazer-me um sorriso e dizem-me que estou a ficar velho. Que este é um dos sintomas. Mas cá no meu entender, se alguém não vê a diferença entre violar e assassinar pessoas e mascar pastilha elástica é porque tem um problema muito mais grave do que o meu.”
27/04/11
Deus não existe e nós somos os seus profetas
Tinha 57 anos e quatro filhos. Trabalhava há três décadas na France Télécom. Pertencia ao grupo dos sortudos, dos que não foram para a rua durante o reinado de Didier Lombard, o PDG genial e empreendedor responsável pela “moda dos suicídios” e que bem podia, mais coisa menos coisa, ser um dos muitos filhos de puta que enchem os romances de DeLillo.
Ao velho funcionário, haviam-se limitado a transferi-lo de local de trabalho obrigando-o a mudar de residência e constantemente de funções. O homem, um fraco, um mal-agradecido, claro, não aguentou tanta modernidade. Tanta mobilidade. Suicidou-se pelo fogo no parque de estacionamento da empresa. Sozinho. Sem espectáculo e sem espectadores. Não o conseguiram filmar nem com a porra de um telemóvel.
Ao velho funcionário, haviam-se limitado a transferi-lo de local de trabalho obrigando-o a mudar de residência e constantemente de funções. O homem, um fraco, um mal-agradecido, claro, não aguentou tanta modernidade. Tanta mobilidade. Suicidou-se pelo fogo no parque de estacionamento da empresa. Sozinho. Sem espectáculo e sem espectadores. Não o conseguiram filmar nem com a porra de um telemóvel.
12/03/10
Das pessoas sensíveis que leram Cormac, adoram Cormac mas não matam galinhas ou se a sociedade é o que é porque havia a escola de ser diferente?
Um miúdo atirou-se ao rio. Passados poucos dias um homem fez o mesmo. Não se conheciam. Entre eles, apenas uma coisa em comum: a escola. Um era aluno, o outro professor.
A morte do miúdo e a morte do homem fizeram manchete nos jornais e desencadearam imensos comunicados. De indignação, de consternação, de interpretação. Os dois teriam sido vítimas de violência. Psicológica, ou física ou ambas.
Ministério, Direcções-Gerais (o homem apresentava “fragilidades psicológicas”), pedagogos, psicólogos, associações de pais e associações de professores, a polícia (o miúdo “queria apenas chamar a atenção") e até os Partidos opinaram sobre o sucedido.
Os comentários foram de largo espectro, incluindo os que clamam por castigos exemplares e os que clamam por acompanhamentos exemplares. Comum a todos, a necessidade de repensar a escola.
A escola, claro, que tem as costas largas. Mas o que é a escola se não o reflexo, mais ou menos exacto, da vida fora da escola? Os estabelecimentos escolares tornaram-se mais violentos? E o que é a vida lá fora? Um mar de rosas?
Infelizmente Rousseau não tinha razão. Muito mais perto da verdade estará Cormac McCarthy.
Como no poema de Sofia, porém, “as pessoas sensíveis” que lêem Cormac e adoram Cormac “não são capazes de matar galinhas/ porém são capazes de comer galinhas”.
