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03/01/25

MEDITAÇÃO DE SEXTA: «O ano de todos os perigos»

«(...) Se por aqui – algures perdidos num cenário ratado ora pelo calor, ora pelo frio e sempre pela desertificação: um “deserto de almas” despojado de jovens e de arquitetura high-tech, sem Antonioni nem críticas ao capitalismo – não se sente o cheiro a napalm pela manhã, isso não significa que não estejamos a par das notícias. Apesar de resguardados dos males maiores do mundo – bem ou mal, as couves e as batatas continuam a crescer nas hortas e as galinhas a pôr ovos (pese embora as investidas das raposas…) –, não seremos poucos no monte a aguardar, tal como em Washington, D.C., Londres, Paris, Moscovo, Pequim ou Kiev, a tomada de posse de Donald Trump a 20 de Janeiro, o Presidente escolhido pelos norte-americanos que nos vem deixando em suspenso a todos.

20/12/24

MEDITAÇÃO DE SEXTA: «E os marcianos, demoram?»

 «O nevoeiro que habitualmente chega apenas ao largo, subiu até à casa e adentrou-a até aos ossos.

22/11/24

MEDITAÇÃO DE SEXTA: «Os poetas vão ser colocados em lugares mais úteis»

« (...) Avisto as rosas que abriram rente ao muro que marca a bifurcação do caminho que leva ao largo. Hoje não está lá o pequeno cão preto que guarda a passagem, atento e carrancudo como Caronte, o barqueiro do Hades. Estas são rosas literalmente cor-de-rosa, túrgidas, de pétalas labirínticas e resistentes, e não brancas e frágeis como as rosas que florescem em cachos no mês de Maio junto ao barranco por estes dias cheio de água, uma água argilosa que corre rápida e rumorosa escondendo as margens cobertas de musgo do atalho agora impraticável, os campos à volta forrados de uma erva alta e viçosa que deixa em destaque o laranja – sóis artificiais que ornamentam os campos – das laranjeiras carregadas, todas as outras árvores nuas, com excepção de uma ou outra figueira cujas folhas ásperas se recusam a encarquilhar ou de uma ou outra nespereira de floração amarelada, desgrenhada e sem graça. De resto, a Natureza tem sido generosa em água e trovoadas nocturnas. Os raios que antecedem o estrondear dos céus iluminam o rio e assombram a sonolência dos barcos. Espectáculo que permite perceber a diferença entre o belo e o sublime, dão-se graças por aqui à existência de pára-raios.

01/11/24

MEDITAÇÃO DE SEXTA: «Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia»

«(...) com quem trocar dois dedos de conversa sobre o pus dos livros quando já se foram Jorge Fallorca (“Decorrido meio século de existência, li e escrevi o suficiente para considerar a escrita – como qualquer outro acto criador – antropófaga até à vileza”, in Longe do Mundo, 2004), Juvenal Garcês (e os nossos diálogos que tanto versavam a genialidade de Ibsen como a mediocridade dos caciques culturais, sem esquecer a superioridade inquestionável das bananas da Madeira), Rui Martiniano, que conheci como Rui “Bancário” para reencontrá-lo no acaso das ruas de Lisboa, tantos anos passados e era ontem, editor da Hiena e tão minoritário como sempre fora, Francisco Brás, o meu vizinho actor motorizado, admirador incondicional de Mário Viegas com quem trabalhou e antagonista encartado do pedantismo, ou toda a outra gente morta ou em silêncio, aqui ou nas cidades, as trincheiras a abarrotar de equívocos e vaidades?

25/10/24

MEDITAÇÃO DE SEXTA: «Sigamos o cherne!»

«Ai que prazer não cumprir um dever, ter uma crónica para escrever e não o fazer! (E com esta já vou na terceira ou quarta frase de abertura…)

10/05/24

MEDITAÇÃO DE SEXTA: «Longe do mundo*»

(...) Lembrei-me depois de Camilo Castelo Branco e da sua copiosa produção literária, que a vida custa a todos (ou, pelo menos, à maioria).

01/12/22

CENAS IBÉRICAS VIVIDAS NO MONTE

Hoje acordei e da cozinha vi o carro do meu querido vizinho atravessado na rua junto ao forno a lenha a precisar de restauro, estacionado no sentido contrário. Ele nunca entra pela parte de baixo da rua, na verdade uma minúscula viela onde só circulam cães e gatos, dá habitualmente a volta e deixa-o na direcção oposta. Quando o abandona assim, de rabo virado à lua, é sinal que já lhe tolda a visão e lhe emperram as mudanças. 

Quando dei pela coisa, pensei: "Ah! Homem! Isso ontem deve ter sido tão tamanho que hoje os rins se te colaram às costas, as costas ao colchão e bem podem esperar por ti lá nas obras que o Sísifo que carregue as pedras..."

Naturalmente, o pensamento não foi assim tão elaborado como agora o registo porque não tinha tomado café. Ainda.

Chegada ao café, as habituais picardias e comento: "Então o M. nem se conseguiu levantar!"

Lá me lembram que, sendo embora o meu raciocínio isento de desacerto, em defesa de M. se registe que o dia de hoje é feriado. O tal 1º de Dezembro em que tiveram a infeliz ideia de defenestrar o traidor enquanto a Duquesa de Mântua se enfiava num armário. 

Entretanto, por aqui e por fim choveu. E como dizem os espanhóis: "A mal tiempo buena cara". E como eu gosto de espanhóis, minhas senhoras e meus senhores! 


23/11/22

NOTÍCIAS DO PORTUGAL DEPRIMIDO

A puta da velhice, diz o octogenário maravilhoso aqui do monte, andarilho a quem não consigo acompanhar o passo, ao fechar a porta da horta às galinhas, eu com uma alface, salsa e coentros na mão como um bouquet de noiva, o saco carregado de outras iguarias. O gato amarelo persegue-o até casa e eu despeço-me e desço para a minha. Aquele gato, de tão apaixonado que está por ele, ainda o faz cair, penso. Olho para as nuvens sopradas por uma ameaça de vento que as afasta. Continua a não chover.