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09/12/12

Fluxo de consciência

Não é a primeira vez que me acontece. Olhar para o ecrã do computador e, em vez de desatar a preenchê-lo com frases indignadas polvilhadas de ironia (culta, de preferência), perderem-se os olhos na barra de ferramentas que encima a página em branco: Base, Inserir, Esquema de página, Referências, Mailings, Rever, Ver, Pesquisar… 
Juro que não vou copiar todos os incríveis instrumentos de trabalho que o word me proporciona, apesar de uma vez ter lido e gostado de uma novela do Camilo Castelo Branco (não me lembro qual) em que este atestava várias páginas com uma extensa lista de nomes de remédios e mezinhas. O efeito era supermoderno, se não mesmo pós-moderno, embora possamos desconfiar que a inserção de tal lista tenha resultado mais de um bloqueio momentâneo – ou mesmo de uma necessidade pecuniária (pagamento à letra) – do que de uma decisão consciente de furar os cânones vigentes. A necessidade faz o ladrão, if you know what I mean…
Não deixa de ser curioso, todavia, que, com tanta coisa a acontecer, me tenha dado hoje para a falta de assunto. Se eu fosse a Vita Sackville-West, a ausência de inspiração (poética) seria facilmente substituída por algumas frases dedicadas à jardinagem e ficava o caso resolvido, embora a época se apresente mais apropriada à feitura de compotas. Quem diz compotas, diz tricot, mas pelo meio deu-se a libertação da mulher e essas tarefas foram perdendo mais-valia.
Quando eu andava no Ciclo Preparatório, que já não existe, fazíamos botinhas e casaquinhos em lã para os pobrezinhos; agora que a vida está muito mais facilitada, basta-nos entregar um pacote de arroz ou massa aos voluntários do Banco Alimentar… Inegável, porém, é que a caridade perdeu algum encanto pelo caminho. Enfim, será o preço do progresso!