Este livro é uma pequena pérola. Não porque seja portátil — chega às 600 páginas — mas porque nos introduz a um Oriente expurgado de exotismos e misticismos de trazer por casa. Aliás, se há coisa que Disse-me um Adivinho prova à exaustão é o materialismo que subjaz à cultura chinesa (pragmática, tanto nos negócios como na acupunctura).A China, apesar da sua presença recorrente, não é, porém, tema exclusivo. O autor percorre uma Ásia em uniformização acelerada (Laos, Birmânia, Tailândia, Indonésia, Malásia…), sendo ainda assim capaz de nos dar a ver nuances, idiossincrasias e mesmo incompatibilidades (e essa é certamente outra das grandes atracções do livro). E consegue-o também por isto: porque, apesar da “uniformização acelerada”, o italiano Tiziano Terzani (1938-2004) viaja devagar.
Tudo começou quando um adivinho de Hong Kong o avisou que 1993 seria o ano de todos os perigos. Estava-se ainda em 1976 e na realidade todos os perigos se resumiam a um: o jornalista não deveria andar de avião. Passadas quase duas décadas, Terzani aproveitou a profecia e desacelerou a sua vida frenética de repórter de guerra e similares, no Vietname, no Cambodja, na China (de onde acabaria expulso), na Rússia e etc. Fez-se à estrada e ao mar e desse percurso longo nasceria Disse-me um Adivinho, declaração de amor sentida a um Oriente que se desfaz a olhos vistos, libelo contra o desenvolvimento a todo o custo, confissão de um homem inquieto e por vezes angustiado: “Não é de admirar que a depressão seja hoje um mal tão comum. É quase reconfortante. É sinal que no íntimo das pessoas ainda resta o desejo de serem mais humanas.”
No seu longo périplo, o italiano vai conjugando curiosidade com cepticismo, desconfiança com abertura de espírito. As suas recorrentes visitas a adivinhos — fio condutor da narrativa — são-nos descritas com humor e inteligência. Nada aqui é a preto e branco. A ironia do viajante ajuda ao resto.
A descrição de Singapura, “a cidade com mais robôs per capita do mundo” atinge o ponto: “(…) o que é que acontece na cabeça das crianças que crescem com a impressão de que há solução para todos os problemas e que tudo é, quanto muito, uma questão de software?” E, mais à frente, ainda sobre o Estado asiático exemplar: “Um dia descobre-se que esta cidade rica e moderna é enfadonha, sem cultura e sem arte? Vai-se buscar um general ao exército e faz-se dele ministro. Ele se encarregará de dar ordens para que a cultura e as artes floresçam.”
Inteligente, conhecedor, apaixonado, desencantado, o jornalista dá-nos a conhecer uma Ásia que perde identidade (e alteridade) mas que ainda assim nos surpreende, pejada de xãmas, astrólogos, yoguis, bruxos ou simples charlatães, tu cá tu lá com o mundo invisível, e na qual o próprio Terzani se liberta por momentos do seu corpo, guiado por um mestre budista ex-agente da CIA.
Estranhos são os caminhos abertos por um adivinho e estranhos são os caminhos dos homens.
Disse-me um Adivinho, Tiziano Terzani, Tinta-da-China