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18/05/12

O coiso

Segundo o Ministro Álvaro, o coiso deve ser resolvido de mãos dadas, em irmandade, e meter patrões, trabalhadores, sindicatos, Estado e partidos à esquerda e à direita, numa espécie de orgia de grupo.
O Tó Zé acaba de ser convidado para o coiso e congratulou-se.

15/04/12

A Balada do Desempregado Lusitano

Creio que foi através de Kundera que tomei conhecimento das sonoras gargalhadas que terão dado Kafka e seus amigos quando o autor de A Metamorfose leu em voz alta as aventuras de Gregor Samsa, o pobre caixeiro-viajante que um dia acorda transformado num insecto.
Veio a guerra e o humor foi sendo varrido da leitura dos textos do judeu de Praga, para dar lugar ao pesadelo da angústia e do absurdo que a sua obra premonitoriamente antecipara.
Kafkianos nos tornámos, kafkianos somos. Mas porque o humor, por muito negro, não pode ser descartado, dei por mim a levar à letra o haiku do Millôr Fernandes (o cético sábio sorri só com um lábio), ao tropeçar nas declarações de Peter Weiss, chefe-adjunto da missão da troika em Portugal, que, a dado passo, sugere que o aumento do desemprego se deverá, quem sabe, ao facto de os trabalhadores portugueses andarem a pedir encarecidamente para serem despedidos:
“Pode até acontecer a pedido dos trabalhadores, que é claro que estão interessados em ter uma maior duração do subsídio de desemprego, que pedem em vez de me despedir em Abril, despeça-me em Março – pode ser isso. Isto está sempre aacontecer: quando se aumenta os impostos sobre o tabaco, as pessoas começam a comprar cigarros. É um comportamento normal. Não temos quaisquer provas disso, avancei isso como uma das razões, porque, como disse, nós não entendemos completamente os números”.

Não tenho provas se este Peter Weiss fuma (o outro era dramaturgo e cachimbava), mas se o faz, anda decerto a fumar substâncias não homologadas. Só isso explicará o seu extraordinário raciocínio.
E dado que somos bem entrados em Abril, o mais cruel dos meses, deixo a pergunta: já foi despedido (ao preço antigo) o chefe-adjunto?

06/04/12

Peter Weiss, se te encontrasse na rua dava-te uma lamparina

«Quanto ao aumento do desemprego, que atingiu os 15% e superou as previsões da própria “troika”, a explicação [de Peter Weiss, o chefe adjunto da missão da “troika”] é, no mínimo, peculiar: “Pode até acontecer a pedido dos trabalhadores, que é claro que estão interessados em ter uma maior duração do subsídio de desemprego, que pedem ‘em vez de me despedir em Abril, despeça-me em Março’ - pode ser isso. Isto está sempre a acontecer: quando se aumenta os impostos sobre o tabaco, as pessoas começam a comprar cigarros. Isto é um comportamento normal. Não temos quaisquer provas disso, mas avancei isso como uma das razões, porque, como eu disse, nós não entendemos completamente os números”.»
AQUI

18/03/12

"Contrariedades" — resumo já desactualizado da semana que passou ou de como Portugal não pára de mudar mas sem sair do mesmo sítio

Não será por falta de assunto mas o caso é que, resultado quiçá da chuva que teima em não cair, me sinto o avesso do Cesário, o qual, por esta altura, “cruel, frenético, exigente”, já teria fumado “três maços de tabaco/ Consecutivamente”.
A meteorologia atordoa-nos, a crise envolve-nos num spleen que não favorece os franchising. Talvez não venhamos a morrer de fome; definharemos certamente de tédio antes de pagar à troika.
Álvaro sai ou fica na “zona de conforto”? Cavaco disse ou não disse aquilo que disse ou não disse (quem, com este calor, conseguirá ler “na íntegra” o prefácio de “Roteiros VI” conforme sugestão do seu autor)? Aceitará Bruxelas que as vacas em “modo de produção biológico” se tornem, a pedido de Assunção Cristas, vacas em modo de produção semi-biológico (às 2ªs, 4ªs e 6ªs comem ração, nos outros dias comem feno)? Fará escola a expedita ideia de Pedro Mota Soares, ministro que, a propósito de lares para a 3ª idade, se propôs combater a solidão dos velhos aumentando o seu número por quarto, permitindo-lhes, assim, ficar bem mais juntinhos? Continuaremos a discutir o excessivo bom gosto da Parque Escolar até chegarmos à subjectividade do juízo estético kantiano? Manter-se-á Portugal no “bom caminho”, aquele que acaba de nos conduzir ao segundo lugar do pódio do desemprego dos países da OCDE, ou antes da silly season derrubaremos a pole position espanhola, motivo mais do que suficiente para ressuscitar o feriado do 1º de Dezembro? E a língua portuguesa? Prosseguirá ela em movimento acelerado, até que possamos, finalmente, escrever “aver” em vez de “haver”?
Tanta pomba assassinada, tanto assunto para Farpas e só nos saem casa(s) na escuridão e em minúsculas. A propósito, 2+2 já somam cinco?
Imagem daqui

14/01/12

“Vou-me embora pra Pasárgada”*

Começo por uma confissão: nunca fui do MRPP.
Se professei o maoismo, e professei-o (nobody's perfect), fi-lo sempre do lado dos bons (cf. por favor, A Vida de Brian).
Dito isto, e dito que teria uns 16 anos quando me raspei — tudo porque começaram com umas tretas da moral burguesa versus moral proletária e queriam obrigar a malta a casar-se ou, pelo menos, a ir virgem para o casamento —, acrescento que no que toca à arte dos graffiti avant Basquiat, e em matéria de slogans, o partido de Arnaldo Matos sempre se mostrou imbatível.

