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24/07/12

Faites vos jeux, rien ne vas plus

Devo confessar que ser detida a milhares de quilómetros de casa é uma desagradável experiência. Foi o que me aconteceu há uns anos, quando visitei os EUA, destination Las Vegas. 
Após o que me pareceu um caloroso Good Morning!, estendi o passaporte para, segundos depois, me ver recambiada para uma sala inóspita onde aguardei três horas pela devolução do dito. 
Às minhas insistentes perguntas sobre qual era o problema, a resposta resumia-se a um lacónico you must wait, madame, sente-se e ponto final, proferido por um representante da Lei, dois metros e 150 quilos, tal e qual como nos filmes. É nestas situações que uma pessoa fica a perceber quem manda. 
Por fim, o funcionário chamou-me e devolveu-me o passaporte. E segurávamos ambos o precioso documento quando ele me pergunta o que é que eu ia fazer a Las Vegas.
Lembrei-me de “O Jogador” (a literatura acompanha-me sempre nos momentos críticos) e respondi-lhe gambling. Não era exactamente verdade, mas a piada saiu-me à mistura com um sorriso nervoso, tanto mais nervoso quanto li na cara do homem que a literatura russa não era a sua cup of tea.
Lá me safei às arrecuas e consegui apanhar a ligação para Las Vegas, delírio veneziano plantado no meio do deserto onde gambling e poesia se misturam: “Are you writing a poem?”, perguntam-me no Casino Royale, enquanto tomo nota de um informação qualquer.
Tudo isto me surgiu em catadupa ao ler que a Unibet lançou apostas online sobre a demissão de Relvas. O que, por sua vez, me lembrou um episódio contado por Mark Twain: um homem foi dar à viúva de Jo Toole a notícia da sua morte: “O Joe Toole vive aqui?” E quando a viúva respondeu que sim, ele disparou: “Quanto aposta que não?”

10/07/09

Só para vos fazer inveja: Dona Laura e o pudim voador

O nome dessa casa aí em cima é Pousada da Alcobaça e fica nos arredores de Petrópolis, cidade serrana (e imperial) a cerca de 85 quilómetros do Rio. A Pousada é dirigida por Laura Góes, uma senhora sábia - sublinho, sábia - prestes a festejar os seus 79 anos.
No dia em que cheguei ao Rio de Janeiro, Dona Laura, como toda a gente aqui a conhece, fazia o lançamento do seu livro chamado A cozinha da Alcobaça - receitas e histórias (Editora Terceiro Nome).
Voltarei mais tarde a Dona Laura. Por agora, transcrevo uma história. Como aperitivo.

"Quando me casei, aos 21 anos, era perfeitamente ignorante em matéria de cozinha. Fui morar em Houghton, uma cidadezinha mínina, no norte de Michigan, à beira do Lago Superior, nos Estados Unidos.
(...)
Durante muito tempo só usei receitas americanas, porque me sentia mais segura com a exatidão delas, o que não impedia, entretanto, que fizesse muita comida ruim, como galinha meio crua e macarrão cozido demais, até adquirir alguma prática.
(...)
Uma vez, ainda em Houghton, fiz uma coisa extraordinária: um pudim de claras! Fiz tudo como mandava o figurino e coloquei o pudim no forno em banho-maria. Quando devia estar pronto fui olhar. O pudim tinha sumido. Não sabia o que podia ter causado o fenómeno, mas descobri: o pudim tinha levantado voo - subiu e ficou grudado no teto do forno. Durante um tempão a casa ficou cheirando a açúcar queimado toda vez que se ligava o forno. Dessa vez a exatidão não funcionou."

01/07/09

A caminho de Paraty, depois dou notícias (entretanto, deixo-vos com impressões antigas...)

Há palavras de tal forma banalizadas pelo uso que, quando nelas tropeçamos, o fundo de censor que habita cada um de nós - se menos reprimido - não resistiria a puxar do revólver.
Paraíso, por exemplo. Sobretudo se se trata de um texto sobre viagens, logo ali apetece amaldiçoar o hiperbólico escriba, condenando-o, por exemplo, a três meses de férias na Quarteira. Para além de - quase sempre - se tratar de uma descarada patranha, deixa-nos sem distintivo face ao que poderá ser um resquício do Eden primordial. Digo resquício, visto que - é do Livro - do Paraíso não se sabe a geografia, na única certeza de que para lá não há passagens low cost. 
O caso é este: Paraty poderia caber nessa categoria. Só que, dado o desgaste linguístico, ninguém iria acreditar. Abandonem-se, pois, os predicados e exponham-se os factos. E o facto é que chegámos lá de noite.
Com sonos acumulados, tanto eu como o fotógrafo concordámos em dormir cedo. Uma batida tremenda despertava-me passadas escassas horas, como se a minha cama (comigo lá dentro, e aí residia o problema) tivesse sido catapultada para um sambódromo adventício.
Não era Carnaval. Obrigada a regressar a uma dimensão do real onde todos, menos eu, pareciam divertir-se altamente ao ritmo de intermináveis cirandas – na origem, bailes de roça assistidos por viola, violão, cavaquinho e pandeiro de adufo, as mulheres rodando as saias e os homens sapateando tamancos de madeira enquanto o mestre virandeiro marca a cadência improvisando versos: imagine-se o estardalhaço! –, e quando já me dispunha, ensonada mas pragmática, a render-me ao «se não podes derrotá-los junta-te a eles», eis que a toada se torna mais tranquila, invocando sucessos melosos lá da década de 40... Eram umas três da manhã, eu ressuscitara ao som de um ô si balança/ ô si balança/ no si balançá/ ô si balança/ ô si balança/ prà lá e prà cá repetido à exaustão, por isso que se me seja dispensado o rigor discográfico.
No dia seguinte deslindava-se o motivo da festança: a cidade comemorava 335 anos de emancipação política e o que eu estivera a ouvir fora a Grande Ciranda de Paraty, e depois a Orquestra New York Society Band, a actuarem no Mercado do Produtor Rural, por acaso MESMO atrás do meu hotel. O fotógrafo, que não dera por nada, alojado noutra estalagem fora do centro histórico, nem por isso foi poupado ao ô si balança/ ô si balança/ no si balançá/ ô si balança/ ô si balança/ prà lá e prà cá que trauteei toda a manhã. Aguentou estoicamente até à hora do almoço. À sobremesa, depois de uma irrepreensível galinha de cabidela (a tradução local é "ao molho pardo"), arremeteu-me com um «Não se canta à mesa!» fulminante. E ameaçou amordaçar-me.
A primeira referência conhecida ao sítio de Paraty recua a 1554, data em que Hans Staden foi feito prisioneiro pelos índios desta região localizada no extremo Sul do Estado do Rio de Janeiro (a 248 quilómetros do Rio e 330 de São Paulo), aventura que deixou registada em Diário. Os seus habitantes originais eram os índios Guaianá, que se ficavam pela serra no Verão e desciam ao litoral durante o Inverno, ao encontro de clima mais ameno. A desova dos cardumes de tainhas e piratis (não confundir com paraty) durante o tempo fresco, era outra das razões que levava os Guaianá a acercarem-se do mar, que por aqui forma uma baía protegida.
Em língua tupi «paraty» significa golfo e, conhecido o costume dos indígenas de recorrerem aos acidentes geográficos para baptizar os lugares, fica esclarecida a toponímia da cidade. Desses ocupantes primitivos restam as aldeias de Tekoa Araponga, na Vila do Patrimônio, que reúne 40 Guarani, e a Aldeia de Tekon Tatim, onde vivem cerca de 100, ambas em Reservas Florestais Federais. 
Foi esta última que tentámos visitar. A caminho de Paraty Mirim – lugarejo encantador a 17 quilómetros de Paraty, cujo porto serviu durante muito tempo para o desembarque ilegal de escravos, até entrar em decadência a partir do século XIX –, à beira da estrada de terra, não havia a certeza de lá podermos entrar. Dependia do pajé.
Esclareço. Aqui, os índios não vivem no meio das outras pessoas. A má consciência dos políticos levou-os a «ceder-lhes» terras onde, apesar das eventuais boas intenções, residem condenados a um ostracismo proteccionista. Assim, a gente vai na estrada, vê uma placa a dizer Propriedade Privada - Reserva Federal, umas pessoas sentadas junto a umas casas mesmo ali, e se quiser perguntar que dia é hoje?, por exemplo, tem de mandar um fax para Brasília pedindo autorização à FUNAI (Fundação Nacional do Índio). Isso, ou esperar que o pajé, que é o índio responsável pela aldeia, esteja bem-disposto e nos deixe aproximar.
Parado o jipe, Armando, guia credenciado conhecido por Vagão, e Miriam Cutz (a nossa incansável cicerone) avançam para tentar falar com o cacique (o termo não tem aqui sentido pejorativo). É então que uma criança se aproxima da viatura junto da qual eu e Henrique, o fotógrafo, aguardamos o resultado das negociações.

A biologia explicará, ou não, o meu instinto maternal exacerbado. Na circunstância, deu-me para pegar na criança ao colo e afastar-me do jipe, com a intenção de a entregar a alguém e desviá-la da estrada. Ao fim de meia dúzia de passos, sai-me ao caminho uma mulher mal-encarada – e mal oxigenada. Olha-me como se reconhecesse em mim um membro de alguma organização dedicada ao tráfego de menores e rosna: «Não podem tirar fotografias sem autorização». Eu não tenho máquina, carrego apenas um pequenino índio. Controlo um desejo primitivo de a esbofetear (que a biologia também explicará) e respondo que só pretendo proteger o bebé, que uma irmã (presumo) acaba de levar de volta. Entretanto, as negociações prosseguem. Vagão e Miriam não conseguem falar com o pajé. Barrados pelos dois responsáveis da FUNAI (além da mulher há um outro elemento, menos desagradável mas igualmente inflexível), acabamos todos por nos vir embora. «Se quiserem entrar (mas onde verá o homem a porta?!) mandem um fax para Brasília», relembra o sujeito da Fundação. 

