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16/08/24

MEDITAÇÃO DE SEXTA: «Os livros são para se comer»

«(...) A mulher que nunca largará a cor do luto viajou menos do que a mulher de olhos muito azuis. Na realidade, nunca viajou. Com uma história igualmente, se não mesmo mais difícil – mãe espanhola que cruzou o rio em fuga da Guerra Civil e marido contrabandista que cruzaria o rio em sentido contrário enfrentando tanto a Guarda Fiscal como a Guardia Civil – é a prova de que a causalidade é conceito demasiado infecundo, sobretudo quando aplicado ao comportamento humano. Sempre positiva, apesar da vida de trabalho e pobreza, sempre gentil, apesar da dureza que lhe calhou em sorte, contrasta com familiar de sangue e destino comum a quem um simples “Bom dia!” poderá acarretar como resposta: “Bom dia só se for para si!”

10/05/24

MEDITAÇÃO DE SEXTA: «Longe do mundo*»

(...) Lembrei-me depois de Camilo Castelo Branco e da sua copiosa produção literária, que a vida custa a todos (ou, pelo menos, à maioria).

24/11/23

MEDITAÇÃO DE SEXTA: «Está tudo na literatura!»

« (...) O livro ["O Curral das Bestas"], creio que lamentavelmente esgotado, não revolucionou a literatura britânica, não é de todo comparável à "Divina Comédia" de Dante embora o inferno espreite nas entrelinhas, nem sequer acabaria eleito como o melhor do ano pelos responsáveis do Booker Prize. Garante tão-só umas valentes gargalhadas, apesar do negrume macabro que se vai adensando à medida que a leitura avança.

05/01/23

NÂO SE PODE IR JANTAR ARROZ DE LINGUEIRÃO QUE CAI LOGO UM MEMBRO DO GOVERNO

Leio que a segunda titular de um calote ao Fisco se demitiu passadas 25 horas de ter sido nomeada para secretária de Estado do ministério a que preside a ministra das Couves.

Dois comentários.
1. A senhora diz que não tem «condições políticas e pessoais para iniciar funções no cargo». E agora repare-se que só passou a não ter condições para o cargo que aceitou depois do calote vir a público. Antes disso, nem se lembraria do nome do marido!
2. A ministra das Couves fez saber que a demissão foi «prontamente aceite». Leio «prontamente aceite», lembro-me d' «As Farpas» de Eça e Ramalho e escangalho-me a rir.
A propósito: o arroz de lingueirão fui eu que o fiz e estava de estalo!

23/11/22

DOGMA LITERÁRIO OU DO ESTADO DA ARTE

«Everyone has a book inside them, which is exactly where it should, I think, in most cases, remain.», Christopher Hitchens

06/10/22

DE EÇA DE QUEIRÓS A URSULA VON DER LEYEN OU VICE-VERSA: E AINDA DIZEM QUE A LITERATURA NÃO SERVE PARA NADA

Em entrevista, a nossa Ursula repete que vamos no futuro ficar mais verdes e no presente que, se regularmos os valores do ar condicionado em dois graus, estamos safos (desta vez não referiu aquela coisa de trocarmos de electrodomésticos...). 

Com a proximidade do Inverno, tempera no entanto o optimismo. O título da entrevista é elucidativo: 

«UE pode enfrentar “situação difícil” no abastecimento de energia no Inverno»

Estava então a ler a nossa querida líder, quando me lembrei do Eça: C'est très grave!  C'est excessivement gravePartilho de «Os Maias»

«Chegara ao fim da rua do Alecrim quando viu o conde de Steinbroken que se dirigia ao Aterro, a pé, seguido da sua vitória a passo. Era a segunda vez que o diplomata fazia exercício depois do seu desgraçado ataque de entranhas. Mas não tinha já vestígios da doença: vinha todo rosado e loiro, muito sólido na sua sobrecasaca, e com uma bela rosa de chá na botoeira. Declarou mesmo a Carlos que estava «mais forrte». E não lamentava os sofrimentos, porque eles lhe tinham dado o meio de apreciar as simpatias que gozava em Lisboa.
Estava enternecido. Sobretudo o cuidado de S. M.  o augusto cuidado de S. M.  fizera-lhe melhor que «todos os drogues de boutique»! Realmente nunca as relações entre esses dois países, tão estreitamente aliados, Portugal e Finlândia, tinham sido «màs firmes, pur assi dizerre màs intimes, que durrante seu ataque de intestinais»!