Modernas e progressistas ― adoram os Cohen! ―, mostram-se na verdade incapazes de perceber o velho xerife Bell. Aquele que escreve:
“Há uns tempos li nos jornais que um grupo de professores encontrou por acaso um inquérito que foi enviado nos anos trinta a um certo número de escolas de todo o país. Incluía um questionário sobre quais os problemas mais graves que aconteciam nas escolas. E encontraram também os formulários de respostas, que tinham sido preenchidos e devolvidos dos quatro cantos do país. E os problemas mais graves que os professores apontavam eram coisas como conversar nas aulas e correr pelos corredores. Mascar pastilha elástica. Copiar os trabalhos de casa. Coisas desse género. Então eles policopiaram uma data de exemplares e enviaram-nos para as mesmas escolas. Passados quarenta anos. Bom, algum tempo depois receberam as respostas. Violações, fogo posto, homicídio. Drogas. Suicídios. E eu ponho-me a pensar nisto. Porque muitas das vezes que eu digo que o mundo está a ir direitinho para o Inferno ou alguma coisa do género, as pessoas limitam-se a fazer-me um sorriso e dizem-me que eu estou a ficar velho. Que este é um dos sintomas. Mas cá no meu entender, se alguém não vê a diferença entre violar e assassinar pessoas e mascar pastilha elástica é porque tem um problema muito mais grave do que o meu. Quarenta anos também não é assim tanto tempo. Talvez os próximos quarenta anos façam acordar algumas pessoas da anestesia em que caíram. Se não for demasiado tarde.” (in Este País não É para Velhos)
A morte do miúdo e a morte do homem fizeram manchete nos jornais e desencadearam imensos comunicados. De indignação, de consternação, de interpretação. Os dois teriam sido vítimas de violência. Psicológica, ou física ou ambas.
Ministério, Direcções-Gerais (o homem apresentava “fragilidades psicológicas”), pedagogos, psicólogos, associações de pais e associações de professores, a polícia (o miúdo “queria apenas chamar a atenção") e até os Partidos opinaram sobre o sucedido.
Os comentários foram de largo espectro, incluindo os que clamam por castigos exemplares e os que clamam por acompanhamentos exemplares. Comum a todos, a necessidade de repensar a escola.
A escola, claro, que tem as costas largas. Mas o que é a escola se não o reflexo, mais ou menos exacto, da vida fora da escola? Os estabelecimentos escolares tornaram-se mais violentos? E o que é a vida lá fora? Um mar de rosas?
Infelizmente Rousseau não tinha razão. Muito mais perto da verdade estará Cormac McCarthy.
Como no poema de Sofia, porém, “as pessoas sensíveis” que lêem Cormac e adoram Cormac “não são capazes de matar galinhas/ porém são capazes de comer galinhas”.
Modernas e progressistas ― adoram os Cohen! ―, mostram-se na verdade incapazes de perceber o velho xerife Bell. Aquele que escreve:
“Há uns tempos li nos jornais que um grupo de professores encontrou por acaso um inquérito que foi enviado nos anos trinta a um certo número de escolas de todo o país. Incluía um questionário sobre quais os problemas mais graves que aconteciam nas escolas. E encontraram também os formulários de respostas, que tinham sido preenchidos e devolvidos dos quatro cantos do país. E os problemas mais graves que os professores apontavam eram coisas como conversar nas aulas e correr pelos corredores. Mascar pastilha elástica. Copiar os trabalhos de casa. Coisas desse género. Então eles policopiaram uma data de exemplares e enviaram-nos para as mesmas escolas. Passados quarenta anos. Bom, algum tempo depois receberam as respostas. Violações, fogo posto, homicídio. Drogas. Suicídios. E eu ponho-me a pensar nisto. Porque muitas das vezes que eu digo que o mundo está a ir direitinho para o Inferno ou alguma coisa do género, as pessoas limitam-se a fazer-me um sorriso e dizem-me que eu estou a ficar velho. Que este é um dos sintomas. Mas cá no meu entender, se alguém não vê a diferença entre violar e assassinar pessoas e mascar pastilha elástica é porque tem um problema muito mais grave do que o meu. Quarenta anos também não é assim tanto tempo. Talvez os próximos quarenta anos façam acordar algumas pessoas da anestesia em que caíram. Se não for demasiado tarde.” (in Este País não É para Velhos)
24/09/09
Mais uma sugestão: devíamos fazer como Loretta, a mulher do xerife Bell, que nunca lia jornais e por isso sobreviveu ao inferno
Confirmar a eficácia da sugestão (re)lendo Este País Não É para Velhos (Cormac McCarthy, tradução de Paulo Faria, Relógio D'Água)19/03/08
Ainda não vi o filme; quanto ao livro retomo o post que já andava perdido lá para os confins do blog
«That is no country for old men»: Cormac McCarthy foi buscar a Yeats o verso que dá título ao romance. Sylvia Plath também não estaria mal: «I talk to God but the sky is empty». Por aqui não há ninguém a quem o céu proteja.O catolicismo tem, que me ocorra de repente, duas coisas boas: os filmes de Martin Scorsese e os livros de Cormac McCarthy. É verdade que em Este País não É para Velhos o Ser Supremo pode ser uma desilusão. Mas até o xerife Bell, assaltado por visões de Satanás entre os homens, compreenderia Hemingway quando este um dia, inquirido sobre se acreditava em Deus, respondeu: «À noite, às vezes».
