24/07/12
Faites vos jeux, rien ne vas plus
Após o que me pareceu um caloroso Good Morning!, estendi o passaporte para, segundos depois, me ver recambiada para uma sala inóspita onde aguardei três horas pela devolução do dito.
Às minhas insistentes perguntas sobre qual era o problema, a resposta resumia-se a um lacónico you must wait, madame, sente-se e ponto final, proferido por um representante da Lei, dois metros e 150 quilos, tal e qual como nos filmes. É nestas situações que uma pessoa fica a perceber quem manda.
Por fim, o funcionário chamou-me e devolveu-me o passaporte. E segurávamos ambos o precioso documento quando ele me pergunta o que é que eu ia fazer a Las Vegas.
Lembrei-me de “O Jogador” (a literatura acompanha-me sempre nos momentos críticos) e respondi-lhe gambling. Não era exactamente verdade, mas a piada saiu-me à mistura com um sorriso nervoso, tanto mais nervoso quanto li na cara do homem que a literatura russa não era a sua cup of tea.
Lá me safei às arrecuas e consegui apanhar a ligação para Las Vegas, delírio veneziano plantado no meio do deserto onde gambling e poesia se misturam: “Are you writing a poem?”, perguntam-me no Casino Royale, enquanto tomo nota de um informação qualquer.
Tudo isto me surgiu em catadupa ao ler que a Unibet lançou apostas online sobre a demissão de Relvas. O que, por sua vez, me lembrou um episódio contado por Mark Twain: um homem foi dar à viúva de Jo Toole a notícia da sua morte: “O Joe Toole vive aqui?” E quando a viúva respondeu que sim, ele disparou: “Quanto aposta que não?”
10/10/10
10/07/09
Só para vos fazer inveja: Dona Laura e o pudim voador
Voltarei mais tarde a Dona Laura. Por agora, transcrevo uma história. Como aperitivo.
"Quando me casei, aos 21 anos, era perfeitamente ignorante em matéria de cozinha. Fui morar em Houghton, uma cidadezinha mínina, no norte de Michigan, à beira do Lago Superior, nos Estados Unidos.
(...)
Durante muito tempo só usei receitas americanas, porque me sentia mais segura com a exatidão delas, o que não impedia, entretanto, que fizesse muita comida ruim, como galinha meio crua e macarrão cozido demais, até adquirir alguma prática.
(...)
Uma vez, ainda em Houghton, fiz uma coisa extraordinária: um pudim de claras! Fiz tudo como mandava o figurino e coloquei o pudim no forno em banho-maria. Quando devia estar pronto fui olhar. O pudim tinha sumido. Não sabia o que podia ter causado o fenómeno, mas descobri: o pudim tinha levantado voo - subiu e ficou grudado no teto do forno. Durante um tempão a casa ficou cheirando a açúcar queimado toda vez que se ligava o forno. Dessa vez a exatidão não funcionou."
08/07/09
01/07/09
A caminho de Paraty, depois dou notícias (entretanto, deixo-vos com impressões antigas...)
Paraíso, por exemplo. Sobretudo se se trata de um texto sobre viagens, logo ali apetece amaldiçoar o hiperbólico escriba, condenando-o, por exemplo, a três meses de férias na Quarteira. Para além de - quase sempre - se tratar de uma descarada patranha, deixa-nos sem distintivo face ao que poderá ser um resquício do Eden primordial. Digo resquício, visto que - é do Livro - do Paraíso não se sabe a geografia, na única certeza de que para lá não há passagens low cost.
O caso é este: Paraty poderia caber nessa categoria. Só que, dado o desgaste linguístico, ninguém iria acreditar. Abandonem-se, pois, os predicados e exponham-se os factos. E o facto é que chegámos lá de noite.
Com sonos acumulados, tanto eu como o fotógrafo concordámos em dormir cedo. Uma batida tremenda despertava-me passadas escassas horas, como se a minha cama (comigo lá dentro, e aí residia o problema) tivesse sido catapultada para um sambódromo adventício.
Não era Carnaval. Obrigada a regressar a uma dimensão do real onde todos, menos eu, pareciam divertir-se altamente ao ritmo de intermináveis cirandas – na origem, bailes de roça assistidos por viola, violão, cavaquinho e pandeiro de adufo, as mulheres rodando as saias e os homens sapateando tamancos de madeira enquanto o mestre virandeiro marca a cadência improvisando versos: imagine-se o estardalhaço! –, e quando já me dispunha, ensonada mas pragmática, a render-me ao «se não podes derrotá-los junta-te a eles», eis que a toada se torna mais tranquila, invocando sucessos melosos lá da década de 40... Eram umas três da manhã, eu ressuscitara ao som de um ô si balança/ ô si balança/ no si balançá/ ô si balança/ ô si balança/ prà lá e prà cá repetido à exaustão, por isso que se me seja dispensado o rigor discográfico.
No dia seguinte deslindava-se o motivo da festança: a cidade comemorava 335 anos de emancipação política e o que eu estivera a ouvir fora a Grande Ciranda de Paraty, e depois a Orquestra New York Society Band, a actuarem no Mercado do Produtor Rural, por acaso MESMO atrás do meu hotel. O fotógrafo, que não dera por nada, alojado noutra estalagem fora do centro histórico, nem por isso foi poupado ao ô si balança/ ô si balança/ no si balançá/ ô si balança/ ô si balança/ prà lá e prà cá que trauteei toda a manhã. Aguentou estoicamente até à hora do almoço. À sobremesa, depois de uma irrepreensível galinha de cabidela (a tradução local é "ao molho pardo"), arremeteu-me com um «Não se canta à mesa!» fulminante. E ameaçou amordaçar-me.
A primeira referência conhecida ao sítio de Paraty recua a 1554, data em que Hans Staden foi feito prisioneiro pelos índios desta região localizada no extremo Sul do Estado do Rio de Janeiro (a 248 quilómetros do Rio e 330 de São Paulo), aventura que deixou registada em Diário. Os seus habitantes originais eram os índios Guaianá, que se ficavam pela serra no Verão e desciam ao litoral durante o Inverno, ao encontro de clima mais ameno. A desova dos cardumes de tainhas e piratis (não confundir com paraty) durante o tempo fresco, era outra das razões que levava os Guaianá a acercarem-se do mar, que por aqui forma uma baía protegida.
