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22/03/23

SE NÃO FOSSE TRÁGICO!

Portanto, mais de um ano após a abertura frontal das hostilidades com recurso à artilharia pesada na Europa, andam umas criaturas a afirmar o óbvio: a Rússia cai abertamente na esfera de influência da China.

Que perspicácia! Que brilhantismo de análise!

Pena é que só tivessem chegado lá depois de andarem anos a empurrar a Rússia para a esfera de influência da China. Foi e é uma estratégia de génio!
Os portugueses, como sempre, estiveram na vanguarda. Ainda me lembro da actual ministra do Trabalho, na altura secretária de Estado do Turismo, quase em lágrimas, a implorar aos chineses: "Façam de nós cobaias! Façam de nós cobaias!"

01/03/23

O ESPECTÁCULO DO MUNDO: COVID 19 E PROPAGANDA

Quando a coisa chegou da China, quem falava de vírus de laboratório era apelidado de maluquinho conspirativo.

Quando a coisa continuou a chegar da China, os países que primeiro impediram os voos vindos de lá foram apelidados de racistas e sinofóbicos, nomeadamente pela Organização Mundial de Saúde.
Quando a coisa começou a apertar, os métodos chineses de controlo drástico (para não lhes chamar outra coisa...) foram defendidos por democratas impolutos, alguns muito de esquerda. Uma dessas defensoras — há coisas que nunca esqueço porque definem o carácter — chegou a acusar "as velhas" de usarem como pretexto para saírem à rua a compra de peúgas e meias.
Passada a pandemia e porque os EUA e a China andam claramente às turras, a hipótese de o vírus ter escapado de um laboratório chinês ganha lugar à mesa das casas mais ilustradas.
A propaganda é uma coisa formidável!

02/12/22

MEDITAÇÃO DE SEXTA: «E A MELANCOLIA TOMOU CONTA DA CRONISTA»

«... Embora não existam livrarias seja qual for o ponto cardeal para onde me vire, vou mantendo contacto com os livros. Confesso que a maioria me deixa indiferente. E sim, não são poucas as vezes que sinto pena das árvores.

O sentimentalismo, dissimulado por uma carreira literária – seja isso o que for –, ou visivelmente primário – ambos abertamente mercantis – convoca Baudelaire que, a propósito do processo movido a Les Fleurs du mal, corria o ano de 1857 – há quanto tempo! – concluía que só se devem escrever livros virtuosos e com finais felizes.

E perdoar-me-á o leitor desta crónica a falta de actualidade da mesma. Quem diz actualidade, diz foco, palavra ainda assim mais aceitável do que “focalização”.

Claro que temas não faltam. O Qatar continua na ordem do dia. Têm sucedido revoltas na China, com os chineses a fartarem-se – apesar da sua renomada e milenar paciência – da política de Covid Zero, fora o resto. António Lobo Antunes publicou recentemente um novo romance (ainda não li). Evidentemente, há o tema intemporal do Acordo Ortográfico que veio esfrangalhar de tal maneira a língua que o português de Portugal corre o sério risco de se vir a transformar numa versão abastardada – e sem graça – do português do Brasil.

Se eu tivesse um décimo do talento de Eça de Queirós, já teria inventado, ou reinventado, um bei de Tunes. Afinal, não há cronista que um dia, pela manhã, não sonhe em ouvir bater-lhe à porta o bei de Tunes. (...)» 

16/09/22

ACORDARAM AGORA PARA A VIDA?!

Estava a ler esta notícia sobre os países do G7 terem declarado: «Acabou a ingenuidade em relação à China» e lembrei-me de uma consulta médica a que acompanhei o meu pai doente, teria ele uns setenta e tantos, e em que a dada altura o médico lhe pergunta: «O Senhor fuma?» Dada a resposta afirmativa do meu pai, o clínico insistiu: «E desde que idade?» 

Não me lembro com exactidão da resposta. Onze? Treze anos? 

O médico, não se dando por satisfeito, insistiu: «Não estaria na altura de deixar o tabaco?». 

E o descansado meu pai, muito depressa: «Agora?!»

Sim. Isto anda tudo ligado. 


29/08/22

AS SANÇÕES CONTRA A RÚSSIA QUE SUICIDAM A EUROPA: EM FRENTE CAMARADAS, O ABISMO É NOSSO

Uma análise assinada pela jornalista suiça de origem egípcia Myret Zaki. Alguns excertos traduzidos.

«... No final de Junho, o rublo tornou-se na moeda com melhor desempenho no mundo, atingindo o seu nível mais elevado em relação ao dólar em 7 anos. O PIB [russo] diminuirá em 6% em 2022, de acordo com o FMI, mas não 15% como fora previsto em Março. Analistas de Wall Street tinham previsto um colapso da Rússia.