Já no carro, Vagão, até agora calado, sugere, expedito: «Eles ao final do dia estão sempre em Paraty a beber cerveja e a pedir esmola, tiram as fotos que quiserem». Ninguém responde e, em silêncio, dá-se por encerrado o episódio que lamentavelmente se convertera em «ir ver os índios». 
Coisas menos desagradáveis. Aparecida, por exemplo. Se a vida fosse um pouco mais cor-de-rosa, quem sabe ela partilhasse as passerelles com a própria Gisele Bundchen! A jovem surgiu-nos como uma aparição na cozinha do Sr. Arlindo Sacramento, velho de incríveis olhos azuis que tem como máxima de vida, brincar e caçoar não pega nada.
Moradores de uma pequena casa na serra, a caminho da Cachoeira da Pedra Branca, nos arredores de Paraty, recebem-nos com um hospitaleiro Sejam bem chegados!, oferecem-nos água e bananas doces e indicam-nos o caminho da queda de água onde não somos os únicos a mergulhar.
Tínhamos partido de manhã para conhecer a Estrada da Serra, nome pelo qual é conhecida a Estrada Real (ou Caminho do Ouro), troço de engenharia viária que explica por que razão Paraty teve importância fundamental na história brasileira, chegando a ser o segundo maior porto do país (e um segredo de Estado durante todo o século XVIII). 
Dispomo-nos a repisar a via por onde os portugueses transportavam (obrigatoriamente, já que este era o único itinerário permitido) o ouro vindo do interior, de Minas Gerais, até ao porto de Paraty, e daí para Portugal via Rio de Janeiro. Calcetado por pedras enormes (a que chamam estilo pé-de-moleque), que o tempo e os elementos não conseguiram vencer, visitamos um trecho preservado de oito quilómetros.
Tudo parece ter tido início com a expedição de Martim Correa de Sá, em 1597, à frente de 700 europeus e 2 000 índios, visando refazer um antigo trilho dos Guaianás, que, por sua vez, teriam usado caminhos abertos pelos animais. Essa autêntica «via romana» (chegou a alcançar 1 200 quilómetros), viveu em permanente engarrafamento durante a febre do ouro que começou em 1700, juntando homens e animais de carga, escravos e salteadores, tropas e aventureiros, numa viagem que durava mais de 45 dias. No final do século XVIII, com a abertura do Caminho Novo, que chegava ao Rio via Petrópolis (onde se instala a Corte), mais o enfraquecimento do negócio do ouro, o Caminho de Paraty entra em declínio.
O silêncio é de chumbo. É difícil imaginar a azáfama que por aqui já se viveu, os gritos, os assaltos, as mortes, a fúria e o sangue dos homens arrebatados pelo metal precioso. As árvores têm um porte extraordinário, há plantas que se enroscam mal lhes tocamos, a água requebra-se em riachos cristalinos, um musgo vermelho-vivo garante a pureza absoluta do ar. A meio de uma subida mais íngreme, uma placa assinala «Canela Fedorenta». Ultrapassada a árvore, o insólito letreiro ganha todo o sentido: faz-se sentir um cheiro intenso a estrume, de que o nosso guia se diverte a testar o efeito. Uma vista belíssima sobre a baia de Paraty espera-nos no alto. Nesse dia almoçamos na Fazenda Murycana, que recua ao século XVII, eleita de D. Pedro I que nela pernoitou várias vezes acompanhado da amante, a Marquesa de Santos. Uma visita ao antiquíssimo engenho onde ainda hoje é produzida de forma artesanal a aguardente, envelhecida depois em pipas de carvalho e cerejeira, encerra o repasto. 
Este é um dos seis engenhos que restam em Paraty, que já contou com mais de 100. Porque ao ciclo do ouro seguiu-se o da aguardente (depois, ainda, o do café), permanecendo esta a mais afamada do Brasil. Fazem os locais questão de precisar que na região «nunca se produziu cachaça mas pinga – que vem a ser aquela aguardente fabricada exclusivamente a partir da garapa, do caldo de cana fermentado e destilado, depois da fervura e evaporação, que pinga na bica do alambique». 
Explicação dada, estamos agora a corroborá-la no Refúgio, onde se bebe a melhor caipirinha local. Dirigido por Zé Paulo, um conversador nato, o restaurante ocupa local privilegiado frente ao porto, em terreiro largo. O lugar certo para se estar ao final da tarde. «O meu avô era de Beirute, e com esta minha cara de rato árabe do deserto confundem-me com o Bin Laden. O Amyr Klink, por causa do nome, pensam que é parente do Sadam», graceja Zé Paulo. 
Precisamente hoje, durante um passeio pelo mar, tinhamos avistado a ilha onde mora Klink, apenas uma entre as 65 que povoam a costa.
As serras, envolvas em névoa, vão-se aclarando à medida que a escuna avança, multiplicando-se ad infinito, como se deslizassemos num cenário pintado por Wang Fo. O recorte doce da paisagem, as formas arredondadas, as águas calmas, tudo isso explicará muito da leveza dos brasileiros, expostos a elementos que longe de se oporem aos homens antes parecem acolhê-los. Apesar do gigantismo dos morros que avistamos, é a mansidão que predomina sobre o medo que podemos imaginar ter assaltado os primeiros europeus aqui chegados.
Aparecida acompanha-nos e mergulha enquanto Henrique lhe testa a fotogenia. Um dos membros da tripulação regressa à superfície com estrelas-do-mar, explicando-nos que não se podem virar ao contrário porque morreriam. Uma mãe procura o filho à beira da histeria: «Meu filho afundou!» São apenas paulistas viciados no stress da cidade grande. Na ilha do Mantimento, do presidente da Fiat brasileira, junto à qual estamos ancorados, descobrem-se micos-leão dourados, uma espécie de macaco raríssima e em vias de extinção. Na ilha da Sapeca, o prazer do ócio degusta-se num tasco de madeira, enquanto um gato de olhos azuis disputa os restos do almoço a uma cadela chamada Menina. 
A poucos metros, num outro ilhéu, adivinha-se uma construção de gosto duvidoso, misto de Taj Mahal e pagode chinês. Um dos tripulantes do barco explica-me que foi uma oferta a Collor de Melo, que teve um sonho de marajá. A casa terá envolvido corrupção, o nome de António Carlos, ex-governador da Bahia (petit nom, Toninho Malvadeza), a empresa de construção viária OAS (vulgarmente conhecida por «Obras Arranjadas pelo Sogro») e uma doação a um funcionário, entretanto falecido, cuja viúva decidiu não cumprir o «contrato». Ficou com a casa para ela. Um provérbio local garante: «Brasileiro estraga de dia, Brasil recupera de noite». Por enquanto, o sonho de marajá continua de pé. 
Exactamente por motivos inversos é que Paraty foi declarada Monumento Histórico Nacional em 1966, segundo a UNESCO «o conjunto arquitectónico mais harmonioso do século XVIII no Brasil». O centro histórico, de planta em leque e cobrindo grande parte da cidade, é habitado e vivido pelos locais (não se tratando, portanto, de postal ilustrado para turistas). 
Explode numa panóplia de cores formidável, com as casas listadas por azuis, bordeaux, verdes e amarelos, janelas protegidas por um delicado entrançado de madeira (muxaribe), símbolos maçónicos nas fachadas e nas esquinas, «calçamento pé-de-moleque» nas ruas cuja leve depressão central permite que as águas entrem e saiam de Paraty banhando-a nas marés de lua cheia, pequenas lojas, bons restaurantes de cozinha caiçara (um misto da culinária trazida pelos europeus e paladares índios), vegetação exuberante tombando do interior das casas, como é o caso da Rua do Fogo, assim conhecida por ter sido ponto de encontro de marinheiros e mulheres de «vida fácil». 
E se foi o Caminho do Ouro que trouxe fama a Paraty, foi também, paradoxalmente, o seu declínio que a preservou. Quando, em 1885, é inaugurado o caminho de ferro entre São Paulo e o porto do Rio de Janeiro, Paraty apenas vê confirmada a sua queda.
Até há pouco tempo chegava-se aqui como no passado: de barco, vindo de Angra dos Reis, ou, a partir de 1950, por terra, via Cunha, por uma estrada que apenas era transitável quando não chovia, em parte decalcada sobre o velho caminho do ouro e do café. Fora já por esta que chegara, em 1929, o primeiro automóvel, incapaz, contudo, de fazer o percurso de volta. Um ano depois, a estrada seria destruída por tanques militares que se dirigiam a São Paulo durante a Revolução dos Trinta, só reabrindo ao fim de duas décadas.
«É sempre pelos caminhos que Paraty se salva e se perde», cita Diuner Mello, historiador local autodidacta, conhecedor dos meandros da cidade como poucos. E salvar-se-á novamente, já na década de 70, com a abertura da Rio/Santos, que a subtrai a quase um século de isolamento.
A poucos quilómetros, as praias da Trindade, em tempos famoso destino hippy, também só há pouco têm acesso por estrada alcatroada. Alternativa banhista às ilhas, trata-se de uma vila de pescadores sujeita a forte pressão imobiliária nos anos 70, quando foi palco que uma rocambolesca ocupação por parte de uma empresa multinacional, que meteu jagunços e tiroteio. O conflito foi parar à justiça e a Associação dos Moradores Nativos e Originários da Trindade conseguiu preservar a vila, encravada hoje no Condomínio de Laranjeiras, um casario de luxo privado guardado a metrelhadora e onde os moradores só usam helicóptero. 

A nossa viagem está a chegar ao fim. Tomamos um copo de despedida no Refúgio e à terceira caipirinha uma enorme luz desaparece no firmamento sem deixar rasto.
Um parênteses. Para além de tudo o resto, que é imenso, Paraty é também conhecida pelo seu «clima peculiar». Abreviando: OVNIS, pessoas que se passeiam compulsivamente de madrugada pelas ruas curvas do centro, «cavalos de Diana que pastam nas praças a dor alheia» (e é verdade que os animais andam soltos à noite), passado maçónico, esquisites templárias, enfim, a habitual panóplia new age... Naquele momento, a beleza do lugar, o céu tão estranhamento aceso e, concedo, as caipirinhas, terão permitido que me enredasse nessas coisas improváveis.
O fenómeno gera controvérsia à mesa. Miriam reconhece não saber do que se trata, mas a verdade é que lhe pareceu grande de mais para estrela cadente. Henrique, positivo, recusa mistérios. Eu, a única que estava de costas para o «objecto», não sei o que dizer. Cito Zé Paulo, o rato do deserto: «Não existem problemas. Existem enigmas», uma frase roubada já nem ele se lembrava onde.
E é quando proponho a última caipirinha. Aquela. A tal. A one for the road. Juro. 

18/07/07

Viva a silly season! Viva Paris!

