Num Inverno parisiense muito frio e já distante – em que as temperaturas chegaram aos -20 e eu me recusava a sair de casa mal o termómetro à janela descia abaixo dos -10 – dei por mim à porta do Centro Pompidou.
No hall decorria uma exposição-vídeo (?) dos novos projectos para o bairro empresarial de La Défense. A zona onde decorria a projecção (gratuita) encontrava-se naturalmente às escuras e eu sentei-me por ali a ver as imagens da Paris século XXI (por sinal, bem mais engraçadas em maquette do que ao vivo – com excepção, acho eu, da esquadria perfeita entre o Arco de Triunfo e o Grande Arco de la Défense). Adiante.
Não me lembro de quanto tempo durou a coisa mas, às tantas, as luzes acenderam-se, permitindo-me ver quem comigo partilhava o visionamento.
À minha volta, dormitando ao lado de garrafas de vinho meio cheias (ou meio vazias) um grupo alargado de clochards, como na altura ainda se dizia – os nouveaux pauvres inventados só mais tarde.
Saí do Pompidou (eles ficaram lá…) a achar que a sua presença naquela Meca da Cultura, borrifando-se precisamente na Cultura e abrigando-se tão-só da inclemência da Natureza, marcava a diferença civilizacional entre Paris e Lisboa.
“Em Portugal, pensei com os meus botões bem abotoados por causa do frio, nem nos jardins da Gulbenkian entravam quanto mais no Grande Auditório”.
Hoje li que um homem passou por miserável e romeno (uma desgraça nunca vem só...) numa dependência bancária e foi atendido na rua.
É verdade que das últimas vezes que fui à Gulbenkian continuei a cruzar-me, maioritariamente, com um público enfatuado e chato. Muito chato. Mas que o homem expulso do Banco tenha decidido apresentar queixa já é uma evolução.
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20/12/12
05/03/10
04/03/10
03/03/10
15/01/09
Um monte de sarilhos: só falo do que sei
Abdullah tomou-me por compradora e quis-me vender uma obra. Eu disse que não tinha dinheiro. Ele baixou o preço... Depois um pouco mais... Um pouco mais ainda... E foi então que eu lhe contei que não era dali, que vinha de um país pobre e que era pobre. Abdullah tomou-me por pária, como ele, e comoveu-se.
Abdullah era da Côte d'Ivoire, e eu levei mais de uma semana a conseguir traduzir Côte d'Ivoire para Costa de Marfim porque na altura não sabia os nomes dos países em francês. Convidou-me para jantar. Que voltasse às 7, quando dava por encerrado o negócio. Eu respondi talvez e fui à minha vida. Enquanto andava na minha vida, pensava na proposta de Abdullah. Como era muito namoradeira, e tinha gostado muito d' O Fio da Navalha do Somerset Maugham, acabei por voltar a Montmartre, sem o que este post nunca teria existido.
Abdullah já empilhara as obras quando cheguei e olhou para mim (como suponho José Policarpo olharia para a nossa senhora de fátima se esta lhe aparecesse...), duvidando da minha corporalidade. Após tantos convites em vão, la voilà! Acho que foi isso que Abdullah pensou.
Para abreviar razões e este post, eu e Abdullah tornámo-nos namorados. Comíamos galinha picante com sumo de pacote (vinho, jamé!), ele mostrava-me fotografias da Côte d'Ivoire (lindíssimas!), falava-me da família que tinha deixado para trás, do seu sonho de ser pintor à Paris... e telefonava-me dez vezes por dia. Tanto telefonema acabou por atafegar-me, principalmente por causa daquela parte em que ele insistia em saber onde é que eu estivera durante o telefonema anterior que ninguém tinha atendido. Ao pesadelo de Bell juntou-se o do dernier métro: sempre que após um dia passado juntos eu queria ir para casa, Abdullah argumentava com o absurdo dos perigos subterrâneos; mas um homem que tem como namorada uma passante ocasional, que aceita jantar com ele sem o conhecer de lado algum, também deveria saber que não vai ser uma viagem de metro, mesmo tardia, a conseguir retê-la chez soi... Finalmente, Abdullah desatou a querer casar e levar-me à Côte d'Ivoire, onde me apresentaria ao pai, à mãe, à avó, aos irmãos e irmãs, aos tios e aos primos... As famílias demasiado alargadas dão-me claustrofobia e aquilo começou-me a assustar, muito mais do que o último metro que, de facto, por vezes não era seguro. Resumindo: eu estava-me a meter num «monte de sarilhos».
