Mostrar mensagens com a etiqueta Homens de quem eu gosto. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Homens de quem eu gosto. Mostrar todas as mensagens
02/05/12
Do único homem que podia ter sido meu mestre, who else but Billy Wilder?
"(..) they say Wilder is out of touch with his times. Frankly, I regard it as a compliment. Who the hell wants to be in touch with these times?"
in Billy Wilder, Interviews, Robert Horton, Univ. Press of Mississipi
18/02/12
Eu gosto do Manuel António Pina, mas acho que já o tinha dito
"Isto visto, já não digo de Alfa do Centauro mas da Lua, é completamente risível."Ler a entrevista aqui.
Na imagem, Manuel António Pina, sem gatos.
30/11/11
14/05/11
08/11/10
04/11/10
Amigos para sempre — ou o jardim da Celeste visto por Manuel António Pina
Eu também viabilizo o Orçamento porque ele é, como a dra. Ferreira Leite diz (e quem não salta não é da malta), um testamento, perdão, um "tratamento inevitável".Concordo com a redução dos salários dos funcionários públicos (até porque não sou funcionário público), com o fim ou diminuição das prestações sociais, sobretudo as que atingem os desempregados e os mais pobres (também não sou desempregado nem pobre), com o aumento do IVA, do IRS e do IRC (desde que isso não afecte os bancos nem a Mota Engil), com o fim das deduções fiscais, e com todas as mais medidas recessivas, pois isso agrada aos "mercados" e fará o milagre da multiplicação do capital e do investimento estrangeiro, já que o capital e o investimento estrangeiro gostam de pobres e mal pagos e nós ainda não somos suficientemente pobres nem suficientemente mal pagos.
E se os "mercados" estiverem a ouvir que saibam que, como quer a dra. Ferreira Leite, "somos todos amigos" de peito, desempregados, pobres, idosos com pensões congeladas, crianças sem leite e sem Abono de Família, o eng.º Sócrates, o dr. Teixeira dos Santos, a própria dra. Ferreira Leite e os 4 Cavaleiros do Apocalipse, os drs. & engºs. Salgado, Faria de Oliveira, Ferreira e Ulrich, e muitos mais, "tantos que nunca pensei que a morte tivesse levado tantos". Ouçam, "mercados", somos nós, de mãos dadas, a cantar: "Fui ao Jardim da Celeste, giroflé, flé, flá".
AQUI
18/10/10
António Damásio: Uma leitura de "O Livro da Consciência — A Construção do Cérebro Consciente"
Ponto prévio ao leitor. Há qualquer coisa de kantiano no último título lançado pela neurologista António Damásio. A adjectivação sugerida, além de um elogio assumido ao autor de O Livro da Consciência — A Construção do Cérebro Consciente (Kant é Kant, apesar de Hume…), representa também um aviso à navegação: à semelhança das Críticas…, a mais recente obra de Damásio não se lê como um romance.O investigador ensaia hipóteses, contraria-as, explicita-as, enquanto desbrava caminhos e opta por trajectórias que obrigam a desfazer evidências e a suspeitar do óbvio. Aconselha-se papel e lápis. Afinal, em biologia (a pedra de toque capaz de confirmar, ou não, quaisquer conjecturas neurocientíficas) o caminho mais curto entre dois pontos raramente é uma linha recta.
Um bom exemplo: Graças ao facto de o nosso cérebro ter conseguido combinar a nova orientação tornada possível pela consciência com a antiga que consistia numa regulação inconsciente e automática, os processos cerebrais não-conscientes estão à altura das tarefas que terão de executar em nome das decisões conscientes.
Do que se trata aqui é de ultrapassar a dicotomia robusta entre consciente/inconsciente e, mais do que isso, interpretar o aparente paradoxo revelado, entre outros, pelo psicólogo Ap Dijksterhuis que, num estudo por si dirigido, nos confronta com a bizarra conclusão de as decisões tomadas sem uma pré-deliberação consciente revelarem-se de longe mais acertadas.
Ou seja, apesar do papel importante do inconsciente no que diz respeito à tomada de decisões, isso não significa, segundo Damásio, que a consciência seja descartável; tão-só que ela se terá descartado de uma série de tarefas: Os processos não-conscientes tornaram-se num meio adequado e conveniente para levar a cabo o comportamento e dar à consciência mais tempo para análise das situações e planeamento do futuro.