Tante Marie tinha uma relação problemática com os parisienses. Vivia numa pequena quinta em Cognac (sim, exactamente aí onde se destila a excelência francesa do mesmo nome), rodeada de galinhas, patos e coelhos, orgulhosa das suas couves e das suas cenouras. No quintal, lembro-me, havia uma árvore que dava dióspiros.
A partir de Novembro a lareira estava sempre acesa na sala de entrada da casa, e Tante Marie aproveitava o lume para nos preparar deliciosas galletes à maneira bretã, que exigia que comêssemos indiferente aos nossos protestos contra o presumível acréscimo de matéria adiposa, que ela assegurava ser uma garantia contra a descida das temperaturas.
Em Cognac raramente nevava, mas, ainda assim, fazia muito frio. A atmosfera tornava-se não mais do que rústica, como se terá percebido, e nesses meses invernosos as nossas almas elevavam-se na melancolia dos entardeceres prematuros degustando patés e queijos e tartes e Bordeaux, tudo de primeiríssima qualidade.
Por vezes, quando se encontrava na horta debruçada sobre os vegetais, examinando-os com o rigor que se imagina Madame Curie poria nas suas anotações científicas, o barulho de um carro mais veloz interrompia a revista às cenouras e às couves e Tante Marie exclamava em tom reprovador: Ah! voilà les parisiens!
Até poderiam não o ser, já que para esta mulher pequena e de aspecto frágil, capaz, todavia, de despachar numa só tarde dez ou mais coelhos de um golpe certeiro, parisien era, tão-só, sinónimo de citadino. E, sobre estes, tinha ideias tão definitivas como o gesto com que aviava os desafortunados albinos: pobres Bouvard e Pécuchet passeando-se pelos campos nomeando em voz alta os legumes: «Olha, cenouras! Ah, couves!», trocando sempre as referências.
Para Tante Marie, essa era a prova provada da idiotice urbana. Estivera em Paris apenas uma vez. Logo após o casamento, já Hitler estiraçava os seus tentáculos pela Europa fora. Nessa altura, o mercado Les Halles não se convertera ainda no gigantesco centro comercial que o tempo haveria de provar não ter sido uma grande ideia, o pitoresco Marais não suspeitava sequer do seu futuro gay-chic nem a rive gauche da explosão do Maio de 68. La Defense, claro, não existia, e nem nos sonhos mais megalómanos de François Mitterand lhe passaria pela cabeça vir a ser o arquitecto de La Grande Arche, sem dúvida o melhor de La Defense, esquadria perfeita com o Arc-de-Triomphe que, esse sim, Tante Marie pôde visitar, garantindo, no entanto, a quem a quisesse ouvir, que era bem mais bonito visto de longe.
Quanto à Torre Eiffel, apesar de se ter recusado a subir os 1 665 degraus que a teriam levado ao topo das suas 10 100 toneladas (contas feitas, 324 metros, incluída a antena), Tante Marie ainda agora recordava como se sentira esmagada vertigem daquele monstro de ferro.
De regresso a Cognac, comprada uma imagem da Notre Dame que os anos e o chauffage haveriam de amarelecer, pouco tempo depois os alemães fariam a sua entrada triunfal na Cidade das Luzes, para se retirarem cumprido o banho de sangue que não pouparia Tante Marie à morte de um sobrinho, alguns vizinhos e conhecidos. Nunca perdoou aos boches, a quem odiava ainda mais do que aos parisien, e isso é já dizer tudo.
Mas nem os nazis ousaram reeditar a demência de Nero, o incendiador de Roma. Apesar da carnificina, Paris nunca chegou a arder.
Sabendo-se, pois, que Tante Marie nunca mais lá voltou, podemos – no momento em que me passeio, tantas décadas decorridas, pela gigantesca Feira da Ladra que são os Puces de Clignancourt, em busca de um blusão de cabedal à Major Alvega – situá-la sem grande risco à la campagne, qual alquimista submersa em grandes panelas de ferro mexendo compotas que tardam a chegar ao ponto.
Estávamos no Outono e eu desesperava no meio de uma multidão mestiça por encontrar o «meu» blusão. O amigo que me acompanhava desesperava ainda mais do que eu.
Foi então que avistei uma tenda de chapéus. Milhares de chapéus. Chapéus de todas as formas e feitios, usáveis e menos usáveis, de colecção, de teatro, masculinos e ultrafemininos, de Verão e de Inverno, em bom ou mau estado... enfim, uma tenda-paraíso para apreciadores dos ditos. É o meu caso. Eu adoro chapéus, ainda que reconheça que é difícil usá-los.
A mulher atrás do improvisado balcão aproximou-se de mim naquele jeito nonchalance que só as temíveis consièrges parisienses parecem não praticar. Explico-lhe que vim à procura de um blusão de cabedal e que não posso agora trocá-lo por um objecto tão inversamente delicado como um chapéu. A resposta saiu-lhe pronta: Ah, mais justement, ça serait très féminin!
A incoerência convence-me. Regresso de Clignancourt com um chapéu negro de amazona de véu comprido a flutuar ao vento....
Nessa noite, ao entrar no Le Mazet, bar que então frequentávamos no Quartier Latin (mesmo ao lado do Le Procope, o café mais antigo de Paris, eleito de Rousseau e Voltaire, só para não ir mais longe), e onde nos deliciávamos com balões aquecidos de Cognac que nos provocavam arroubos de nostalgia à lembrança de Tante Marie, o dono precipita-se do balcão e dirige-se-me de braços abertos:
Mademoiselle, vous êtes ravissante!
Em que outra cidade do mundo nos acolheriam desta forma, só por trazermos na cabeça um despropositado chapéu visivelmente encombrant?
E outra pergunta. Poderá o Canal Saint-Martin, anacronismo perfeito de uma cidade frenética, precipitar uma declaração de amor?
Foi precisamente aí, numa das suas margens, que Flaubert marcou o encontro decisivo entre os dois manga-de-alpaca (Tiens: des carottes! Ah! Des choux!), aquele que os levaria depois à comunhão suspirosa de quão bem estariam no campo!
Quanto a nós, há já alguns parágrafos que abandonámos Tante Marie, rendidos à beleza desta cidade que guarda, para além dos imensos boulevards rasgados por Haussmann, recantos como este, onde o tempo se submete ao ritmo lentíssimo do escoar das águas pelas comportas abertas, fazendo-nos recuar a essa tarde novecentista em que Bouvard e Pécuchet iniciam o mais maravilhoso de todos os livros inacabados.
Paris. Decididamente burguesa. Ostentatória. Por vezes arrogante e demasiado formal. Cidade onde até o garçon de café se crê herói da Comuna, isto sem demérito para os garçons nem excessiva admiração por aquela, que, como se sabe, fez bastante mais vítimas para além de Antonieta, rainha que terá subido ao cadafalso na que hoje se chama Place de la Concorde sem perceber sequer o que lhe acontecia. Cidade onde já foi o tempo em que «as coisas não acontecem de todo se não acontecem em Paris». Mas caramba! Mesmo enterrada a boémia que caracterizou durante anos esta capital, quem não se comover com o we always have Paris! que mande este texto às urtigas.
Porque eu só queria contar isto: era uma tarde de Primavera num jardim de que esqueci o nome. Dois namorados aproximam-se e, o tempo de acender o meu Bastos legère sans filtre (um marca entretanto desaparecida), sentam-se no banco em frente ao meu. Lia um livro (não, não era Proust), e quando voltei a página já eles se confundiam, beijando-se, abraçando-se e escorregando irremediavelmente para a posição horizontal, cegos aos olhares que, diga-se em abono da verdade do que agora escrevo, se mostravam bastante complacentes para com a efusividade primaveril do jovem casal.
Foi então que fez a sua aparição o clochard, encarnação perfeita de Michel Simon em Boudu Sauvé des Eaux.
Isto passa-se, portanto, no tempo em que ainda existiam Bastos legère sans filtre e vagabundos por conta própria. O homem dirige-se para os corpos confundidos. Toca nas costas do rapaz. Não há resposta. Toca de novo. Nada. Abana-o já com algum vigor quando um rosto ruborizado e de cabelos desgrenhados se destaca no meio da confusão de braços e pernas.
Oui? Tens um cigarro? O rapaz está levantado e revista os bolsos enquanto a namorada compõe a blusa. Não tinhas deixado de fumar?, diz-lhe ela. Ah! Mais oui, mais oui, responde-lhe ele às voltas com as mãos inúteis. O clochard encolhe os ombros e segue. Passa por mim. Eu estou ainda a fumar. Tu as vu les amoureux?, confidencia-me en passant. Não repara sequer que lhe estendo o maço.
Paris, uma punhalada no coração, escreveu Jack Kerouac que era um viajante solitário e nunca conheceu Tante Marie.
FOTO: Robert Doisneau

17/07/07

Livros com viagens dentro. Viva a silly season!

Robyn Davidson tinha um sonho desde menina. Atravessar o deserto australiano montada num camelo. Concretizou-o aos 27 anos e depois escreveu um livro de uma inteligência à prova de fogo. Foi trazido para Portugal pela Quetzal em 1999, sob o título Trilhos. É uma grande leitura de Verão, de preferência ao fresco.

Viva a silly season! Viva Paraty!