Em Março, lembra-nos o “Business Insider”, a JP Morgan previra que o PIB russo cairia 35% no 2º trimestre. Para a Goldman Sachs, a economia do país experimentaria a sua maior contracção desde a implosão da URSS. Mas de Janeiro a Junho, o declínio foi de apenas 4% em relação ao ano anterior, graças a exportações acima do esperado, principalmente para a Índia. (...)

A estratégia [das sanções] estava extremamente bem montada. Excepto num "pormenor": a maioria dos países devia entrar no jogo e foi aí que a porca torceu o rabo. "A maior fraqueza das sanções, observa "The Economist", é que mais de uma centena de países, o que  representa 40% do PIB mundial, não seguiram os Estados Unidos e a Europa, e não impõem nenhum embargo (parcial ou total ) à Rússia […] A maioria dos países não deseja implementar a política ocidental.”

(...) Países tão importantes como a China, Índia, Brasil, Arábia Saudita estão a fazer exactamente o contrário, continuando a sua cooperação com a Rússia. Do Dubai, pode-se voar sete vezes por dia para Moscovo. A dura realidade reside na influência insuficiente que as democracias ocidentais tiveram sobre o resto do mundo. 

(...)

Mas a observação mais dolorosa é o preço exorbitante que o Ocidente é obrigado a pagar para punir os seus inimigos. É difícil escapar à sensação de autopunição face ao custo desproporcionado suportado pela Europa, onde uma crise energética sem precedentes se aproxima, falhas de energia eléctrica são anunciadas para este Inverno, picos de preços e recessão económica.

(...) a premissa básica estava errada. Em vez de serem indolores para o Ocidente e fatais para a Rússia, como originalmente se esperava, as sanções estão a mostrar-se pelo menos igualmente punitivas para a Europa. A assimetria é até invertida. “A Rússia poderia dar-se ao luxo de interromper todas as exportações de gás para a Europa por um ano sem grandes consequências para sua economia”, escreve Liam Peach, analista da Capital Economics, em nota citada pelo “Bloomberg” a 25 de Agosto. (...).

Inflação, escassez, insegurança são elementos que podem colocar as populações ocidentais contra os seus governos, quando o objectivo inicial das sanções era que os russos se voltassem contra o Kremlin.

(...)

Para “The Economist”, a conclusão é que o Ocidente será forçado a regressar às estratégias de “hard power”, ou seja, o poder militar, com um rearmamento maciço dos membros da NATO. Sem dúvida porque é nessa área que o Ocidente ainda tem uma vantagem muito clara.

Mas face a potências nucleares, poderemos manter esse tipo de raciocínio, ou ele é totalmente imprudente? Quando autoridades de Washington viajam repetidamente para Taiwan para dar palestras sobre a China, que resultado pode ser previsto de tal estratégia? Já antecipámos as consequências desta vez? (...)»

ARTIGO NA ÍNTEGRA EM FRANCÊS AQUI



11/08/22

CONTINUANDO A RIR-ME COM O «POLITICO»...

«WAR RHETORIC: The toughest message on China this week came not from Washington, but Paris. According to a newly released transcript of a parliamentary hearing session attended by Admiral Pierre Vandier, head of the French navy, he said: “Against the Chinese navy, we will win if we fight together, in coalition.” Oh là là.» 

04/08/22

PENSAR ENQUANTO É TEMPO

Tudo o que se possa dizer da distopia chinesa e mais um par de botas.

Tudo, menos dizer, como acaba de afirmar esta quinta-feira John Kirby, o porta-voz do Departamento de Defesa dos Estados Unidos: «The provocateur here is Beijing. They didn’t have to react this way to what is completely normal travel by congressional members to Taiwan...The Chinese are the ones who are escalating this».
Viagem normal quando até o Biden veio dizer que os militares norte-americanos não a achavam boa ideia?!
Não, a provocadora aqui foi e é Nancy Pelosi.
Dizer o contrário já está para lá do «guerra é paz» do Orwell.

«What Does Nancy Pelosi Think She’s Doing in Taiwan?»

SÓ HOJE LI ISTO SOBRE A SENHORA PELOSI. Mas é muito elucidativo da coragem de quem tem as costas quentes.
E já agora, de novo me interrogo: de onde saiu de repente tanta mulher adepta de soluções musculadas?
Confirma-se que os recém-convertidos são os piores ou isto são resquícios de mães autoritárias cujos filhos já saíram de casa e precisam de continuar a mandar? Ou as duas coisas?