Começando, porém, pelo princípio. António Damásio, cientista português radicado desde 1975 nos EUA, acaba de publicar um novo livro em que retoma o tema da consciência, já ensaiado há uma década em O Sentimento de Si, desta vez pegando-o de caras. Dito isto, certos pressupostos assumidos em O Livro da Consciência…(Temas & Debates/ Círculo de Leitores) recuperam postulados anteriores, alguns deles a que quase poderíamos chamar traços distintivos do pensamento de Damásio.De entre as ideias apresentadas neste livro, nenhuma é mais importante do que a noção de que o corpo é o alicerce da mente consciente, lê-se quase a abrir. O neurologista sublinha, assim, uma concepção já patente em obras mais antigas, a saber, a da inscrição inescapável do mental no corpóreo (seja no que diz respeito aos sentimentos, à razão ou à moral).
A unicidade corpo/mente é indiscutível e, além disso, explicativa: Espinosa viu mais longe que Descartes.
Outro pensamento reconhecível — este a denunciar um certo optimismo antropológico – é o que suporta a interpretação do papel da consciência nos processos de homeostase sociocultural. Escreve Damásio: A marcha do processo da mente não termina com o aparecimento do eu. Ao longo da evolução dos mamíferos, e especialmente dos primatas, as mentes tornaram-se cada vez mais complexas, a memória e o raciocínio desenvolveram-se notavelmente e os processos do eu alargaram o seu âmbito. (…) Armada com estruturas de eu tão complexas e apoiada por uma capacidade ainda maior de memória, raciocínio e linguagem, a mente consciente dos seres humanos cria os instrumentos de cultura e abre caminho a novas formas de homeostase ao nível da sociedade. E, em seguida, confundindo-se o cientista com o humanista: A notável redução da violência, a par do aumento da tolerância que se tornou tão aparente nos últimos séculos, não teria ocorrido sem a homeostase sociocultural.
Da citação anterior pode inferir-se outra das ideias-chave da obra, esta uma relativa novidade. Damásio introduz em O Livro da Consciência… uma “quarta dimensão” que remete para a evolução das espécies: A maioria das espécies cujo cérebro dá origem a um eu fá-lo a um nível nuclear. Os humanos possuem tanto um eu nuclear como um eu autobiográfico. Há uma série de mamíferos que provavelmente também têm ambos, como os lobos, os nossos primos símios, os mamíferos marinhos, os elefantes, os felídeos e, claro está, aquela espécie animal chamada cão doméstico.
Indo mais longe — e afundando assim um pouco mais a concepção da superioridade radical do homem — pode ler-se num subcapítulo intitulado “Consciência humana e não-humana”: 1) se uma espécie tem comportamentos que são melhor explicados por um cérebro com processos mentais do que por um cérebro com meras disposições para a acção (como, por exemplo, os reflexos); e 2) se a espécie dispõe de um cérebro com todos os componentes descritos nos capítulos seguintes como sendo necessários para criar uma mente consciente nos seres humanos, 3) então, meu caro leitor, a espécie é consciente. Feitas as contas, estou pronto a aceitar qualquer manifestação de comportamento animal que me faça pensar na presença de sentimentos, como um sinal de que a consciência não deve andar longe.
Outro pensamento reconhecível — este a denunciar um certo optimismo antropológico – é o que suporta a interpretação do papel da consciência nos processos de homeostase sociocultural. Escreve Damásio: A marcha do processo da mente não termina com o aparecimento do eu. Ao longo da evolução dos mamíferos, e especialmente dos primatas, as mentes tornaram-se cada vez mais complexas, a memória e o raciocínio desenvolveram-se notavelmente e os processos do eu alargaram o seu âmbito. (…) Armada com estruturas de eu tão complexas e apoiada por uma capacidade ainda maior de memória, raciocínio e linguagem, a mente consciente dos seres humanos cria os instrumentos de cultura e abre caminho a novas formas de homeostase ao nível da sociedade. E, em seguida, confundindo-se o cientista com o humanista: A notável redução da violência, a par do aumento da tolerância que se tornou tão aparente nos últimos séculos, não teria ocorrido sem a homeostase sociocultural.
