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20/06/13
04/06/12
02/05/12
25/04/12
Miguel Portas (1958 - 2012)
Conheci o Miguel Portas, teria 12, 13 anos, ele 14 ou 15. Era a primeira reunião
clandestina em que eu participava, apesar de a mesma decorrer a céu aberto, nas
traseiras da estação de comboios de São João do Estoril, num pequeno jardim hoje
cimentado e do qual sobrará talvez uma árvore ou duas. Tratava-se de uma
reunião do MAEESL (Movimento Associativo dos Estudantes do Ensino Secundário).
Tinha vindo gente de outras escolas (os putos dirigentes), e Miguel Portas era
um deles.
O debate foi acirrado, e o assunto, quase de Estado: abaixo-assinado ou greve. O Miguel, já então na UEC, defendia, naturalmente, a posição menos radical. Eu, que nasci com mau feitio, fiquei convencida com a greve. Devo ter dito, entretanto, qualquer coisa que lhe despertou a expectativa de um recrutamento em potência, razão que encontro para, no final da reunião, me ter perguntado se podia falar comigo à parte. Lembro-me de lhe ter respondido, do alto das minhas firmes e precoces convicções: “Podes, mas não julgues que me convences”.
Não me convenceu. Nunca estive próxima dos UECs; na realidade, não os gramava nem com molho de tomate. Dele gostava. Sempre achei que possuía algo que, mesmo situando-me eu à extrema-esquerda, nunca pensei que fosse dispensável: era civilizado e democrata. Não imagino como seria visto de mais perto, mas costumo ter olho e quase nunca me enganar nas primeiras impressões. No meio da muita histeria que tomávamos então por princípios inalienáveis, o Miguel discursava e não agredia, discordava e não insultava. Mais tarde, já crescidinhos, cruzei-me com ele algumas vezes. Sempre o achei igual. Bonito, cordato, bon vivant, voz arranhada e sorriso nervoso. Sei que morreu. A morte é uma grandessíssima filha da puta.
O debate foi acirrado, e o assunto, quase de Estado: abaixo-assinado ou greve. O Miguel, já então na UEC, defendia, naturalmente, a posição menos radical. Eu, que nasci com mau feitio, fiquei convencida com a greve. Devo ter dito, entretanto, qualquer coisa que lhe despertou a expectativa de um recrutamento em potência, razão que encontro para, no final da reunião, me ter perguntado se podia falar comigo à parte. Lembro-me de lhe ter respondido, do alto das minhas firmes e precoces convicções: “Podes, mas não julgues que me convences”.
Não me convenceu. Nunca estive próxima dos UECs; na realidade, não os gramava nem com molho de tomate. Dele gostava. Sempre achei que possuía algo que, mesmo situando-me eu à extrema-esquerda, nunca pensei que fosse dispensável: era civilizado e democrata. Não imagino como seria visto de mais perto, mas costumo ter olho e quase nunca me enganar nas primeiras impressões. No meio da muita histeria que tomávamos então por princípios inalienáveis, o Miguel discursava e não agredia, discordava e não insultava. Mais tarde, já crescidinhos, cruzei-me com ele algumas vezes. Sempre o achei igual. Bonito, cordato, bon vivant, voz arranhada e sorriso nervoso. Sei que morreu. A morte é uma grandessíssima filha da puta.
10/03/12
23/02/12
17/12/11
06/10/11
24/06/11
08/06/11
O mundo ficou outra vez mais pobre: Jorge Semprún (10 de dezembro de 1923 - 7 de Junho de 2011)
Foi resistente, comunista na clandestinidade, esteve preso no campo de concentração de Buchenwald, acabou sendo expulso do PC espanhol em 1964, foi ministro da cultura de Felipe González, escritor, argumentista e um defensor enorme da liberdade.Escreveu isto:
«Existe, com efeito, uma confusão antiga, amiúde fruto da ignorância, ou talvez de um pensamento equívoco ou malévolo, entre a deportação de inimigos do nazismo – alemães anti-hitlerianos, resistentes europeus – e o extermínio de judeus e ciganos. Os primeiros foram detidos e deportados pelos seus actos, quaisquer que fossem as suas origens sociais ou a sua religião. Os segundos são exterminados por serem o que são, mesmo que nunca tenham cometido um acto ou um mero gesto de oposição ao regime. A diferença, mesmo que o número de mortos resistentes fosse comparável ao dos judeus exterminados – e não o é, de forma alguma –, não é uma diferença quantitativa: é ontológica.»