Poupo-vos ao desenlace, para acrescentar apenas que nunca mais vi o Abdullah nem fui à Costa do Marfim. E que dessa parte tenho pena.
Abdullah já empilhara as obras quando cheguei e olhou para mim (como suponho José Policarpo olharia para a nossa senhora de fátima se esta lhe aparecesse...), duvidando da minha corporalidade. Após tantos convites em vão, la voilà! Acho que foi isso que Abdullah pensou.
Para abreviar razões e este post, eu e Abdullah tornámo-nos namorados. Comíamos galinha picante com sumo de pacote (vinho, jamé!), ele mostrava-me fotografias da Côte d'Ivoire (lindíssimas!), falava-me da família que tinha deixado para trás, do seu sonho de ser pintor à Paris... e telefonava-me dez vezes por dia. Tanto telefonema acabou por atafegar-me, principalmente por causa daquela parte em que ele insistia em saber onde é que eu estivera durante o telefonema anterior que ninguém tinha atendido. Ao pesadelo de Bell juntou-se o do dernier métro: sempre que após um dia passado juntos eu queria ir para casa, Abdullah argumentava com o absurdo dos perigos subterrâneos; mas um homem que tem como namorada uma passante ocasional, que aceita jantar com ele sem o conhecer de lado algum, também deveria saber que não vai ser uma viagem de metro, mesmo tardia, a conseguir retê-la chez soi... Finalmente, Abdullah desatou a querer casar e levar-me à Côte d'Ivoire, onde me apresentaria ao pai, à mãe, à avó, aos irmãos e irmãs, aos tios e aos primos... As famílias demasiado alargadas dão-me claustrofobia e aquilo começou-me a assustar, muito mais do que o último metro que, de facto, por vezes não era seguro. Resumindo: eu estava-me a meter num «monte de sarilhos».
Poupo-vos ao desenlace, para acrescentar apenas que nunca mais vi o Abdullah nem fui à Costa do Marfim. E que dessa parte tenho pena.
28/11/07
De Maio de 68 a Novembro 07 ― Sinais do Progresso (Post Modificado e, Espera-se, Melhorado)
Paris, Novembro 2007
«Dissemos que o objecto do Espírito não é se não ele próprio. Nada há de mais elevado do que o Espírito, nada seria mais digno de se tornar no seu próprio objecto. O Espírito não encontra paz, não pode ocupar-se de mais nada antes de se conhecer e saber o que é (...) O Espírito deve, pois, chegar ao saber do que é verdadeiramente e objectivar esse saber, transformá-lo num mundo real e produzir-se a si próprio objectivamente. É esse o fito da história universal. (...) O Espírito não é um ser natural, como o animal que é aquilo que é imediatamente. O Espírito produz-se a si próprio, faz-se a si próprio o que é. O seu ser não é existência em repouso, mas actividade pura: o seu ser é ter sido produzido por si, ter-se tornado por si, ter-se feito por si. Para existir verdadeiramente é necessário que tenha sido criado por si: o seu ser é o processo absoluto. Esse processo, mediação de si próprio consigo próprio e por si próprio (e não por um outro) implica que o Espírito se diferencie em Momentos distintos, se entregue ao movimento e à mudança e se deixe determinar de diversas maneiras. Esse processo é também, essencialmente, um processo gradual, e a história universal é a manifestação do processo divino, da marcha gradual através da qual o Espírito conhece e realiza a sua verdade. Tudo o que é histórico é uma etapa desse conhecimento de si. O dever supremo, a essência do Espírito, é conhecer-se e realizar-se. É o que ele leva a cabo na história: produz-se sob certas formas determinadas, e essas formas são os povos históricos. Cada um desses povos exprime uma etapa, designa uma época da história universal. Mais profundamente: esses povos encarnam os princípios que o Espírito encontrou em si e que deve realizar no mundo. Existe, pois, entre eles uma conexão necessária que não exprime se não a natureza mesma do Espírito. A história universal é a manifestação do processo divino absoluto do Espírito nas suas mais elevadas formas: marcha gradual pela qual ele alcança a sua própria verdade e toma consciência de si. Os povos históricos, as características determinadas da sua ética colectiva, da sua constituição, da sua arte, da sua religião, da sua ciência, constituem as figurações desta marcha gradual.»