Depois, travando do braço a Carlos, aludiu comovido ao oferecimento de Afonso da Maia, que pusera à sua disposição Sta. Olávia, para ele se restabelecer nesses ares fortes e limpos do Douro. Oh esse convite tocara-o au plus profond de son coeur. Mas, infelizmente, Sta. Olávia era longe, tão longe!... Tinha de se contentar com Sintra, de onde podia vir todas as semanas, uma, duas vezes, vigiar a Legação. C'était enuyeux, mais... A Europa estava num desses momentos de crise, em que homens de estado, diplomatas, não podiam afastar-se, gozar as menores férias. Precisavam estar ali, na brecha, observando, informando...

 C'est très grave, murmurou ele, parando, com um pavor vago no olhar azulado... C'est excessivement grave! (...)»

16/09/22

MEDITAÇÃO DE SEXTA: «A MORTE SAIU À RUA»

«... Eram os loucos anos 80. Sobretudo nas cidades, a juventude, isenta agora de ir para África combater os turras e gritar Angola é Nossa, dava finalmente ares de modernidade (ou de pós-modernidade) — amortecido o apelo dos comícios e da Reforma Agrária — e recuperava o tempo perdido da geração anterior.

O clima era culturalmente festivo e as noites não lhe ficavam atrás (quase se poderia colá-las ao título da francesa Raphaele Billetdoux editado pela saudosa Cotovia: As Minhas Noites são mais Belas que os Vossos Dias). E para se entender melhor o abismo que separa o ambiente, o tom, a alegria dessa época da anterior, registe-se a data de publicação de dois dos nossos romances maiores: O Delfim de José Cardoso Pires, 1968; O que Diz Molero de Dinis Machado, 1977. (...)

Estreou então entre nós o filme A Cidade Branca. Era 1983, na capital, no Bairro Alto, ainda havia jornais e putas, e foi com dificuldade que convenci um amigo brasileiro a ir ao cinema ver a fita do suíço. O meu amigo não podia com helvéticos. Odiava chocolate suíço, relógios de cuco, a banca suíça, os Alpes suíços, o queijo Gruyère e, claro, todo e qualquer artista suíço (talvez pudesse apreciar Robert Walser, mas porque Walser era louco). (...)»

14/09/22

ARTURO PÉREZ REVERTE: UMA ENTREVISTA PARA TODOS OS ENTEDIADOS QUE DISPARAM MÍSSEIS DOS SOFÁS E ATÉ ACHAM QUE OS UCRANIANOS TRATAM MELHOR OS CÃES DO QUE OS RUSSOS AS PESSOAS

E reafirmo: não haverá nada mais repugnante do que os Vivas à Guerra! Talvez apenas o abuso sexual de crianças.
«... E eu vi a guerra civil. Cobri várias guerras civis como repórter e é sempre o mesmo. A condição humana vem à superfície no bom e no mau. Solidariedade, bondade, camaradagem, compaixão, bem como mesquinhez, maldade e crueldade. Assim, uma guerra civil é um lugar onde é muito difícil traçar linhas entre o bem e o mal, porque é tudo muito confuso. O problema em Espanha agora é que há pessoas que não conheceram a guerra, que não a viveram e estão a fazer um discurso absolutamente pernicioso sobre a Guerra Civil, como se houvesse realmente um lado bom onde não houvesse culpa e um lado mau onde não houvesse virtude. E isto é até perigoso. É por isso que este romance visa equilibrar as coisas. Ou seja, de ambos os lados houve heroísmo e crueldade, maldade e coisas admiráveis. Isso é porque os seres humanos são assim.

30/08/22

DA LITERATURA QUE SE ENSINA NO SECUNDÁRIO: E PERANTE TANTO DISPARATE UM PEDIDO DE ESCLARECIMENTO À AUTORA DO REFERIDO

Os Lusíadas do Camões é colonialista;

Os Maias do Eça é racista;

A Mensagem do Pessoa é qualquer coisa que não percebi muito bem, talvez a súmula dos dois.

