05/07/24

MEDITAÇÃO DE SEXTA: «Semana Negra»

« (...) Havia um bar no rés-do-chão do prédio e entre mim e o bar sobrava um piso de escritórios. Durante algum tempo dirigido por um madrileno, tornara-se local de agradável convívio, os bancos altos do balcão a comporem aquele cenário acolhedor dos filmes onde pontifica um barman camarada, confessor de histórias a quem nunca falta paciência. Tudo mudou quando o madrileno se foi embora e deu lugar a locatários portugueses que se tomavam por aficionados espanhóis da arte tauromáquica. Os agrobetos começavam então a ficar na moda. Eu era, portanto, mais nova.

28/06/24

MEDITAÇÃO DE SEXTA: «Altas Temperaturas»

«(...) Quando, no ano já distante de 2014, Matt Taylor, astrofísico britânico e um dos responsáveis pelo sucesso da missão Rosetta, apareceu em público a chorar – reagindo à enxurrada de críticas que milhares de mulheres terráqueas e ofendidas tinham feito chegar às redes sociais –, a pedir desculpa por ter ousado vestir uma camisa de manga curta com desenhos de pin-ups, houve quem se lembrasse imediatamente da Revolução Cultural Chinesa e dos seus métodos de flagelação e humilhação públicas.

14/06/24

MEDITAÇÃO DE SEXTA «Os EMPATAS: Nos dias bons, aplaude-se a resistência ladina dos portugueses ao poder; nos dias maus, critica-se a falta de frontalidade dos mesmos.»

«(...) Considerando o avanço da extrema-direita na Europa – embora não falte quem, fazendo umas contas de merceeiro continue a achar, desentendendo a ironia do aforismo de Ennio Flaiano, companheiro de estrada e de argumentos de Fellini: “La situazione politica (…) è grave ma non è seria” – (veja-se o exemplo de Ursula von Der Leyen, gritando em êxtase sem desarrumar o cabelo: “Vencemos as eleições europeias!”), os resultados em Portugal só nos podem alegrar.

Em resumo: o voto de protesto no Chega, sendo grave, não foi sério. Os deuses nos ouçam!
«De resto, basicamente o costume. Os portugueses, mais uma vez comedidos, optaram pelo empate. A calcutaense Temido lá vai para a Europa, assim como o pernóstico Bugalho e mais uns quantos, um pacote onde se incluem betos e betinhos. Aproveitemos que daqui a nada metem-se as férias de Verão e muito pior estão os franceses.
«Ainda assim, impossível esquecer que os tambores da guerra continuam a rufar pela Europa. Mas como diz o mais macabro provérbio nacional: “enquanto o pau vai e vem folgam as costas!” E termino por aqui que não quero estragar um dia bom.»

24/05/24

MEDITAÇÃO DE SEXTA: "Silêncio que se vai cantar o fado!"

«(...) Como se sabe, a liberdade de expressão é terreno escorregadio onde nem tudo é a preto e branco.«(...) Como se sabe, a liberdade de expressão é terreno escorregadio onde nem tudo é a preto e branco.
Há uns dias saiu neste jornal um texto assinado por Ana Sá Lopes de título “Pode um deputado dizer que os judeus são uma etnia ‘mais burra’?”.
Segundo a autora seria pouco provável que, fosse esse o caso, o presidente da Assembleia da República se mostrasse tão permissivo à livre oratória: “É evidente que, se a etnia visada fossem os judeus, a reacção não seria essa. Não estou a ver José Pedro Aguiar-Branco a permitir na Assembleia insultos aos judeus (mas confesso que já estou por tudo). Sinceramente, acho que não o fará, porque carrega a culpa que todos nós, europeus, carregamos por termos permitido, no século XX, o Holocausto”.
Deixando, por ora, de lado a questão da “culpa abstracta”, passemos de imediato ao concreto.
Primeiro, preguiçoso (em rigor: “pouco trabalhador”) não tem o mesmo peso de “burro”. Segundo, entre negar o Holocausto enquanto facto histórico ou afirmar que os judeus foram bem mortos (discurso de ódio) e chamar burro a um povo continua a haver significativas diferenças. O mesmo se diga, por exemplo, de dizer “os imigrantes não querem trabalhar” ou “os imigrantes deviam afogar-se todos”.
Finalmente, e para entrar no problema abstracto da “culpa colectiva”, atendendo a que se trata da contestação a generalizações, faço notar que tão generalista é falar da culpa de “todos nós, europeus” como de “turcos” e do seu pouco amor ao trabalho.
Vivem-se tempos paradoxais. Enquanto uns clamam por discursos impolutos, os discursos brejeiros vão galgando terreno. Enquanto uns reagem ruidosamente denunciando qualquer expressão na qual vislumbrem o menor indício de “linguagem menos própria”, os falantes da chamada “linguagem menos própria” batem palmas, agradecem a deferência, a difusão, e engrossam o discurso, acabando também por engrossar, como previu Umberto Eco (no caso, referindo-se às redes sociais), a “legião de imbecis” que dantes se ficava pela taberna e que hoje chegou aos parlamentos.»