«Dissemos que o objecto do Espírito não é se não ele próprio. Nada há de mais elevado do que o Espírito, nada seria mais digno de se tornar no seu próprio objecto. O Espírito não encontra paz, não pode ocupar-se de mais nada antes de se conhecer e saber o que é (...) O Espírito deve, pois, chegar ao saber do que é verdadeiramente e objectivar esse saber, transformá-lo num mundo real e produzir-se a si próprio objectivamente. É esse o fito da história universal. (...) O Espírito não é um ser natural, como o animal que é aquilo que é imediatamente. O Espírito produz-se a si próprio, faz-se a si próprio o que é. O seu ser não é existência em repouso, mas actividade pura: o seu ser é ter sido produzido por si, ter-se tornado por si, ter-se feito por si. Para existir verdadeiramente é necessário que tenha sido criado por si: o seu ser é o processo absoluto. Esse processo, mediação de si próprio consigo próprio e por si próprio (e não por um outro) implica que o Espírito se diferencie em Momentos distintos, se entregue ao movimento e à mudança e se deixe determinar de diversas maneiras. Esse processo é também, essencialmente, um processo gradual, e a história universal é a manifestação do processo divino, da marcha gradual através da qual o Espírito conhece e realiza a sua verdade. Tudo o que é histórico é uma etapa desse conhecimento de si. O dever supremo, a essência do Espírito, é conhecer-se e realizar-se. É o que ele leva a cabo na história: produz-se sob certas formas determinadas, e essas formas são os povos históricos. Cada um desses povos exprime uma etapa, designa uma época da história universal. Mais profundamente: esses povos encarnam os princípios que o Espírito encontrou em si e que deve realizar no mundo. Existe, pois, entre eles uma conexão necessária que não exprime se não a natureza mesma do Espírito. A história universal é a manifestação do processo divino absoluto do Espírito nas suas mais elevadas formas: marcha gradual pela qual ele alcança a sua própria verdade e toma consciência de si. Os povos históricos, as características determinadas da sua ética colectiva, da sua constituição, da sua arte, da sua religião, da sua ciência, constituem as figurações desta marcha gradual.»E estava eu a encontrar consolo nestas palavras de Hegel, escritas em A Razão na História, quando o poeta Borges me saltou ao caminho no meio dos escombros da periferia parisiense e filosofou do alto da sua cegueira: «A metafísica é um ramo da literatura fantástica». Porra!
18/07/07
Viva a silly season! Viva Paris!
Tante Marie tinha uma relação problemática com os parisienses. Vivia numa pequena quinta em Cognac (sim, exactamente aí onde se destila a excelência francesa do mesmo nome), rodeada de galinhas, patos e coelhos, orgulhosa das suas couves e das suas cenouras. No quintal, lembro-me, havia uma árvore que dava dióspiros.A partir de Novembro a lareira estava sempre acesa na sala de entrada da casa, e Tante Marie aproveitava o lume para nos preparar deliciosas galletes à maneira bretã, que exigia que comêssemos indiferente aos nossos protestos contra o presumível acréscimo de matéria adiposa, que ela assegurava ser uma garantia contra a descida das temperaturas.
Em Cognac raramente nevava, mas, ainda assim, fazia muito frio. A atmosfera tornava-se não mais do que rústica, como se terá percebido, e nesses meses invernosos as nossas almas elevavam-se na melancolia dos entardeceres prematuros degustando patés e queijos e tartes e Bordeaux, tudo de primeiríssima qualidade.