Há palavras cujo uso - ad nausea - banalizou de tal forma o seu significado que, quando nelas tropeçamos, o fundo de censor que habita cada um de nós, se menos reprimido, não resistiria a puxar do lápis azul, numa versão moderada do outro que puxava do revólver.
Paraíso, por exemplo. Sobretudo se se trata de um texto de viagens, logo ali apetece amaldiçoar o hiperbólico escriba, condenando-o, por exemplo, a três meses de férias na Quarteira. Para além de, quase sempre, se tratar de uma descarada patranha, deixa-nos sem distintivo face ao que poderá ser um resquício desse Eden primordial. Digo resquício, visto que - é do Livro -, do Paraíso não se sabe a geografia, na certeza de que para lá não há passagens low cost.
O caso é este: Paraty poderia caber nessa categoria. Só que, dado o desgaste linguístico (bastante mais obnóxio que a ferradela na maçã, sublinhe-se), ninguém iria acreditar. Abandonem-se, pois, os predicados e exponham-se os factos. E o facto é que chegámos lá de noite.
Com sonos acumulados, tanto eu como o fotógrafo concordámos em dormir cedo. Uma batida tremenda despertava-me passadas escassas horas, como se a minha cama (comigo lá dentro, e aí residia o problema) tivesse sido catapultada para um sambódromo adventício.
Não era Carnaval. Obrigada a regressar a uma dimensão do real onde todos, menos eu, pareciam divertir-se altamente ao ritmo de intermináveis cirandas – na origem, bailes de roça assistidos por viola, violão, cavaquinho e pandeiro de adufo, as mulheres rodando as saias e os homens sapateando tamancos de madeira enquanto o mestre virandeiro marca a cadência improvisando versos: imagine-se o estardalhaço! –, e quando já me dispunha, ensonada porém pragmática, a render-me ao «se não podes derrotá-los junta-te a eles», eis que a toada se torna mais tranquila, invocando sucessos melosos lá da década de 40... Eram umas três da manhã, eu ressuscitara ao som de um ô si balança/ ô si balança/ no si balançá/ ô si balança/ ô si balança/ prà lá e prà cá repetido à exaustão, por isso que se me seja dispensado o rigor discográfico.
No dia seguinte deslindava-se o motivo da festança: a cidade comemorava 335 anos de emancipação política e o que eu estivera a ouvir fora a Grande Ciranda de Paraty, e depois a Orquestra New York Society Band, a actuarem no Mercado do Produtor Rural, por acaso MESMO atrás do meu hotel. O fotógrafo, que não dera por nada, alojado noutra estalagem fora do centro histórico, nem por isso foi poupado ao ô si balança/ ô si balança/ no si balançá/ ô si balança/ ô si balança/ prà lá e prà cá que trauteei toda a manhã. Aguentou estoicamente até à hora do almoço. À sobremesa, depois de uma irrepreensível galinha de cabidela (a tradução local é «ao molho pardo«), arremeteu-me com um «Não se canta à mesa!» fulminante. E ameaçou amordaçar-me.
A primeira referência conhecida ao sítio de Paraty recua a 1554, data em que Hans Staden foi feito prisioneiro pelos índios desta região localizada no extremo Sul do Estado do Rio de Janeiro (a 248 quilómetros do Rio e 330 de São Paulo), aventura que deixou registada em Diário. Os seus habitantes originais eram os índios Guaianá, que se ficavam pela serra no Verão e desciam ao litoral durante o Inverno, ao encontro de clima mais ameno. A desova dos cardumes de tainhas e piratis (não confundir com parati) durante o tempo fresco, era outra das razões que levava os Guaianá a acercarem-se do mar, que por aqui forma uma baía protegida.
Em língua tupi «parati» significa golfo e, conhecido o costume dos indígenas de recorrerem aos acidentes geográficos para baptizar os lugares, fica esclarecida a toponímia da cidade. Desses ocupantes primitivos restam as aldeias de Tekoa Araponga, na Vila do Patrimônio, que reúne 40 Guarani, e a Aldeia de Tekon Tatim, onde vivem cerca de 100, ambas em Reservas Florestais Federais.
Foi esta última que tentámos visitar. A caminho de Paraty Mirim – lugarejo encantador a 17 quilómetros de Paraty, cujo porto serviu durante muito tempo para o desembarque ilegal de escravos, até entrar em decadência a partir do século XIX –, à beira da estrada de terra, não havia a certeza de lá podermos entrar. Dependia do pajé.
Esclareço. Aqui, os índios não vivem no meio das outras pessoas. A má consciência dos políticos levou-os a «ceder-lhes» terras onde, apesar das eventuais boas intenções, residem condenados a um ostracismo proteccionista. Assim, a gente vai na estrada, vê uma placa a dizer Propriedade Privada - Reserva Federal, umas pessoas sentadas junto a umas casas mesmo ali, e se quiser perguntar que dia é hoje?, por exemplo, tem de mandar um fax para Brasília pedindo autorização à FUNAI (Fundação Nacional do Índio). Isso, ou esperar que o pajé, que é o índio responsável pela aldeia, esteja bem-disposto e nos deixe aproximar.
Parado o jipe, Armando (guia credenciado), conhecido por Vagão, e Miriam Cutz (a nossa incansável cicerone) avançam para tentar falar com o cacique (o termo não tem aqui sentido pejorativo). É então que uma criança se aproxima da viatura junto da qual eu e Henrique, o fotógrafo, aguardamos o resultado das negociações.
A biologia explicará, ou não, o meu instinto maternal exacerbado. Na circunstância, deu-me para pegar na criança ao colo e afastar-me do jipe, com a intenção de a entregar a alguém e desviá-la da estrada. Ao fim de meia dúzia de passos, sai-me ao caminho uma mulher mal-encarada – e mal oxigenada. Olha-me como se reconhecesse em mim um membro de alguma organização dedicada ao tráfego de menores e rosna: «Não podem tirar fotografias sem autorização».
Eu não tenho máquina, carrego apenas um pequenino índio. Controlo um desejo primitivo de a esbofetear (que a biologia também explicará) e respondo que só pretendo proteger o bebé, que uma irmã (presumo) acaba de levar de volta. Entretanto, as negociações prosseguem. Vagão e Miriam não conseguem falar com o pajé. Barrados pelos dois responsáveis da FUNAI (além da mulher há um outro elemento, menos desagradável mas igualmente inflexível), acabamos todos por nos vir embora. «Se quiserem entrar (mas onde verá o homem a porta?!) mandem um fax para Brasília», relembra o sujeito da Fundação.
Solto a animosidade: «Isto é ofensivo! Tratam-nos como se fossem débeis mentais!» Vagão, até agora calado, sugere, expedito: «Eles ao final do dia estão sempre em Paraty a beber cerveja e a pedir esmola, tiram as fotos que quiserem». Ninguém responde e, em silêncio, dá-se por encerrado o episódio que lamentavelmente se convertera em «ir ver os índios».
Coisas menos desagradáveis. Aparecida, por exemplo. Se a vida fosse um pouco mais cor-de-rosa, quem sabe ela partilhasse as passerelles com a própria Gisele Bundchen! A jovem surgiu-nos como uma aparição na cozinha do Sr. Arlindo Sacramento, velho de incríveis olhos azuis que tem como máxima de vida, Brincar e caçoar não pega nada.
Moradores de uma pequena casa na serra, a caminho da Cachoeira da Pedra Branca, nos arredores de Paraty, recebem-nos com um hospitaleiro Sejam bem chegados!, oferecem-nos água e bananas doces e indicam-nos o caminho da queda de água onde não somos os únicos a mergulhar.
Tínhamos partido de manhã para conhecer a Estrada da Serra, nome pelo qual é conhecida a Estrada Real (ou Caminho do Ouro), troço de engenharia viária que explica por que razão Paraty teve importância fundamental na história brasileira, chegando a ser o segundo maior porto do país (e um segredo de Estado durante todo o século XVIII).
Dispomo-nos a repisar a via por onde os portugueses transportavam (obrigatoriamente, já que este era o único itinerário permitido) o ouro vindo do interior, de Minas Gerais, até ao porto de Paraty, e daí para Portugal via Rio de Janeiro. Calcetado por pedras enormes (a que chamam estilo pé-de-moleque), que o tempo e os elementos não conseguiram vencer, visitamos um trecho preservado de oito quilómetros.
Tudo parece ter tido início com a expedição de Martim Correa de Sá, em 1597, à frente de 700 europeus e 2 000 índios, visando refazer um antigo trilho dos Guaianás, que, por sua vez, teriam usado caminhos abertos pelos animais. Essa autêntica «via romana» (chegou a alcançar 1 200 quilómetros), viveu em permanente engarrafamento durante a febre do ouro que começou em 1700, juntando homens e animais de carga, escravos e salteadores, tropas e aventureiros, numa viagem que durava mais de 45 dias. No final do século XVIII, com a abertura do Caminho Novo, que chegava ao Rio via Petrópolis (onde se instala a Corte), mais o enfraquecimento do negócio do ouro, o Caminho de Paraty entra em declínio.
O silêncio é de chumbo. É difícil imaginar a azáfama que por aqui já se viveu, os gritos, os assaltos, as mortes, a fúria e o sangue dos homens arrebatados pelo metal precioso. As árvores têm um porte extraordinário, há plantas que se enroscam mal lhes tocamos, a água requebra-se em riachos cristalinos, um musgo vermelho-vivo garante a pureza absoluta do ar. A meio de uma subida mais íngreme, uma placa assinala «Canela Fedorenta». Ultrapassada a árvore, o insólito letreiro ganha todo o sentido: faz-se sentir um cheiro intenso a estrume, de que o nosso guia se diverte a testar o efeito. Uma vista belíssima sobre a baia de Paraty espera-nos no alto. Nesse dia almoçamos na Fazenda Murycana, que recua ao século XVII, eleita de D. Pedro I que nela pernoitou várias vezes acompanhado da amante, a Marquesa de Santos. Uma visita ao antiquíssimo engenho onde ainda hoje é produzida de forma artesanal a aguardente, envelhecida depois em pipas de carvalho e cerejeira, encerra o repasto.
Este é um dos seis engenhos que restam em Paraty, que já contou com mais de 100. Porque ao ciclo do ouro seguiu-se o da aguardente (depois, ainda, o do café), permanecendo esta a mais afamada do Brasil. Fazem os locais questão de precisar que na região «nunca se produziu cachaça mas pinga – que vem a ser aquela aguardente fabricada exclusivamente a partir da garapa, do caldo de cana fermentado e destilado, depois da fervura e evaporação, que pinga na bica do alambique».
Explicação dada, estamos agora a corroborá-la no Refúgio, onde se bebe a melhor caipirinha local. Dirigido por Zé Paulo, um conversador nato, o restaurante ocupa local privilegiado frente ao porto, em terreiro largo. O lugar certo para se estar ao final da tarde. «O meu avô era de Beirute, e com esta minha cara de rato árabe do deserto confundem-me com o Bin Laden. O Amyr Klink, por causa do nome, pensam que é parente do Sadam», graceja Zé Paulo.
Precisamente hoje, durante um passeio pelo mar, tinhamos avistado a ilha onde mora Klink, apenas uma entre as 65 que povoam a costa.
As serras, envolvas em névoa, vão-se aclarando à medida que a escuna avança, multiplicando-se ad infinito, como se deslizassemos num cenário pintado por Wang Fo. O recorte doce da paisagem, as formas arredondadas, as águas calmas, tudo isso explicará muito da leveza dos brasileiros, expostos a elementos que, longe de se oporem aos homens (como no México, oh lá lá!), antes parecem acolhê-los. Apesar do gigantismo dos morros que avistamos, é a mansidão que predomina sobre o medo que podemos imaginar ter assaltado os primeiros europeus aqui chegados.
Aparecida acompanha-nos e mergulha enquanto Henrique lhe testa a fotogenia. Um dos membros da tripulação regressa à superfície com estrelas-do-mar, explicando-nos que não se podem virar ao contrário porque morreriam. Uma mãe procura o filho à beira da histeria: «Meu filho afundou!» São apenas paulistas viciados no stress da cidade grande. Na ilha do Mantimento, do presidente da Fiat brasileira, junto à qual estamos ancorados, descobrem-se micos-leão dourados, uma espécie de macaco raríssima e em vias de extinção. Na ilha da Sapeca, o prazer do ócio degusta-se num tasco de madeira, enquanto um gato de olhos azuis disputa os restos do almoço a uma cadela chamada Menina.
A poucos metros, num outro ilhéu, adivinha-se uma construção de gosto duvidoso, misto de Taj Mahal e pagode chinês. Um dos tripulantes do barco explica-me que foi uma oferta a Collor de Melo, que teve um sonho de marajá. A casa terá envolvido corrupção, o nome de António Carlos, ex-governador da Bahia (petit nom, Toninho Malvadeza), a empresa de construção viária OAS (vulgarmente conhecida por «Obras Arranjadas pelo Sogro») e uma doação a um funcionário, entretanto falecido, cuja viúva decidiu não cumprir o «contrato». Ficou com a casa para ela. Um provérbio local garante: «Brasileiro estraga de dia, Brasil recupera de noite». Por enquanto, o sonho de marajá continua de pé.
Exactamente por motivos inversos é que Paraty foi declarada Monumento Histórico Nacional em 1966, segundo a UNESCO «o conjunto arquitectónico mais harmonioso do século XVIII no Brasil». O centro histórico, de planta em leque e cobrindo grande parte da cidade, é habitado e vivido pelos locais (não se tratando, portanto, de postal ilustrado para turistas).
Explode numa panóplia de cores formidável, com as casas listadas por azuis, bordeaux, verdes e amarelos, janelas protegidas por um delicado entrançado de madeira (muxaribe), símbolos maçónicos nas fachadas e nas esquinas, «calçamento pé-de-moleque» nas ruas cuja leve depressão central permite que as águas entrem e saiam de Paraty banhando-a nas marés de lua cheia, pequenas lojas, bons restaurantes de cozinha caiçara (um misto da culinária trazida pelos europeus e paladares índios), vegetação exuberante tombando do interior das casas, como é o caso da Rua do Fogo, assim conhecida por ter sido ponto de encontro de marinheiros e mulheres de «vida fácil».
E se foi o Caminho do Ouro que trouxe fama a Paraty, foi também, paradoxalmente, o seu declínio que a preservou. Quando, em 1885, é inaugurado o caminho de ferro entre São Paulo e o porto do Rio de Janeiro, Paraty apenas vê confirmada a sua queda.
Até há pouco tempo chegava-se aqui como no passado: de barco, vindo de Angra dos Reis, ou, a partir de 1950, por terra, via Cunha, por uma estrada que apenas era transitável quando não chovia, em parte decalcada sobre o velho caminho do ouro e do café. Fora já por esta que chegara, em 1929, o primeiro automóvel, incapaz, contudo, de fazer o percurso de volta. Um ano depois, a estrada seria destruída por tanques militares que se dirigiam a São Paulo durante a Revolução dos Trinta, só reabrindo ao fim de duas décadas.
«É sempre pelos caminhos que Paraty se salva e se perde», cita Diuner Mello, historiador local autodidacta, conhecedor dos meandros da cidade como poucos. E salvar-se-á novamente, já na década de 70, com a abertura da Rio/Santos, que a subtrai a quase um século de isolamento.
A poucos quilómetros, as praias da Trindade, em tempos famoso destino hippy, também só há pouco têm acesso por estrada alcatroada. Alternativa banhista às ilhas, trata-se de uma vila de pescadores sujeita a forte pressão imobiliária nos anos 70, quando foi palco que uma rocambolesca ocupação por parte de uma empresa multinacional, que meteu jagunços e tiroteio. O conflito foi parar à justiça e a Associação dos Moradores Nativos e Originários da Trindade conseguiu preservar a vila, encravada hoje no Condomínio de Laranjeiras, um casario de luxo privado guardado a metrelhadora e onde os moradores só usam helicóptero.

