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19/10/22

ELNAZ REKABI OU DA CORAGEM SEM ALARDE

Iraniana, participou de cabelos descobertos nos campeonatos de escalada asiáticos. O alarido espalhou-se pelo mundo, alguns temendo pelo que a esperaria no regresso à pátria. 

Já veio dizer que não foi intencional e que o hijab lhe caiu. Mostrar os cabelos terá sido um acidente, o que, seja o que for que tenha realmente acontecido, me lembrou um episódio passado com o descansado meu pai. 

Ex-preso político com direito a vista privilegiada para o mar revolto de Peniche, contou-me ele, anos passados do 25 de Abril, que um dia se cruzou com três Pides conhecidos que tomavam a bica ao balcão do café perto da nossa casa.

"E o pai, o que fez?", perguntei eu, jovem. 

E o meu pai: "O que fiz? Tomei a minha bica e vim-me embora sem pagar. Estou velho. Eles eram três. O que querias tu que fizesse?"




16/11/10

A minha tia raquel e os estados de alma do ministro

A minha tia Raquel tinha achaques. No tempo quente não saía de casa, no tempo frio também não. Nas estações intermédias, que as havia, melhorava. Ainda assim, pelo menos uma vez por semana era certo e sabido que a iríamos encontrar, ora suspirando melancolicamente pelos cantos, ora guinchando esdruxulamente com a vizinhança. Os estados de alma da minha tia era incompreensíveis.
Podia agora continuar a falar-vos da minha tia Raquel, mas como ela própria me diria "não maces as pessoas e vem para dentro".
Já o Amado é outro assunto. Disse o próprio, a propósito das suas declarações ao Expresso este fim-de-semana, que aquelas não passaram de "desabafos sobre estados de alma".
Confesso que não li a entrevista. Contaram-me que a dada altura Amado apelava a um governo de salvação nacional ou coisa parecida. Vou deixar de lado o que eu acho sobre isto não ter salvação possível que ninguém me perguntou. Mas "os estados de alma" ficaram-me atravessados.
Então aqui há uns tempos, após recusar-se a votar num pirómano de livros para director da Unesco, Carrilho não foi acusado precisamente do mesmo, acabando, aliás, et pour cause!, por ser corrido do cargo? (Com o hiato temporal diplomaticamente adequado...)
Ou seja, quer dizer, um simples diplomata não pode ter um achaque em privado mas já o ministro pode desabafar em público e não lhe acontece nada?! Nem sequer o convidam para o lugar do Sócrates?
[também publicado aqui]