17/05/24

MEDITAÇÃO DE SEXTA: «Calma, é apenas um pouco tarde»

«(...) Enquanto o país discutia com um afervoramento que, por si só, teria sido capaz de derrotar os exércitos de Alexandre, o Grande, ora o caso do marchand preso no momento em que ia dar uma entrevista a Cristina Ferreira – e isso faz-se?, perguntaria Cristina Ferreira num tom mais estrídulo do que o habitual –, ora o caso do Festival da Eurovisão – certame desadormecido algures no tempo entre "A desfolhada" de Simone de Oliveira e o "Amar pelos dois" de Salvador Sobral e que se transformaria num espectáculo de orgulho queer este ano apimentado pela guerra entre Israel e o Hamas e a tolerância zero da organização não se sabe bem a quê –, por aqui as conversas versavam a mecânica dos tractores, o caso de um javali desembestado e as bebedeiras entre dois irmãos que, ainda não atingida a taxa de álcool no sangue de 0,5 g/l, acabam fatalmente em pancadaria.

10/05/24

MEDITAÇÃO DE SEXTA: «Longe do mundo*»

(...) Lembrei-me depois de Camilo Castelo Branco e da sua copiosa produção literária, que a vida custa a todos (ou, pelo menos, à maioria).

03/05/24

MEDITAÇÃO DE SEXTA: «Olhai as popoilas do campo»

«... Curioso como num mundo cada vez mais afastado da natureza – apesar da crise climática e das latas de tinta arremessadas contra tanta tela exposta em museus – se vai dando, em simultâneo, um empobrecimento da linguagem, não só do número das palavras em uso, mas também da diversidade dos seus sentidos que, no essencial, tendem a abandonar a sua panóplia multifacetada (à semelhança da pluralidade dos risos) para se verem entrincheirados entre as categorias do aceitável e do não aceitável.

22/03/24

MEDITAÇÃO DE SEXTA: «Galinhas, robots e tacos de basebol»

«Em 1995, Umberto Eco foi convidado a falar na Universidade de Columbia sobre os regimes fascistas que haviam dominado a Europa e conduzido à II Guerra Mundial. A palestra acabaria por acabar impressa sob o título de Ur-fascismo ou Fascismo eterno (in "Cinco Escritos Morais", trad. José Colaço Barreiros, Relógio D’Água, 2016).
Se nada é eterno (só a morte e os impostos, disse alguém cujo nome não me ocorre), as características listadas por Eco vêm de jure et de facto granjeando uma influência que, descontados os debates académicos – imagino os presos do Forte de Peniche a interrogarem-se melancolicamente deixando-se levar pela maresia das águas: “Será isto o fascismo ou apenas um regime um bocadinho autoritário?” –, é impossível negar terem galgado o ontem para se abaterem ruidosamente sobre o hoje.
No nosso caso, o ontem foi há 50 anos e a célebre pergunta de Baptista-Bastos: “Onde é que estava no 25 de Abril?” arrisca-se a ser brevemente trasladada da TV para os cemitérios, equiparando-se, mais e mais, à hipotética pergunta: “Onde é que estava no 5 de Outubro”. C’est la vie.
Entretanto, as coisas complicaram-se. Eternidades à parte (na lista de Eco falta essa grande novidade de, online, ser um afim de um robot a pedir aos humanos que provem que não são robots…), dizia ele com razão: “Seria tão confortável para nós se alguém assomasse à cena do mundo e dissesse: ‘Quero reabrir Auschwitz, quero que os camisas negras tornem a desfilar em parada pelas praças italianas!’ Mas, ai, a vida não é assim tão fácil. O Ur-fascismo ainda pode voltar sob as vestes mais inocentes”.»

15/03/24

MEDITAÇÃO DE SEXTA: «OS Deploráveis»

«(...) Há, claro, que recuar ao ALLgarve de Manuel de Pinho, essa memorável personagem da nossa história recente, perito em Almeida Garrett e em cães. É dele a frase: “Às vezes esquecemos que o cão do Presidente Obama é um cão algarvio”, embora sabendo-se que o bicho tinha nascido no Texas.

01/03/24

MEDITAÇÃO DE SEXTA: «P’ra não dizer que não falei das flores»


23/02/24

MEDITAÇÃO DE SEXTA: «Tempos de cólera»

«Leio (...) que a primeira-ministra dinamarquesa, Mette Frederiksen, anunciou domingo passado – foi um grande domingo! –, durante mais uma edição da Conferência de Segurança de Munique, que o seu país iria doar à Ucrânia “toda a sua artilharia”. Justificando a generosidade do gesto, Frederiksen foi clara ao apontar a Rússia como um perigo não só para a Ucrânia, mas também para toda a Europa democrática.

26/01/24

MEDITAÇÃO DE SEXTA: «Tempos interessantes»

«(...) Por cá, continuamos na vanguarda.

30/12/23

MEDITAÇÃO DE SEXTA: «Mais um ano de todos os perigos»

«(...) Diziam uns que a guerra na Ucrânia ia durar três dias, diziam outros que em meses o assunto estaria despachado. É o que se vê.

15/12/23

MEDITAÇÃO DE SEXTA «Cassandra, de novo»

«(...) À imagem da má literatura – quanto mais medíocre, mais enfática e mais sentimental – a linguagem pública da comunicação vai reduzindo o vocabulário enquanto insufla de ideias e sentimentos (vazios).