05/02/23

GUERRA NA UCRÂNIA: DO ESTADO DE NEGAÇÃO

Se, no final de Dezembro, a Rússia estava a ficar sem mísseis e a entrar num beco sem saída (palavras de Zelensky), no início de Fevereiro, diz também Zelensky, a situação na linha da frente está a complicar-se.

Entretanto, a Alemanha garante que o armamento enviado para a Ucrânia pelos países ocidentais não será utilizado em território russo.
Naturalmente, seria impensável que uma guerra dispensasse a propaganda, mas ser conduzida pela propaganda talvez não seja a melhor estratégia. E a propósito: onde está a estratégia?

03/02/23

MEDITAÇÃO DE SEXTA: «NO PASA NADA»

« (...) uma nota sobre o último escândalo semântico-ó-hermenêutico que, neste caso, envolveu a agência de notícias norte-americana Associated Press (AP), uma das maiores e mais conceituadas do mundo.

Num esforço hercúleo para não excluir nem ofender ninguém (ou será para não “incluir” ninguém?) a agência pediria aos seus colaboradores para não escreverem “the French”, expressão considerada inapropriada por denunciar um monolitismo que não levaria em conta a diversidade dos cidadãos/das cidadãs e etc.

A recomendação era a de “evitar designações genéricas e muitas vezes desumanizadoras, como os pobres, os doentes mentais, os franceses, os deficientes…”

E numa tentativa de se explicar melhor, a agência acrescentaria o exemplo de “pessoas com rendimentos abaixo do limiar de pobreza”, formulação sempre preferível a “the poor” (os/as e etc. pobres em português).

Se para o estômago de um poor, como entenderá facilmente mesmo quem nunca passou fome, ser chamado “pobre” ou “pessoa com rendimentos abaixo do limiar da pobreza” não fará grande diferença, quem responderia à Associated Press seria a própria embaixada francesa mudando temporariamente o seu nome para “Embassy of Frenchness in the United States”, uma solução adequada a esta problemática conotativa/ denotativa que me levou a recordar um americano do New Hampshire a viver em Chefchaouen nos finais da década de 80 e que, à viva força, queria livrar-se da sua nacionalidade. Abandonado em Marrocos pela mulher, que o trocara por uma amiga comum, era etólogo de formação e encontrava-se no país a estudar os macacos das montanhas do Rife. Tendo já tentado emigrar para o Canadá por três vezes, a recusa das autoridades canadianas em aceitá-lo levara-o a concluir que como etólogo nunca teria hipóteses. A última vez que o vi estava a considerar tentar de novo, mas declarando-se antes canalizador ou motorista de pesados. (...)»

02/02/23

MAS ESTA SENHORA VIVE EM QUE PLANETA?!

«Antes de a Rússia começar a guerra, alertámos muito claramente sobre os custos económicos enormes que iríamos impor em caso de invasão, e hoje a Rússia está a pagar um preço elevado, à medida que as nossas sanções estão a asfixiar a sua economia”, Ursula von der Leyen, 2 de Fevereiro de 2023 em Kiev.

ANO XXIII do SÉCULO XXI


 

28/01/23

DE ALTAR EM ALTAR ATÉ À DERROCADA FINAL

Terá sido o costureiro John Galliano — já agora, uma das primeiras vítimas do não se pode dizer uma graçola parva, nem sequer quando se está com os copos — quem afirmou que "uma pitada de mau gosto é indispensável ao génio".

Concordo absolutamente. O bon chic, bon genre é mesmo um tédio. Mas porra! — com vossa licença — não é preciso exagerar!




27/01/23

MEDITAÇÃO DE SEXTA: «E FALAR A SÉRIO, PODE-SE?»

«Comecemos então, como convém, pelo básico. Um actor é um fingidor. Métodos de aquecimento à parte, ficará para sempre gravado nos anais da arte o comentário que Sir Laurence Olivier terá dirigido a Dustin Hoffman quando ambos contracenavam no filme de 1976 do inglês John Schlesinger, O Homem da Maratona.

Hoffman acabara de filmar uma cena em que tivera de simular não ter dormido nas anteriores 72 horas. Olivier pergunta-lhe educadamente como correu e o co-protagonista de O Cowboy da Meia-Noite (também realizado por Schlesinger e no qual Hoffman interpretara Ratso, maltrapilho e vigarista aleijado que conseguia convencer-nos de que cheirava mal, apesar do cinema não ter cheiro…) responde-lhe que na realidade não dormira durante três dias, de modo a transmitir verosimilhança à personagem. Do alto da sua experiência (shakespeariana), Olivier sugere-lhe com delicadeza: “My dear boy, porque é que não tenta apenas representar?”. (...)