04/02/11
30/05/10
Ademar Santos (1952-2010)
Não o conheci pessoalmente. Frequentava o seu blogue com assiduidade e troquei com ele meia dúzia de (simpáticos) e-mails. Soube que estava doente através de um post que o próprio publicou no Abnóxio.Ademar Santos, ateu convicto que não queria nada com deus, "esse chato que ressona" como dizia o O'Neill, escreveu com ironia que esperava ressuscitar. Soube aqui que não ressuscitou. Enviei-lhe na altura um comentário que nunca chegou a aparecer. Acho que lhe mandei um e-mail quando ele já não os podia ler. Recuso-me a ir confirmar.
Agora fica um morto à distância de um click. A morte é uma puta, como dizia o outro.
29/01/10
A perfect day for bananafish
Morreu J.D.Salinger (1-1-1919/28-1-2009), o escritor que de si próprio disse: "I am a kind of paranoid in reverse. I suspect people of plotting to make me happy."A propósito: "A Perfect Day for Bananafish", originalmente publicado em 1948 e incluído no seu livro Nine Stories (com tradução em português), é um dos contos mais perfeitos do mundo.
08/08/09
Raúl Solnado [19 de Outubro de 1929 - 8 de Agosto 2008]
Há mais ou menos uma década morava na mesma rua do Raúl Solnado. Costumava cruzar-me com ele num restaurante óptimo que lá havia. Penso que só lhe dirigi a palavra uma vez, quando ele disse qualquer coisa a propósito do PCP ter vindo elogiar a Amália na altura em que ela morreu. Achei que ele tinha razão.
Uma noite coincidimos no jantar. Já tarde, fiquei sem cigarros para a sobremesa. Da minha mesa eu via a mesa dele e, sobretudo, via o maço de tabaco pousado ao lado da travessa. Fumadora inveterada, não resisti. Fui lá e pedi-lhe um cigarro. Estendeu-me amavelmente o maço e eu agradeci. Voltei para o lugar e passei ao café. Já ia no segundo quando Solnado se levantou para sair. Ao passar junto a mim, levou a mão ao bolso, tirou três cigarros e deixou-os ficar.
Por vezes é preciso muito pouco para identificarmos uma 'alma melhor'.
13/06/09
Dói-me vagamente a cabeça: hoje não conseguirei dizer coisas inteligentes. Acho que foi das sardinhas
António Variações [3 de Janeiro de 1944/13 de Junho de 1984]
06/06/09
25/05/09
Um crente muito especial [João Bénard da Costa – 1935/2009]
Já amava – tanto e tanto – Nicholas Ray. Já tinha visto muitas vezes Johnny Guitar. Mas ainda não tinha visto Bitter Victory, com estreia mundial no Festival de Veneza de 1957, em Setembro, mas só apresentado em Portugal em Maio de 1958, no Éden, quando me veio parar às mãos o número 79 (Janeiro de 1958) dos Cahiers du Cinéma. Nesse número, saiu, por baixo de uma fotografia de Richard Burton (grande plano da cara, com o deserto em fundo e um par de botas ao lado), o texto que se chamou Au-delà des étoiles, «crítica» a Bitter Victory de Nicholas Ray, filme que, na mesma edição, Godard considerou o melhor de 1957.
«Havia o teatro (Griffith), a poesia (Murnau), a pintura (Rosselini), a dança (Eisenstein), a música (Renoir). Agora, há o cinema. E o cinema é Nicholas Ray.»