Em língua tupi «paraty» significa golfo e, conhecido o costume dos indígenas de recorrerem aos acidentes geográficos para baptizar os lugares, fica esclarecida a toponímia da cidade. Desses ocupantes primitivos restam as aldeias de Tekoa Araponga, na Vila do Patrimônio, que reúne 40 Guarani, e a Aldeia de Tekon Tatim, onde vivem cerca de 100, ambas em Reservas Florestais Federais.
Foi esta última que tentámos visitar. A caminho de Paraty Mirim – lugarejo encantador a 17 quilómetros de Paraty, cujo porto serviu durante muito tempo para o desembarque ilegal de escravos, até entrar em decadência a partir do século XIX –, à beira da estrada de terra, não havia a certeza de lá podermos entrar. Dependia do pajé.
Esclareço. Aqui, os índios não vivem no meio das outras pessoas. A má consciência dos políticos levou-os a «ceder-lhes» terras onde, apesar das eventuais boas intenções, residem condenados a um ostracismo proteccionista. Assim, a gente vai na estrada, vê uma placa a dizer Propriedade Privada - Reserva Federal, umas pessoas sentadas junto a umas casas mesmo ali, e se quiser perguntar que dia é hoje?, por exemplo, tem de mandar um fax para Brasília pedindo autorização à FUNAI (Fundação Nacional do Índio). Isso, ou esperar que o pajé, que é o índio responsável pela aldeia, esteja bem-disposto e nos deixe aproximar.
Parado o jipe, Armando, guia credenciado conhecido por Vagão, e Miriam Cutz (a nossa incansável cicerone) avançam para tentar falar com o cacique (o termo não tem aqui sentido pejorativo). É então que uma criança se aproxima da viatura junto da qual eu e Henrique, o fotógrafo, aguardamos o resultado das negociações.
A biologia explicará, ou não, o meu instinto maternal exacerbado. Na circunstância, deu-me para pegar na criança ao colo e afastar-me do jipe, com a intenção de a entregar a alguém e desviá-la da estrada. Ao fim de meia dúzia de passos, sai-me ao caminho uma mulher mal-encarada – e mal oxigenada. Olha-me como se reconhecesse em mim um membro de alguma organização dedicada ao tráfego de menores e rosna: «Não podem tirar fotografias sem autorização». Eu não tenho máquina, carrego apenas um pequenino índio. Controlo um desejo primitivo de a esbofetear (que a biologia também explicará) e respondo que só pretendo proteger o bebé, que uma irmã (presumo) acaba de levar de volta. Entretanto, as negociações prosseguem. Vagão e Miriam não conseguem falar com o pajé. Barrados pelos dois responsáveis da FUNAI (além da mulher há um outro elemento, menos desagradável mas igualmente inflexível), acabamos todos por nos vir embora. «Se quiserem entrar (mas onde verá o homem a porta?!) mandem um fax para Brasília», relembra o sujeito da Fundação.
Coisas menos desagradáveis. Aparecida, por exemplo. Se a vida fosse um pouco mais cor-de-rosa, quem sabe ela partilhasse as passerelles com a própria Gisele Bundchen! A jovem surgiu-nos como uma aparição na cozinha do Sr. Arlindo Sacramento, velho de incríveis olhos azuis que tem como máxima de vida, brincar e caçoar não pega nada.
Moradores de uma pequena casa na serra, a caminho da Cachoeira da Pedra Branca, nos arredores de Paraty, recebem-nos com um hospitaleiro Sejam bem chegados!, oferecem-nos água e bananas doces e indicam-nos o caminho da queda de água onde não somos os únicos a mergulhar.
Tínhamos partido de manhã para conhecer a Estrada da Serra, nome pelo qual é conhecida a Estrada Real (ou Caminho do Ouro), troço de engenharia viária que explica por que razão Paraty teve importância fundamental na história brasileira, chegando a ser o segundo maior porto do país (e um segredo de Estado durante todo o século XVIII).
Dispomo-nos a repisar a via por onde os portugueses transportavam (obrigatoriamente, já que este era o único itinerário permitido) o ouro vindo do interior, de Minas Gerais, até ao porto de Paraty, e daí para Portugal via Rio de Janeiro. Calcetado por pedras enormes (a que chamam estilo pé-de-moleque), que o tempo e os elementos não conseguiram vencer, visitamos um trecho preservado de oito quilómetros.
Tudo parece ter tido início com a expedição de Martim Correa de Sá, em 1597, à frente de 700 europeus e 2 000 índios, visando refazer um antigo trilho dos Guaianás, que, por sua vez, teriam usado caminhos abertos pelos animais. Essa autêntica «via romana» (chegou a alcançar 1 200 quilómetros), viveu em permanente engarrafamento durante a febre do ouro que começou em 1700, juntando homens e animais de carga, escravos e salteadores, tropas e aventureiros, numa viagem que durava mais de 45 dias. No final do século XVIII, com a abertura do Caminho Novo, que chegava ao Rio via Petrópolis (onde se instala a Corte), mais o enfraquecimento do negócio do ouro, o Caminho de Paraty entra em declínio.
O silêncio é de chumbo. É difícil imaginar a azáfama que por aqui já se viveu, os gritos, os assaltos, as mortes, a fúria e o sangue dos homens arrebatados pelo metal precioso. As árvores têm um porte extraordinário, há plantas que se enroscam mal lhes tocamos, a água requebra-se em riachos cristalinos, um musgo vermelho-vivo garante a pureza absoluta do ar. A meio de uma subida mais íngreme, uma placa assinala «Canela Fedorenta». Ultrapassada a árvore, o insólito letreiro ganha todo o sentido: faz-se sentir um cheiro intenso a estrume, de que o nosso guia se diverte a testar o efeito. Uma vista belíssima sobre a baia de Paraty espera-nos no alto. Nesse dia almoçamos na Fazenda Murycana, que recua ao século XVII, eleita de D. Pedro I que nela pernoitou várias vezes acompanhado da amante, a Marquesa de Santos. Uma visita ao antiquíssimo engenho onde ainda hoje é produzida de forma artesanal a aguardente, envelhecida depois em pipas de carvalho e cerejeira, encerra o repasto.