Por vezes, quando se encontrava na horta debruçada sobre os vegetais, examinando-os com o rigor que se imagina Madame Curie poria nas suas anotações científicas, o barulho de um carro mais veloz interrompia a revista às cenouras e às couves e Tante Marie exclamava em tom reprovador: Ah! voilà les parisiens!
Até poderiam não o ser, já que para esta mulher pequena e de aspecto frágil, capaz, todavia, de despachar numa só tarde dez ou mais coelhos de um golpe certeiro, parisien era, tão-só, sinónimo de citadino. E, sobre estes, tinha ideias tão definitivas como o gesto com que aviava os desafortunados albinos: pobres Bouvard e Pécuchet passeando-se pelos campos nomeando em voz alta os legumes: «Olha, cenouras! Ah, couves!», trocando sempre as referências.
Para Tante Marie, essa era a prova provada da idiotice urbana. Estivera em Paris apenas uma vez. Logo após o casamento, já Hitler estiraçava os seus tentáculos pela Europa fora. Nessa altura, o mercado Les Halles não se convertera ainda no gigantesco centro comercial que o tempo haveria de provar não ter sido uma grande ideia, o pitoresco Marais não suspeitava sequer do seu futuro gay-chic nem a rive gauche da explosão do Maio de 68. La Defense, claro, não existia, e nem nos sonhos mais megalómanos de François Mitterand lhe passaria pela cabeça vir a ser o arquitecto de La Grande Arche, sem dúvida o melhor de La Defense, esquadria perfeita com o Arc-de-Triomphe que, esse sim, Tante Marie pôde visitar, garantindo, no entanto, a quem a quisesse ouvir, que era bem mais bonito visto de longe.
Quanto à Torre Eiffel, apesar de se ter recusado a subir os 1 665 degraus que a teriam levado ao topo das suas 10 100 toneladas (contas feitas, 324 metros, incluída a antena), Tante Marie ainda agora recordava como se sentira esmagada vertigem daquele monstro de ferro.
De regresso a Cognac, comprada uma imagem da Notre Dame que os anos e o chauffage haveriam de amarelecer, pouco tempo depois os alemães fariam a sua entrada triunfal na Cidade das Luzes, para se retirarem cumprido o banho de sangue que não pouparia Tante Marie à morte de um sobrinho, alguns vizinhos e conhecidos. Nunca perdoou aos boches, a quem odiava ainda mais do que aos parisien, e isso é já dizer tudo.
Mas nem os nazis ousaram reeditar a demência de Nero, o incendiador de Roma. Apesar da carnificina, Paris nunca chegou a arder.
De regresso a Cognac, comprada uma imagem da Notre Dame que os anos e o chauffage haveriam de amarelecer, pouco tempo depois os alemães fariam a sua entrada triunfal na Cidade das Luzes, para se retirarem cumprido o banho de sangue que não pouparia Tante Marie à morte de um sobrinho, alguns vizinhos e conhecidos. Nunca perdoou aos boches, a quem odiava ainda mais do que aos parisien, e isso é já dizer tudo.
Mas nem os nazis ousaram reeditar a demência de Nero, o incendiador de Roma. Apesar da carnificina, Paris nunca chegou a arder.
Sabendo-se, pois, que Tante Marie nunca mais lá voltou, podemos – no momento em que me passeio, tantas décadas decorridas, pela gigantesca Feira da Ladra que são os Puces de Clignancourt, em busca de um blusão de cabedal à Major Alvega – situá-la sem grande risco à la campagne, qual alquimista submersa em grandes panelas de ferro mexendo compotas que tardam a chegar ao ponto.
Estávamos no Outono e eu desesperava no meio de uma multidão mestiça por encontrar o «meu» blusão. O amigo que me acompanhava desesperava ainda mais do que eu.
Foi então que avistei uma tenda de chapéus. Milhares de chapéus. Chapéus de todas as formas e feitios, usáveis e menos usáveis, de colecção, de teatro, masculinos e ultrafemininos, de Verão e de Inverno, em bom ou mau estado... enfim, uma tenda-paraíso para apreciadores dos ditos. É o meu caso. Eu adoro chapéus, ainda que reconheça que é difícil usá-los.