Da citação anterior pode inferir-se outra das ideias-chave da obra, esta uma relativa novidade. Damásio introduz em O Livro da Consciência… uma “quarta dimensão” que remete para a evolução das espécies: A maioria das espécies cujo cérebro dá origem a um eu fá-lo a um nível nuclear. Os humanos possuem tanto um eu nuclear como um eu autobiográfico. Há uma série de mamíferos que provavelmente também têm ambos, como os lobos, os nossos primos símios, os mamíferos marinhos, os elefantes, os felídeos e, claro está, aquela espécie animal chamada cão doméstico.
Indo mais longe — e afundando assim um pouco mais a concepção da superioridade radical do homem — pode ler-se num subcapítulo intitulado “Consciência humana e não-humana”: 1) se uma espécie tem comportamentos que são melhor explicados por um cérebro com processos mentais do que por um cérebro com meras disposições para a acção (como, por exemplo, os reflexos); e 2) se a espécie dispõe de um cérebro com todos os componentes descritos nos capítulos seguintes como sendo necessários para criar uma mente consciente nos seres humanos, 3) então, meu caro leitor, a espécie é consciente. Feitas as contas, estou pronto a aceitar qualquer manifestação de comportamento animal que me faça pensar na presença de sentimentos, como um sinal de que a consciência não deve andar longe.
E, como habitualmente, sempre o “sentir” a desempenhar o papel de protagonista das narrativas assinadas pelo neurologista.
Mas o que é afinal a consciência? O livro avança uma definição pela positiva e pela negativa. Pela positiva, a consciência é a característica da mente que possibilita que nos percebamos a nós próprios como um eu distinto do mundo. Resumindo: é através da consciência que a nossa subjectividade se afirma. Precisa Damásio: A consciência é um estado mental — se não houver mente, não há consciência: a consciência é um estado mental particular, enriquecido por uma sensação do organismo específico onde a mente está a funcionar; e o estado mental inclui o conhecimento de que a dita existência ocupa uma certa situação, de que existem objectos e acontecimentos que a cercam. E, sem resistir ao apelo da filosofia, acrescenta: A consciência é um estado mental a que foi acrescentado o processo do ser.Pela negativa, a consciência não se confunde com processos inconscientes. Nem com aqueles que apenas convocam um ingrediente activo (produção de imagens actual e constante no cérebro) nem com os que implicam um ingrediente latente (o que envolve um repositório de registos, para cuja existência a memorização é indispensável). Estes processos, que parecem prenunciar uma economia da consciência, assentam em três situações conhecidas: produção superabundante e constante de imagens no cérebro; selecção e ordenação espacio-temporal das mesmas, espaço limitado de exibição.
Neste particular, e apesar de o tema, alheio ao livro, merecer apenas um parêntese, valerá a pena citar esta nota de Damásio: (Na geração que cresceu habituada às multitarefas, na era digital, os limites superiores da atenção no cérebro humano encontram-se em rápida expansão, algo que provavelmente levará à alteração de certos aspectos da consciência num futuro não muito distante, se tal não tiver já acontecido. Expandir a atenção traz vantagens óbvias, e as capacidades associativas geradas pelas multitarefas trazem vantagens espantosas; em contrapartida, poderá haver um custo em termos de aprendizagem, consolidação de memória e emoção. Não temos ainda ideia de qual poderá ser esse custo.)
Fechado o parêntese, uma outra ideia-chave: as imagens são a moeda corrente da mente. O termo “imagem” é utilizado num sentido lato, englobando registos auditivos, tácteis, e até os sentimentos, entendidos como “uma variedade de imagem”.
Como o próprio explicita, “imagem” pode ser sinónimo, e é-o muitas vezes em O Livro da Consciência…, de “mapa” ou “padrão neural”. Na sua interacção com os objectos, incluindo o corpo de que faz parte, o cérebro constrói imagens, ou mapas, dos quais se alimenta. Esse filme incessante acaba por ser organizado segundo um processo que invoca uma sala de montagem, onde as escolhas são naturalmente obrigatórias, resultando de selecções feitas com base no valor, inseridas ao longo do tempo, numa estrutura lógica. E é esse processo altamente complexo que estará na base da passagem do cérebro à mente, e da mente à consciência.
