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04/04/25

MEDITAÇÃO DE SEXTA: «Obedientemente, cronicando»


05/05/23

MEDITAÇÃO DE SEXTA: «Quando os livros, e não o céu, nos caem na cabeça»

« (...) Rendida ao desmoronamento e ao caos, acabo por adiar a acareação com os estragos. Saco do chão um título ao acaso e calha-me o recente ensaio da Dom Quixote Linguagem e Verdade, de Salman Rushdie, esparramado no capítulo “A Caneta e a Espada. O Congresso Internacional do PEN de 1986”.

Leio que as mulheres presentes reclamaram da escassa presença feminina e que, a contracorrente, Susan Sontag declarou que “a literatura não é um empregador de igualdade de oportunidades” – começo a sorrir –, depois que o próprio Rushdie, tentando acalmar os ânimos, lembrou que “era o único representante do subcontinente indiano, ou seja, de um quinto da espécie humana” – continuo a sorrir –, e chego à parte em que ele conhece Donald Barthelme [escritor singular falecido em 1989 com dois livros de contos publicados na Antígona]: “Lembro-me de ter conhecido Donald Barthelme, cujo trabalho eu adorava, mas que estava tão bêbedo que tive a sensação de não o ter realmente conhecido. (Quando falei disto a um escritor americano amigo, ele disse-me: ‘Não, tu conheceste-o. Ele era assim.’).” Chegada aqui, já me estou a rir e esqueci Manguel.

E agora para terminar e porque escrevo no dia 1 de Maio e falei de livros, nada como regressar ao humor do velhinho Sholom Aleichem: “Meu caro Yankel: pedes-me que te escreva uma carta longa […] mas de facto não há muito para dizer. Os ricos continuam ricos e os pobres estão a morrer de fome, como sempre. O que é que isso tem de novo?”

Ah! E, entretanto, também li que Lídia Jorge ganhou mais um prémio literário. Bisando a pergunta anterior: o que é que isso tem de novo?»

06/01/23

MEDITAÇÃO DE SEXTA: «1, 2, 3 EXPERIÊNCIA»

«A primeira aparição em carne e osso, digamos assim, de HAL 9000, uma personagem/computador criada pelo escritor britânico Arthur C. Clarke, aconteceu no clássico de Stanley Kubrick, 2001, Odisseia no Espaço, chegado ao grande ecrã em Abril de 1968 estava a França a um mês de ensaiar uma revolução que exigia o impossível.

(...) Mais de meio século depois de HAL 9000, a mais badalada coqueluche da Inteligência Artificial é um chatbot que dá pelo nome de ChatGPT. Desenvolvido e aperfeiçoado pela OpenAI, surgiu em Novembro de 2022 e poucos dias após ter sido lançado já alimentara a conversa de mais de um milhão de utilizadores.

Confesso que no que toca à utilização de chats, a minha curtíssima experiência recua aos seus tempos primordiais, quando a troca de mensagens escritas tinha por trás seres humanos (sabendo-se embora que em muitos casos, se não a maioria, os seus perfis haviam sido aprimorados, para não dizer aldrabados), e terminaria abruptamente mal começara quando um moço que se dizia na Suíça me perguntou: Donde teclas? A minha sensibilidade à língua não aguentou o embate da nova forma verbal e deixei o interlocutor sem resposta entregue à maçadoria helvética.

Leio agora que o ChatGPT leva a cabo uma revolução nunca vista, inimaginável sequer pelos franceses que em Maio de 68 exigiam o impossível. (...)»

02/12/22

MEDITAÇÃO DE SEXTA: «E A MELANCOLIA TOMOU CONTA DA CRONISTA»

«... Embora não existam livrarias seja qual for o ponto cardeal para onde me vire, vou mantendo contacto com os livros. Confesso que a maioria me deixa indiferente. E sim, não são poucas as vezes que sinto pena das árvores.

O sentimentalismo, dissimulado por uma carreira literária – seja isso o que for –, ou visivelmente primário – ambos abertamente mercantis – convoca Baudelaire que, a propósito do processo movido a Les Fleurs du mal, corria o ano de 1857 – há quanto tempo! – concluía que só se devem escrever livros virtuosos e com finais felizes.

E perdoar-me-á o leitor desta crónica a falta de actualidade da mesma. Quem diz actualidade, diz foco, palavra ainda assim mais aceitável do que “focalização”.

Claro que temas não faltam. O Qatar continua na ordem do dia. Têm sucedido revoltas na China, com os chineses a fartarem-se – apesar da sua renomada e milenar paciência – da política de Covid Zero, fora o resto. António Lobo Antunes publicou recentemente um novo romance (ainda não li). Evidentemente, há o tema intemporal do Acordo Ortográfico que veio esfrangalhar de tal maneira a língua que o português de Portugal corre o sério risco de se vir a transformar numa versão abastardada – e sem graça – do português do Brasil.

Se eu tivesse um décimo do talento de Eça de Queirós, já teria inventado, ou reinventado, um bei de Tunes. Afinal, não há cronista que um dia, pela manhã, não sonhe em ouvir bater-lhe à porta o bei de Tunes. (...)» 

25/11/22

MEDITAÇÃO DE SEXTA: «E O QUE DIRIA MONTAIGNE?»

