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10/06/09

A book a day keeps the doctor away

Confissão prévia: há muito tempo que um romance não me surpreendia tanto!
Confissão prévia que é também confissão de ignorância: Mohamed Leftah era ― até As Meninas da Numídia me ter chegado às mãos ― um perfeito desconhecido para mim. Neste caso, terei talvez desculpa: Mohamed Leftah era um perfeito desconhecido para a maioria dos leitores. Deixou de sê-lo quando o português Joaquim Vital, editor há muito radicado em França e responsável pela La Différence, o descobriu já no século XXI.
O escritor marroquino de expressão francesa (1946-2008) havia publicado um livro em 1992, Demoiselles de Numidie, e depois fora o silêncio. Vital tropeça no nome dele no Dicionário de Escritores Marroquinos assinado por Salim Jay. Com a ajuda de Jay, acabará por ir encontrá-lo no Cairo, com sete ou oito romances prontos a serem publicados. E foi o que fez.
As Meninas da Numídia é, pois, o seu romance inaugural e, mesmo que não tivesse escrito mais nada, só por este merecia lugar de destaque. Original e inclassificável, o texto recria o ambiente de um bordel de Casablanca onde as putas têm nome de flores e os chulos sodomizam louros escandinavos. A linguagem é simultaneamente poética e crua, e Leftah consegue ainda a proeza de, a uma só voz, escrever um hino às mulheres e à literatura.
Convoca-se Borges para este submundo de sífilis e violência e o leitor aceita-o com naturalidade, rendido à inteligência poética do autor; invoca-se Camus, a poesia pré-islâmica ou as sagas vikings, o mênstruo das mulheres, fufas e paneleiros, drogas e sexo "depravado" ― ainda assim o cocktail, explosivo, mantém um sabor inexplicavelmente sublime. O leitor passa do sórdido ao compassivo, levado pelo encantamento da escrita de Leftah, como se assistisse ao fluir de um rio que corre obrigatoriamente para a foz.
Moralismos e sociologias à parte, salvas ou perdidas as personagens pela palavra:

ENUCLEAÇÃO SÁDICA
CARNIFICINA NUM BAR DE MÁ FAMA
UM HUMILDE APOSENTO TRANSFORMADO EM MATADOURO
Assim falaram os jornais da tarde acerca de Rosa e de Almíscar da Noite, de Spartacus e de Zapata. Mas antes que esses jornais indecentes e conspícuos pousem nos vossos corpos despedaçados, nas vossas almas abandonadas, terei força para vos cantar ainda, ó chulos inocentemente cruéis do meu país, e a vós, esplêndidas raparigas-flores da Numídia, à sombra ardente das quais eu escrevo.
Belíssimo. E que este, sendo o primeiro, não seja o último dos romances de Mohamed Leftah traduzido para português.

As Meninas da Numídia, Mohamed Leftah, 2009, Quetzal