A mulher atrás do improvisado balcão aproximou-se de mim naquele jeito nonchalance que só as temíveis consièrges parisienses parecem não praticar. Explico-lhe que vim à procura de um blusão de cabedal e que não posso agora trocá-lo por um objecto tão inversamente delicado como um chapéu. A resposta saiu-lhe pronta: Ah, mais justement, ça serait très féminin!
A incoerência convence-me. Regresso de Clignancourt com um chapéu negro de amazona de véu comprido a flutuar ao vento....
Nessa noite, ao entrar no Le Mazet, bar que então frequentávamos no Quartier Latin (mesmo ao lado do Le Procope, o café mais antigo de Paris, eleito de Rousseau e Voltaire, só para não ir mais longe), e onde nos deliciávamos com balões aquecidos de Cognac que nos provocavam arroubos de nostalgia à lembrança de Tante Marie, o dono precipita-se do balcão e dirige-se-me de braços abertos: Mademoiselle, vous êtes ravissante!
Em que outra cidade do mundo nos acolheriam desta forma, só por trazermos na cabeça um despropositado chapéu visivelmente encombrant?
Estávamos no Outono e eu desesperava no meio de uma multidão mestiça por encontrar o «meu» blusão. O amigo que me acompanhava desesperava ainda mais do que eu.
Foi então que avistei uma tenda de chapéus. Milhares de chapéus. Chapéus de todas as formas e feitios, usáveis e menos usáveis, de colecção, de teatro, masculinos e ultrafemininos, de Verão e de Inverno, em bom ou mau estado... enfim, uma tenda-paraíso para apreciadores dos ditos. É o meu caso. Eu adoro chapéus, ainda que reconheça que é difícil usá-los.
A mulher atrás do improvisado balcão aproximou-se de mim naquele jeito nonchalance que só as temíveis consièrges parisienses parecem não praticar. Explico-lhe que vim à procura de um blusão de cabedal e que não posso agora trocá-lo por um objecto tão inversamente delicado como um chapéu. A resposta saiu-lhe pronta: Ah, mais justement, ça serait très féminin!
A incoerência convence-me. Regresso de Clignancourt com um chapéu negro de amazona de véu comprido a flutuar ao vento....
Nessa noite, ao entrar no Le Mazet, bar que então frequentávamos no Quartier Latin (mesmo ao lado do Le Procope, o café mais antigo de Paris, eleito de Rousseau e Voltaire, só para não ir mais longe), e onde nos deliciávamos com balões aquecidos de Cognac que nos provocavam arroubos de nostalgia à lembrança de Tante Marie, o dono precipita-se do balcão e dirige-se-me de braços abertos: Mademoiselle, vous êtes ravissante!
Em que outra cidade do mundo nos acolheriam desta forma, só por trazermos na cabeça um despropositado chapéu visivelmente encombrant?
E outra pergunta. Poderá o Canal Saint-Martin, anacronismo perfeito de uma cidade frenética, precipitar uma declaração de amor?
Foi precisamente aí, numa das suas margens, que Flaubert marcou o encontro decisivo entre os dois manga-de-alpaca (Tiens: des carottes! Ah! Des choux!), aquele que os levaria depois à comunhão suspirosa de quão bem estariam no campo!
Quanto a nós, há já alguns parágrafos que abandonámos Tante Marie, rendidos à beleza desta cidade que guarda, para além dos imensos boulevards rasgados por Haussmann, recantos como este, onde o tempo se submete ao ritmo lentíssimo do escoar das águas pelas comportas abertas, fazendo-nos recuar a essa tarde novecentista em que Bouvard e Pécuchet iniciam o mais maravilhoso de todos os livros inacabados.
Paris. Decididamente burguesa. Ostentatória. Por vezes arrogante e demasiado formal. Cidade onde até o garçon de café se crê herói da Comuna, isto sem demérito para os garçons nem excessiva admiração por aquela, que, como se sabe, fez bastante mais vítimas para além de Antonieta, rainha que terá subido ao cadafalso na que hoje se chama Place de la Concorde sem perceber sequer o que lhe acontecia. Cidade onde já foi o tempo em que «as coisas não acontecem de todo se não acontecem em Paris». Mas caramba! Mesmo enterrada a boémia que caracterizou durante anos esta capital, quem não se comover com o we always have Paris! que mande este texto às urtigas.