JÁ POSSO MORRER COM A CERTEZA DE QUE VI PORCOS A VOAR! [porque depois disto, tudo é possível]


The Auschwitz museum said Wednesday that because of the war in Ukraine, Russia will be excluded from the upcoming ceremony marking 78 years since the Red Army liberated the Nazi death camp.

“Given the aggression against a free and independent Ukraine, representatives of the Russian Federation have not been invited to attend this year’s commemoration,” Piotr Sawicki, spokesman for the museum at the site of the former camp, told AFP.

20/01/23

MEDITAÇÃO DE SEXTA: «ERAM TEMPOS DIVERTIDOS»

«... E por falar em plantas, uma palavra, antes de continuar, para a usual clarividência da nossa ministra Maria do Céu que, já tendo profetizado a venda milionária de hortaliças para a China no início da pandemia de Covid-19, veio há dias pôr os espanhóis na ordem, explicando-lhes que a eliminação do IVA nos produtos básicos decidida pelo governo do lado foi um disparate. “Nós entendemos que não é forma de acontecer”, declarou quando confrontada com a medida. Mas lembrando-se talvez do fiasco que constituiu a venda de couves para o Império do Meio, acrescentou em português mais terra-a-terra: “De qualquer modo, estamos a avaliar”.

Éramos portanto, jovens, felizes e maioritariamente divertidos. A obsessão com a fidelidade ao marxismo-leninismo e a política pura, dura e partidária atenuara-se e até o PCP, fruto das circunstâncias, moderara a irritante mania de manipular as assembleias, avançando com pontos de ordem à mesa que exigiam votações quando os opositores às suas propostas se inscreviam para falar. O MRPP, por seu turno, deixara de bater nas pessoas que, fazendo prova de grande imprudência, colavam cartazes por cima dos seus cartazes com data de validade há muito caducada. (...)»

06/01/23

FRASES PARA EMOLDURAR

O governo pretende «estabelecer um circuito que permita evitar desconhecer factos que não estamos em condições de conhecer», António Costa.

ENTRE SER BURRO E FAZER DOS OUTROS BURROS VENHA O DIABO E ESCOLHA

Há uma nova polémica a envolver mais um secretário de Estado. Sem currículo, a não ser nas lides partidárias, aos 43 anos, Hugo Pires é chamado ao ministério do Ambiente, arrastando consigo, no mínimo, um lastro ambíguo no que respeita ao tratamento de lixos tóxicos.

Ora bem e por hipótese. Se eu em 2021 tivesse perdido a cabeça e dado um enxerto de criar bicho ao filho do meu vizinho, como poderia prever que em 2023 seria chamada para exercer um cargo na Comissão de Proteção de Crianças e Jovens?

MEDITAÇÃO DE SEXTA: «1, 2, 3 EXPERIÊNCIA»

«A primeira aparição em carne e osso, digamos assim, de HAL 9000, uma personagem/computador criada pelo escritor britânico Arthur C. Clarke, aconteceu no clássico de Stanley Kubrick, 2001, Odisseia no Espaço, chegado ao grande ecrã em Abril de 1968 estava a França a um mês de ensaiar uma revolução que exigia o impossível.

(...) Mais de meio século depois de HAL 9000, a mais badalada coqueluche da Inteligência Artificial é um chatbot que dá pelo nome de ChatGPT. Desenvolvido e aperfeiçoado pela OpenAI, surgiu em Novembro de 2022 e poucos dias após ter sido lançado já alimentara a conversa de mais de um milhão de utilizadores.

Confesso que no que toca à utilização de chats, a minha curtíssima experiência recua aos seus tempos primordiais, quando a troca de mensagens escritas tinha por trás seres humanos (sabendo-se embora que em muitos casos, se não a maioria, os seus perfis haviam sido aprimorados, para não dizer aldrabados), e terminaria abruptamente mal começara quando um moço que se dizia na Suíça me perguntou: Donde teclas? A minha sensibilidade à língua não aguentou o embate da nova forma verbal e deixei o interlocutor sem resposta entregue à maçadoria helvética.

Leio agora que o ChatGPT leva a cabo uma revolução nunca vista, inimaginável sequer pelos franceses que em Maio de 68 exigiam o impossível. (...)»