Este é um dos seis engenhos que restam em Paraty, que já contou com mais de 100. Porque ao ciclo do ouro seguiu-se o da aguardente (depois, ainda, o do café), permanecendo esta a mais afamada do Brasil. Fazem os locais questão de precisar que na região «nunca se produziu cachaça mas pinga – que vem a ser aquela aguardente fabricada exclusivamente a partir da garapa, do caldo de cana fermentado e destilado, depois da fervura e evaporação, que pinga na bica do alambique».
Explicação dada, estamos agora a corroborá-la no Refúgio, onde se bebe a melhor caipirinha local. Dirigido por Zé Paulo, um conversador nato, o restaurante ocupa local privilegiado frente ao porto, em terreiro largo. O lugar certo para se estar ao final da tarde. «O meu avô era de Beirute, e com esta minha cara de rato árabe do deserto confundem-me com o Bin Laden. O Amyr Klink, por causa do nome, pensam que é parente do Sadam», graceja Zé Paulo.
Precisamente hoje, durante um passeio pelo mar, tinhamos avistado a ilha onde mora Klink, apenas uma entre as 65 que povoam a costa.
As serras, envolvas em névoa, vão-se aclarando à medida que a escuna avança, multiplicando-se ad infinito, como se deslizassemos num cenário pintado por Wang Fo. O recorte doce da paisagem, as formas arredondadas, as águas calmas, tudo isso explicará muito da leveza dos brasileiros, expostos a elementos que longe de se oporem aos homens antes parecem acolhê-los. Apesar do gigantismo dos morros que avistamos, é a mansidão que predomina sobre o medo que podemos imaginar ter assaltado os primeiros europeus aqui chegados.
Aparecida acompanha-nos e mergulha enquanto Henrique lhe testa a fotogenia. Um dos membros da tripulação regressa à superfície com estrelas-do-mar, explicando-nos que não se podem virar ao contrário porque morreriam. Uma mãe procura o filho à beira da histeria: «Meu filho afundou!» São apenas paulistas viciados no stress da cidade grande. Na ilha do Mantimento, do presidente da Fiat brasileira, junto à qual estamos ancorados, descobrem-se micos-leão dourados, uma espécie de macaco raríssima e em vias de extinção. Na ilha da Sapeca, o prazer do ócio degusta-se num tasco de madeira, enquanto um gato de olhos azuis disputa os restos do almoço a uma cadela chamada Menina.
A poucos metros, num outro ilhéu, adivinha-se uma construção de gosto duvidoso, misto de Taj Mahal e pagode chinês. Um dos tripulantes do barco explica-me que foi uma oferta a Collor de Melo, que teve um sonho de marajá. A casa terá envolvido corrupção, o nome de António Carlos, ex-governador da Bahia (petit nom, Toninho Malvadeza), a empresa de construção viária OAS (vulgarmente conhecida por «Obras Arranjadas pelo Sogro») e uma doação a um funcionário, entretanto falecido, cuja viúva decidiu não cumprir o «contrato». Ficou com a casa para ela. Um provérbio local garante: «Brasileiro estraga de dia, Brasil recupera de noite». Por enquanto, o sonho de marajá continua de pé.
Exactamente por motivos inversos é que Paraty foi declarada Monumento Histórico Nacional em 1966, segundo a UNESCO «o conjunto arquitectónico mais harmonioso do século XVIII no Brasil». O centro histórico, de planta em leque e cobrindo grande parte da cidade, é habitado e vivido pelos locais (não se tratando, portanto, de postal ilustrado para turistas).
Explode numa panóplia de cores formidável, com as casas listadas por azuis, bordeaux, verdes e amarelos, janelas protegidas por um delicado entrançado de madeira (muxaribe), símbolos maçónicos nas fachadas e nas esquinas, «calçamento pé-de-moleque» nas ruas cuja leve depressão central permite que as águas entrem e saiam de Paraty banhando-a nas marés de lua cheia, pequenas lojas, bons restaurantes de cozinha caiçara (um misto da culinária trazida pelos europeus e paladares índios), vegetação exuberante tombando do interior das casas, como é o caso da Rua do Fogo, assim conhecida por ter sido ponto de encontro de marinheiros e mulheres de «vida fácil».
E se foi o Caminho do Ouro que trouxe fama a Paraty, foi também, paradoxalmente, o seu declínio que a preservou. Quando, em 1885, é inaugurado o caminho de ferro entre São Paulo e o porto do Rio de Janeiro, Paraty apenas vê confirmada a sua queda.
Até há pouco tempo chegava-se aqui como no passado: de barco, vindo de Angra dos Reis, ou, a partir de 1950, por terra, via Cunha, por uma estrada que apenas era transitável quando não chovia, em parte decalcada sobre o velho caminho do ouro e do café. Fora já por esta que chegara, em 1929, o primeiro automóvel, incapaz, contudo, de fazer o percurso de volta. Um ano depois, a estrada seria destruída por tanques militares que se dirigiam a São Paulo durante a Revolução dos Trinta, só reabrindo ao fim de duas décadas.
«É sempre pelos caminhos que Paraty se salva e se perde», cita Diuner Mello, historiador local autodidacta, conhecedor dos meandros da cidade como poucos. E salvar-se-á novamente, já na década de 70, com a abertura da Rio/Santos, que a subtrai a quase um século de isolamento.
