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29/07/22

MEDITAÇÃO DE SEXTA: «COMO É DIFÍCIL PENSAR QUANDO TUDO ARDE»

Se, por um lado, bem nos podiam convidar para ir recuperar Olivença aos espanhóis, ‘tá quieto!, por outro toleramos sem pestanejar que o mesmo indivíduo, de nome Mário Ferreira, a quem foram atribuídos 52% dos apoios do Plano de Recuperação e Resiliência à recapitalização de empresas – 40 dos 77 milhões de euros disponíveis –, entretanto constituído arguido numa operação que investiga crimes de fraude fiscal qualificada e branqueamento, tenha já confirmada uma viagem ao espaço no foguetão do Jeff Bezos comprada decerto com desconto. Nem à bazuca! como no vídeo dos Marretas onde Miss Piggy canta Never on Sunday



Imaginemos estes homens em guerra. Difícil. Tão ou mais difícil do que está a ser para nós lidar com esta. E a lide é à distância.
Ah! Se o homem das cavernas tivesse sabido rir… (...)»

07/01/09

Matei 4 de uma vez, salvo seja

Escreveu Carlos Drummond de Andrade no «Poema das Sete Faces»: Quando nasci, um anjo torto/ desses que vivem na sombra/ disse: Vai, Carlos! Ser gauche na vida. O poeta foi um destro com alma de canhoto, Machado de Assis era esquerdino de nascença. Mas onde os dois se harmonizarão melhor é nestes versos mais à frente: Mundo mundo vasto mundo/ se eu me chamasse Raimundo/ seria uma rima, não seria uma solução. Porque o «bruxo da Rua do Cosme Velho», como lhe chamou Drummond noutro poema, de soluções sabia pouco: envolvendo o cepticismo na capa do humor, a ironia machadiana tudo contagia; a intriga, as personagens, a linguagem e a própria arquitectura romanesca.
Disponíveis em dois volumes editados pela Relógio d'Água, Memórias póstumas de Brás Cubas e Quincas Borba juntam-se a Dom Casmurro e Esaú e Jacó, permitindo-nos (re)ler um escritor cuja comicidade estruturante o torna irresistível para quem se interesse pelas coisas (universais) da literatura. Citando o estudioso da sua obra, Abel Barros Baptista: Daí que [o cómico], nos livros de Machado, seja antes do mais uma peripécia de composição: o capítulo que acaba de repente ou nem chega a começar, o capítulo vazio ou sem propósito legível, o (…) que integra a sequência do passo que a interrompe. Brás Cubas dizia de um dos [deles]: «Mas este capítulo não é sério». Acrescente-se: nada aqui é sério. Como já nada era sério em Henry Fielding (Tom Jones) ou em Laurence Sterne (Tristram Shandy), se quisermos entrar numa de reclamar genealogias.
Brás Cubas disserta do Além: Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adoptar diferente método: a primeira é que não sou propriamente um autor defunto, mas um defunto autor (…); a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo.
Quincas Borba retoma personagem homónima das Memórias… e a sua filosofia, o Humanitismo (resumida na frase: Ao vencido, ódio ou compaixão; ao vencedor, as batatas), prosseguida agora por Rubião (finado Quincas no romance póstumo), herdeiro rejeitado por Sofia que acaba louco, na miséria e morto.
Dom Casmurro, o seu texto mais célebre, e que traz dentro a célebre e enigmática Capitu, merecia também mais mas fique-se pelo título: Uma noite destas (…) encontrei no trem (…) um rapaz aqui do bairro, que eu conheço de vista e de chapéu. Cumprimentou-me, sentou-se ao pé de mim, falou da Lua e dos ministros, e acabou recitando-me versos. A viagem era curta, e os versos pode ser que não fossem inteiramente maus. Sucedeu, porém, que Bento Santiago cabeceou e o poeta levou-lhe a mal o gesto: ficou Dom Casmurro. Tudo isto vem logo no início, com o capítulo II a abrir assim: Agora que expliquei o título, passo a escrever o livro. E mais moderno é impossível… Ou talvez não.
Esaú e Jacó é um tratado de complexidade narrativa, pretexto das mais enviesadas hermenêuticas. Psicanálise, política, teoria literária, tudo já foi invocado a propósito deste texto (perdido e achado entre os papéis do Conselheiro Aires) centrado na rivalidade dos gémeos Pedro e Paulo e narrado não se sabe bem por quem.
E aproveite-se o Aires para passarmos a Eça que também teve o seu Acácio, além de um desaguisado com o mestre brasileiro precisamente por causa d' O Primo Basílio. Mas nada disso terá assim tanta importância. Parafraseando o bruxo do Cosme Velho: «Estão mortos: podemos elogiá-los à vontade».
[Fotografia de woman reading on top of ladder roubada daqui]

20/11/08

Dois poemas com sexo e escusam de se pôr com ideias

Poema de sete faces
Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás das mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meus Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.

Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.
Carlos Drummond de Andrade


Com Licença Poética
Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado para mulher,
essa espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
- dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição para homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.
Adélia Prado

29/06/07

C'est la vie

João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava
Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.

João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou pra tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.

Quadrilha, Carlos Drummond de Andrade