 «... Quanto à morsa de Oslo, sujeita ao stress da presença humana apesar dos apelos para que deixassem o animal em paz, decidiram as autoridades, temendo que pudesse tornar-se agressiva, matá-la. Foi poupada no entanto ao esquartejamento ao vivo para educação dos infantes como aconteceu à girafa da Dinamarca. Não desesperemos: talvez seja verdade que o mundo pula e avança…

Não sei por que me lembrei da morsa. Da morte anunciada da morsa. Entretanto, os humanos já tinham chegado aos oito mil milhões de exemplares.

Talvez tenha sido — é uma hipótese que me coloco — devido à torrente de raciocínios absurdos com que nos presentearam ultimamente. E que não se deixe de considerar absurdo o raciocínio que esteve na origem da decisão de matar a morsa: os humanos estão a stressar o animal; o animal stressado pode tornar-se agressivo; mate-se o animal!

Note-se: eu não estou a sugerir, à maneira de Swiff, que, em vez de se matar a morsa, se matassem os humanos. Mas se ao menos falassem menos!

....

É neste quadro dantesco [do Qatar]  — em linha com o Afeganistão, embora sem cordilheiras e com bastante mais dunas, areia e estádios e hotéis —, que só podemos ficar sensibilizados com as declarações de António Costa recusando-se a ir para lá louvar a sharia, era o que mais faltava!, e em especial de Marcelo Rebelo de Sousa que, dando o corpo às balas (salvo seja) se mostrou disposto a encabeçar — in situ — uma arriscadíssima cruzada em prol dos direitos humanos.

Quanto a Augusto Santos Silva, nada lhe ouvi ainda, mas estou certa de que emprestará à defesa dos valores democráticos universais, a mesma determinação de que deu provas na defesa do Acordo Ortográfico. (...)»

02/09/22

MEDITAÇÃO DE SEXTA: «APONTAMENTOS À MARGEM DA GUERRA»

«As mulheres (...) resistem melhor à realidade. Os homens andam aos tropeções na solidão das casas, deprimem, as mães mortas.

Ao homem – não é L. – falta-lhe a mãe, a mãe com que preenche as frases de todas as conversas. A minha mãe, lembra o homem a propósito e a despropósito da chuva que demora, da eira desaparecida, do forno do pão a precisar de restauro, dos terrenos férteis junto ao rio, da criação que teimosamente mantém a custo do custo galopante das rações, dos alimentos e da lenha que apanhou e oferece. A mãe pequenina, mas rija, rija, recorda.

No fim não era nada, um corpo ‘prá ‘li incapaz de se mover da cama, o Alzheimer levara-lhe o juízo, a ela, e a ele a mãe, explica o homem. Ao homem – uma alma simples (morreu-lhe um pato afogado…) com um coração do tamanho do mundo – falta-lhe a mãe e as putas. Um problema varrido para debaixo do tapete durante o longo período da pandemia, as “meninas” recolhidas em parte incerta.

Homens sozinhos sem bússola  que substituem pelo álcool, companheiro fiel do tempo vazio. Um equilíbrio que se mantém, precário, enquanto há um patrão e trabalho por cumprir, mas que logo desfabula mal as horas se confundem na recidiva dos dias.

Às mulheres é-lhes mais fácil entreterem-se com coisas importantes.(...)»

12/08/22

A MEDITAÇÃO DE SEXTA: «AS BOAS INTENÇÕES»

«Creio que foi no livro onde se reúnem as conversas travadas entre Marguerite Yourcenar e Matthieu Galey durante longos anos (De Olhos Abertos, Relógio d’Água, 2011) que li, apadrinhada pela autora do extraordinário A Obra ao Negro, a seguinte ideia: temos a obrigação moral de morrer menos estúpidos do que nascemos.

Yourcenar dizia-o, claro, de modo mais sofisticado, decerto mais luminoso. Trata-se de um propósito nobre. Tanto mais nobre, quanto inútil. Porque quando pensamos estar quase, quase, mesmo quase a ficar menos estúpidos (ou seja, mais gregos e socráticos…), Bumm! Crash! Palft! FIM e lá vamos nós navegando Lethes fora com a Ceifeira ao leme.

O facto de a sabedoria não ser transmissível de pais a filhos é porventura a prova maior de que isto da Natureza não é coisa tão perfeita como pintam. Ciclos de vida que se repetem a uma velocidade exasperante de tão lenta, sem, pelo menos que se dê por isso, escapar ao eterno retorno, quando não em movimento retrógrado ou, para recorrer a justo estrangeirismo, séculos e séculos a transitar du pareil au même enquanto o Sol arrefece. Torna-se cansativo. (...)

Voltemos a Yourcenar (...). Apesar da lentidão da espécie, diz-nos ela, há que morrer menos estúpido. O que passará, suspeito, por refrear ímpetos, regrar o voluntarismo e conseguir ver para além da árvore, o mundo. E que não nos preocupemos demasiado com o abandono de princípios. Como também escreveu: “É no momento em que rejeitamos todos os princípios que convém munirmo-nos de escrúpulos” (Alexis ou Tratado do Vão Combate, Difel, 1988).

Por fim, uma última pergunta: Nancy Pelosi já passou dos 80, não passou?»