A poucos quilómetros, as praias da Trindade, em tempos famoso destino hippy, também só há pouco têm acesso por estrada alcatroada. Alternativa banhista às ilhas, trata-se de uma vila de pescadores sujeita a forte pressão imobiliária nos anos 70, quando foi palco que uma rocambolesca ocupação por parte de uma empresa multinacional, que meteu jagunços e tiroteio. O conflito foi parar à justiça e a Associação dos Moradores Nativos e Originários da Trindade conseguiu preservar a vila, encravada hoje no Condomínio de Laranjeiras, um casario de luxo privado guardado a metrelhadora e onde os moradores só usam helicóptero.
A nossa viagem está a chegar ao fim. Tomamos um copo de despedida no Refúgio e à terceira caipirinha uma enorme luz desaparece no firmamento sem deixar rasto.
Um parênteses. Para além de tudo o resto, que é imenso, Paraty é também conhecida pelo seu «clima peculiar». Abreviando: OVNIS, pessoas que se passeiam compulsivamente de madrugada pelas ruas curvas do centro, «cavalos de Diana que pastam nas praças a dor alheia» (e é verdade que os animais andam soltos à noite), passado maçónico, esquisites templárias, enfim, a habitual panóplia new age... Naquele momento, a beleza do lugar, o céu tão estranhamento aceso e, concedo, as caipirinhas, terão permitido que me enredasse nessas coisas improváveis.
O fenómeno gera controvérsia à mesa. Miriam reconhece não saber do que se trata, mas a verdade é que lhe pareceu grande de mais para estrela cadente. Henrique, positivo, recusa mistérios. Eu, a única que estava de costas para o «objecto», não sei o que dizer. Cito Zé Paulo, o rato do deserto: «Não existem problemas. Existem enigmas», uma frase roubada já nem ele se lembrava onde.
E é quando proponho a última caipirinha. Aquela. A tal. A one for the road. Juro.
18/07/07
Viva a silly season! Viva Paris!
Tante Marie tinha uma relação problemática com os parisienses. Vivia numa pequena quinta em Cognac (sim, exactamente aí onde se destila a excelência francesa do mesmo nome), rodeada de galinhas, patos e coelhos, orgulhosa das suas couves e das suas cenouras. No quintal, lembro-me, havia uma árvore que dava dióspiros.De regresso a Cognac, comprada uma imagem da Notre Dame que os anos e o chauffage haveriam de amarelecer, pouco tempo depois os alemães fariam a sua entrada triunfal na Cidade das Luzes, para se retirarem cumprido o banho de sangue que não pouparia Tante Marie à morte de um sobrinho, alguns vizinhos e conhecidos. Nunca perdoou aos boches, a quem odiava ainda mais do que aos parisien, e isso é já dizer tudo.
Mas nem os nazis ousaram reeditar a demência de Nero, o incendiador de Roma. Apesar da carnificina, Paris nunca chegou a arder.
Estávamos no Outono e eu desesperava no meio de uma multidão mestiça por encontrar o «meu» blusão. O amigo que me acompanhava desesperava ainda mais do que eu.
Foi então que avistei uma tenda de chapéus. Milhares de chapéus. Chapéus de todas as formas e feitios, usáveis e menos usáveis, de colecção, de teatro, masculinos e ultrafemininos, de Verão e de Inverno, em bom ou mau estado... enfim, uma tenda-paraíso para apreciadores dos ditos. É o meu caso. Eu adoro chapéus, ainda que reconheça que é difícil usá-los.
A mulher atrás do improvisado balcão aproximou-se de mim naquele jeito nonchalance que só as temíveis consièrges parisienses parecem não praticar. Explico-lhe que vim à procura de um blusão de cabedal e que não posso agora trocá-lo por um objecto tão inversamente delicado como um chapéu. A resposta saiu-lhe pronta: Ah, mais justement, ça serait très féminin!
A incoerência convence-me. Regresso de Clignancourt com um chapéu negro de amazona de véu comprido a flutuar ao vento....
Nessa noite, ao entrar no Le Mazet, bar que então frequentávamos no Quartier Latin (mesmo ao lado do Le Procope, o café mais antigo de Paris, eleito de Rousseau e Voltaire, só para não ir mais longe), e onde nos deliciávamos com balões aquecidos de Cognac que nos provocavam arroubos de nostalgia à lembrança de Tante Marie, o dono precipita-se do balcão e dirige-se-me de braços abertos: Mademoiselle, vous êtes ravissante!
Em que outra cidade do mundo nos acolheriam desta forma, só por trazermos na cabeça um despropositado chapéu visivelmente encombrant?
Foi precisamente aí, numa das suas margens, que Flaubert marcou o encontro decisivo entre os dois manga-de-alpaca (Tiens: des carottes! Ah! Des choux!), aquele que os levaria depois à comunhão suspirosa de quão bem estariam no campo!
Quanto a nós, há já alguns parágrafos que abandonámos Tante Marie, rendidos à beleza desta cidade que guarda, para além dos imensos boulevards rasgados por Haussmann, recantos como este, onde o tempo se submete ao ritmo lentíssimo do escoar das águas pelas comportas abertas, fazendo-nos recuar a essa tarde novecentista em que Bouvard e Pécuchet iniciam o mais maravilhoso de todos os livros inacabados.
Paris. Decididamente burguesa. Ostentatória. Por vezes arrogante e demasiado formal. Cidade onde até o garçon de café se crê herói da Comuna, isto sem demérito para os garçons nem excessiva admiração por aquela, que, como se sabe, fez bastante mais vítimas para além de Antonieta, rainha que terá subido ao cadafalso na que hoje se chama Place de la Concorde sem perceber sequer o que lhe acontecia. Cidade onde já foi o tempo em que «as coisas não acontecem de todo se não acontecem em Paris». Mas caramba! Mesmo enterrada a boémia que caracterizou durante anos esta capital, quem não se comover com o we always have Paris! que mande este texto às urtigas.
Foi então que fez a sua aparição o clochard, encarnação perfeita de Michel Simon em Boudu Sauvé des Eaux.
Isto passa-se, portanto, no tempo em que ainda existiam Bastos legère sans filtre e vagabundos por conta própria. O homem dirige-se para os corpos confundidos. Toca nas costas do rapaz. Não há resposta. Toca de novo. Nada. Abana-o já com algum vigor quando um rosto ruborizado e de cabelos desgrenhados se destaca no meio da confusão de braços e pernas.