05/01/23

NÂO SE PODE IR JANTAR ARROZ DE LINGUEIRÃO QUE CAI LOGO UM MEMBRO DO GOVERNO

Leio que a segunda titular de um calote ao Fisco se demitiu passadas 25 horas de ter sido nomeada para secretária de Estado do ministério a que preside a ministra das Couves.

Dois comentários.
1. A senhora diz que não tem «condições políticas e pessoais para iniciar funções no cargo». E agora repare-se que só passou a não ter condições para o cargo que aceitou depois do calote vir a público. Antes disso, nem se lembraria do nome do marido!
2. A ministra das Couves fez saber que a demissão foi «prontamente aceite». Leio «prontamente aceite», lembro-me d' «As Farpas» de Eça e Ramalho e escangalho-me a rir.
A propósito: o arroz de lingueirão fui eu que o fiz e estava de estalo!

ISTO, ALÉM DE ESTAR TUDO LIGADO, TAMBÉM BATE TUDO CERTO

Quando o nosso Lawrence da Arábia dá pelo nome de Ronaldo, queriam caviar na política?



02/01/23

REMODELAÇÃO GOVERNAMENTAL: A HISTÓRIA DA CAROCHINHA ACTUALIZADA A 2/01/2023

Horas esteve à janela de S. Bento António Costa.

Demandava, como no conto popular infantil:

— Quem quer casar com a Carochinha, que é rica e formosinha?

Ninguém o levava a sério.

Já noite, passou o Galamba.

— Quero eu, quero eu!

E foi assim. Casaram. E Galamba foi a ministro.

30/12/22

PARA MEMÓRIA FUTURA


 

MEDITAÇÂO DE SEXTA: «DA CIDADE E DO CAMPO»

«Se a vida lhe der limões, faça uma limonada, recomendam os aficionados do doutor Pangloss. E agora numa versão pessoalíssima, que me absolvam os vegans irredutíveis: se um vizinho lhe der um galo descabeçado, depene-o!

(...) Mas não seria sequer tema – o tema do galo descabeçado com penas – se não aproveitasse a ocasião para invocar os versos iniciais do conhecido e certeiro poema As Pessoas Sensíveis de Sophia de Mello Breyner: “As pessoas sensíveis não são capazes / De matar galinhas /Porém são capazes / De comer galinhas”.

Há coisas que, parecendo que não, batem sempre certo. Por exemplo. Quando perguntada há dias sobre qual o livro que gostaria de receber de presente no Natal, Catarina Martins, do Bloco de Esquerda, referiu a este jornal Misericórdia de Lídia Jorge, acrescentando: “Presumo que seja emocionalmente duro, mas também por isso mesmo”. E como assim se prova, a distância entre literatura, leitores sensíveis e galinhas sem cabeça não é tão grande quanto imaginar se possa. (...)»

23/12/22

«ATRÁS DOS LIVROS, VÊM LIVROS»

«... Tenho para mim que se a actual ditadura do relativismo gnosiológico teve início há décadas, quando a frase “isso é a tua opinião” começou a ganhar foro de cidadania nos jantares de família ainda os adeptos da teoria da Terra Plana cabiam todos numa garagem aos Olivais em Lisboa, a decadência da crítica acentuou-se visivelmente com a atribuição de “estrelas” aos livros, uma ideia roubada ao star system que, por volta dos anos 20 do século passado, se apercebeu que a promoção da imagem das estrelas de cinema fazia bilheteira. Além de ser uma ideia provecta, permito-me duvidar da sua eficácia no que respeita a literatura. Afinal, que escritor se poderá reclamar do glamour de James Dean ou Grace Kelly, ou mostrar-se capaz de impingir cápsulas de café com a competência de um Clooney? (...)»

MEDITAÇÃO DE SEXTA: «UF! 2022 CHEGA AO FIM»

 «... Por falar em camelos, se há notícia recente capaz de nos dar a dimensão real do estado a que isto chegou é a do anúncio feito por Donald Trump de que iam ser postas à venda cartas digitais coleccionáveis em que ele próprio, ex-presidente dos Estados Unidos (sublinho, dos Estados Unidos) aparece vestido, entre outras figuras, à John Wayne, Super-Homem, astronauta ou com um modesto fato e gravata. O anúncio foi antecedido de grande expectativa.

Havia quem apostasse que Trump ia finalmente anunciar a sua recandidatura à Casa Branca, cogitou-se que anunciaria o fim da guerra na Ucrânia para o Natal, alguns ufólogos trumpistas garantiam que iria reconhecer em público ter sido raptado em pequenino por extraterrestres e daí os seus superpoderes. (...)»