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24/03/23

MEDITAÇÃO DE SEXTA: «TUDO EM TODO O LADO AO MESMO TEMPO»

 «... Veja-se o caso de Maria do Céu Antunes. Face à carestia galopante, e após remeter há dias para data incerta a entrada em funcionamento de um Observatório de Preços anunciado em Outubro de 2022, vem-se a saber que o tal Observatório anunciado em 2022 e cuja entrada em funcionamento se viu remetida para data incerta, afinal, já existia desde 2015!

Confused? You won’t be, after this week’s episode.

E qual foi o episódio da semana? Pois o anúncio da criação de um selo. Um selo, uma etiqueta, um carimbo, uma chancela… E é ver a inflação a fugir do selo, como Jerry de Tom ou vice-versa.

Ao contrário, porém, da canção de Noel Rosa: “Mas que mulher indigesta, indigesta /Merece um tijolo na testa…”, o selo, não o tijolo, não nos será colado à testa, mas nos produtos e embalagens, servindo de garantia de um “preço justo”, certificado de que “ninguém tem prejuízo e que foram criadas condições de sustentabilidade de toda a cadeia alimentar”. Nas palavras da ministra, “acreditamos que, com isto, o consumidor, quando for ao supermercado comprar os seus produtos, pode escolher com a convicção de que não deixou ninguém para trás”.

E isto sou eu agora a imaginar um consumidor que, soterrado entre etiquetas de produtos do dia, marcas brancas, produtos em promoção, folhetos, vales e descontos em cartão, mais o selo anunciado agora pela ministra, corre o risco real de deixar mesmo alguém para trás, por exemplo, uma criança. (...)»

17/03/23

MEDITAÇÃO DE SEXTA: «Olhar os lírios no campo»

« ... A esperança no controlo dos preços aumentou – mais do que a água na barragem que se mantém praticamente nua – quando ouvimos Maria do Céu Antunes, a responsável pelas hortaliças, anunciar um Observatório de Preços.

Há quem observe pássaros, como bem notou o poeta Manuel António Pina, e cito:

“A poesia vai acabar, os poetas / vão ser colocados em lugares mais úteis. / Por exemplo, observadores de pássaros / (enquanto os pássaros não / acabarem). Esta certeza tive-as hoje ao / entrar numa repartição pública (…)”

mas como é sabido Manuel António Pina está morto e Maria do Céu Antunes está viva e, sobretudo, é ministra, não poeta (ou poetisa, subentenda-se…). Assim, um observatório de preços assenta-lhe muito melhor.

Uma única coisa preocupa alguns dos habitantes do monte. Embora tenha sido anunciado em Maio de 2022 e formalizado por decreto governamental em Outubro do mesmo ano, a entrada em funcionamento do Observatório não tem data marcada: “num futuro próximo”, disse a ministra. 

Ora, compreendendo que um observatório de preços não é coisa que se construa assim do pé para a mão – até a construção de um abrigo para birdwatching tem a sua ciência –, alguns, já de idade avançada, temem que o “futuro próximo” lhes fique curto, e outros, embora mais novos, interrogam-se se será antes ou depois do final da guerra. (...)»

10/07/22

MARIA DO CÉU ANTUNES: EMBIRRAÇÕES DE QUE MUITO ME ORGULHO

Leio que aquela senhora que previu um aumento das exportações de couves-portuguesas para a China por via da epidemia de Covid 19 está, e cito, «debaixo de fogo». 

O ministério da Agricultura a que preside contesta a revolta escrevendo: «O dia não terminou ainda e o Ministério da Agricultura e da Alimentação não está em falta em relação ao afirmado anteriormente», num comunicado datado de 8 de Julho referente a pagamentos aos agricultores que deveriam ter sido feitos até dia 4.

Congratulo-me que este nosso prodígio ministerial esteja, como disse, «debaixo de fogo», só não percebo porque tiveram que esperar que abrisse a época de incêndios. 

01/07/22

A MEDITAÇÃO DE SEXTA: «Always Look on the Bright Side of Life (mas está difícil)»

«... A coisa vem de trás. Se o ex-futebolista Paulo Futre falava com contagiante optimismo dos charters de chineses que iam vir, foi preciso a Rússia invadir a Ucrânia para Ursula von der Leyen o conseguir igualar no discurso esperançoso, ao anunciar-nos que um planeta mais verde nos espreita na esquina da guerra. Putin está a empurrar a Europa para a energia renovável, limpa, a ajudar a Europa a livrar-se dos combustíveis fósseis russos, disse a presidente da Comissão Europeia numa entrevista à jornalista norte-americana Mika Brzezinski, transmitida a 23 de Maio pelo canal de televisão MSNBC. Se o raciocínio não é mais sofisticado do que o da nossa ministra da Agricultura, que vislumbrou na Covid-19 uma oportunidade para a couve-portuguesa invadir o mercado chinês, parece, no entanto, mais próximo do estilo querençoso de Marta Temido quando ao ser perguntada, no Programa de Cristina, sobre o seu papel na pandemia, respondeu, o olhar celestial: “Lembro-me muito daquele filme A Vida É Bela, em que o pai tentava sempre proteger o filho num campo de concentração e contar-lhe histórias, animá-lo, para o proteger daquele ambiente negativo. Eu acho que é isso que nós temos de fazer uns aos outros.” E que me perdoe o leitor se insisto em reproduzir tais declarações, mas há frases que nos ficam para a vida. (...)»

03/06/22

MEDITAÇÃO DE SEXTA: «De Quem Gosta Mais, do Papá ou da Mamã?»

«... Para quem, ao contrário de José Saramago, não faça uma leitura literal das peripécias romanescas relatadas no chamado Velho Testamento torna-se evidente que, por muito boa que se mostre uma criação humana, onde há criação humana há sempre asneira associada (daí que os Antigos, visivelmente mais sagazes do que nós, tenham inventado o conceito de pecado original). Assim, o uso das redes sociais tanto dá para ajudar os curdos de Kobane a não serem dizimados ante a cumplicidade de Erdogan (e vamos ver se não estará a Nato disposta a trocá-los por um prato de pãezinhos de canela…), como para queimar personalidades na fogueira opinativa dos utilizadores das ditas.

Considerando que assim é a realidade dos humanos — o bem e o mal de mãos dadas —, teremos talvez de ser mais tolerantes com Ursula von der Leyen quando ela nos quer fazer acreditar que a guerra iniciada por Putin acabará por tornar o planeta mais verde, embora eu deva admitir que desde que a nossa ministra da Agricultura, Maria do Céu Antunes, teve o azar de prever, na anterior legislatura, que a epidemia de Covid 19 iria permitir a Portugal exportar mais hortaliças para a China, a minha confiança no optimismo deixou de ser o que era. (...)»