Despachado o assunto, pergunta Joana Fonte, a autora do descabelado resumo: «Não deve este programa [de português do Secundário] estar revestido por obras que representam os valores actuais da nossa sociedade?»

Acho muito bem que revistam o programa por obras. E por achar muito bem que revistam o programa por obras, perguntaria à Joana: Quais são os valores actuais da nossa sociedade e que obras recomenda que representem os valores actuais da sociedade? 

E se alguém já lhe fez a pergunta, as minhas desculpas. 


06/08/22

NÃO PERCEBO, NEM QUERO PERCEBER, DE TÁCTICAS MILITARES MAS É-ME IMPOSSÍVEL NÃO ACHAR ESTRANHO QUE OS RUSSOS SE BOMBARDEIEM A SI PRÓPRIOS

Aprende-se muito com a literatura. Por exemplo, com Elizabeth Finch de Julian Barnes onde um dos capítulos é dedicado a Juliano, o Apóstata, o último imperador pagão de Roma que mandou queimar a sua própria frota para não a deixar como oferta ao inimigo.

Vem isto a propósito de os russos terem, segundo os ucranianos, bombardeado a maior central nuclear da Europa que eles próprios ocupam. 

«Estou extremamente preocupado com os bombardeamentos de ontem [sexta-feira] da maior central nuclear da Europa, o que sublinha o risco muito real de uma catástrofe nuclear que ameaça a saúde pública e o ambiente, na Ucrânia e não só", advertiu Grossi numa declaração divulgada em Viena, considerando que se “está a brincar com o fogo".

Moscovo e Kiev acusaram-se hoje mutuamente de comprometerem a segurança da central nuclear de Zaporiyia, a maior da Europa.

Grossi recordou que, segundo as autoridades ucranianas, não houve danos nos reactores nem emissão de radiações, mas houve danos em outras partes da central.

O chefe da agência das Nações Unidas para a energia nuclear considerou "completamente inaceitável" a colocação da central em perigo e argumentou que visá-la militarmente é "brincar com o fogo", podendo ter "consequências potencialmente catastróficas".

"Apelo veemente e urgentemente a todas as partes para que exerçam a máxima contenção nas proximidades desta importante instalação nuclear com seis reactores", escreveu.

Grossi voltou a oferecer a disponibilidade da AIEA para realizar uma missão de verificação no local e "evitar que a situação fique ainda mais fora de controlo".

O diretor da AIEA expressou em Junho a sua vontade de visitar a central controlada pela Rússia, mas a Ucrânia criticou veementemente esses planos, alegando que a viagem do funcionário argentino da ONU poderia ser entendida como uma legitimação da ocupação russa. (...)

O Presidente ucraniano, Volodymir Zelensky, acusou a Rússia através de uma mensagem de vídeo de "voltar a criar uma situação extremamente perigosa para toda a Europa”: “bombardearam a central nuclear de Zaporiyia duas vezes".

Moscovo, que controla esta instalação praticamente desde os primeiros dias da sua campanha militar na Ucrânia, contestou as declarações, classificando, pelo seu lado, Kiev de ser promotora do "terrorismo nuclear". (...)»

04/07/22

ESQUEÇAM A UCRÂNIA OU O PACÍFICO: A PRÓXIMA GUERRA MUNDIAL SERÁ POR CAUSA DA LUA (se for NA lua talvez seja menos mau)

A notícia é de hoje e é da Reuters. Lendo-a, não posso deixar de confirmar que isto anda a acelerar mais do que o nosso José Sócrates alguma vez poderá ter imaginado.

«China on Monday rejected as an irresponsible smear a warning from the chief of NASA that China might "take over" the moon as part of a military programme, saying it has always called for the building of a community of nations in outer space.
China has stepped up the pace of its space programme in the past decade, with exploration of the moon a focus. China made its first lunar uncrewed landing in 2013 and expects to launch rockets powerful enough to send astronauts to the moon towards the end of this decade.
"We must be very concerned that China is landing on the moon and saying: 'It's ours now and you stay out'," NASA Administrator Bill Nelson told German newspaper Bild in an interview published on Saturday.
The U.S. space agency chief said China's space programme was a military one and that China had stolen ideas and technology from others.
"This is not the first time that the head of the U.S. National Aeronautics and Space Administration has ignored the facts and spoken irresponsibly about China," said Zhao Lijian, a spokesman at the Chinese foreign ministry.
"The U.S. side has constantly constructed a smear campaign against China's normal and reasonable outer space endeavours, and China firmly opposes such irresponsible remarks."
China has always promoted the building of a shared future for humanity in outer space and opposed its weaponisation and any arms race in space, he said.
NASA, under its Artemis programme, plans to send a crewed mission to orbit the moon in 2024 and make a crewed landing near the lunar south pole by 2025.
China is planning uncrewed missions to the moon's south pole some time this decade.»
Vou reler o «Marcianos, go home»


