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03/12/09

Primeiro o Iraque, agora o Aquecimento Global: ao pé disto as campanhas negras do Sócrates são uma brincadeira de crianças

O escândalo em que se encontram envolvidos os principais mentores da Teoria do Aquecimento Global Antropomórfico ficará certamente para a História como uns dos maiores escândalos científicos de sempre, se descontarmos (ou somarmos) a condenação de Galileu pela Inquisição.
A teoria nunca foi unânime, apesar de dominante. Sentimentalismo, ignorância, manipulação, politização e dependência económica da Ciência, aliados à extraordinária complexidade do assunto, contribuiram certamente para um dogma a que poucos resistiram (e a jornalista Ellen Goodman não foi certamente uma delas: Let's just say that global warming deniers are now on a par with Holocaust deniers, though one denies the past and the other denies the present and future).
Em traços largos, a direita está contra e ao serviço dos grandes grupos económicos poluentes. A esquerda a favor e, preocupada com o futuro do Planeta, ecologicamente pugna pelas energias alternativas [no meio, cientistas como James Lovelock ― que entrevistei há cerca de dois anos (aqui) ― baralham um pouco os dados].
Curiosamente, o quadro é simetricamente oposto ao do Iraque. Nesse caso, em traços largos, a esquerda era contra a ideia das armas de destruição, a direita a favor. O que nos deixa completamente enrascados em termos ideológicos. Pelo menos a mim, que cada vez me arrepio mais com a histeria desta gente da esquerda fracturante e bem-pensante, nunca tendo apreciado os outros. Resta-nos, porventura, a ironia. Coisa que, vendo bem, já o velhíssimo Montaigne sabia de ginjeira.

01/10/07

O Tema Quente do Aquecimento Central

O global warming, embora por vezes não pareça, pouco ou nada tem de pacífico. Há quem levante as maiores dúvidas ou fale mesmo em impostura. Por exemplo, em português, aqui, aqui ou aqui. O cientista Richard Lindzen é uma das vozes mais críticas. E, na própria Pastelaria, James Lovelock já falou sobre o assunto.
Até agora, contudo, nenhuma aproximação ao tema me pareceu mais clara do que a sintetizada no gráfico acima, picado directamente da Church of Flying Spaghetti Monster, comunidade para a qual, e em boa hora, fui recrutada pelo seu acólito João Lisboa. Spread the word.

10/06/07

A Vingança de Gaia

Eles não se entendem. Há um alemão que prevê furacões, há um português que prevê seca. E nunca a meteorologia foi tão mediática. O aquecimento global tornou-se conversa de café, apesar de haver cada vez menos cafés onde se converse. Embora seja um post gigantesco, vou transcrever o texto que escrevi para o jornal Expresso e que foi publicado este fim-de-semana. Traz entrevista com James Lovelock, o cientista que nos aconselha a fugir o mais depressa possível para o Norte. Não do país, mas do planeta. Segue o artigo:

No final de 2006, James Lovelock afirmava à revista «Veja»: «Até ao fim do século XXI, é provável que cerca de 80 por cento da população humana desapareça. Os restantes 20 por cento irão viver no Árctico e em alguns, poucos, oásis de outros continentes, onde as temperaturas forem mais baixas e houver um pouco de chuva». A citação vem assinada por um homem de ciência que não faz futurologia nem tem conversas com Deus. Ainda assim, o retrato que traça da evolução próxima da Terra (A Vingança de Gaia, Gradiva, 2007) está longe de nos garantir o sono dos justos. Poderá ele estar enganado? Afinal, ao contrário das religiões, errar é próprio da ciência: «Na ciência não existem certezas, apenas possibilidades. Penso, porém, que a probabilidade de catástrofe climática é tão grande que não nos podemos atrever a ignorá-la», concluiu na entrevista, via e-mail, que acedeu dar ao Expresso. São palavras sensatas que, em certa medida, nos confortam da histeria politicamente correcta levada ao rubro pela jornalista Ellen Goodman nas páginas do «Boston Globe»: «Let's just say that global warming deniers are now on a par with Holocaust deniers, though one denies the past and the other denies the present and future»
De súbito, sem cerimónia e sem que nos apercebessemos, o aquecimento global puxou da cadeira e sentou-se à nossa mesa. Como tema de conversa, ultrapassou a biodiversidade, a fome em África, a guerra no Iraque, a pedófilia, a vida íntima de Cristo ou qualquer outro assunto da agenda global. A preocupação com o estado do tempo, tradicionalmente uma esquisitice britânica, conquistou o público de todos os continentes, da Europa à Austrália, passando pelos EUA, e aí apesar de Bush mas certamente graças a Al Gore e ao seu oscarizado Uma Verdade Inconveniente, filme que se manteve nos tops de bilheteira, mesmo depois das contas de electricidade do antigo candidato à Casa Branca terem sido tornadas públicas pelo «Tennessee Center for Policy Research»: mensalmente, um gasto de energia 20 vezes superior ao de que qualquer outro lar americano.
Lovelock não é um político. Em A Vingança de Gaia não se mostra excessivamente entusiasmado com o Tratado de Quioto e, à nossa pergunta sobre a corrida aos créditos de carbono (possibilidade oferecida às indústrias ou países mais poluidores para continuarem a emitir GEE negociando créditos alheios), o cientista respondeu num tom «blasé» pouco abonatório para os homens da governação: «Não se deve culpar as empresas por quererem realizar lucros quando os governos são suficientemente idiotas para oferecem subsídios». Os subsídios a que se refere dizem respeito a dois ítens que fazem as delícias dos Verdes e sobre os quais se mostra particularmente crítico: «Não duvido do valor das energias renováveis e a verdade é que utilizámos largamente a energia hidráulica muito antes de terem começado as preocupações ambientais, e o mesmo seria verdade para a energia das marés se optássemos pela sua utilização. São económicas e não necessitam de subsídios. Já a energia eólica e os biocombustíveis, considero-as pouco económicas e eficazes, sendo propostas em grande parte como gestos políticos. Além de sujeitas a subsídios, o que geralmente permite concluir que se trata de um empreendimento com falhas, ambientalmente são mais nocivas do que benéficas». Sabendo-se que, até 2010, Portugal vai investir (segundo estudo da Espírito Santo Research) 6,4 mil milhões de euros em energias renováveis, 69,4 por cento dos quais nas eólicas, percebe-se melhor por que é que o criador de Gaia, não sendo um político, pode ser, por vezes, tão incómodo.
Prolífero e polémico também. Nascido em 1919, tem formação em química, medicina e biofísica. Inventor encartado, ganharia visibilidade quando, na década de 70, lança, com a bióloga Lynn Margulis, a hipótese de Gaia, uma visão da Terra que, metaforicamente, a propõe à imagem e semelhança de um organismo vivo. Gaia, nome sugerido a Lovelock pelo escritor William Golding durante um passeio dos dois pelo campo inglês, transformar-se-ia numa bandeira «New Age», embora o cientista, bem positivo, nunca tivesse pisado tais pântanos. O facto é que se viu criticado pelos seus pares: «Os críticos de Gaia foram, de início, principalmente cientistas especializados em disciplinas como a biologia e a geologia e eram muito ruidosos. Os cientistas especializados em clima acolheram bem Gaia e continuam a fazê-lo. Como não sou uma pessoa insensível, foi-me difícil aguentar as críticas e estas duraram mais de 20 anos», confessou na entrevista ao Expresso.
O corte radical com os Verdes (que já tinha sido ensaido na polémica que os opôs a Lovelock a propósito dos CFC) dá-se quando, para surpresa de muitos, o homem a quem a revista «New Scientist» atribuíra o título de «Ghandi da Ciência» aparece a defender o nuclear como única alternativa real aos actuais problemas energéticos. Quando lhe perguntamos «Mas, e então Chernobyl?», a resposta chega rápida: «Se nos últimos 40 anos a indústria aeronáutica tivesse tido dois acidentes, um causando a perda de 75 vidas e o outro apenas três, acha que a consideraríamos pouco segura e teríamos medo de voar? Aparentemente não, porque houve milhares de acidentes mortais e mesmo assim continuamos a andar de avião. Portanto, porquê pegar só nos acidentes negativos em 40 anos de energia nuclear? A maioria das histórias contadas pelos lobbies dos Verdes sobre energia nuclear são disparates, histórias semelhantes às que nos impingiam no século XIX sobre o diabo e os lobisomens. A última contagem das agências das Nações Unidas sobre Chernobyl afirmava que houve 75 mortos entre os trabalhadores da central e as equipas de limpeza. E foi tudo. Veja o sítio UNSCEAR na web». A sugestão fica dada.
Todos estes e outros assuntos estão devidamente explanados em A Vingança de Gaia, um livro não aconselhado a pessoas sensíveis. Energias alternativas, agricultura biológica, desenvolvimento sustentado, todos os conceitos que nos habituámos a pôr na lista dos bons da fita são passados a pente fino. Por e-mail, Lovelock reafirma o que escreveu: «A teoria de Gaia é interdisciplinar e vê a Terra passando agora do estado frio que os geólogos denominam «casa de gelo» (icehouse) para um estado de calor a que chamam «estufa» (greenhouse). Uma vez iniciado, o movimento é irreversível – aquilo que fizemos foi desencadeá-lo. Não só o movimento é efectivamente irreversível como, mesmo que o pudéssemos contrariar, a inércia das reacções humanas impediria qualquer acção útil em menos de 30 anos. Acha que podemos esperar que a China, a Índia e os EUA deixem de queimar carvão nesse prazo de tempo? É por isso que digo que precisamos de retirar de forma ordeira para as regiões mais frescas do Norte, onde os alimentos possam continuar a ser cultivados».
Mas, e o se o aquecimento global for um mito, como alguns cépticos insistem em defender? Pusemos a questão: «O climatologista Richard Lindsen tem sido uma das vozes mais críticas, falando mesmo de perseguição aos cientistas que discordam da “visão alarmista do aquecimento global por acção humana”. Dada a posição de cientista independente que sempre fez questão de manter ao longo da sua carreira, com as subquentes vantagens e desvantagens de tal estatuto, a presente unanimidade climática não lhe causa nenhuma estranheza?». Lovelock respondeu: «Apenas uma pequena minoria de cientistas duvida de que somos a principal causa do aquecimento global. Richard Lindsen é um cientista respeitado e pode, como eu nos primeiros tempos de Gaia, ter razão. O que há de maravilhoso na ciência é que a natureza é o árbitro final.». Ora aí está uma resposta que as Ellen Goodman deste mundo nunca nos conseguiriam dar.