A própria consciência assentará, por sua vez, num processo evolutivo que passa pelo “proto-eu”, pelo “eu nuclear” e, finalmente, pelo “eu-autobiográfico” (com a memória, ou os vários tipos de memória, a desempenhar um papel cada vez mais significativo). A ancestralidade decorrente desta visão, levou António Damásio a interessar-se por sistemas considerados mais arcaicos, nomeadamente o “humilde tronco cerebral”, apesar de deixar claro que a consciência humana necessita tanto do córtex cerebral como do tronco cerebral. O córtex cerebral não pode fazer tudo sozinho, tão-pouco o tronco cerebral.
Livro complexo para um tema complexo ou, como se escreveu mais atrás, em biologia o caminho mais curto entre dois pontos raramente é uma linha recta.
A própria consciência assentará, por sua vez, num processo evolutivo que passa pelo “proto-eu”, pelo “eu nuclear” e, finalmente, pelo “eu-autobiográfico” (com a memória, ou os vários tipos de memória, a desempenhar um papel cada vez mais significativo). A ancestralidade decorrente desta visão, levou António Damásio a interessar-se por sistemas considerados mais arcaicos, nomeadamente o “humilde tronco cerebral”, apesar de deixar claro que a consciência humana necessita tanto do córtex cerebral como do tronco cerebral. O córtex cerebral não pode fazer tudo sozinho, tão-pouco o tronco cerebral.
Livro complexo para um tema complexo ou, como se escreveu mais atrás, em biologia o caminho mais curto entre dois pontos raramente é uma linha recta.
06/10/10
O exilado de bougie ou o republicano que mandou o poder às urtigas [da série homens de quem eu gosto]
Norberto Lopes, no prefácio de O Exilado de Bougie (Parceria António Maria Pereira, 1942), descreve assim o homem que foi presidente da república e mandou a presidência às urtigas: “Pudera eu traçar-lhe o perfil que fosse digno da sua personalidade requintada, sóbria, simples como a de um grego do século de Péricles, magnânimo e brilhante como a de um príncipe florentino da Renascença.”
Demasiado para Portugal, já se vê.
Demasiado para Portugal, já se vê.
29/09/10
Homens de quem eu gosto: António Damásio
A propósito do seu último livro: O Livro da Consciência - A Construção do Cérebro Consciente, Temas e Debates
[Por aqui, uma entrevista que lhe fiz em 2003]
06/09/10
Porque a vida é a vida e não se resume aos tribunais como alguns parvenus da democracia pensam com um grande abraço ao Manuel António Pina
Os seis condenados da Casa Pia vêm engrossar a chorosa lista de inocentes de que, como se sabe, estão cheios tribunais e cadeias de todo o Mundo.
Até ver, e dependendo do resto do processo, a principal diferença entre os inocentes da Casa Pia e alguns dos outros inocentes (assassinos, violadores, assaltantes) é que estes não aparecem nas TVs a fazer queixa dos juízes aos Ex. mos Srs. Telespectadores nem a sua condenação (por crimes que, obviamente, nenhum deles cometeu) faz "aterrar" sobre a Justiça o apocalíptico Reino das Trevas (ou, ainda pior, das "Trêvas").
Como os demais "inocentes", os da Casa Pia irão "até ao fim" do Universo, da Física e da Metafísica para obter a condenação dos juízes que os condenaram e, se não for pedir muito, das vítimas que lhes "fizeram mal".
Ora quis o acaso objectivo que, no mesmo dia da sentença da Casa Pia, passasse na RTP um filme em que, a certa altura, John Turturro é metido na cela onde está Schwarzenegger e faz as apresentações perguntando imediatamente: "E tu? Estás aqui inocente de quê?".
"Maravilhosos acasos, aqueles que agem com precisão", diz Bresson.
Manuel António Pina
A imagem foi roubada com os devidos agradecimentos, aqui.
02/06/10
Dedico este post ao João César das Neves, professor universitário e defensor assumido da democratização do orgasmo
Para quem não esteja a par da coisa, isto tem que ver com isto.