Foi precisamente aí, numa das suas margens, que Flaubert marcou o encontro decisivo entre os dois manga-de-alpaca (Tiens: des carottes! Ah! Des choux!), aquele que os levaria depois à comunhão suspirosa de quão bem estariam no campo!
Quanto a nós, há já alguns parágrafos que abandonámos Tante Marie, rendidos à beleza desta cidade que guarda, para além dos imensos boulevards rasgados por Haussmann, recantos como este, onde o tempo se submete ao ritmo lentíssimo do escoar das águas pelas comportas abertas, fazendo-nos recuar a essa tarde novecentista em que Bouvard e Pécuchet iniciam o mais maravilhoso de todos os livros inacabados.
Paris. Decididamente burguesa. Ostentatória. Por vezes arrogante e demasiado formal. Cidade onde até o garçon de café se crê herói da Comuna, isto sem demérito para os garçons nem excessiva admiração por aquela, que, como se sabe, fez bastante mais vítimas para além de Antonieta, rainha que terá subido ao cadafalso na que hoje se chama Place de la Concorde sem perceber sequer o que lhe acontecia. Cidade onde já foi o tempo em que «as coisas não acontecem de todo se não acontecem em Paris». Mas caramba! Mesmo enterrada a boémia que caracterizou durante anos esta capital, quem não se comover com o we always have Paris! que mande este texto às urtigas.
Porque eu só queria contar isto: era uma tarde de Primavera num jardim de que esqueci o nome. Dois namorados aproximam-se e, o tempo de acender o meu Bastos legère sans filtre (um marca entretanto desaparecida), sentam-se no banco em frente ao meu. Lia um livro (não, não era Proust), e quando voltei a página já eles se confundiam, beijando-se, abraçando-se e escorregando irremediavelmente para a posição horizontal, cegos aos olhares que, diga-se em abono da verdade do que agora escrevo, se mostravam bastante complacentes para com a efusividade primaveril do jovem casal.
Foi então que fez a sua aparição o clochard, encarnação perfeita de Michel Simon em Boudu Sauvé des Eaux.
Isto passa-se, portanto, no tempo em que ainda existiam Bastos legère sans filtre e vagabundos por conta própria. O homem dirige-se para os corpos confundidos. Toca nas costas do rapaz. Não há resposta. Toca de novo. Nada. Abana-o já com algum vigor quando um rosto ruborizado e de cabelos desgrenhados se destaca no meio da confusão de braços e pernas.
Oui? Tens um cigarro? O rapaz está levantado e revista os bolsos enquanto a namorada compõe a blusa. Não tinhas deixado de fumar?, diz-lhe ela. Ah! Mais oui, mais oui, responde-lhe ele às voltas com as mãos inúteis. O clochard encolhe os ombros e segue. Passa por mim. Eu estou ainda a fumar. Tu as vu les amoureux?, confidencia-me en passant. Não repara sequer que lhe estendo o maço.
Foi então que fez a sua aparição o clochard, encarnação perfeita de Michel Simon em Boudu Sauvé des Eaux.
Isto passa-se, portanto, no tempo em que ainda existiam Bastos legère sans filtre e vagabundos por conta própria. O homem dirige-se para os corpos confundidos. Toca nas costas do rapaz. Não há resposta. Toca de novo. Nada. Abana-o já com algum vigor quando um rosto ruborizado e de cabelos desgrenhados se destaca no meio da confusão de braços e pernas.
Oui? Tens um cigarro? O rapaz está levantado e revista os bolsos enquanto a namorada compõe a blusa. Não tinhas deixado de fumar?, diz-lhe ela. Ah! Mais oui, mais oui, responde-lhe ele às voltas com as mãos inúteis. O clochard encolhe os ombros e segue. Passa por mim. Eu estou ainda a fumar. Tu as vu les amoureux?, confidencia-me en passant. Não repara sequer que lhe estendo o maço.
Paris, uma punhalada no coração, escreveu Jack Kerouac que era um viajante solitário e nunca conheceu Tante Marie.
FOTO: Robert Doisneau
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