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27/08/10

A book a day keeps the doctor away: "Papéis Inesperados", Julio Cortázar

Tão certo como dois e dois serem quatro, gavetas, baús e cómodas de escritores podem revelar-se caixinhas de surpresas. A gosto ou a contragosto, foi o caso de muitos. Kafka é nome recorrente e Pessoa exemplo farto. O primeiro disse ao amigo Max Brod para lhe queimar os papéis, coisa que este recusaria oferecendo-nos, entre outros, O Processo; o poeta deixou um fundo tão sem fundo que contribuiu até para cunhar a frase “Tanto Pessoa já enjoa”. Julio Cortázar (1914-1984) veio acrescentar-se à lista dos (re)descobertos post mortem. No caso, passavam 25 anos.
Estava Carles Álvarez Garriga à conversa com a primeira mulher do argentino na casa que fora de ambos em Paris quando Aurora Bernárdez, 86 anos e testamentária do escritor, decide mostrar-lhe uma “gaveta transbordante”... Garriga não diz assim, mas supõe-se que ficou salivante e gago. O episódio vem contado no Prólogo assinado pelo professor e crítico espanhol, o responsável pela edição de Papéis Inesperados, acontecimento literário que deixou aos pulos os amantes de Cortázar.
Em jeito de miscelânea e forma de almanaque, “modelo para armar” que o próprio não desdenharia, Papéis Inesperados dirige-se, em primeiro lugar, aos leitores habituais do autor de Rayuela. Inéditos, variantes e dispersos compõem o volume, grosso de 400 páginas. A organização fez-se como se pôde: textos em prosa, entrevistas e poemas. Várias subsecções que vão da ficção à política, reflexões sobre arte, crónicas de viagens e simples divertimentos. Etc. No total, 110 textos, nem todos, claro, de idêntica qualidade. Lidos em desordem, o conjunto recomenda-se.
Confrontamo-nos com a habitual e inesgotável curiosidade de Cortázar, o seu humor, o seu olhar moderno e fragmentário capaz de dar a ver o insólito por detrás da normalidade do real e da linguagem normativa. Autor dos que revolucionaria a literatura do século XX e faria da imaginação a pedra de toque (talvez mesmo a “condição da arte” de que falava Borges), Cortázar, lúdico (conceito fundamental que o descarta do experimentalismo descarnado) e iconoclasta, sobrevive ao tempo e à gaveta. Mas também presente em Papéis Inesperados o Cortázar político, o amante de Cuba, o militante anti-imperialista a precisar do enquadramento das sanguinárias ditaduras da época (cabe sublinhar a auto-entrevista, ao jeito de Capote, escrita para a edição em espanhol da imperialista “Life”).
Os leitores habituais confirmarão a paixão. Os que o desconhecem poderão ficar não só com uma ideia das principais linhas com que se cose a obra mas também da sua evolução, já que os textos reunidos cobrem a quase totalidade da vida literária de Cortázar. Ser-lhes-á permitido, por exemplo, aproximar-se do seu universo de “cronópios e famas” (entidades criadas no livro de 1962, Histórias de cronópios e de famas), e do qual se oferecem aqui inéditos, ou rir-se com os episódios não incluídos em Um tal Lucas, a personagem/protagonista homónima desse seu volume de contos.
Impagável por exemplo, este pequeno divertimento linguístico: “Às vezes as pessoas não entendem a forma como fala Matilde, mas a mim parece-me muito clara. — O escritório vem às nove — diz-me — e por isso às oito e meia o meu apartamento sai-me e a escada resvala-me rapidamente porque com os problemas do transporte não é fácil que o escritório chegue a tempo. O autocarro, por exemplo, na esquina o ar está quase sempre vazio, a rua passa depressa porque eu a ajudo atirando-a para trás com os sapatos; por isso o tempo não tem de esperar por mim, chego sempre primeiro. Por fim, o pequeno-almoço põe-se em fila para que o autocarro abra a boca, vê-se que gosta de nos saborear até ao último. Tal como o escritório, com aquela língua quadrada que vai subindo as sanduíches até ao segundo e ao terceiro andar.”

Papéis Inesperados, Julio Cortázar, Cavalo de Ferro, 2010, trad. de Sofia Castro Henriques e Virgílio Tenreiro Viseu

19/05/10

O exemplo islandês: eu sempre gostei muito mas mesmo muito de ilhas

Não é preciso acreditar no pai natal para notar que a diferença entre
ISTO
e o "estou muito contente comigo" de há menos de um ano, ou o "não peço desculpas por cumprir o meu dever" de ontem, após as tais uma... duas... três semanas... que mudaram o mundo...
é avassaladora, como diria o Pacheco Pereira.
Já agora, registem-se também algumas das medidas islandesas tomadas na sequência da bancarrota que atingiu o país em 2008*.
E porque há mais mundo para lá da crise, aproveite-se e leia-se "Gente Independente", do prémio nobel islandês Halldór Laxness, publicado em Portugal pela Cavalo de Ferro.