21/05/10
Quem disse que as mulheres na política serviam para melhorar a coisa esqueceu-se que a estupidez anda bem repartida pelos dois sexos
A prova de vida parlamentar das deputadas Teresa Venda e Rosário Carneiro vem ao encontro de "l'air du temps" e avança com mais uma medida de austeridade: cortar nos feriados, eliminando quatro (Corpo de Deus, Dia de Todos os Santos, 5 de Outubro e 1.º de Dezembro) e acrescentando um (o "Dia da Família") de modo a obter mais três dias de trabalho por ano, o que, ninguém duvida, contribuiria decisivamente para a resolução dos problemas do país, mesmo faltando à gregoriana proposta o golpe de asa bastante para arranjar trabalho nesses dias aos 730 000 portugueses desempregados.E, já que o Governo suspendeu a terceira ponte (a ponte suspensa) sobre o Tejo, as deputadas propõem que se acabe também com as pontes do calendário, transferindo o 25 de Abril , o 1.º de Maio, o 15 de Agosto e o 8 de Dezembro para segundas ou sextas-feiras e passando a terça-feira de Carnaval a ser, conforme os anos, a "segunda-feira de Carnaval" ou a "sexta-feira de Carnaval".
Comemorar o 25 de Abril a 24 de Abril (e porque não o 1.º de Maio em 28 de Maio?) é, além do mais, uma ideia capaz decerto de render muitos votos.
08/03/10
E como eu gosto deste homem, minhas senhoras!
Valeu a pena ficar acordada até às 5 da manhã só para ver Jeff Bridges levar para casa a estatueta dos óscares.[E já agora, confesso, assistir à abada do Avatar...]
05/03/10
Eu cá não seria capaz de guilhotinar nem O Segredo mas reconheço que pertencerei a uma espécie em vias de extinção
Foi o bardo de serviço a Moçambique, com pompa e circunstância e à boleia de Sócrates (também presente na cerimónia), entregar o prémio Leya.Enquanto isso, o grupo comandado por Miguel Paes do Amaral, empresário cultural e, ao que me dizem, conde nas horas vagas que não faço ideia quantas obras leu na vida, vai-se desfazendo de uns livritos que lhe enchem o armazém (de Alegre, que está triste, segundo o próprio nada foi guilhotinado).
A este propósito, reproduzo na íntegra uma crónica assinada por Manuel António Pina, um homem de quem eu gosto.
«Em 1933, a Alemanha hitleriana promoveu, em dezenas de cidades, a queima pública de livros "não alemães" e de "intelectuais judaicos". A "Bücherverbrennung" (queima de livros) obedeceu ao projecto de "sincronização cultural" de Goebbels visando a "limpeza" da cultura alemã.
Foram assim atirados ao fogo, no meio de multidões ululantes e de braço estendido, obras de, entre outros, Thomas Mann, Walter Benjamin, Brecht, Musil, Heine, Freud, Einstein... Hoje já não se acendem fogueiras, usam-se guilhotinas. Mas o objectivo continua a ser a "limpeza", desta vez comercial, e a "sincronização cultural", agora com os padrões do lucro a qualquer preço, mesmo que seja ao preço da própria cultura. Se não vejam-se os "intelectuais" sacrificados na "Bücherguillotinierung" (guilhotinagem de livros) recentemente organizada pelo Grupo Leya de Miguel Pais do Amaral: Garrett, Fernão Lopes, Eduardo Lourenço, Eugénio de Andrade, Jorge de Sena, Ramos Rosa, Goethe, Holderlin... Ao menos os nazis queimavam livros em nome de uma ideia de cultura, o que sempre é um pouco mais respeitável que fazê-lo por mera ganância.»
15/02/10
07/12/09
Gostar de [alguns] homens: e que se lixe o feminismo pequeno-burguês de fachada socialista
(...) Como dezanove, em cada vinte dos seus devaneios habituais [das mulheres], são relativos ao amor, esses devaneios, depois da intimidade, acabam por se agrupar em torno de um só objecto; prestam-se a justificar um comportamento extraordinário, decisivo e contrário às regras do pudor. Nos homens esse trabalho não existe; em seguida, a imaginação das mulheres disseca à-vontade esses instantes tão deliciosos.
Como o amor faz duvidar das coisas mais comprovadas, a mesma mulher que, antes da intimidade, estava tão segura de que o seu amante era um homem acima do vulgar, mal julga não ter mais nada a recusar-lhe, treme ao pensar que ele poderá tê-la procurado apenas para acrescentar mais uma mulher à sua lista.
Só então surge a segunda cristalização que, porque acompanhada pelo medo, é de longe muito mais forte.
(Esta segunda cristalização não existe nas mulheres fáceis que estão bem longe de todas estas ideias romanescas)
Uma mulher acredita ter passado de rainha a escrava. Este estado de espírito e de alma é ajudado pela embriaguez nervosa nascida dos prazeres tanto mais sensíveis quanto mais raros. Uma mulher, no seu ofício de bordar, trabalho insípido que apenas ocupa as mãos, sonha com o seu amante, enquanto este, a galope na planície com o seu regimento, é posto sob prisão se origina um passo em falso.
