«(...) Não digas à mamã. Foi o mantra das nossas infâncias, ou um deles. Não digas à mamã. Isto dito pela Midge, especialmente, mas também por qualquer dos mais velhos. Se se partia ou entornava alguma coisa, se a Bea não vinha dormir a casa ou Mossie ia viver para o sotão, ou Liam deixava cair ácido, ou Alice tinha relações sexuais, ou Kitty sujava de sangue o uniforme da escola, ou quaisquer mensagens telefónicas acerca de atrasos, engarrafamentos, problemas com o dinheiro do autocarro ou do táxi, e uma vez, catastroficamente, a noite passada por Liam na prisão. Nenhuma das mensagens era transmitida: a conferência sussurada no vestíbulo, Não digas à mamã, porque a «mamã poderia» - o quê? - expirar? A «mamã» ia ficar preocupada. O que não me parecia nada mal. Afinal era produto seu, esta família. Todos tinham saído - individual e dolorosamente - dela. E o meu pai dizia-o mais que qualquer outro de nós, galante: Não há necessidade de dizer à vossa mãe agora, como se a realidade da cama dele fosse toda a realidade que se deveria pedir àquela mulher que suportasse», p.14 Corpo Presente, Anne Enright, Gradiva, Dez. 2007