Quando escrevo, a versão cinematográfica deste romance já estreou nos EUA. Não por acaso, decerto, sob a batuta de Joel e Ethan Cohen, a dupla responsável pelo maior tratado moral alguma vez transposto para o ecrã: Miller's Crossing, em português, História de Gangsters. Porque McCarthy escreve livros morais. Com o adjectivo a encarnar o seu sentido mais nobre, aquele que percorre autores tão diversos como Defoe, Flaubert, Dostoievski, Conrad ou Melville.
O cenário da acção é, como já o era em todos os títulos da Triologia da Fronteira, a América profunda que havia também fascinado Faulkner. Um caçador de antílopes a contas com o passado, Llewelyn Moss, encontra por acaso, ao lado de um monte de cadáveres, uma mala com dois milhões de dólares. Alguma coisa correu mal no que se percebe ter sido uma transacção de droga e o único sobrevivente é um mexicano moribundo que implora por água. Moss não tem como lhe matar a sede, mas tomará duas decisões morais que lhe irão determinar a vida (e a de outros) para sempre: rouba a mala dos dólares e volta ao lugar do crime para dessedentar o homem.
A partir deste fait-divers tantas vezes glosado, McCarthy produz um romance poderoso, um western moderno e metafísico que nos confronta, num registo slow motion que lembra Rulfo, com a condição humana no que ela tem de mais terrível. Porque, claro, Moss não se safará impunemente com a mala dos milhões: «(...) Ficou sentado a olhar para as notas, depois fechou a aba e continuou sentado de cabeça baixa. Tinha ali a sua vida inteira, pousada na sua frente. Dia após dia, do nascer ao pôr do Sol, até ao momento da sua morte. Tudo resumido a dezoito quilos de papel dentro de uma mala.»
Ao brilhantismo estilístico (e sobre isso escreve e bem o tradutor Paulo Faria em nota introdutória), acresce a construção romanesca.
A abrir Este País não É para Velhos algumas reflexões proferidas na primeira pessoa pelo desencantado e velho xerife Bell, as quais irão pontuando o desenrolar da acção sem que em nada satisfaçam, esclareça-se já, a nossa necessidade de consolo: «Lembram-se do que eu disse no outro dia sobre os jornais. Na semana passada lá na Califórnia, apanharam um casal que alugava quartos a idosos e depois matava-os e enterrava-os no quintal. A seguir iam levantar os cheques das pensões de reforma. Mas primeiro torturavam-nos, não sei porquê. Se calhar tinham a televisão avariada».
É Bell quem sairá em socorro de Moss e da mulher deste, alvos visados por Chigurh, um assassino a soldo dos patrões da droga que tem por missão recuperar o largo punhado de dólares. Desde sempre se percebe que o casal tem todos os motivos para não dormir descansado: «Estou-me aqui a preparar para fazer uma coisa completamente estúpida, mas mesmo assim vou seguir em frente. Se eu não voltar, diz à minha mãe que gosto imenso dela. A tua mãe já morreu, Llewelyn. Bom, então eu mesmo lhe digo.» E a coisa estúpida é ir dar água a um moribundo.
