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10/03/23

MEDITAÇÃO DE SEXTA: «Penélopes de todo o mundo, uni-vos!»

« (...) Escudo-me em Kafka (quando pedimos amparo a alguém, convém pedi-lo aos maiores). E se o checo pôde anotar no seu Diário (entrada de 2 de Agosto de 1914): “A Alemanha declarou guerra à Rússia. À tarde, piscina”, que me seja permitido escrever: a Rússia declarou guerra à Ucrânia. Desde então, crochet e mais crochet.

Venho sobretudo fazer a apologia do trabalho manual. O surgimento de uma forma nascida de uma massa informe. Garanto que é um milagre.

No caso específico do crochet, digamos que alia a tecedura às artes da aritmética e da geometria. Como fazer um quadrado em crochet? Um círculo? Um losango? Uma oval? E como montar losangos de maneira a criar um rectângulo, um quadrado? Todo um processo de cálculos, aumentos e diminuições que convoca as mãos e a abstracção. Afinal, o filósofo antigo Eratóstenes de Cirene não chegou à circunferência terrestre preso a equações abstrusas, mas agarrando numa vara e fazendo-se à estrada.

E se falo de equações abstrusas é para regressar a Mário Cesariny, esse poeta sábio e desconcertante que deixou dito: “… o homem precisa da mulher. É a tragédia dele. Inventou a Matemática, a Aritmética, a aviação, a Nona Sinfonia, a ida à Lua… (…) Ela, muito quietinha em casa, a tratar de coisas importantes, como a comida e a roupa, enquanto o sábio está a chorar frente às equações.” (in Uma Última Pergunta — Entrevistas com Mário Cesariny (1952-2006), Sistema Solar, 2020). 

Ora, caro Mário, quietinhas em casa, digo-lhe eu, muita aritmética é precisa para fazer um crochet flower granny square! (...)»

15/04/12

A Balada do Desempregado Lusitano

Creio que foi através de Kundera que tomei conhecimento das sonoras gargalhadas que terão dado Kafka e seus amigos quando o autor de A Metamorfose leu em voz alta as aventuras de Gregor Samsa, o pobre caixeiro-viajante que um dia acorda transformado num insecto.
Veio a guerra e o humor foi sendo varrido da leitura dos textos do judeu de Praga, para dar lugar ao pesadelo da angústia e do absurdo que a sua obra premonitoriamente antecipara.
Kafkianos nos tornámos, kafkianos somos. Mas porque o humor, por muito negro, não pode ser descartado, dei por mim a levar à letra o haiku do Millôr Fernandes (o cético sábio sorri só com um lábio), ao tropeçar nas declarações de Peter Weiss, chefe-adjunto da missão da troika em Portugal, que, a dado passo, sugere que o aumento do desemprego se deverá, quem sabe, ao facto de os trabalhadores portugueses andarem a pedir encarecidamente para serem despedidos:
“Pode até acontecer a pedido dos trabalhadores, que é claro que estão interessados em ter uma maior duração do subsídio de desemprego, que pedem em vez de me despedir em Abril, despeça-me em Março – pode ser isso. Isto está sempre aacontecer: quando se aumenta os impostos sobre o tabaco, as pessoas começam a comprar cigarros. É um comportamento normal. Não temos quaisquer provas disso, avancei isso como uma das razões, porque, como disse, nós não entendemos completamente os números”.

Não tenho provas se este Peter Weiss fuma (o outro era dramaturgo e cachimbava), mas se o faz, anda decerto a fumar substâncias não homologadas. Só isso explicará o seu extraordinário raciocínio.
E dado que somos bem entrados em Abril, o mais cruel dos meses, deixo a pergunta: já foi despedido (ao preço antigo) o chefe-adjunto?

09/04/11

A culpa foi do macaco

Fora O Processo escrito, não pelo Franz Kafka mas por um autor português, o mais provável seria que Josef K. não morresse no fim “como um cão”, antes continuasse a deambular até hoje pelos corredores dos tribunais feito Sísifo.
Sísifo — o grego espertalhaço que Camus usou para escrever um ensaio cuja frase de abertura (Existe apenas um problema filosófico verdadeiramente sério: o suicídio) se tornou há muito num dito de salão, à imagem dos girassóis de van Gogh reproduzidos ad nauseam nos posters da minha juventude tendo por único rival a fotografia do Che tirada pelo Alberto Korda, caracóis, boina e olhar oblíquo — acabaria a carregar para todo o sempre uma pedra, monte acima monte abaixo, castigo dos deuses que lhe provavam, assim, que quem se metia com eles lixava-se.
Este cultivado intróito serve apenas para nos conduzir à variante popular da frase de outro francês, Sartre: O Inferno são os outros, tirada dramática que em português vernáculo se poderia traduzir por “a culpa morreu solteira”.
Não será por mal. Os portugueses parecem sofrer de uma dificuldade congénita em lidar com a finitude das coisas (que melhor exemplo do que o mito sebastianista?), o que talvez possa advir, sabe-se lá, do facto de termos nascido num país aberto à imensidão oceânica.
Em alternativa, há quem invoque uma bipolaridade tipicamente lusa — ora arrotamos passadas glórias ora nos queixamos das varizes —, efeito ou causa (os especialistas dividem-se) da inveja e desconfiança, esses flagelos nacionais encarnados no Chico esperto, figura, ela própria, ora também cheia de graça ora caída em desgraça (ver José Gil, Em Busca da Identidade — o Desnorte).
De malandreco inofensivo a mafioso de dimensão caseira ou mesmo internacional, tudo parece indicar, contudo, que o número dos pequenos Chicos espertos tende a ser ultrapassado pelo número dos grandes Chicos espertos. Até porque, parafraseando Aristóteles e Pimenta, dentro do pequeno Chico esperto estão em potência os grandes.