29/06/22

ESTÁ TUDO A CORRER TÃO BEM: «Grã-Bretanha pode parar de fornecer gás à Europa continental se a crise do gás russo se intensificar»

 A notícia vem no Financial Times e no Guardian.

Pessoalmente, aconselho antes a leitura do «Cândido ou o Optimismo» de Voltaire. 

ALICE, LIZ, O MESMO COMBATE OU DA UTILIDADE DA LITERATURA EM TEMPO DE GUERRA

Estava a ler as declarações de Liz Truss, a ministra dos Negócios Estrangeiros britânica, sobre negociações de paz  «We have to defeat Russia first»  e aquilo soava-me familiar. Depois lembrei-me.

Era a Rainha de Copas da Alice do Lewis Carroll: «Sentença primeiro! Veredicto depois!»

Como sempre digo, está tudo na literatura. 



17/06/22

GUERRA NA UCRÂNIA: E DESPERTARAM TODOS DE REPENTE PARA A VIDA?

Qualquer pessoa com três dedos de testa  sem ser preciso ter lido "A Arte da Guerra" de Sun Tzu, mas preferencialmente tendo lido Tolstoi e alguns clássicos da Antiguidade (e volto a citar essa maravilha chamada "A Retirada dos Dez Mil" de Xenofonte, livro que, além de divertido, até está traduzido entre nós pelo Aquilino Ribeiro...)  percebe que quando se enfrenta um inimigo poderoso, além de tudo o mais convém ser inteligente e matreiro. Já agora, de passagem, acrescento que reduzi-lo à condição de louco psicopata é meio caminho andado para o desastre — o discernimento do inimigo, por muito que nos custe, é para ser levado a sério.  

O recente ping-pong entre a Rússia e a União Europeia a propósito de fornecimento energético (com a ameaça de suspensão das importações  anunciadas aos sete ventos e com prazos e tudo...  a ser, naturalmente, antecipada por Putin que tem mais a quem vender e, dada a subida dos preços, ainda ganha mais com isso do que antes das sanções...) mostra bem até que ponto o lado ocidental anda a apanhar papéis. 

Ao contrário dos que gritam Às armas! Às armas!,  não me cheira nada que seja possível "humilhar" militarmente a Rússia, dando aqui razão a Macron que anda, também ele, num virote. Ignorante de matérias ligadas a tanques, bazucas e similares, mas mesmo dando de barato que os ucranianos recebam todas as armas do mundo (e estão a recebê-las à borla?, pergunto...), que futuro se imagina para a Europa com um país como a Rússia excluído e exorcizado? Ou estamos à espera que Putin morra do tal cancro anunciado e que venha de lá uma democracia instanânea tipo farinha Amparo?

A alternativa seria uma guerra global, também com a China, fora o resto que não é pouco. 

Ou seja, a sensação com que se fica é que os países com regimes (mais) democráticos andaram este tempo todo a dormir tranquilamente com os inimigos, um dia acordaram de repente e desataram à estalada a torto e a direito. Tal despertar não tem nada de inteligente, matreiro muito menos, e eficaz então nem se fala. Ainda acordamos, não com os inimigos na cama, mas com os inimigos a ocuparem a casa, incluindo a cozinha e o quintal. 

Mas, claro, eu sou só uma senhora que, não percebendo nada de tácticas militares, se limitou a ler o Tolstoi, o Xenofonte e, já agora, a rir à gargalhada na cama com o soldado Švejk.

Dir-se-á. Mas a razão está do nosso lado. Meus amigos, se a razão bastasse para vencer na História, os índios viveriam lá no paraíso deles e não em Reservas encharcados em álcool.