Lembro-me que li esses versos – talvez os que mais citei e recitei em vida minha – no dia em que fiz 23 anos. Tive de aguentar quase quatro meses até os poder confrontar com o modelo e até poder repetir, em conhecimento de causa, «não é cinema, é melhor do que o cinema». Depois – nestes quase quarenta anos decorridos – quantas vezes revi eu Bitter Victory, quantas vezes escrevi sobre ele? Não sei. Mas sei seguramente que é o filme de Nick Ray que melhor conheço (depois de Johnny Guitar), que é o filme de Nick Ray em que mais reflecti e sobre que mais escrevi (mais do que Johnny Guitar), e que é o filme de Nick Ray a que, subjectiva e subterraneamente, mais coisas me ligam.
Dele, apetecia-me poder dizer o que Truffaut disse de Johnny Guitar. «Este filme teve mais importância na minha vida do que na vida de Nicholas Ray.»
Mas sei demais para o poder dizer de coração ao pé da boca. Bitter Victory, primeiro filme de Ray longe de Hollywood (co-produção franco-alemã, rodada na Líbia com um fortíssimo investimento da Columbia), foi o filme com que Ray sonhou voltar a casa triunfante, para que não mais se repetissem azares como os que havia conhecido na sua obra precedente (The True Story of Jesse James). Em vez disso, só conheceu raivas e desesperos. Apesar dos ditirambos dos Cahiers, Bitter Victory foi um flop e o que se passou durante a rodagem contribuiu, mais do que todo o passado, para lhe arruinar uma reputação que, na América, já não era famosa. Gavin Lambert, um dos argumentistas, contou que, quando o reencontrou em Paris, no fim das filmagens, Ray vinha destruído. «Destroçado, traumatizado. Visivelmente, tudo tinha sido horrível. Estava num momento crucial da vida e o desastre acontecera. Os problemas com o álcool... Foi também quando começou a drogar-se muito. Se o filme tivesse corrido bem, toda a vida dele teria sido diferente.» Recordo que Nicholas Ray filmou Bitter Victory aos 45 anos.Mas foi Truffaut quem falou, a propósito de Nick Ray, dos «grandes filmes doentes». Essa marca da doença, como a da crise, a do malogro, são o cerne da grandeza da obra do homem que, neste mesmo filme, pôs na boca de Richard Burton o verso de Walt Whitman: «I always contradict myself.» E eu julgo que Bernard Eisenschitz viu bem quando, na monumental obra sobre Nick Ray Romain Américain: Les Vies de Nicholas Ray (publicado em 1990, onze anos depois da morte do realizador), escreveu que o que levou a esses extremos de subjectividade sobre ele foi exactamente o ponto extremo de subjectividade em que ele próprio se colocou. Por um lado, no cinema mais moderno, o retorno ao que havia de fundamental no estilo clássico: a autonomia interna do plano e o choque da sucessão deles, para, desta vez, citar Straub. Por outro, o que podia ser «mais do que cinema», ou seja, a relação que ele sempre viu entre este e o inconsciente e que o levou a dar à improvisação – no melhor e no pior – lugar enorme. «Em Hollywood, dizem-nos que tudo está no script. Mas se tudo está no script, porquê e para quê fazer o filme?» «Com Bitter Victory, começa a formular-se a aproximação ao cinema como meio de expressão total. Não sendo Eisenstein e ignorando tudo dos eruditos processos especulativos deste, Nick Ray só o pôde fazer arriscando tudo o que sabia, cedendo em certas passagens para avançar noutras, perdendo o controle. Bigger Than Life, o filme que teria podido ser Jesse James, Bitter Victory, Everglades são filmes de derrapagem, tanto na medida em que são filmes sobre personagens em derrapagem – paranóia, desejo de morte, histeria – como porque a construção deles segue esse mesmo movimento.» (Eisenschitz).
