« (...) Escudo-me em Kafka (quando pedimos amparo a alguém, convém pedi-lo aos maiores). E se o checo pôde anotar no seu Diário (entrada de 2 de Agosto de 1914): “A Alemanha declarou guerra à Rússia. À tarde, piscina”, que me seja permitido escrever: a Rússia declarou guerra à Ucrânia. Desde então, crochet e mais crochet.
Venho sobretudo fazer a apologia do trabalho manual. O surgimento de uma forma nascida de uma massa informe. Garanto que é um milagre.
No caso específico do crochet, digamos que alia a tecedura às artes da aritmética e da geometria. Como fazer um quadrado em crochet? Um círculo? Um losango? Uma oval? E como montar losangos de maneira a criar um rectângulo, um quadrado? Todo um processo de cálculos, aumentos e diminuições que convoca as mãos e a abstracção. Afinal, o filósofo antigo Eratóstenes de Cirene não chegou à circunferência terrestre preso a equações abstrusas, mas agarrando numa vara e fazendo-se à estrada.
E se falo de equações abstrusas é para regressar a Mário Cesariny, esse poeta sábio e desconcertante que deixou dito: “… o homem precisa da mulher. É a tragédia dele. Inventou a Matemática, a Aritmética, a aviação, a Nona Sinfonia, a ida à Lua… (…) Ela, muito quietinha em casa, a tratar de coisas importantes, como a comida e a roupa, enquanto o sábio está a chorar frente às equações.” (in Uma Última Pergunta — Entrevistas com Mário Cesariny (1952-2006), Sistema Solar, 2020).
Ora, caro Mário, quietinhas em casa, digo-lhe eu, muita aritmética é precisa para fazer um crochet flower granny square! (...)»