Chigurh, que não é um sádico (ao contrário do juiz Holden desse outro livro de McCarthy para «leitores corajosos», Meridiano de Sangue), apenas um homem zeloso do seu destino de matador, não sofre da doença humana da compaixão. É isso mesmo que ele explica a Carla Jean: «Estás a pedir-me que me torne vulnerável, e isso é coisa que eu nunca poderei fazer. (...) A grande maioria das pessoas não acredita que possa existir alguém assim. Isso deve constituir para elas um grande problema (...). Como levar a melhor sobre uma coisa cuja existência nos recusamos a reconhecer. Compreendes? Assim que eu entrei na tua vida, a tua vida terminou. Teve um começo, um meio e um fim. O fim é agora. Dirás que as coisas podiam ter sido diferentes. Que podiam ter corrido de outra maneira. Mas o que é que isso significa? As coisas não correram de outra maneira. Correram desta. Estás a pedir-me que desminta o mundo. Percebes? Sim, disse ela, a soluçar. Percebo. A sério que percebo. Ainda bem, disse ele. Óptimo. Depois deu-lhe um tiro.»
E é sobre Chigurh que Bell, logo a abrir, fará a pergunta mais inquietante de todas: «O que é que se diz a um homem que é o primeiro a reconhecer que não tem alma?»
Daqui ninguém sai vivo? Bom, quase ninguém. Talvez Loretta, a mulher do xerife. Mas só porque não lia jornais.
24/11/07
O Prometido É Devido: Cormac McCarthy, «Este País não É para Velhos»
«That is no country for old men»: Cormac McCarthy foi buscar a Yeats o verso que dá título ao romance. Sylvia Plath também não estaria mal: «I talk to God but the sky is empty». Por aqui não há ninguém a quem o céu proteja.O catolicismo tem, que me ocorra de repente, duas coisas boas: os filmes de Martin Scorsese e os livros de Cormac McCarthy. É verdade que em Este País não É para Velhos o Ser Supremo pode ser uma desilusão. Mas até o xerife Bell, assaltado por visões de Satanás entre os homens, compreenderia Hemingway quando este um dia, inquirido sobre se acreditava em Deus, respondeu: «À noite, às vezes».
Quando escrevo, a versão cinematográfica deste romance já estreou nos EUA. Não por acaso, decerto, sob a batuta de Joel e Ethan Cohen, a dupla responsável pelo maior tratado moral alguma vez transposto para o ecrã: Miller's Crossing, em português, História de Gangsters. Porque McCarthy escreve livros morais. Com o adjectivo a encarnar o seu sentido mais nobre, aquele que percorre autores tão diversos como Defoe, Flaubert, Dostoievski, Conrad ou Melville. O cenário da acção é, como já o era em todos os títulos da Triologia da Fronteira, a América profunda que havia também fascinado Faulkner. Um caçador de antílopes a contas com o passado, Llewelyn Moss, encontra por acaso, ao lado de um monte de cadáveres, uma mala com dois milhões de dólares. Alguma coisa correu mal no que se percebe ter sido uma transacção de droga e o único sobrevivente é um mexicano moribundo que implora por água. Moss não tem como lhe matar a sede, mas tomará duas decisões morais que lhe irão determinar a vida (e a de outros) para sempre: rouba a mala dos dólares e volta ao lugar do crime para dessedentar o homem.
A partir deste fait-divers tantas vezes glosado, McCarthy produz um romance poderoso, um western moderno e metafísico que nos confronta, num registo slow motion que lembra Rulfo, com a condição humana no que ela tem de mais terrível. Porque, claro, Moss não se safará impunemente com a mala dos milhões: «(...) Ficou sentado a olhar para as notas, depois fechou a aba e continuou sentado de cabeça baixa. Tinha ali a sua vida inteira, pousada na sua frente. Dia após dia, do nascer ao pôr do Sol, até ao momento da sua morte. Tudo resumido a dezoito quilos de papel dentro de uma mala.»