Estou em crer, pois, que a segunda cristalização é muito mais forte nas mulheres porque o receio é mais vivo; a vaidade, a honra estão comprometodas ou, pelo menos, as distracções são mais difíceis.
Uma mulher não se pode guiar pelo hábito de ser racional, esse hábito que eu, homem, adquiro obrigatoriamente no meu escritório trabalhando seis horas todos os dias em coisas frias e racionais. Mesmo fora do amor, as mulheres tendem a entregar-se à imaginação e à exaltação habitual; o desparecimento dos defeitos do objecto amado deve ser, pois, mais rápido.
As mulheres preferem a emoção à razão; é muito simples: como, em virtude dos nossos limitados costumes, elas não têm a seu cargo nenhuma responsabilidade familiar, a razão nunca lhes serve para nada, nunca lhe acham qualquer préstimo.
Ao invés, é-lhes sempre prejudicial, já que apenas surge para as censurar de terem tido um prazer ontem, ou para lhes ordenar que não tenham nenhum amanhã.
Entregue à sua mulher os negócios com os rendeiros de duas das suas terras, e aposto que os registos serão melhor cuidados do que por si, e nessa altura, triste déspota, terá pelo menos direito a queixar-se, já que não tem talento para se fazer amar. A partir do momento em que as mulheres levam a cabo raciocínios gerais, elas fazem amor sem se aperceberem. Nas coisas de pormenor, pretendem ser mais severas, mais exactas do que os homens. Metade do pequeno comércio está entregue às mulheres, que dele se ocupam muito melhor do que os seus maridos. É uma máxima conhecida que quando se fala com elas de negócios, toda a gravidade é pouca.
É que elas estão sempre, e seja onde for, ávidas de emoção: vejam-se os festejos dos funerais na Escócia.
in Do Amor, Stendhal, Relógio D'Água, 2009 (com algumas alterações na tradução introduzidas por moi-même)
[boneco daqui]
01/05/09
A ética, esse empecilho [a incluir na série homens de quem gosto muito]
«Face às críticas dos pais que acusam os inspectores do ME que inquiriram alunos da Secundária de Fafe acerca de uma manifestação contra a ministra de terem utilizado, nos interrogatórios dos jovens, métodos "absolutamente inconcebíveis depois do 25 de Abril" e os terem incitado a acusar e denunciar os seus professores, defende-se a Inspecção-Geral da Educação dizendo que tudo o que fez foi "legal". Juntamente com o "cumprimento de ordens", a "legalidade" sempre foi (foi-o em momentos sórdidos do século XX e continua a sê-lo) a explicação mais à mão para justificar o injustificável. Como se só o que é ilegal fosse condenável. Os inspectores do ME terão contudo lido Jellinek na Faculdade e saberão que o direito é apenas o "mínimo ético" (e conhecendo nós quem faz as leis, podemos ter uma ideia de quão eticamente mínimo é esse mínimo…).
Ora talvez a um ministério da "Educação" seja exigível, nas relações com escolas e com jovens, um pouco mais ― a não ser que no Ministério se esteja em greve à ética ― que o cumprimento de serviços mínimos éticos. Mas, se calhar, sou eu que estou a ver mal a coisa.»
Roubado, com a devida vénia, a Manuel António Pina [o sublinhado é meu]
* A imagem do Miller's Crossing (História de Gangsters, em português) é só porque além do Gabriel Byrne estar lindo nesse filme e de o Albert Finney ser um actor do caraças eu achar que os irmãos Cohen são responsáveis pela melhor história sobre ética jamais passada ao cinema.
25/02/09
O que uma mulher gosta é de alguém que a faça rir; eu gosto!
Eu, quando for grande, quero ser como o dr. Pedro Passos Coelho, cantar ópera, entrar em "castings" de La Feria e ler "autores existencialistas que problematiz(am) matérias sobre as quais também me interrog(o)".