Oui? Tens um cigarro? O rapaz está levantado e revista os bolsos enquanto a namorada compõe a blusa. Não tinhas deixado de fumar?, diz-lhe ela. Ah! Mais oui, mais oui, responde-lhe ele às voltas com as mãos inúteis. O clochard encolhe os ombros e segue. Passa por mim. Eu estou ainda a fumar. Tu as vu les amoureux?, confidencia-me en passant. Não repara sequer que lhe estendo o maço.
17/07/07
Livros com viagens dentro. Viva a silly season!
Robyn Davidson tinha um sonho desde menina. Atravessar o deserto australiano montada num camelo. Concretizou-o aos 27 anos e depois escreveu um livro de uma inteligência à prova de fogo. Foi trazido para Portugal pela Quetzal em 1999, sob o título Trilhos. É uma grande leitura de Verão, de preferência ao fresco.Viva a silly season! Viva Paraty!
Há palavras cujo uso - ad nausea - banalizou de tal forma o seu significado que, quando nelas tropeçamos, o fundo de censor que habita cada um de nós, se menos reprimido, não resistiria a puxar do lápis azul, numa versão moderada do outro que puxava do revólver.Não era Carnaval. Obrigada a regressar a uma dimensão do real onde todos, menos eu, pareciam divertir-se altamente ao ritmo de intermináveis cirandas – na origem, bailes de roça assistidos por viola, violão, cavaquinho e pandeiro de adufo, as mulheres rodando as saias e os homens sapateando tamancos de madeira enquanto o mestre virandeiro marca a cadência improvisando versos: imagine-se o estardalhaço! –, e quando já me dispunha, ensonada porém pragmática, a render-me ao «se não podes derrotá-los junta-te a eles», eis que a toada se torna mais tranquila, invocando sucessos melosos lá da década de 40... Eram umas três da manhã, eu ressuscitara ao som de um ô si balança/ ô si balança/ no si balançá/ ô si balança/ ô si balança/ prà lá e prà cá repetido à exaustão, por isso que se me seja dispensado o rigor discográfico.
No dia seguinte deslindava-se o motivo da festança: a cidade comemorava 335 anos de emancipação política e o que eu estivera a ouvir fora a Grande Ciranda de Paraty, e depois a Orquestra New York Society Band, a actuarem no Mercado do Produtor Rural, por acaso MESMO atrás do meu hotel. O fotógrafo, que não dera por nada, alojado noutra estalagem fora do centro histórico, nem por isso foi poupado ao ô si balança/ ô si balança/ no si balançá/ ô si balança/ ô si balança/ prà lá e prà cá que trauteei toda a manhã. Aguentou estoicamente até à hora do almoço. À sobremesa, depois de uma irrepreensível galinha de cabidela (a tradução local é «ao molho pardo«), arremeteu-me com um «Não se canta à mesa!» fulminante. E ameaçou amordaçar-me.
Em língua tupi «parati» significa golfo e, conhecido o costume dos indígenas de recorrerem aos acidentes geográficos para baptizar os lugares, fica esclarecida a toponímia da cidade. Desses ocupantes primitivos restam as aldeias de Tekoa Araponga, na Vila do Patrimônio, que reúne 40 Guarani, e a Aldeia de Tekon Tatim, onde vivem cerca de 100, ambas em Reservas Florestais Federais.
Parado o jipe, Armando (guia credenciado), conhecido por Vagão, e Miriam Cutz (a nossa incansável cicerone) avançam para tentar falar com o cacique (o termo não tem aqui sentido pejorativo). É então que uma criança se aproxima da viatura junto da qual eu e Henrique, o fotógrafo, aguardamos o resultado das negociações.
A biologia explicará, ou não, o meu instinto maternal exacerbado. Na circunstância, deu-me para pegar na criança ao colo e afastar-me do jipe, com a intenção de a entregar a alguém e desviá-la da estrada. Ao fim de meia dúzia de passos, sai-me ao caminho uma mulher mal-encarada – e mal oxigenada. Olha-me como se reconhecesse em mim um membro de alguma organização dedicada ao tráfego de menores e rosna: «Não podem tirar fotografias sem autorização».
Eu não tenho máquina, carrego apenas um pequenino índio. Controlo um desejo primitivo de a esbofetear (que a biologia também explicará) e respondo que só pretendo proteger o bebé, que uma irmã (presumo) acaba de levar de volta. Entretanto, as negociações prosseguem. Vagão e Miriam não conseguem falar com o pajé. Barrados pelos dois responsáveis da FUNAI (além da mulher há um outro elemento, menos desagradável mas igualmente inflexível), acabamos todos por nos vir embora. «Se quiserem entrar (mas onde verá o homem a porta?!) mandem um fax para Brasília», relembra o sujeito da Fundação.
Moradores de uma pequena casa na serra, a caminho da Cachoeira da Pedra Branca, nos arredores de Paraty, recebem-nos com um hospitaleiro Sejam bem chegados!, oferecem-nos água e bananas doces e indicam-nos o caminho da queda de água onde não somos os únicos a mergulhar.
Tínhamos partido de manhã para conhecer a Estrada da Serra, nome pelo qual é conhecida a Estrada Real (ou Caminho do Ouro), troço de engenharia viária que explica por que razão Paraty teve importância fundamental na história brasileira, chegando a ser o segundo maior porto do país (e um segredo de Estado durante todo o século XVIII).