Ao brilhantismo estilístico (e sobre isso escreve e bem o tradutor Paulo Faria em nota introdutória), acresce a construção romanesca. Este País não É para Velhos não começa sequer com o resumido fait-divers. A abrir, algumas reflexões proferidas na primeira pessoa pelo desencantado e velho xerife Bell, as quais irão pontuando o desenrolar da acção sem que em nada satisfaçam, esclareça-se já, a nossa necessidade de consolo: «Lembram-se do que eu disse no outro dia sobre os jornais. Na semana passada lá na Califórnia, apanharam um casal que alugava quartos a idosos e depois matava-os e enterrava-os no quintal. A seguir iam levantar os cheques das pensões de reforma. Mas primeiro torturavam-nos, não sei porquê. Se calhar tinham a televisão avariada».
É Bell quem sai em socorro de Moss e da mulher deste, alvos visados por Chigurh, um assassino a soldo dos patrões da droga que tem por missão recuperar o largo punhado de dólares. Desde sempre se percebe que o casal tem todos os motivos para não dormir descansado: «Estou-me aqui a preparar para fazer uma coisa completamente estúpida, mas mesmo assim vou seguir em frente. Se eu não voltar, diz à minha mãe que gosto imenso dela.
A tua mãe já morreu, Llewelyn.
Bom, então eu mesmo lhe digo.»
E a coisa estúpida é ir dar água a um moribundo.
Chigurh, que não é um sádico, ao contrário do juiz Holden desse outro livro de McCarthy para «leitores corajosos», Meridiano de Sangue, apenas um homem zeloso do seu destino de matador, não sofre da doença humana da compaixão. É isso mesmo que explica a Carla Jean:
«Estás a pedir-me que me torne vulnerável, e isso é coisa que eu nunca poderei fazer. (...) A grande maioria das pessoas não acredita que possa existir alguém assim. Isso deve constituir para elas um grande problema (...). Como levar a melhor sobre uma coisa cuja existência nos recusamos a reconhecer. Compreendes? Assim que eu entrei na tua vida, a tua vida terminou. Teve um começo, um meio e um fim. O fim é agora. Dirás que as coisas podiam ter sido diferentes. Que podiam ter corrido de outra maneira. Mas o que é que isso significa? As coisas não correram de outra maneira. Correram desta. Estás a pedir-me que desminta o mundo. Percebes?
Sim, disse ela, a soluçar. Percebo. A sério que percebo.
Ainda bem, disse ele. Óptimo. Depois deu-lhe um tiro.»
E é sobre Chigurh que Bell, logo a abrir, fará a pergunta mais inquietante de todas: «O que é que se diz a um homem que é o primeiro a reconhecer que não tem alma?» Daqui ninguém sai vivo? Bom, quase ninguém. Talvez Loretta, a mulher do xerife. Mas só porque não lia jornais.
21/11/07
Coisas que Realmente Importam: Cormac McCarthy
Estreou hoje nos EUA a adaptação para cinema, feita pelos irmãos Cohen, do romance do norte-americano Cormac McCarthy, No Country for Old Men. Publicado originalmente em 2005, acaba de sair na Relógio D'Água, com tradução de Paulo Faria e sob o título Este País não É para Velhos.Os Cohen — que têm no currículo coisas tão conseguidas como Blood Simple (e ainda me lembro de o ver afundada numa cadeira do velho Quarteto, estarrecida pela reviravolta de horror que chegava logo a seguir ao intervalo), Miller's Crossing (um filme capaz de sintetizar todos os grandes tratados de ética logo na cena de abertura), Fargo (a maior homenagem a uma personagem feminina a que já assisti no cinema), ou o delirante e mordaz The Big Lebowski — talvez sejam mesmo a escolha certa para passar ao grande ecrã este romance para «leitores corajosos» — uma expressão que Harold Bloom usou para Meridiano de Sangue (McCarthy, Relógio D'Água) mas que também aqui se aplica (embora Meridiano de Sangue requeira estômagos ainda mais sólidos do que Este País não É para Velhos) —, sobretudo agora que Huston já não está cá. Mas se quanto ao filme só posso especular, o livro é outra conversa. Voltarei a ele Sábado. Entretanto, deixo um pequeno excerto como aperitivo.