A nossa viagem está a chegar ao fim. Tomamos um copo de despedida no Refúgio e à terceira caipirinha uma enorme luz desaparece no firmamento sem deixar rasto.
Um parênteses. Para além de tudo o resto, que é imenso, Paraty é também conhecida pelo seu «clima peculiar». Abreviando: OVNIS, pessoas que se passeiam compulsivamente de madrugada pelas ruas curvas do centro, «cavalos de Diana que pastam nas praças a dor alheia» (e é verdade que os animais andam soltos à noite), passado maçónico, esquisites templárias, enfim, a habitual panóplia new age... Naquele momento, a beleza do lugar, o céu tão estranhamento aceso e, concedo, as caipirinhas, terão permitido que me enredasse nessas coisas improváveis.
O fenómeno gera controvérsia à mesa. Miriam reconhece não saber do que se trata, mas a verdade é que lhe pareceu grande de mais para estrela cadente. Henrique, positivo, recusa mistérios. Eu, a única que estava de costas para o «objecto», não sei o que dizer. Cito Zé Paulo, o rato do deserto: «Não existem problemas. Existem enigmas», uma frase roubada já nem ele se lembrava onde.
E é quando proponho a última caipirinha. Aquela. A tal. A one for the road. Juro. Mas ninguém me acredita. Vá-se lá saber porquê.
FOTO: Aparecida, fotografada por Henrique Seruca, com o fato de banho que lhe emprestei para a ocasião e que ainda no outro dia levei à piscina.
NOTA: Este texto é para Zé Paulo

14/07/07

Viva a silly season! Viva Madrid!