O silêncio é de chumbo. É difícil imaginar a azáfama que por aqui já se viveu, os gritos, os assaltos, as mortes, a fúria e o sangue dos homens arrebatados pelo metal precioso. As árvores têm um porte extraordinário, há plantas que se enroscam mal lhes tocamos, a água requebra-se em riachos cristalinos, um musgo vermelho-vivo garante a pureza absoluta do ar. A meio de uma subida mais íngreme, uma placa assinala «Canela Fedorenta». Ultrapassada a árvore, o insólito letreiro ganha todo o sentido: faz-se sentir um cheiro intenso a estrume, de que o nosso guia se diverte a testar o efeito. Uma vista belíssima sobre a baia de Paraty espera-nos no alto. Nesse dia almoçamos na Fazenda Murycana, que recua ao século XVII, eleita de D. Pedro I que nela pernoitou várias vezes acompanhado da amante, a Marquesa de Santos. Uma visita ao antiquíssimo engenho onde ainda hoje é produzida de forma artesanal a aguardente, envelhecida depois em pipas de carvalho e cerejeira, encerra o repasto.
As serras, envolvas em névoa, vão-se aclarando à medida que a escuna avança, multiplicando-se ad infinito, como se deslizassemos num cenário pintado por Wang Fo. O recorte doce da paisagem, as formas arredondadas, as águas calmas, tudo isso explicará muito da leveza dos brasileiros, expostos a elementos que, longe de se oporem aos homens (como no México, oh lá lá!), antes parecem acolhê-los. Apesar do gigantismo dos morros que avistamos, é a mansidão que predomina sobre o medo que podemos imaginar ter assaltado os primeiros europeus aqui chegados.
Aparecida acompanha-nos e mergulha enquanto Henrique lhe testa a fotogenia. Um dos membros da tripulação regressa à superfície com estrelas-do-mar, explicando-nos que não se podem virar ao contrário porque morreriam. Uma mãe procura o filho à beira da histeria: «Meu filho afundou!» São apenas paulistas viciados no stress da cidade grande. Na ilha do Mantimento, do presidente da Fiat brasileira, junto à qual estamos ancorados, descobrem-se micos-leão dourados, uma espécie de macaco raríssima e em vias de extinção. Na ilha da Sapeca, o prazer do ócio degusta-se num tasco de madeira, enquanto um gato de olhos azuis disputa os restos do almoço a uma cadela chamada Menina.
Até há pouco tempo chegava-se aqui como no passado: de barco, vindo de Angra dos Reis, ou, a partir de 1950, por terra, via Cunha, por uma estrada que apenas era transitável quando não chovia, em parte decalcada sobre o velho caminho do ouro e do café. Fora já por esta que chegara, em 1929, o primeiro automóvel, incapaz, contudo, de fazer o percurso de volta. Um ano depois, a estrada seria destruída por tanques militares que se dirigiam a São Paulo durante a Revolução dos Trinta, só reabrindo ao fim de duas décadas.
A poucos quilómetros, as praias da Trindade, em tempos famoso destino hippy, também só há pouco têm acesso por estrada alcatroada. Alternativa banhista às ilhas, trata-se de uma vila de pescadores sujeita a forte pressão imobiliária nos anos 70, quando foi palco que uma rocambolesca ocupação por parte de uma empresa multinacional, que meteu jagunços e tiroteio. O conflito foi parar à justiça e a Associação dos Moradores Nativos e Originários da Trindade conseguiu preservar a vila, encravada hoje no Condomínio de Laranjeiras, um casario de luxo privado guardado a metrelhadora e onde os moradores só usam helicóptero.
A nossa viagem está a chegar ao fim. Tomamos um copo de despedida no Refúgio e à terceira caipirinha uma enorme luz desaparece no firmamento sem deixar rasto.
O fenómeno gera controvérsia à mesa. Miriam reconhece não saber do que se trata, mas a verdade é que lhe pareceu grande de mais para estrela cadente. Henrique, positivo, recusa mistérios. Eu, a única que estava de costas para o «objecto», não sei o que dizer. Cito Zé Paulo, o rato do deserto: «Não existem problemas. Existem enigmas», uma frase roubada já nem ele se lembrava onde.
E é quando proponho a última caipirinha. Aquela. A tal. A one for the road. Juro. Mas ninguém me acredita. Vá-se lá saber porquê.
14/07/07
Viva a silly season! Viva Madrid!
Terminado o almoço, os sentidos, viciados no prazer da nicotina, reclamam por um Monte Cristo. O amigo do fotógrafo acende a cigarrilha com manifesta volúpia e o cheiro intenso do tabaco sobrepõe-se ao aroma discreto do café solo - que em Espanha bebem-no de preferência con leche. Na mesa ao lado, um homem de provecta idade termina, também ele, a refeição. O fotógrafo faz um sinal ao amigo que logo tenta contrariar a direcção do fumo, sacudindo desajeitadamente a mão em movimentos nervosos. Ao notar o embaraço, o caballero ― mais do que o dramatismo da língua, o que aqui nos surpreende é o recorte preciso das palavras ― logo exclama: No se preocupe! Fume usted lo que quiera. Yo ya no puedo fumar pero el humo me estimula... Este é o espírito da coisa.Si, claro, por mañana, si. O dono, de uma simpatia e profissionalismo à prova de bazuca, passeia-me pelas duas salas, pergunta-me que mesa prefiro, toma nota da reserva. No dia seguinte acolhe-me como se me reconhecesse da minha primeira infância. Pronuncia o meu nome com as letras todas ― Cris-ti-na!
Rosa Maria, uma madrilena bem-disposta que nos acompanhou no périplo pelas tabernas históricas, elege as mais reputadas. Casa Labra, onde foi fundado em 1879 o Partido Socialista Operário Espanhol; Taberna Café La Fontana de Ouro, hoje transformada em «bar irlandês», embora mantendo a arquitectura e os azulejos originais; Casa Alberto, no mesmo edifício onde se pensa ter vivido Cervantes... Já não estava connosco quando entrei na Taberna de Ángel Sierra e pude confirmar, mais de um ano após aí ter estado com amigos de boa memória num final de tarde chuvoso, que o vermú continua a ser servido do barril.
12/07/07
Viva a silly season! Viva Las Vegas!
