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20/05/12

Leave the kids alone

A semana passada fiquei a saber três coisas que gostaria de partilhar com o leitor, se este não levar a mal.
A primeira (a ordem é aleatória, são todas péssimas…) é que existe um pediatra indignado por ter falhado nas farmácias um dos medicamentos prescritos para crianças que sofrem do chamado Distúrbio de Deficit de Atenção.
A falta de tal medicamento, cuja substância activa é o metilfenidato, um psicoestimulante que actua sobre o sistema nervoso central, “pode levar crianças a chumbar”. Desta vez nem o eduquês nem o ministro eram chamados à colação. A matéria ficava ao nível da ‘Lucy in the sky with diamonds’, mas, dizem, sem riscos de maior. E para menores.
Nas palavras do pediatra indignado, “As crianças querem estudar e não conseguem. Sem estudo e concentração não conseguem boas notas. Estão a ser empurradas para o insucesso escolar e até para a reprovação".
Ainda mal refeita do choque (I beg your pardon, o que é mesmo que andam a dar aos putos para eles terem boas notas?!), fiquei a saber, também através dos jornais, que numa escola do 1º ciclo de Portimão os recreios passaram a ser patrulhados por alunos e professores no âmbito do projecto PSP (Patrulha de Segurança do Pontal).
As equipas, constituídas por dois alunos por turma, terão que registar os colegas indisciplinados, cujos nomes serão depois exibidos em lugar público e bem visível. Com o cérebro ainda a oscilar entre os “queixinhas” do meu tempo e a Revolução Cultural Chinesa com os seus rituais de humilhação públicos, levo com a terceira notícia. Um livro sobre a crise em duas versões, uma para “miúdos de esquerda” e outra para “miúdos de direita”!
Como diria o Eliot, foi mesmo “very much reality” numa semana.

16/05/11

Evolução

Na Roma antiga, o Coliseu lá do sítio organizava espectáculos que, por vezes, se mantinham em cartaz mais de um trimestre. Os seus actores costumavam durar bastante menos.

Um programa típico organizava-se assim: de manhã, combate entre animais exóticos, de bom porte e quanto mais ferozes melhor; a hora do almoço era reservada à execução de prisioneiros; à tarde chegavam os gladiadores que lutavam entre si até um deles ficar sem cabeça. Tudo cenas para homens de barba rija, mesmo se as mulheres também podiam assistir, embora, a partir de determinada altura, em zonas reservadas apenas ao sexo fraco. Os espectáculos no Coliseu terminaram em 523, por serem considerados bárbaros, mas, durante séculos, a “caça às bruxas e aos hereges” (com as suas fogueiras a céu aberto) continuaria a animar as turbas sedentas de recreação.

O advento da televisão veio alterar tudo isto. A violência passou a ser servida a frio a qualquer momento do dia (com incidência ao jantar), editada por profissionais e mediada pela passagem do tempo: o morto do ecrã não é morto – ali – na hora. E este intervalo tornou-se, entre outras coisas, num elemento facilitador das digestões de quem assiste às notícias enquanto trinca.

Guerras mais recentes (Golfo, Iraque, etc.) optaram por um estilo mais gráfico, gerando imagens que mais pareciam saídas de um jogo de computador com muito poucos cadáveres, chamados agora “danos colaterais”. Estávamos neste ponto, quando as gravações por telemóvel voltaram a alterar tudo outra vez. É o massacre na escola registado por uma vizinha, é o óbito de um ditador difundido em pormenor, é a bebedeira de um estilista a servir de justa causa para o seu despedimento.

“O meio é a mensagem”, abreviou McLuhan nos idos de 60. Seja qual for o meio, uma questão me encanita: quanta violência conseguirá um humano visualizar sem que se lhe fechem as pálpebras e dispare o neurónio da compaixão? E é aqui que entra Elliot: “Vai, vai, vai, disse a ave: o género humano/ Não pode suportar muita realidade”.

26/10/07

De como a Realidade da Poesia É bem Melhor do que a da Engenharia - o Progresso III

Outros ecos
Habitam o jardim. Vamos segui-los?
Depressa, disse a ave, procura-os, procura-os,
Na volta do caminho. Através do primeiro portão,
No nosso primeiro mundo, seguiremos
O chamariz do tordo? No nosso primeiro mundo.
Ali estavam eles, dignos, invisiveis,
Movendo-se sem pressão, sobre as folhas mortas,
No calor do outono, através do ar vibrante,
E a ave chamou, em resposta à
Música não ouvida dissimulada nos arbustos,
E o olhar oculto cruzou o espaço, pois as rosas
Tinham o ar de flores que são olhadas.
Ali estavam como nossos convidados, recebidos e recebendo.
Assim nos movemos com eles, em cerimonioso cortejo,
Ao longo da alameda deserta, no círculo de buxo,
Para espreitar o lago vazio.
Lago seco, cimento seco, contornos castanhos,
E o lago encheu-se com água feita de luz do sol,
E os lótus elevaram-se, devagar, devagar,
A superfície cintilava no coração da luz,
E eles estavam atrás de nós, reflectidos no lago.
Depois uma nuvem passou, e o lago ficou vazio.
Vai, disse a ave, pois as folhas estavam cheias de crianças,
Escondendo-se excitadamente.. contendo o riso.
Vai, vai, vai, disse a ave: o género humano
Não pode suportar muita realidade.
O tempo passado e o tempo futuro
O que podia ter sido e o que foi
Tendem para um só fim, que é sempre presente.
T.S. Elliot, Quatro Quartetos, Ática, 1983
Imagem: René Magritte, O Falso Espelho, 1928