Terminado o almoço, os sentidos, viciados no prazer da nicotina, reclamam por um Monte Cristo. O amigo do fotógrafo acende a cigarrilha com manifesta volúpia e o cheiro intenso do tabaco sobrepõe-se ao aroma discreto do café solo - que em Espanha bebem-no de preferência con leche. Na mesa ao lado, um homem de provecta idade termina, também ele, a refeição. O fotógrafo faz um sinal ao amigo que logo tenta contrariar a direcção do fumo, sacudindo desajeitadamente a mão em movimentos nervosos. Ao notar o embaraço, o caballero ― mais do que o dramatismo da língua, o que aqui nos surpreende é o recorte preciso das palavras ― logo exclama: No se preocupe! Fume usted lo que quiera. Yo ya no puedo fumar pero el humo me estimula... Este é o espírito da coisa.
Os espanhóis, é dos livros, falam alto e vivem na rua. O termo ― espanhóis ―, ao qual torcerão o nariz alguns nacionalistas mais politicamente correctos, ganha um sentido maior em Madrid, onde cerca de 80% da população é proveniente de outras regiões, ou do estrangeiro. Gentes de Castela, Astúrias, Andaluzia, Galiza, Málaga, Catalunha, País Basco... (no total, são 20 possibilidades) mesclam-se nesta cidade, capital de um país feito de geografias e idiossincrasias várias. Tal mestiçagem é antiga. Notava já Calderón de la Barca, dramaturgo madrileno do século XVII, que Es Madrid, patria de todos/ (pues en su mundo pequeño/ son hijos de igual cariño/ naturales y extranjeros...).
Apesar da gravidade arquitectónica e da escala esmagadora (para um peão, atravessar uma avenida quando o sinal passou a intermitente requer, no mínimo, bravura de espírito e destreza de pernas), Madrid só pode orgulhar-se do seu estatuto há relativamente pouco tempo. Porque embora a sua fundação pelo V Emir independente de Córdoba, Mohamed, recue à ocupação árabe da Península, a elevação a capital do reino apenas se dá em 1556 quando Filipe II (I dos nossos) assim o decide.
Henrique Garcia Pereira, um português adepto do ethos espanhol, sugere no seu livro Arte Recombinatória que a escolha terá recaído sobre Madrid, e não sobre Lisboa, por, dizia-se, aí não haver mosquitos. Subtraída ao título entre 1601 e 1606, por decisão de outro Filipe (III, II dos nossos), no ano seguinte retoma a ordenação que mantém até hoje.
Seria agora chegado o momento de desenvolver matérias eruditas e listar datas e acontecimentos relacionados com esta villa, que não ciudad, mas que me perdoem o conselho: qualquer guia menor os informará, melhor do que eu, dos meandros historiográficos. Cite-se antes Antonio Ferres, romancista e poeta madrileno que assim pontificou à saída da livraria Casa del Libro, onde marcáramos encontro: Madrid es un disparate. Na língua do autor de Los Confines del Reino isto quer dizer: um excesso.
Não nos precipitemos, contudo. Porque o rendez-vous com Ferres apenas se deu três dias após a partida. Por enquanto, ainda estou no Aeroporto da Portela às voltas com um B.I. caducado.
Foi só à chegada ao check-in que uma funcionária zelosa repara na data prescrita e me recusa o embarque. Em vão protestei e em vão supliquei. À tentativa frustrada de a convencer da relatividade einsteiniana, seguiu-se uma corrida rocambolesca contra o tempo entre o aeroporto e a Praça do Areeiro, pontuada por telefonemas ao fotógrafo, de guarda à minha mala, a dar-lhe conta das manobras. No Arquivo de Identificação, onde em meia hora me resolvem o problema, não podiam ser mais prestáveis.
Acalme-se! Acalme-se! Vamos fazer os possíveis! Dê cá o dedo! Vai ver que consegue! E as fotografias? Não tem?! E está à espera de quê? Vá já aí ao lado! Deixe isso, nós preenchemos! Despache-se, despache-se! Poupo-vos ao stress. Numa hora fui e voltei ― devidamente identificada ― e à hora prevista sentava-me no avião rumo a Madrid. Tudo está bem quando acaba bem, mas, por agora, ainda estamos nos preliminares.
A correria terá sido premonitória. Uma espécie de ritual de iniciação ao que me esperava. Felizmente, por melhores motivos. Assim, e para abreviar: na primeira noite recolhemos ao hotel à 01h30m. Chegáramos ao aeroporto de Barajas por volta das 13h00 e, visto tanto eu como o fotógrafo acumularmos sonos atrasados, tornou-se humanamente impossível prosseguir com as digressões madrilenas que, todavia, iniciámos logo na primeira noite com inegável espírito de missão. No segundo dia, desistimos pouco antes das 03h00; no terceiro, perto das 04h00; no quarto.... Creio que me faço entender. Numa manhã de domingo, no Rastro, submersos num mar de cabeças ondulantes entre dois flashs e incontáveis cafés sempre solos, não soube o que responder ao fotógrafo quando este, atónito, me interpelou: Ele é de noite, ele é de dia. Mas quando é que estes tipos dormem?
Esta cidade podia servir de mote a um anúncio do Red Bull. Tente, pelo menos a partir de 5ª feira, apanhar um táxi às 05h00 da manhã e compreenderá do que falo (acrescente-se que, ao contrário de Paris, táxis é o que não falta). Ou jantar sem fazer marcação. Ou ir a um espectáculo sem ter reservado bilhete. O ritual começa pelas tapas ― termo que, segundo a tradição, terá resultado do sensato despacho do rei Alfonso X que obrigava a acompanhar o vinho servido nas estalagens de Castela por um pequeno prato de comida que era colocado a tapar o copo, diminuindo assim efeitos etílicos indesejáveis (e não será por acaso que este rei é conhecido pelo cognome de O Sábio) ― continua com as copas, prossegue nas discotecas e termina nos after-hours.
No domingo, por volta da uma da tarde, na Casa António La Cebada, rostos protegidos por impenetráveis óculos escuros denunciam muitas horas sem dormir. Enquanto uns bebem a última caña, outros aguardam (como nós) uma suculenta tortilla servida ao som de ritmos flamencos, confesso que um pouco estridentes...
Foi assim que, incautos, nos vimos obrigados a desistir do restaurante Los Girasoles, ao fundo da calle Hortaleza, zona de nítida renovação urbana, contígua à Chueca, bairro onde a comunidade gay marca pontos e prova o seu talento para fazer reviver as cidades. Não havia hipótese. Na noite anterior trocáramos, em boa hora, o jantar por uma ida ao Café Central, a que chamam a catedral madrilena do jazz, mas hoje queríamos sentarmo-nos e comer de faca e garfo. Eram quase 10h00 da noite ― cheio ― e as reservas estavam completas, mesmo para as 23h00. E para amanhã?
Si, claro, por mañana, si. O dono, de uma simpatia e profissionalismo à prova de bazuca, passeia-me pelas duas salas, pergunta-me que mesa prefiro, toma nota da reserva. No dia seguinte acolhe-me como se me reconhecesse da minha primeira infância. Pronuncia o meu nome com as letras todas ― Cris-ti-na!
Nada do indistinto e tristonho «Crestina» português. Depois de sentados (eu e o fotógrafo), um telefonema. É Isabel, uma jornalista espanhola que se propõe fazer-nos companhia esta noite. Passamos a ser três a jantar. Sugerem-nos trocar de mesa. Passados cinco minutos, do meio da sala, ouço o meu nome ser novamente enunciado de forma claríssima: Cris-ti-na!, seguido de um gesto que me indica o novo lugar: Venga! Levanto-me de um ápice. Obedeço. E aqui terei que esclarecer, para se entender o insólito da coisa, que eu persisto em ser mais do género a que se chama rebelde.
Vem-me à cabeça um álbum de Lucky Luke e o entusiasmo de Rantanplan obedecendo à mã Dalton que lhe ordena que se sente: Finalmente alguém que sabe mandar! As línguas, como a geografia, explicam muita coisa.
Dir-se-á que do conceito que fez fama à Movida madrilena ― a noite como espaço de liberdade ― se passou aos copos como forma de negócio. Sem querer entrar em polémicas, o que é indiscutível é que, pelo menos para quem chega de fora, eles ― os madrilenos ― continuam tremendamente frenéticos. Movendo-se. E arrastam-nos.
Há lugares que resistem. Escueto reabriu depois de um longo interregno (só ao fim-de-semana) precisamente no mesmo local onde a Movida começou, em torno da Plaza Dos de Mayo no bairro de Malasaña ou de Maravillas. No Berlin Cabaret, numa ruela do La Latina, uma das zonas mais castiças de Madrid, insiste-se em espectáculos independentes que pontuam noites de boa música e melhor ambiente. Por três vezes ― a primeira, à 01h00 ― abre-se o palco e sobem à cena três coelhinhas travesti, irreverentes e um pouco gordas. José María Calafat, um dos sócios do Berlin Cabaret, esclarece-me, antes mesmo de ter tempo de lhe ser apresentada: No hablo de sexo! E quando, na continuação da conversa, lhe peço para hablar mais despacio, interroga-me sobre a minha compreensão do espanhol. Com la graciosa irrespetuosidad que es característica del madrileño (nas palavras de Ortega y Gasset) quer saber se percebi o que perguntara a um dos presentes: se deixara o namorado por ser importante ou por ser impotente. Esclareço-o que em português as palavras só divergem na pronúncia e não no significado.
No Búho Real, abençoado por uma colecção de mais de um milhar de mochos, continuam a servir-se as melhores caipirinhas de Madrid sob o lema sigue disfrutando de la noche. E foi o que fizemos... No táxi, ainda no mesmo quarteirão, avistamos um espaço sem história, o KWAI, que nos definem como o sítio de Madrid que vende as copas mais baratas. Garantem-nos que não têm efeitos secundários indesejáveis. Depois das discotecas (mais do que a música, o que surpreende é a beleza de locais como o Palacio Gaviria ou Joy Eslava no antigo Teatro Eslava, clássicos da noite madrilena), e dos clubes, que mudam de designação conforme o som, da responsabilidade de diferentes DJs, é forçosa uma ida à Chocolatería San Ginés, aberta desde 1894 e toda la noche, destino de peregrinação obrigatória na passagem de ano. O chocolate quente é óptimo e os churros acompanham.
O que mais pasma nesta villa é, não só a imensa diversidade de opções, mas a mistura de gentes e géneros que encontramos nos locais mais distintos. A ser verdade o que me dizia Antonio Ferres ― que em matéria de oferta hay El Corte Inglés e hay los outros ―, somos obrigados a concluir, ao fim de pouco tempo, que os outros ainda devem ser ainda muitos.
No Mercado de Fuencarral e ruas adjacentes, sentimo-nos catapultados para o que uma «atmosfera londrina» tem de mais livre e criativo. Lojas de roupa alternativas, jovens descomplexados, pelo menos no que respeita à cor dos cabelos, ruas pejadas de gente nova das mais diversas origens, contrastam radicalmente com o «ambiente Champs Elysées» que se vive, por exemplo, no Bairro de Salamanca, a excelência em matéria de compras.
Tenho para mim, contudo, que a perspectiva de comer bem é ainda uma razão maior que traz muitos portugueses à capital espanhola.
A gastronomia do país vizinho tem vindo a marcar pontos e alguns dos seus chefes actuais ganharam fama internacional. Mas mesmo aos fãs mais convictos dos novos sabores se impõe uma passagem pelo centenário Lhardy.
Foi aí, por volta das 07h30m da tarde, que deparei com um grupo de madrilenas já na casa dos 60 e vestidas a rigor ― calculo que em trânsito para o teatro, porque, mesmo para o padrão local, o esmero era exagerado ― tomando chá em pé, encostadas ao belíssimo aparador do fundo. Estranhei a hora e o desconforto. E também a falta de acompanhamento. Onde estavam as torradas?
O Lhardy é conhecido pelo seu cocido, especialidade madrilena superior, a fim do nosso quase homónimo cozido ― mas que não se deixe de provar também um cochinillo ou um cordero assados no forno de lenha do Botin, ao que parece o restaurante mais antigo do mundo, cuja origem remonta a começos do século XVII. Diz a tradição que Goya aí lavou pratos na cozinha e Hemingway, um cliente fiel, referiu-se-lhe no seu romance Fiesta. E, já agora, confirme-se o humor madrileno na porta quase ao lado, no El Cuchi, restaurante-bar mexicano que anuncia que Hemingwai never ate here. Avisam-nos também que ali não se fala francês, inglês ou alemão, prometendo-nos, em contrapartida, não se rirem do nosso espanhol.
Voltemos ao Lhardy. De arquitectura e decoração românticas, abriu as portas em 1839 e o nome deve-o ao fundador, um suíço que se radicou em Madrid. Como um fama que vem de longe, já uma personagem de Pérez Galdós o descrevia como el primero en las artes del comer fino. À entrada, uma tremenda panóplia de tapas e charcutaria vária recebe os comensais que podem, assim, ou tapear, ou levar para casa uma iguaria mais rara, ou aguardar mesa para o restaurante. Tinham-me falado também do hábito madrileno de vir aqui beber um caldo (do cocido, precisamente), a qualquer hora do dia. Quando interrogo uma empregada sobre o assunto, ela aponta-me simpaticamente um samovar. Abro a torneirinha e sirvo-me. Cumpro o ritual e esclareço o mistério do chá. Como já devem ter concluído, tratara-se de um equívoco. Afasto-me para deixar passar as damas de estômago proletariamente aconchegado pelo caldo caliente e, por momentos, regresso à descontraída Casa Ciriaco, outro dos lugares de referência da cidade (La más deliciosa y menos solemne de las doctrinas, es la gastronomía, diz a publicidade deste Restaurante-Taberna), pejado de imagens de famosos (comovente uma fotografia de Picasso cujo magnífico olhar se percebe rendido ao peso dos anos), célebre pela sua garrafeira e por ser um dos lugares eleitos da família real, e recordo o à-vontade, o tu cá, tu lá desafectado e simultaneamente admirativo com que nos guiam pela adega e falam do rei... e das suas amantes. Nem sei se serão monárquicos. Porque nesta terra pátria do pícaro, tudo é possível. Luísa, por exemplo, uma espanhola apaixonada por Lisboa, resumira a questão à mesa de um almoço: El rey está bien, pero yo soy republicana a cien por cento.
No As de Los Viños, em frente ao Teatro Albéniz, há outra tradição. A de vir aqui comer torrijas. Aparentadas com as nossas fatias douradas, As de Los Viños é o único estabelecimento em Madrid que as prepara, não com leite... mas com vinho. O oposto da sofisticação do Lhardi, trata-se de uma verdadeira taberna onde o menu completo fica por uma ninharia. Só faltou o café. As tabernas estão impedidas de o vender. No princípio do século existiam mais de 100, agora estão reduzidas a cerca de 50 mas é visível o esforço em renová-las.
Rosa Maria, uma madrilena bem-disposta que nos acompanhou no périplo pelas tabernas históricas, elege as mais reputadas. Casa Labra, onde foi fundado em 1879 o Partido Socialista Operário Espanhol; Taberna Café La Fontana de Ouro, hoje transformada em «bar irlandês», embora mantendo a arquitectura e os azulejos originais; Casa Alberto, no mesmo edifício onde se pensa ter vivido Cervantes... Já não estava connosco quando entrei na Taberna de Ángel Sierra e pude confirmar, mais de um ano após aí ter estado com amigos de boa memória num final de tarde chuvoso, que o vermú continua a ser servido do barril.
Um aparte, só para viciados em calçado. Junto a La Taberna de Ángel Sierra fica a calle Augusto Figueiroa onde, se conseguir encontrar outra coisa que não sejam sapatarias, juro por Santo Isidro, o padroeiro de Madrid, que andarei um ano descalça!
Por razões familiares, Rosa Maria agora sai menos à noite. Estamos sentados no Café Salón El Prado, um dos muitos cafés madrilenos que nos faz sonhar com Viena. Pergunto-lhe qual o segredo de tanta energia. A resposta não se fez esperar: «Hombre, pues no lo sé. Puede que sea la siesta!». Hombre, por estas paragens, parece ser um substantivo sem género.
As grandes avenidas é que me matam. São 07h00 da noite e o fotógrafo teima num enquadramento em pleno caos da Plaza de Cibeles. Ossos do ofício.
Uma multidão ciclópica invade as ruas. Some-se em direcção às bocas do metro. Emudece atrás dos vidros dos autocarros. Dispara nos semáforos. Os carros arrancam ao que se me afigura uma velocidade excessiva, obedecendo à polícia que comanda as operações. Deixam no ar um lastro de fumo e o eco cefálgico do barulho dos motores. Um helicóptero soma ruído por cima das nossas cabeças. Para o Blade Runner só falta a chuva. A sensação é tão real que, quando o fotógrafo me toca no ombro e me diz «Vamos?», por momentos surpreendeu-me que não fosse o Harrison Ford.
Esta não é, definitivamente, uma cidade amável, como poderemos dizer de Roma, por exemplo. Não respira a teatralidade delicada de Paris. Ganhará a Londres em beleza mas não chega a ser tão cosmopolita. E contudo... Regresso a Antonio Ferres. Madrid é sobretudo um excesso. Aqui parecem fazer especial sentido os versos da canção de Joaquín Sabina, las malas compañias son las mejores, o que, aliás, podemos interpretar como uma variante da ironia que se revela na frase de Montalbán: «Cada um de nós é má companhia para os outros.»
O índice de ruído (um dos mais elevados da Europa) aconselha a pelo menos uma tarde no Parque del Buen Retiro para retemperar forças ― embora possa não parecer à primeira vista, Madrid é uma «cidade verde»: uma árvore por cada três habitantes. Ou a uma tranquila visita aos vários museus da cidade.
Para nós é já meia-noite e o espectáculo na Casa Patas está prestes a começar. Alguns, mas não muitos, turistas, que aqui chegam guiados pela fama desta Fundación Conservatorio de Flamenco, contribuem para esgotar as entradas. Madrid é um dos melhores locais fora da Andaluzia para se assistir a uma exibição do género celebrado por Carlos Saura. O grupo de hoje chega de Cadiz. O público vibra com o dramatismo da voz. Aplaude a altivez dos gestos. A delicadeza das mãos. A beleza dos acordes. Depois da exibição abandona o local e dispersa-se pela espaçosa sala de entrada. Uns tapeiam na barra, outros ainda jantam nas mesas. Eu e o fotógrafo ficamo-nos pela conversa e pelas croquetas.
Foi então que pela primeira vez na vida, confesso-o publicamente, peço a um empregado de bar para não me encher mais o copo. É que pedi um whisky que me está a ser servido como se fosse água da torneira. Comento depois o sucedido com Luísa, a republicana, dizendo-lhe que em Portugal as doses não são bem aquelas. «Nem em Portugal nem em parte nenhuma do mundo», devolve-me.
E assim é Madrid. Onde a «vida é demasiado importante para ser levada a sério». Para lhe aguentar o ritmo, o segredo, segundo Rosa Maria, está na siesta. Ou na fiesta, digo eu. Como se preferir.
NOTA: Terão os eventuais leitores deste post de me perdoar se alguns dos locais referidos já não corresponderem ao boneco. A viagem não foi feita ontem. Mas o «espírito da coisa» será certamente o mesmo.
FOTO: O cantante madrileno Joaquín Sabina antes de ficar gordo, belíssimo exemplar de la graciosa irrespetuosidad que es característica del madrileño

12/07/07

Viva a silly season! Viva Las Vegas!