«Today», uma publicação gratuita que se apresenta como a mais votada e mais bem informadada visitor guide, exibe no seu interior um intrigante anúncio. Logo na quarta página, um convite a duas colunas para a «a maior exposição de Marc Chagall jamais realizada na América». Na galeria, dezenas e dezenas de esboços, desenhos e alguns quadros dispõem-se pelas paredes. Os que faltam, para perfazer os duzentos anunciados, amontoam-se pelo chão. Atónita, eis que um homem se aproxima - magro, cabelos apanhados na nuca, óculos de excelente design e fato de melhor corte - tomando a iniciativa de se me dirigir.
«Gosta de Chagall?», e eis que fico sem palavras. Adoro Chagall! - em tom blasé - seria a deixa apropriada? «As pessoas adoram Chagall!», antecipa-se o galerista. Eu vou olhando umas figuras a carvão que retratam os pecados mortais. «É uma série», explica-me. «Os pecados não estão identificados, embora algumas sejam fáceis de adivinhar. O preço pelo conjunto é, evidentemente, negociável. Já tem algum Chagall na sua colecção?»
Começo, finalmente, a entrar no espírito da coisa. Mostra-me as autenticações. «Temos tido imensos compradores. As pessoas, simplesmente, adoram Chagall!», repete-se. «Ao contrário do Picasso. O mês passado tivemos uma exposição e houve quem viesse de propósito só para nos dizer como o detestava!»
Bom, na verdade, até Andy Warhol - Guillermo Cabrera Infante, O Livro das Cidades, capítulo «Viva Las Vegas» - não aguentou o ritmo. E Andy não ficou para a história por ser um menino de coro.
Se me perguntassem agora: «Com o que é que se parece Las Vegas?», só poderia responder: «Las Vegas não se parece com nada.» Recorrendo ainda a Cabrera Infante: «Disse-se que Las Vegas é um caleidoscópico arraial de luzes coloridas. Mas isso não basta. Las Vegas é a única cidade do mundo em que as luzes de néon e as lâmpadas são a arquitectura.»
Confirmam-se as palavras do escritor cubano do cimo da torre do Hotel-Casino Stratosphere (350 metros de altura obrigatórios). Isto de noite, naturalmente. Mas há que subir também à claridade do dia para termos a exacta dimensão do delírio. Porque se do pó viemos ao pó voltaremos. Assim está escrito. E o deserto continua lá.
Na Strip será preciso esquecer tudo o que julgávamos ser um hotel ou um casino (estão excluídos os que conhecem os locais de jogo no Oriente), e levar um mapa para não nos perdermos no interior destas labirínticas cavernas platónicas onde o sol não entra (ou não o suficiente para se ter uma Ideia do calor que faz lá fora).
No Paris, uma perna da Torre Eiffel assenta na sala de jogo, as outras duas no passeio público amparando o Arc de Triomphe, o Louvre, a Place de la Concorde e outros clichés; no Caesars Palace (onde Dustin Hoffman, o irmão autista, quase leva a casa à bancarrota - obviamente, uma contradição nos termos), a piscina evoca as termas de Pompeia e uma estátua de César Augusto espera-nos à entrada - Os Que Vão Perder Te Saúdam!, digo eu; o Luxor reproduz em tamanho natural a pirâmide de Gizé, e a Esfinge, também com as medidas exactas, vigia a entrada do hotel; no New York New York podem-se tirar fotografias ao lado da Estátua da Liberdade e ninguém notará a diferença; o Mandalay Bay inspira-se na Birmânia e esconde uma lagoa artificial de tamanho suficiente para nela caberem duas praias de águas tranquilas e uma com ondas de sete metros para surfar no deserto; no MGM Grand (com 5005 quartos - o maior hotel do mundo até à construção do Venitian), meia dúzia de leões passeia-se numa jaula envidraçada, rugidos dobrados e falhos de sincronia que ressoam desgraçadamente pelo lobby; o Venetian (agora à frente, com seis mil acomodações), que veio substituir o mítico Sands onde Sinatra costumava actuar e que chegou a fazer parte do testamento de Hughes, encontrou modelo na cidade italiana, reproduzindo a Praça de São Marcos, as pontes, e até um canal de 400 metros onde casais se passeiam de gôndola sem risco de submergirem, a não ser nas lojas de marca e galerias; The Mirage decidiu-se por uma gigantesca cascata num jardim de mais de mil palmeiras onde, de noite, de 15 em 15 minutos, um vulcão vomita fogo; no Treasure Island evocam-se piratas e na baía em frente ao hotel, onde estão ancorados dois navios, diariamente entre as 16h e as 21h30 os bons do HMS Brittania atacam os maus do Hispaniola (ou será o contrário?).
Perante o que me parece ser uma demência encartada, o histórico Flamingo passa por um exemplar de discretíssimo classicismo... E tudo aqui é tão fake que, antes de ver realmente vistos os pássaros que saltitam por Las Vegas - uma variante de corvos -, apostei que o seu intenso chilrear vinha de uma gravação dissimulada por entre a folhagem das árvores.
De slot machines passaram, nos anos 50, a one-arm bandits (bandidos de um só braço) e juro que vi, tão realmente vistos como os pássaros que não eram virtuais, seriam já umas quatro da manhã, uma recém-casada, ainda de bouquet e vestido branco de noiva, um noivo e um padrinho alugado - Presley saído do Viva Las Vegas de 1964 -, puxando afincadamente o único braço do bandido. Red/White/Blue: prémio máximo... não registei os dólares.
O casal, recém-chegado da Wedding Chappel do hotel, acrescentava-se à interminável lista dos famosos que deram o nó em Las Vegas (segundo as estatísticas, um casamento cada cinco minutos; alguns deles durarão mais ou menos o mesmo). Ao longo do tempo, em paralelo à presteza dos serviços matrimoniais, também o jogo se desenvolve. Os dados foram definitivamente lançados em 1931, quando as apostas se legalizaram no Estado do Nevada; a paixão dos americanos pelas artes do azar parece, contudo, ser muito anterior. Roubo a prova a Bill Bryson e a Made in América: «Mark Twain conta a história de um homem do Oeste que vinha dar à viúva de Jo Toole a notícia da sua morte: 'O Joe Toole vive aqui?' e, quando a viúva respondeu que sim, ele disse: 'Quanto aposta que não?'»