Reencontraram-se três anos mais tarde, em Bengazi. Jimmy Leith era, agora, capitão do exército inglês e tinham-lhe confiado perigisíssima missão, sob as ordens do major Brand (Curd Jurgens). Na mesma noite, num night-club da cidade, descobre que Jane casou com o major e é agora Mrs. Brand. Quando ficam sós, Leith, como Johnny Guitar, exprime ciúmes tardios e injustos. «Todos temos a memória curta, não temos?» «A guerra é tão dura como o amor.» Mas cala-se quando Jane lhe pergunta: «Jimmy, porque é que não ficaste?» ou quando ela lhe explica que casou com Brand porque «he stand», porque ele, ao contrário de Jimmy, não é homem para desistir ou fugir.
Passado esse prólogo, em que ficamos a saber do passado (um passado à Casablanca, só que foi o homem quem fugiu e não há flash-back), Brand, Leith e os seus homens partem para a missão. Brand porta-se sempre como cobarde. Leith é desmedidamente, romanticamente, herói. Como não estar do lado dele, do lado desse Richard Burton «terno guerreiro», novo demais na terra (embora ruínas do século X sejam demasiado modernas para ele), imponderavelmente belo e imponderavelmente comovente? Apesar dos comportamentos de malogro, como nessa noite no deserto («when or what») em que matou os vivos e salvou os mortos, como ele próprio diz. Do lado dele, não estive só eu e a generalidade dos espectadores. Todos os homens da companhia o amavam também, tanto quanto odiavam Brand, que nem sequer é capaz de assumir a antiga história entre a mulher e o subordinado e nem sequer é capaz de deixar claro que se vinga por ciúmes.
Até ao dia – sempre o deserto – em que Brand viu, distintamente, o escorpião que avançava na areia, em direcção à perna de Leith, adormecido. E não disse nada, nem fez nada. Picado pelo escorpião, Leith passou a ser um morto a prazo, e Brand um chefe cada vez mais desrespeitado e desprezado.
Por fim, Leith sucumbe. Deitado no chão, podre de gangrena, diz a Brand que, se ele não tem coragem para o matar, ao menos não o tente salvar. Depois, vem a tempestade de areia. E é durante ela que Leith brada o «I always contradict myself», quando cobre com o corpo agonizante o corpo do rival e assim lhe salva a vida, enquanto perde a dele.
Tudo do lado de Leith? Só muito mais tarde e muito mais velho, reparei melhor no assombroso diálogo entre os dois homens, antes da tempestade. Depois de ter chamado cobarde a Brand, Leith vai mais longe: «You’re not a man, but an empty uniform, standing by itself.» A câmara faz então uma leve panorâmica sobre o pesado corpo de Jurgens e este responde: «Yes. But I stand.» De novo, a câmara se volta para Burton, que olha o outro, espantado, e fica em silêncio algum tempo (só o vento, só o vento na banda sonora). Depois, muito devagar, em grande plano, filmado em plongée, Leith responde: «Yes... Yes... You stand... And, for the first time, I have some kind of respect for you. You’d better go.» Jurgens pergunta-lhe: «Anyone to notify?» «Mrs. Brand», responde, lentamente, Leith. «Diga-lhe que ela tinha toda a razão e eu não tinha nenhuma.» O vento volve-se em tempestade, Leith salva Brand e fica, no fim, o plano de Leith morto (o mais belo dos planos) com o vento nos cabelos.Quando os sobreviventes da missão regressam a Bengazi, Brand informa Jane da morte de Leith. Mas, quando ela lhe pergunta se ele, antes de morrer, disse alguma coisa, o marido mente e não transmite a mensagem. Ou seja, deliberadamente oculta o que lhe podia servir de reabilitação, recusando-se a que a sua imagem seja recuperada pela mensagem póstuma de Leith. Diante dos homens e diante da mulher, assume o lado vil. Retira a condecoração que lhe deram e pendura-a num manequim, o tal uniforme vazio. Quem assim se obscurece, ilumina-se, como se iluminou para Leith, quando, ao desejo de morte e de desastre deste, opôs o desejo de vida e de vitória seu. Demorei anos a perceber que «eu fico» pode ser a coisa maior que um homem ou uma mulher tem para dizer ou para dar. E que, apesar de todas as aparências, Brand é um personagem mais forte do que Leith.