«Today», uma publicação gratuita que se apresenta como a mais votada e mais bem informadada visitor guide, exibe no seu interior um intrigante anúncio. Logo na quarta página, um convite a duas colunas para a «a maior exposição de Marc Chagall jamais realizada na América».
A ocorrência não pode deixar de me parecer insólita, entrando-me pelos olhos dentro estou eu sentada ao balcão de um coffe bar, «Do-you-want-more-coffe?-Yes-please-thank-you», tal e qual como nos filmes, acabada de chegar a Las Vegas. E Las Vegas, como se sabe, fica no meio do deserto.
Aterrara na noite anterior. Depois de esperar, com algum nervosismo, que o serviço de fronteiras de Queens (onde fizera escala) confirmasse que sou uma pessoa de bem (poupo-vos aos pormenores), lá me reconhecem o visto e posso seguir viagem.
«Então, é jornalista?», remata-me a autoridade no final do episódio. «Sim», respondo laconicamente, já de passaporte na mão. «E o que vai fazer a Las Vegas?». A resposta, gambling, terá saído com rapidez excessiva, deflagrando num lance de desaprovação e perplexidade no meu interlocutor. Recuo: «Estava a brincar!», e sempre recuando, desta vez em direcção à porta, eclipso-me à pressa pelos corredores do aeroporto.
Em Queens tentara repor os meus níveis de nicotina, pelo que me dirigi a uma funcionária em demanda da smoking area. «Lá fora.» «Lá fora?!», insisto, enquanto me viram as costas. E acabo a fazer horas junto aos deserdados do fumo, sucidando-me com eles por um bocadinho ao ar livre.
Repare-se, no aeroporto Mac Carran não se fuma outside. Uma sala apropriada, a que não faltam algumas máquinas de jogo, espera-nos mal tocamos solo firme, embora seja tal a espessura do ar que até eu própria desisto.
Apesar de ter dormido durante as cinco horas do voo, identifico o passageiro do lado, maço de tabaco na mão. «A primeira vez em Las Vegas?», pergunta-me enquanto esperamos pela malas. Confirmo. Quer saber de onde venho. «Portugal.» «Portugal, Europa?», comenta, surpreendido. «And you?», chuto no meu inglês emperrado. «Eu?» «Sim, o que veio fazer a Las Vegas?». Dispara-me um gambling certeiro, tão certeiro como um royal flush. Então já somos dois. Bom, no meu caso, em rigor não venho para jogar; confesso, contudo, sempre ter tido uma simpatia especial, e não apenas literária, pelo Fyodor Dostoievsky.
Anualmente, os aviões despejam em Las Vegas mais de 30 milhões de passageiros - o correspondente a cerca de 7 a 8% da população americana. O nova-iorquino Ed, motorista negro de tamanho XL que já circulou por Chicago e que há meia dúzia de anos o destino retém por aqui, cuja idade, indefinida, parece ser a idade de quem conseguiu assistir a todos os «fora-de-horas» sem que por isso o olhar lhe endurecesse o rosto, diz-me que a maioria das pessoas que transporta do aeroporto chega para jogar. Jogar ou anything else, acrescenta. Porque tudo é possível em Las Vegas... desde que se tenha dinheiro.
Atenção: Ed não é um cínico, apenas um céptico, nunca por nunca um moralista. Explica-me: «Estás sentada durante horas a desafiar uma máquina. Ficas depenada. Acabas por te ir embora. Chega um tipo qualquer e no segundo seguinte sai-lhe um jackpot daqueles! Percebes o que quero dizer? Ganhar é só uma questão de se estar no sítio certo à hora certa.» Como a vida, Ed? «Yes», como a vida, responde Ed.
Regresso a Chagall. Passados uns dias, hei-de andar de «Today» na mão à procura da Centaur Art Galleries. A coisa cheirava-me a esturro. Las Vegas não é propriamente uma cidade onde se venha para calcorrear museus (apesar do Liberace Museum, do Hermitage Guggenheim Museam e do Guggenheim Las Vegas - do tamanho da Grand Central Station de Nova Iorque, que, como se sabe, é grande). Mas, de tudo o que tinha visto, não imaginava onde poderia encontrar exposta «the largest exhibition of Marc Chagall's art ever shown in America». O mistério adensava-se porque a morada conduzia-me sempre ao Fashion Show Mall, um centro comercial onde já tropeçara vezes sem conta. E por uma vez entro.
Uma superfície gigantesca, com as lojas do costume e cuja única peculiaridade era ser bastante menos extravagante do que o habitual em Las Vegas: nenhuma Fontana de Trevi, nada de Louvres ou canais venezianos em miniatura, nada de Miguel Angelos em tamanho natural. Bastante europeu, se é que me faço entender... De Chagall, porém, nem vê-lo. Chego a pensar que se tratará de um outro Marc.
Fazendo uma última tentativa, pergunto pela Centaur Art Galleries numa perfumaria. A empregada, solícita, indica-me o primeiro andar do lado oposto àquele onde me encontro. Avisto duas enormes faixas vermelhas que caem sobre o piso térreo junto das escadas rolantes: Marc Chagall inscrito a branco. Só podia ser o mesmo.
Na galeria, dezenas e dezenas de esboços, desenhos e alguns quadros dispõem-se pelas paredes. Os que faltam, para perfazer os duzentos anunciados, amontoam-se pelo chão. Atónita, eis que um homem se aproxima - magro, cabelos apanhados na nuca, óculos de excelente design e fato de melhor corte - tomando a iniciativa de se me dirigir.
«Gosta de Chagall?», e eis que fico sem palavras. Adoro Chagall! - em tom blasé - seria a deixa apropriada? «As pessoas adoram Chagall!», antecipa-se o galerista. Eu vou olhando umas figuras a carvão que retratam os pecados mortais. «É uma série», explica-me. «Os pecados não estão identificados, embora algumas sejam fáceis de adivinhar. O preço pelo conjunto é, evidentemente, negociável. Já tem algum Chagall na sua colecção?»
Começo, finalmente, a entrar no espírito da coisa. Mostra-me as autenticações. «Temos tido imensos compradores. As pessoas, simplesmente, adoram Chagall!», repete-se. «Ao contrário do Picasso. O mês passado tivemos uma exposição e houve quem viesse de propósito só para nos dizer como o detestava!»
Vislumbro uma frecha por onde se esfuma o tema incómodo da minha colecção de arte privada. «Detestava?!», sublinho em tom admirativo. «Sim, consta que era horrível com as mulheres!» Começo mesmo a entrar no espírito da coisa. Esboço um sorriso. «Bom, não acho muito relevante. Por mim, até podia bater na mãe.» Encara-me surpreendido por detrás dos óculos. «Claro, sim, como artista, claro...», balbucia, como se reflectisse sobre isso pela primeira vez.
Apeteceu-me gritar-lhe: «Bolas, homem! Apesar do Siegel ter ido desta para melhor ainda nenhum de nós era nascido, não precisa de ser tão previsivelmente correcto!» (Fui incapaz de lhe dizer isto em inglês)
Bom, na verdade, até Andy Warhol - Guillermo Cabrera Infante, O Livro das Cidades, capítulo «Viva Las Vegas» - não aguentou o ritmo. E Andy não ficou para a história por ser um menino de coro.
Cito: «Não é de estranhar que Andy Warhol, quando veio e viu, saísse a correr e dissesse 'eu gosto das coisas aborrecidas', querendo dizer que só gostava das coisas aborrecidas e que Las Vegas era, nas suas palavras, 'Demasiado!' De desmaiar.» Pois. Como quando o Howard Hughes, entre gemidos e injecções de morfina, ali-logo-na-hora, contestou o pedido da gerência do Hotel-Casino Le Desert Inn para que cedesse alguns dos quartos do andar que ocupava por inteiro: o pacote pelo dobro do preço real foi a sua última oferta. Em cash (será possível?).
Se me perguntassem agora: «Com o que é que se parece Las Vegas?», só poderia responder: «Las Vegas não se parece com nada.» Recorrendo ainda a Cabrera Infante: «Disse-se que Las Vegas é um caleidoscópico arraial de luzes coloridas. Mas isso não basta. Las Vegas é a única cidade do mundo em que as luzes de néon e as lâmpadas são a arquitectura.»
Confirmam-se as palavras do escritor cubano do cimo da torre do Hotel-Casino Stratosphere (350 metros de altura obrigatórios). Isto de noite, naturalmente. Mas há que subir também à claridade do dia para termos a exacta dimensão do delírio. Porque se do pó viemos ao pó voltaremos. Assim está escrito. E o deserto continua lá.
Areia e montanhas pardacentas (não muito longe fica o Grand Canyon e a cidade mais próxima, LA, a 400 km) estrangulam uma gigantesca cratera na qual se amontoam milhares de casas baixas com garagem e quintal acoplados, e só depois o olhar encontra a Strip - um traçado longo de seis quilómetros onde se alinha pouco mais de uma vintena de edifícios em altura, sede de todos os sonhos e de todos os pesadelos: «Rien ne vas plus!» e soltam-se todas as tremuras ao Fyodor -, que a esta hora se resume a uma inofensiva, desinteressante e estimável avenida.
Se esperarmos até ao anoitecer, a cidade acender-se-á e à sua volta não há-de restar senão uma negritude anterior ao mundo. As luzes e os néons são a arquitectura. Mas mais do que isso: a cidade torna-se paisagem absoluta. E nunca o fake foi tão a única verdade.
Na Strip será preciso esquecer tudo o que julgávamos ser um hotel ou um casino (estão excluídos os que conhecem os locais de jogo no Oriente), e levar um mapa para não nos perdermos no interior destas labirínticas cavernas platónicas onde o sol não entra (ou não o suficiente para se ter uma Ideia do calor que faz lá fora).
Eis-nos no coração dos simulacros soberanos: o dinheiro que remete para as fichas; as fichas que remetem para a sorte; a sorte que remete para o dinheiro; o dinheiro que remete para si próprio (quanto ao Belo, ao Bem e à Felicidade chegarão por acréscimo) - aqui está, meu caro filósofo, o que aprenderíeis em Las Vegas.
Note-se: os hotéis não têm casinos, os casinos têm hotéis e a própria cidade não é mais do que um imenso casino onde nos dão lições grátis pela manhã para que joguemos à noite: «Faites vos jeux madames et messieurs! Faites vos jeux!»
No Paris, uma perna da Torre Eiffel assenta na sala de jogo, as outras duas no passeio público amparando o Arc de Triomphe, o Louvre, a Place de la Concorde e outros clichés; no Caesars Palace (onde Dustin Hoffman, o irmão autista, quase leva a casa à bancarrota - obviamente, uma contradição nos termos), a piscina evoca as termas de Pompeia e uma estátua de César Augusto espera-nos à entrada - Os Que Vão Perder Te Saúdam!, digo eu; o Luxor reproduz em tamanho natural a pirâmide de Gizé, e a Esfinge, também com as medidas exactas, vigia a entrada do hotel; no New York New York podem-se tirar fotografias ao lado da Estátua da Liberdade e ninguém notará a diferença; o Mandalay Bay inspira-se na Birmânia e esconde uma lagoa artificial de tamanho suficiente para nela caberem duas praias de águas tranquilas e uma com ondas de sete metros para surfar no deserto; no MGM Grand (com 5005 quartos - o maior hotel do mundo até à construção do Venitian), meia dúzia de leões passeia-se numa jaula envidraçada, rugidos dobrados e falhos de sincronia que ressoam desgraçadamente pelo lobby; o Venetian (agora à frente, com seis mil acomodações), que veio substituir o mítico Sands onde Sinatra costumava actuar e que chegou a fazer parte do testamento de Hughes, encontrou modelo na cidade italiana, reproduzindo a Praça de São Marcos, as pontes, e até um canal de 400 metros onde casais se passeiam de gôndola sem risco de submergirem, a não ser nas lojas de marca e galerias; The Mirage decidiu-se por uma gigantesca cascata num jardim de mais de mil palmeiras onde, de noite, de 15 em 15 minutos, um vulcão vomita fogo; no Treasure Island evocam-se piratas e na baía em frente ao hotel, onde estão ancorados dois navios, diariamente entre as 16h e as 21h30 os bons do HMS Brittania atacam os maus do Hispaniola (ou será o contrário?).