Joga-se compulsivamente. Isto, mesmo se os caixas dos casinos nos distribuem prospectos, junto com as fichas, sobre como resistir ao vício na sin city e telefones para onde pedir ajuda (não com certeza monetária).
Tratar-se-á, no essencial, de uma medida cosmética: como transformar a cidade do pecado num resort de férias em família. É verdade que se vêem muitas crianças na rua (à mistura com grupos de hispânicos e índios que distribuem folhetos de sexo full service). Mas o que verdadeiramente distingue Las Vegas de uma qualquer Disneylândia é, não só a origem do dinheiro que lhe corre nas veias como maná dos céus - com o capital não se brinca, nem nos States nem em parte nenhuma do mundo, deve ter sido isto que pensaram Lucky Luciano e Frank Costello imediatamente antes de Ben Siegel ser abatido na sua casa em Hollywood, enquanto lia o jornal na companhia de Virginia Hill que depois nem se deu ao trabalho de aparecer no enterro -, como também, e antes de tudo, o seu passado. E o passado é uma doença de pele: não há lifting que nos livre dele.
Que o diga Deedee Wanwinkle, mais real que todas as luzes da Strip, «silly woman» como ela apostava que eu a haveria de definir quando escrevesse uma história a seu respeito. «Vais escrever uma história sobre mim?», os olhos a brilhar «Oh my god! Não acredito», eu sem saber o que dizer, sabendo-lhe o dinheiro emprestado da licença para croupier perdido num bacará azarento, um filho numa morada provisória a centenas de milhas da casa de onde haviam fugido a um destino que Deedee imaginou poder contrariar em Las Vegas, e agora «faço tudo, menos sexo». Deedee, nome encantador, e eu a querer chamá-la Alice e a desejar-lhe um happy end tão feliz como o do antigo Alice Já Não Mora Aqui do mesmo Scorsese do Casino, retrato de uma época que chegava ao fim.
No Casino participou Oscar B. Goodman, fazendo de si próprio - advogado de Joe Pesci a vestir a pele de Nicky Santoro, na vida real o temível Tony Spilotro -, eleito mayor da cidade em 1999 e um dos juristas mais reputados dos EUA cuja lista de clientes é a prova provada que o Mal existe e não foi inventado nos filmes.
«Dirigir um casino é como assaltar um banco sem haver chuis por perto. Para tipos como eu, Las Vegas limpa todos os pecados. É como levar a moralidade a uma lavagem automática de carros», dizia para a câmara De Niro, Sam «Ace» Rothstein, na vida real Frank «Left» Rosenthal, o outro cliente de Goodman, homem que se descreve a si próprio como um «um cavaleiro que combate a rainha negra do FBI» e que chegou ao poder já a cidade fora declarada limpa do crime organizado.
O «boom» (palavra exacta, porque tiroteio era o que não faltava) regista-se na década de 40 - mas o maior jackpot só deflagrará em 1995, no Las Vegas Hilton: 11,9 milhões de dólares!
Os primeiros hotéis localizavam-se na Downtown. O Nevada, de 1906, ainda lá está, e chama-se hoje Golden Gate Hotel. É também na Downtown que fica a Fremont Street, uma rua fechada ao trânsito por onde noutros tempos andou a fazer gincanas o escocês Sean Connery, um Bond à velocidade dos 70 escoltado pela voz de Shirley Bassey que jurava a plenos pulmões que os Diamonds are Forever.
De casinos muito menos ostentatórios que os da Strip, na cobertura da Fremont, longa de 400 metros, exibem-se à noite, de hora a hora, sofisticados exercícios pirotécnicos ao som de temas com um vago sabor country, contraponto das vozes metálicas e estranhamente doces que nos garantem continuamente pelas ruas que o «jackpot is happened here!» e que, enquanto esperamos a nossa vez, podemos saborear «three, free, frozen margaritas now!».
Em 1941 surge o primeiro hotel fora de portas. El Rancho Motel constrói-se na Los Angeles Highway ou Route 91 e, sem que ainda se soubesse, estava a assistir-se ao nascimento da Strip (de nome oficial, mas só oficial, Las Vegas Bouvelard). Clark Gable, Zsa Zsa Gabor, Spencer Tracy, Paul Newman tornam-se clientes habituais, até que o hotel desaparece num incêndio nos anos 60, os terrenos comprados posteriormente por Howard Hughes.
Quando o «gangster» galante e elegante Ben «Bugsy» Siegel chega a Las Vegas acompanhado por Virginia Hill, a Strip resumia-se ao El Rancho, Last Frontier... e futuro Flamingo. A ideia não foi de Ben, apesar de no Padrinho II Meyer Lansky, outro judeu, no filme Hyman Roth, anunciar que ele «foi um homem com visão de futuro». Um futuro curto.
O verdadeiro dono do Flamingo chamava-se Billy Wilkerson, um bem-sucedido empresário de Los Angeles e editor do Hollywood Reporter. Quando decidiu construir um casino em Las Vegas, escaparia a Billy o pormenor que o havia de levar à ruína: ele próprio era um jogador. Endividado o sonho, nada mais lhe restou do que aceitar a proposta irrecusável de Ben «Bugsy» Siegel/Warren Beaty que, na tela, como na vida, acabaria mal. Poucas semanas depois da abertura do Flamingo, Siegel cairia crivado de balas em Beverly Hill, acusado de defraudar os cofres da Mafia. Mas repito-me.
Luzes! Luzes! Luzes! Apenas por quatro vezes Las Vegas se dignou baixar o brilho (um brilho tão eléctrico que basta tocar num puxador em metal para sentirmos uma descarga a percorrer-nos o corpo): por ocasião da morte de Kennedy, na sequência do atentado de 11 de Setembro, e quando Dean Martin e Frank Sinatra (a dupla do inesquecível Deus Sabe Quanto Amei) subiram aos céus.
Fiat lux! terá alguém gritado sobre a várzea, encontrada água naquele buraco perdido no deserto. São sempre insondáveis os caminhos dos homens.
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