«Ele abanou a cabeça. Estás a pedir-me que me torne vulnerável, e isso é coisa que eu nunca poderei fazer. Só tenho uma maneira de viver, que não admite casos excepcionais. Uma moeda ao ar, no máximo. Sem grande utilidade neste caso. A maioria das pessoas não acredita que possa existir alguém assim. Isso deve constituir para elas um grande problema, como facilmente entenderás. Como levar a melhor sobre uma coisa cuja existência nos recusamos a reconhecer. Compreendes? Assim que eu entrei na tua vida, a tua vida terminou. Teve um começo, um meio e um fim. O fim é agora. Dirás que as coisas podiam ter sido diferentes. Que podiam ter corrido de outra maneira. Mas o que é que isso significa? As coisas não correram de outra maneira. Correram desta. Estás a pedir-me que desminta o mundo. Percebes?
Sim, disse ela, a soluçar. Percebo. A sério que percebo.
Ainda bem, disse ele. Óptimo. Depois deu-lhe um tiro.»
Foto: Marion Ettlinger, Cormac McCarthy, New York City, 1991
Subscrever:
Mensagens (Atom)
EM REDE
- 2 dedos de conversa
- A balada do café triste
- A causa foi modificada
- A cidade das mulheres
- A curva da estrada
- A dança da solidão
- A rendição da luz
- A revolta
- A terceira via
- A única real tradição viva
- Abrasivo
- Agricabaz
- Agua lisa
- Albergue espanhol
- Ali_se
- Amor e outros desastres
- Anabela Magalhães
- Anjo inútil
- Antologia do esquecimento
- Arrastão
- As escolhas do beijokense
- As folhas ardem
- Aspirina B
- ayapaexpress
- Azeite e Azia
- Bibliotecário de Babel
- Bidão vil
- Blogtailors
- Casario do ginjal
- Centurião
- Church of the flying spaghetti monster
- Ciberescritas
- Cidades escritas
- Cinco sentidos ou mais
- Claustrofobias
- Coisas de tia
- Complicadíssima teia
- Contradição Social
- Dazwischenland
- De olhos bem fechados
- Dias Felizes
- Do Portugal profundo
- Duelo ao Sol
- e-konoklasta
- e.r.g..d.t.o.r.k...
- Enrique Vila-Matas
- Escola lusitânia feminina
- Fragmentos de Apocalipse
- Governo Sombra
- Helena Barbas
- If Charlie Parker was a gunslinger
- Illuminatuslex
- Incursões
- Instante fatal
- Intriga internacional
- João Tordo
- Jugular
- Klepsydra
- Last Breath
- Ler
- Les vacances de Hegel
- Letteri café
- LInha de Sombra
- Mãe de dois
- Mais actual
- Malefícios da felicidade
- Manual de maus costumes
- Metafísica do esquecimento
- Mulher comestível
- Nascidos do Mar
- Non stick plans
- O Declínio da Escola
- O escafandro
- O funcionário cansado
- O jardim e a casa
- O perfil da casa o canto das cigarras
- Obviario
- Orgia literária
- Paperback cell
- Parece mal
- Pedro Pedro
- Porta Livros
- Pratinho de couratos
- Raposas a Sul
- Reporter à solta
- Rui tavares
- S/a pálpebra da página
- Se numa rua estreita um poema
- Segunda língua
- Sem-se-ver
- Sete vidas como os gatos
- Shakira Kurosawa
- Sorumbático
- Texto-al
- The catscats
- There's only 1 Alice
- Tola
- Trabalhos e dias
- Um dia... mais dias
- Um grande hotel
- We have kaos in the garden