Perante o que me parece ser uma demência encartada, o histórico Flamingo passa por um exemplar de discretíssimo classicismo... E tudo aqui é tão fake que, antes de ver realmente vistos os pássaros que saltitam por Las Vegas - uma variante de corvos -, apostei que o seu intenso chilrear vinha de uma gravação dissimulada por entre a folhagem das árvores.
As lagostas perseguem-me. Um empregado de papillon e fisionomia hispânica exibe um horrível crustáceo sob um sorriso luminoso: «The ultimate lobster experience». O cartaz está por todo o lado. Hei-de testemunhar, nas ementas gastronómicas, que a lagosta é quase tão democrática como as máquinas caça-níqueis.
O barulho metálico das moedas a serem engolidas - ou despejadas - por estes artefactos luminosos inventados no princípio do século XX, originalmente para distribuição de pastilhas elásticas (três sabores para três rodas giratórias - laranja, cereja e ameixa; quando se alinhavam três iguais levavam-se mais pastilhas para casa), tilinta 24 horas. Aguarda-nos de manhã, quando saímos do hotel, e aguarda-nos à noite, quando regressamos ao hotel.
De slot machines passaram, nos anos 50, a one-arm bandits (bandidos de um só braço) e juro que vi, tão realmente vistos como os pássaros que não eram virtuais, seriam já umas quatro da manhã, uma recém-casada, ainda de bouquet e vestido branco de noiva, um noivo e um padrinho alugado - Presley saído do Viva Las Vegas de 1964 -, puxando afincadamente o único braço do bandido. Red/White/Blue: prémio máximo... não registei os dólares.
O casal, recém-chegado da Wedding Chappel do hotel, acrescentava-se à interminável lista dos famosos que deram o nó em Las Vegas (segundo as estatísticas, um casamento cada cinco minutos; alguns deles durarão mais ou menos o mesmo). Ao longo do tempo, em paralelo à presteza dos serviços matrimoniais, também o jogo se desenvolve. Os dados foram definitivamente lançados em 1931, quando as apostas se legalizaram no Estado do Nevada; a paixão dos americanos pelas artes do azar parece, contudo, ser muito anterior. Roubo a prova a Bill Bryson e a Made in América: «Mark Twain conta a história de um homem do Oeste que vinha dar à viúva de Jo Toole a notícia da sua morte: 'O Joe Toole vive aqui?' e, quando a viúva respondeu que sim, ele disse: 'Quanto aposta que não?'»
Joga-se compulsivamente. Isto, mesmo se os caixas dos casinos nos distribuem prospectos, junto com as fichas, sobre como resistir ao vício na sin city e telefones para onde pedir ajuda (não com certeza monetária).
Tratar-se-á, no essencial, de uma medida cosmética: como transformar a cidade do pecado num resort de férias em família. É verdade que se vêem muitas crianças na rua (à mistura com grupos de hispânicos e índios que distribuem folhetos de sexo full service). Mas o que verdadeiramente distingue Las Vegas de uma qualquer Disneylândia é, não só a origem do dinheiro que lhe corre nas veias como maná dos céus - com o capital não se brinca, nem nos States nem em parte nenhuma do mundo, deve ter sido isto que pensaram Lucky Luciano e Frank Costello imediatamente antes de Ben Siegel ser abatido na sua casa em Hollywood, enquanto lia o jornal na companhia de Virginia Hill que depois nem se deu ao trabalho de aparecer no enterro -, como também, e antes de tudo, o seu passado. E o passado é uma doença de pele: não há lifting que nos livre dele.
Que o diga Deedee Wanwinkle, mais real que todas as luzes da Strip, «silly woman» como ela apostava que eu a haveria de definir quando escrevesse uma história a seu respeito. «Vais escrever uma história sobre mim?», os olhos a brilhar «Oh my god! Não acredito», eu sem saber o que dizer, sabendo-lhe o dinheiro emprestado da licença para croupier perdido num bacará azarento, um filho numa morada provisória a centenas de milhas da casa de onde haviam fugido a um destino que Deedee imaginou poder contrariar em Las Vegas, e agora «faço tudo, menos sexo». Deedee, nome encantador, e eu a querer chamá-la Alice e a desejar-lhe um happy end tão feliz como o do antigo Alice Já Não Mora Aqui do mesmo Scorsese do Casino, retrato de uma época que chegava ao fim.
No Casino participou Oscar B. Goodman, fazendo de si próprio - advogado de Joe Pesci a vestir a pele de Nicky Santoro, na vida real o temível Tony Spilotro -, eleito mayor da cidade em 1999 e um dos juristas mais reputados dos EUA cuja lista de clientes é a prova provada que o Mal existe e não foi inventado nos filmes.
«Dirigir um casino é como assaltar um banco sem haver chuis por perto. Para tipos como eu, Las Vegas limpa todos os pecados. É como levar a moralidade a uma lavagem automática de carros», dizia para a câmara De Niro, Sam «Ace» Rothstein, na vida real Frank «Left» Rosenthal, o outro cliente de Goodman, homem que se descreve a si próprio como um «um cavaleiro que combate a rainha negra do FBI» e que chegou ao poder já a cidade fora declarada limpa do crime organizado.
O «boom» (palavra exacta, porque tiroteio era o que não faltava) regista-se na década de 40 - mas o maior jackpot só deflagrará em 1995, no Las Vegas Hilton: 11,9 milhões de dólares!
Será necessário, porém, recuarmos ao século XIX (em rigor, a 1829) para travarmos conhecimento com Rafael Rivera, um jovem mexicano que, seguindo numa caravana pelo antigo trilho espanhol em direcção a Los Angeles, se aventura pelo deserto e descobre... água! O local ficará assim hispanicamente baptizado para sempre: «vegas», que significa várzea. O caminho até LA encurta-se e os mórmones da Igreja de Jesus Cristo dos Santos do Último Dia chegam ao vale tentando dominar os elementos. O último a desistir parte em 1857 e deixa para trás um forte que ainda hoje faz parte das atracções locais.
No início do século XX, a construção do caminho-de-ferro e, posteriormente, de uma grande barragem no Colorado - a Hoover Dam - atrai ao local milhares de forasteiros. Aos novos residentes, muitos deles fugindo à Grande Depressão, acrescentam-se os militares da Las Vegas Aerial Gunnery Scholl, fundada já a II Grande Guerra galgava desenfreada, mais os que vieram para o deserto testar a desarmonia atómica.
Em 1940, Las Vegas tem 8400 habitantes. Actualmente é a urbe americana com maior índice de crescimento anual - conta com um milhão e quinhentos mil recenseados, a que todos os meses se adicionam quatro mil.
Os primeiros hotéis localizavam-se na Downtown. O Nevada, de 1906, ainda lá está, e chama-se hoje Golden Gate Hotel. É também na Downtown que fica a Fremont Street, uma rua fechada ao trânsito por onde noutros tempos andou a fazer gincanas o escocês Sean Connery, um Bond à velocidade dos 70 escoltado pela voz de Shirley Bassey que jurava a plenos pulmões que os Diamonds are Forever.
De casinos muito menos ostentatórios que os da Strip, na cobertura da Fremont, longa de 400 metros, exibem-se à noite, de hora a hora, sofisticados exercícios pirotécnicos ao som de temas com um vago sabor country, contraponto das vozes metálicas e estranhamente doces que nos garantem continuamente pelas ruas que o «jackpot is happened here!» e que, enquanto esperamos a nossa vez, podemos saborear «three, free, frozen margaritas now!».
Poesia pura, como parece ser a opinião do porteiro do Casino Royale que me pergunta, enquanto tomo nota de um pormenor qualquer: «Are you writting a poem?»
Em 1941 surge o primeiro hotel fora de portas. El Rancho Motel constrói-se na Los Angeles Highway ou Route 91 e, sem que ainda se soubesse, estava a assistir-se ao nascimento da Strip (de nome oficial, mas só oficial, Las Vegas Bouvelard). Clark Gable, Zsa Zsa Gabor, Spencer Tracy, Paul Newman tornam-se clientes habituais, até que o hotel desaparece num incêndio nos anos 60, os terrenos comprados posteriormente por Howard Hughes.
Quando o «gangster» galante e elegante Ben «Bugsy» Siegel chega a Las Vegas acompanhado por Virginia Hill, a Strip resumia-se ao El Rancho, Last Frontier... e futuro Flamingo. A ideia não foi de Ben, apesar de no Padrinho II Meyer Lansky, outro judeu, no filme Hyman Roth, anunciar que ele «foi um homem com visão de futuro». Um futuro curto.
O verdadeiro dono do Flamingo chamava-se Billy Wilkerson, um bem-sucedido empresário de Los Angeles e editor do Hollywood Reporter. Quando decidiu construir um casino em Las Vegas, escaparia a Billy o pormenor que o havia de levar à ruína: ele próprio era um jogador. Endividado o sonho, nada mais lhe restou do que aceitar a proposta irrecusável de Ben «Bugsy» Siegel/Warren Beaty que, na tela, como na vida, acabaria mal. Poucas semanas depois da abertura do Flamingo, Siegel cairia crivado de balas em Beverly Hill, acusado de defraudar os cofres da Mafia. Mas repito-me.
Luzes! Luzes! Luzes! Apenas por quatro vezes Las Vegas se dignou baixar o brilho (um brilho tão eléctrico que basta tocar num puxador em metal para sentirmos uma descarga a percorrer-nos o corpo): por ocasião da morte de Kennedy, na sequência do atentado de 11 de Setembro, e quando Dean Martin e Frank Sinatra (a dupla do inesquecível Deus Sabe Quanto Amei) subiram aos céus.
Fiat lux! terá alguém gritado sobre a várzea, encontrada água naquele buraco perdido no deserto. São sempre insondáveis os caminhos dos homens.
Os mórmones há muito tinham desistido, antes do Último Dia e muito previamente ao primeiro, esse em que algum bandido de um só braço terá apostado ao póquer em como se há-de erguer aqui uma cidade capaz de ofuscar as estrelas e exortar os homens ao vício, tão certo como termos vindo do pó e ao pó voltarmos - o deserto lá está para o provar - e a luz fez-se! E que a arrogância lhes seja perdoada assim como todas as dívidas de jogo.