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11/12/11

“Não é desgraça ser pobre”

O enunciado vem no Luís de Camões. Portugal daria novos mundos ao mundo, vaticinava Júpiter n’ Os Lusíadas, e o facto é que aconteceu.
A última vez que tal coisa vimos foi quando da criação do Allgarve, golpe d’asa do ex-ministro Manuel Pinho, profeta inovador, além de temerário.
Se digo temerário, não o faço para proveito próprio ou estilístico, antes porque recordo “o esforço e valentia” com que enfrentou a maldição de Garrett que tantos lhe imprecaram (aquando da demolição da casa do escritor no bairro de Campo de Ourique, entretanto adquirida pelo ministro).
E recorde-se: nem mesmo quando os mais arreigados maldizentes, “por manha e falsidade”, o ameaçam com o fantasma da “menina dos rouxinóis” Joaninha de seu nome, versão da Murta Queixosa antes de haver Harry Potter Manuel Pinho se acobarda. A nova casa está lá, para mostrar e provar a fibra de que é feita a gesta lusitana.
Não vive o seu melhor momento a gesta lusitana apesar de a entrada do fado no Património Oral e Imaterial da Humanidade, batendo, por exemplo, o kung fu de Shaolin, embora, precisamente por ser imaterial, tal distinção não pareça vir resolver grande coisa.
Como, porém, é sabido, nem só de pão vive o homem, ou, em francês: “S’ils n’ont pas de pain, qu’ils mangent de la brioche”, não sendo também de mau tom citar Mário Cesariny: “(...)/Que afinal o que importa não é haver gente com fome/ porque assim como assim ainda há muita gente que come/(...)”.
Segundo o recente relatório da OCDE, Divided We Stand: Why Inequality Keeps Rising, ainda haverá por aí muita gente que come mas o fosso entre os ricos e os pobres atingiu o nível mundial mais elevado das últimas três décadas.
E como o relatório não inclui dados deste ano annus horribilis que dará lugar daqui a pouco a outro annus horribilis (oxalá me enganasse!) nem sei o que diga mais. Talvez a solução esteja no crowding out ou, então, é ao contrário: a culpa é do crowding out.
Vá-se lá entender os místicos!

28/01/09

Estaline varria a malta do retrato depois de lhes limpar o sarampo, o PS só muda textos online: graças a deus vivemos em democracia

OU (título alternativo): ninguém tem culpa da família onde nasce, mas alguém devia ter lavado a boca com sabão a Sócrates em pequenino
OU (título alternativo ao alternativo): como eu abomino trafulhas!

Não há alternativa a Sócrates... e nunca uma frase foi tão insistentemente repetida.
Dizia o pragmático Goebbels que «uma mentira repetida muitas vezes transforma-se numa verdade». Mas, de facto, quem para substituir José Sócrates?
Enquanto a pergunta continua à procura da resposta, a política (a dele e a dos outros) vai-se afundando na sua própria trampa, com a ajuda de uma crise que não pára de empurrar gente para o abismo.
De um lado, uma oposição metida até ao colarinhos (brancos) em negócios obscuros; do outro, um alucinado que em tudo vê sucesso e vê progresso. Pelo meio, descontadas as fórmulas passadistas, temos os tais que clamam que não há alternativa.
Confesso-me baralhada. Acredito que a realidade, que pode mais, há-de acabar por solucionar o imbróglio. Não sei se a nosso favor. Espero que sim. Espero, sobretudo, que nos poupe ao número dos Messias. Com ou sem bigodinho.
E vem este curto desabafo a propósito do tão falado Relatório, da OCDE só de nome. Apresentado com pompa e circunstância pelo primeiro-ministro, como prova de que até «lá fora» lhe reconheciam o mérito, era afinal um estudo encomendado e pago pelo próprio Governo, realizado sem transparência e sem independência.
Se isto fosse um país decente, a aldrabice teria nome; sendo um «sítio mal frequentado», o PS fez apenas o seguinte: substituiu, na sua página na NET, o texto em que se afirmava ― preto no branco ― que o Relatório era da OCDE por um outro em que se refere apenas «um estudo sobre política educativa». Se formos tentar ler o primeiro, evaporou-se do site, sem nenhuma explicação. Mas se fizermos a busca online, em cache ele lá aparece. Transcrevo:


Relatório da OCDE elogia politica de Educação do Governo PS
27-Jan-2009
O primeiro-ministro elogiou a forma como a ministra da Educação resistiu às dificuldades e incompreensões, considerando lamentável a atitude da oposição que diz que o Governo está apenas a trabalhar para as estatísticas.
No encerramento da cerimónia de apresentação do relatório da OCDE sobre política educativa para o primeiro ciclo (2005-2008), José Sócrates declarou que "valeu a pena resistir, não desistir, enfrentar as dificuldades. Este é o caminho para o sucesso". Elogiando a ministra da Educação, o primeiro-ministro recordou as "dificuldades" e incompreensões que as políticas de Maria de Lurdes Rodrigues têm enfrentado ao longo dos últimos anos, concluindo que "valeu a pena".
José Sócrates lembrou também algumas das reformas levadas a cabo nos últimos anos no primeiro ciclo, como o encerramento de escolas com poucos alunos e sem condições, o alargamento do horário de funcionamento dos estabelecimentos ou a introdução do inglês. "Foi uma reforma muito importante para este Governo, como foi para mim", defendeu.
Na sua intervenção, o primeiro-ministro criticou ainda a oposição, lamentando que digam que o Governo está apenas a trabalhar para as estatísticas. "Que pobreza de debate político, que lamentável a atitude dos partidos políticos de dizerem que lá está o Governo a trabalhar para as estatísticas, como se as estatísticas não fossem importantes", afirmou, sublinhando que prefere a existência da medição do sucesso das medidas à "ausência de medição".



José Sócrates elogia resistência da ministra da Educação
27-Jan-2009
O primeiro-ministro elogiou a forma como a ministra da Educação resistiu às dificuldades e incompreensões, considerando lamentável a atitude da oposição que diz que o Governo está apenas a trabalhar para as estatísticas.
No encerramento da cerimónia de apresentação de um estudo sobre política educativa para o primeiro ciclo (2005-2008), realizado por peritos internacionais independentes, José Sócrates declarou que "valeu a pena resistir, não desistir, enfrentar as dificuldades. Este é o caminho para o sucesso". Elogiando a ministra da Educação, o primeiro-ministro recordou as "dificuldades" e incompreensões que as políticas de Maria de Lurdes Rodrigues têm enfrentado ao longo dos últimos anos, concluindo que "valeu a pena".
José Sócrates lembrou também algumas das reformas levadas a cabo nos últimos anos no primeiro ciclo, como o encerramento de escolas com poucos alunos e sem condições, o alargamento do horário de funcionamento dos estabelecimentos ou a introdução do inglês. "Foi uma reforma muito importante para este Governo, como foi para mim", defendeu.
Na sua intervenção, o primeiro-ministro criticou ainda a oposição, lamentando que digam que o Governo está apenas a trabalhar para as estatísticas. "Que pobreza de debate político, que lamentável a atitude dos partidos políticos de dizerem que lá está o Governo a trabalhar para as estatísticas, como se as estatísticas não fossem importantes", afirmou, sublinhando que prefere a existência da medição do sucesso das medidas à "ausência de medição".
Resumindo, e para citar Johnny Caspar, o mafioso italiano com que abre Miller's Crossing: «I'm talkin' about ethics».