Na última entrevista de Pedro Passos Coelho ao "Público", em que desnuda as suas mais pudendas partes intelectuais, descubro porque é que nunca serei candidato a coisa nenhuma. A culpa não é minha, é das más companhias. Enquanto, nos tenros anos juvenis, eu acompanhava com Tintin, Litle Nemo, Spirit, Lil'Abner e Dick Tracy (e o pior é que ainda acompanho), Passos Coelho mergulhava nas profundezas de Voltaire; enquanto eu me emocionava com as viagens de Gulliver e de Nils Holgersson, ele reflectia sobre "A fenomenologia do ser", de Sartre. E não adianta Pacheco Pereira desenganar-me dizendo que Sartre nunca escreveu tal obra, porque eu também a li. "Mais tarde", como Pedro Passos Coelho fez com Kafka, mas li. A "A fenomenologia do ser" e "As mãos e os frutos" (ou seria "As mãos sujas"?); é, se não me engano, onde Sartre "problematiza" a privatização das caixas gerais de depósitos.
Na última entrevista de Pedro Passos Coelho ao "Público", em que desnuda as suas mais pudendas partes intelectuais, descubro porque é que nunca serei candidato a coisa nenhuma. A culpa não é minha, é das más companhias. Enquanto, nos tenros anos juvenis, eu acompanhava com Tintin, Litle Nemo, Spirit, Lil'Abner e Dick Tracy (e o pior é que ainda acompanho), Passos Coelho mergulhava nas profundezas de Voltaire; enquanto eu me emocionava com as viagens de Gulliver e de Nils Holgersson, ele reflectia sobre "A fenomenologia do ser", de Sartre. E não adianta Pacheco Pereira desenganar-me dizendo que Sartre nunca escreveu tal obra, porque eu também a li. "Mais tarde", como Pedro Passos Coelho fez com Kafka, mas li. A "A fenomenologia do ser" e "As mãos e os frutos" (ou seria "As mãos sujas"?); é, se não me engano, onde Sartre "problematiza" a privatização das caixas gerais de depósitos.
Subscrever:
Mensagens (Atom)
EM REDE
- 2 dedos de conversa
- A balada do café triste
- A causa foi modificada
- A cidade das mulheres
- A curva da estrada
- A dança da solidão
- A rendição da luz
- A revolta
- A terceira via
- A única real tradição viva
- Abrasivo
- Agricabaz
- Agua lisa
- Albergue espanhol
- Ali_se
- Amor e outros desastres
- Anabela Magalhães
- Anjo inútil
- Antologia do esquecimento
- Arrastão
- As escolhas do beijokense
- As folhas ardem
- Aspirina B
- ayapaexpress
- Azeite e Azia
- Bibliotecário de Babel
- Bidão vil
- Blogtailors
- Casario do ginjal
- Centurião
- Church of the flying spaghetti monster
- Ciberescritas
- Cidades escritas
- Cinco sentidos ou mais
- Claustrofobias
- Coisas de tia
- Complicadíssima teia
- Contradição Social
- Dazwischenland
- De olhos bem fechados
- Dias Felizes
- Do Portugal profundo
- Duelo ao Sol
- e-konoklasta
- e.r.g..d.t.o.r.k...
- Enrique Vila-Matas
- Escola lusitânia feminina
- Fragmentos de Apocalipse
- Governo Sombra
- Helena Barbas
- If Charlie Parker was a gunslinger
- Illuminatuslex
- Incursões
- Instante fatal
- Intriga internacional
- João Tordo
- Jugular
- Klepsydra
- Last Breath
- Ler
- Les vacances de Hegel
- Letteri café
- LInha de Sombra
- Mãe de dois
- Mais actual
- Malefícios da felicidade
- Manual de maus costumes
- Metafísica do esquecimento
- Mulher comestível
- Nascidos do Mar
- Non stick plans
- O Declínio da Escola
- O escafandro
- O funcionário cansado
- O jardim e a casa
- O perfil da casa o canto das cigarras
- Obviario
- Orgia literária
- Paperback cell
- Parece mal
- Pedro Pedro
- Porta Livros
- Pratinho de couratos
- Raposas a Sul
- Reporter à solta
- Rui tavares
- S/a pálpebra da página
- Se numa rua estreita um poema
- Segunda língua
- Sem-se-ver
- Sete vidas como os gatos
- Shakira Kurosawa
- Sorumbático
- Texto-al
- The catscats
- There's only 1 Alice
- Tola
- Trabalhos e dias
- Um dia... mais dias
- Um grande hotel
- We have kaos in the garden