Vem isto a propósito das recentes declarações de Miguel Relvas que, dando como exemplo os jovens portugueses emigrados que encontrou em Moçambique, voltou a insistir na tecla do Pirem-se daqui!, Desamparem-me a loja! (e ai de quem insinuar que a palavra “loja” esconde alguma indirecta ao ministro, ou sequer à Maçonaria).

Lembrei-me, pois, ouvindo Relvas, do célebre slogan cunhado outrora pelo MRPP: “Nem mais um soldado para as colónias!
Na senda publicista de O’Neill, ocorreu-me: Nem mais um desempregado para as colónias!

E porque esta coisa de nos quererem pôr com dono me chateia, queria lembrar três coisas.
1. Já não há colónias;
2. «Nunca houve um encerramento geográfico como o de hoje. Quando se saía de Inglaterra, podia-se ir para a Austrália, a Índia, o Canadá; agora, deixou de haver autorização para trabalhar. O planeta fecha-se. Todas as noites, centenas de pessoas tentam entrar na Europa a partir do Magrebe. O planeta está em movimento, mas em que direção? Terrível, o destino atual dos refugiados. Deram-me a honra, na Alemanha, de fazer um discurso perante o governo. Terminei dizendo: "Senhoras e senhores, todas as estrelas se tornaram amarelas"» (George Steiner, “Télérama”, 12/12/2011);
3. Dados públicos apontam para cerca de meio milhão de portugueses desempregados sem subsídio. Entre os mais penalizados, estão todos os que têm cerca de 50 anos e não encontrarão trabalho.
Posto isto, Senhor Ministro, o que nos sugere? Já percebemos a parte do Raus! Agora o difícil é: fugir para onde?

* poema de Manuel Bandeira


05/11/11

Economia para inteligentes

Francisco Fernandes Lopes (1884-1969), médico olhanense caído no esquecimento mas de quem Almada Negreiros disse: “Ele está, para mim, no meio da primeira fila dos que estão à frente disto tudo”, foi um homem de qualidades raras.
Musicólogo, inventor nas horas vagas, poliglota e historiador sábio que se definia a si próprio como um “vulgaríssimo João Semana” guiava-se por um princípio: “Ir sempre ao fundo do fundo do contrafundo”. É um bom princípio.
Que estamos a ir ao fundo, ninguém o nega. Até o primeiro-ministro já veio dizer que empobreceremos. Inevitavelmente. De vitória após vitória, até à derrota final, slogan que tem até uma certa patine guevarista adequada na perfeição ao l’air du temps, um tempo em que os banqueiros citam Lenine.
Recordo: “O Lenine deve estar a rir-se à gargalhada no túmulo”, disse Fernando Ulrich, demonstrando que é um homem do mundo.
Eu, que estou como o Jesus Cristo do Pessoa (também nada sei de finanças…), gostaria, contudo, de deixar algumas perguntas (simples) numa tentativa, porventura vã, de cumprir o preceito de Lopes.
Quando o desemprego em Portugal, segundo dados do INE, se situa em 12,5%, como é que o aumento de meia hora de trabalho diário ajuda a combater o flagelo?
Andava eu a tentar perceber a quadratura do círculo, eis que chego a um estudo encomendado pelo Governo que garante que a medida aumentará em 4% a competitividade das empresas, o que logo me fez lembrar Garrett, perdão, Manuel Pinho, o ex-ministro da Economia que em tempos que já lá vão (?) foi à China pedir aos locais para investirem em Portugal porque a nossa mão-de-obra era barata.

Outra coisa que também não alcanço é isto.
Imaginemos que um qualquer leitor destas linhas aceita emprestar-me dinheiro. Agradeço, claro, "uma senhora é uma senhora", mas é-me imposta uma condição: não posso criar riqueza durante o período de tempo em que fico devedora.
Empobreça!, ordena-me o emprestador. E desculpem-me se pareço muito burra: mas como raio poderei pagar-lhe?
E foi então que Karl Kraus surgiu em meu auxílio: “Uma das causas mais comuns das doenças é o diagnóstico”.

03/02/09

Ambiguidas semânticas

Dpois de ler que o ministro do Trabalho e da Solidariedade Social disse hoje desconhecer que haja empresas a aproveitar a crise para fazer despedimentos, garantindo que se existirem serão "sancionadas", assaltou-me uma ciberdúvida.
Dado que o verbo sancionar é habitualmente usado no sentido de ractificar ou confirmar (dar sanção a...), embora o substantivo sanção também possa significar pena ou castigo, perguntei-me se José António Fonseca Vieira da Silva teria mesmo empregue a palavra no sentido menos corrente. E isto, não porque ponha em causa o domínio da língua do referido ministro, mas mais derivado ao facto de se preverem 230 milhões de desempregados em todo o mundo até ao final de 2009 (cerca de 50,5 milhões mais do que o número registado em 2007) e não me parecer que alguém esteja a ser "sancionado" por isso.
Robert Wyatt disse numa entrevista a Rui Tentúgal (Expresso/ Actual de 5/10/2007) que ao capitalismo não interessa que toda a gente morra à fome porque aí desaparecem os consumidores. Basta que as pessoas tenham dinheiro para comprar Coca-Cola, hamburgueres e discos da Britney Spears. Mas, com tanto desemprego, conseguirá Brit sobreviver? E nós com ela?