Como Godard dizia: «O que é o amor, o medo, o desprezo, o perigo, a aventura, o desespero, a amargura, a vitória? Qual é a importância disso quando olhamos as estrelas?»Bitter Victory é um filme que nunca se substancia nem se substantiza. Tem o mais portentoso diálogo da história do cinema e as palavras não dizem nada. Tem a mais bela música de filme que alguma vez vi (Maurice Le Roux) e aquela música é um enigma. Tem a voz de Burton, o olhar de Burton, a beleza de Burton e talvez em coisas tão belas não esteja o essencial.
Não sei se é um filme para além das estrelas, como Godard dizia. Mas, nas noites e nos desertos cinemascópicos, a preto e branco, entre um homem que morre e um homem que fica, ambos perdidos no espaço sôfrego do grande formato, é um filme sobre qualquer coisa muito grande, situada muito longe. Foi ao vê-lo – é a vê-lo – que pude e posso perceber o que será esse de profundis donde clamamos para Ti.
Retirado daqui.
24/04/09
20/04/09
James Graham Ballard (15 Novembro 1930 – 19 Abril 2009)
"I would sum up my fear about the future in one word: boring. And that's my one fear: that everything has happened; nothing exciting or new or interesting is ever going to happen again... the future is just going to be a vast, conforming suburb of the soul", James Graham BallardFotofrafia: Eamonn McCabe
12/03/09
Minha Cabeça estremece com todo o esquecimento
Soube através de um post no 5 Dias que o João Mesquita tinha morrido. Não via o João Mesquita desde finais de Setembro, e antes disso estive muitos anos sem vê-lo. De vez em quando cruzava-me com alguém que tinha estado com ele, e eu invariavelmente rematava a conversa com um “gosto tanto do Mesquita!” Não me perguntem porquê.Para mim, o João Mesquita faz parte de um tempo antigo, anterior ao 25 de Abril, em que éramos ambos estudantes e estudantes do MAEESL e eu por vezes dormia na sonora de Ciências. Já então gostava dele. Continuei assim anos fora e acho que na verdade consigo explicar porquê.
Dão-me sempre vontade de rir as classificações de A ou B, porque vindo daqui ou de acolá, politicamente falando. É verdade que a extrema-esquerda, opinião e experiência minhas, possuía um superavit sobre a oposição do costume, que lhe viria provavelmente da sua juventude e daquilo a que então se chamava “falta de consciência de classe”. Mas mesmo na extrema-esquerda nem todos andavam ao mesmo (como se comprova pelos cargos de poder ocupados hoje por tantos…).
João Mesquita sempre me pareceu daqueles a quem o poder não dá cócegas. Seria por isso que gostava dele, enquanto com outros partilhava apenas a barricada sem lhes dedicar grande afecto, um conceito que na altura, aliás, não era para ali chamado.
Vai parecer estúpido, e é estúpido com certeza, mas o que recordo mais do João é o seu tique de esfregar o nariz e o bigode passeando depois a mão pelo franja do cabelo muito escuro e muito liso, um gesto que vá-se lá saber sempre associei a origens proletárias, até que muito mais tarde soube que era filho de juiz.
Também me lembro da voz – “Camaradas!” – a perna apoiada numa cadeira e o corpo magro inclinado para a frente, discursando em reuniões de que ninguém já se lembrará bem dos temas, para aí entre a preparação de uma greve e as lições do Enver Hodja.
Eu gostava do Mesquita. Teso. Teimoso. Secretamente apaixonado pela namorada do chefe, franzino no meio dos tipos do Passos Manuel que jogavam basketball e faziam uns três dele.
Depois foi jornalista, chegou a presidente do Sindicato e outras coisas importantes. Acabou por se incompatibilizar com o poder, como lhe estaria nos genes. Morreu hoje. Tinha um nome até pomposo: João Bernardo Bigotte da Costa de Mesquita. Para mim será sempre o João Mesquita do Passos.
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