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03/02/12

Estou com Vasco Graça Moura e ninguém tem nada com isso

1. Fizeram um acordo cujo único objectivo é vender dicionários e derivados.

2. Fizeram um acordo que está para a língua portuguesa como as leis dos burocratas europeus sobre o pão duro e os coentros estão para a açorda.

3. Fizeram um acordo que, do ponto de vista linguístico, é disparate atrás de disparate.

4. Embalados numa modernice que teria feito as delícias de Bouvard e de Pécuchet (dois homens sempre na vanguarda...), tentaram impor a ideia de que todos os que se opunham à "uniformização???!!!" da língua não passavam de reles conservadores e retrógrados, enquanto, ao mesmo tempo, complicavam grafias (algumas, agora com três hipóteses e siga o baile).

5. Vasco Graça Moura, personagem com quem não simpatizo, terá resolvido corajosamente não o aplicar no CCB (por acaso, já me tinha perguntado como descalçaria ele essa bota).

6. Perante o gesto (desobediência civil?) que só dignifica Graça Moura (e a língua portuguesa, já agora), António José Seguro foi fazer queixinhas ao Primeiro-Ministro. Gente de mierda, tão pequenina!

19/11/09

Tudo isto é uma enorme maçada, como diria o Dr. Mário Soares

Supondo, por mera hipótese de raciocínio, serem verdadeiros os vários factos que, segundo o semanário Sol, envolvem José Sócrates, as consequências de tal situação estão à vista: o Governo, o Estado e as instituições ficariam a tal ponto descredibilizados que a solução seria, pura e simplesmente, a demissão do primeiro-ministro pela prática reiterada de batotas várias, de todo incompatíveis com a lei e com a ética, com a dignidade do seu cargo e com o interesse nacional.
É evidente que toda a gente, incluindo os titulares de altos cargos políticos, tem direito à sua privacidade. E também é evidente ter havido uma grave violação (apenas mais uma…) do segredo de justiça.
Os apaniguados de Sócrates desmultiplicaram-se, numa operação mediática sem precedentes, a invocar razões puramente jurídicas em tudo quanto é sítio, procurando desviar as atenções do problema político e da sua real dimensão.
Mas o problema tornou-se escandalosamente político. E tornou-se também uma questão de decência. As coisas são o que são e são assim mesmo.
O presidente do Supremo Tribunal de Justiça e o procurador-geral da República viram-se metidos num verdadeiro imbróglio. Trata-se de dois altos magistrados, cuja idoneidade, rigor, competência e experiência são absolutamente indiscutíveis.
Por muitas explicações que sejam dadas agora quanto ao calendário das remessas e da apreciação das certidões, foi nítido o embaraço decorrente da situação, aliás protelado ao longo de vários dias e artificialmente pontuado por reenvios de competências que deixaram toda a gente perplexa. Ora nada disto terá decorrido da evidente inocuidade dos conteúdos das certidões enviadas. Se fossem inócuos tais conteúdos, qualquer deles poderia ter vindo logo a público dizer isso mesmo, dissipar dúvidas com a sua palavra autorizada e acalmar a opinião pública. Ninguém discutiria então a aplicação da lei.
Mas agora, mandadas destruir as certidões (e quem sabe se algum jornal tem cópia delas...), pode sempre pairar a suspeita de que esses conteúdos não eram afinal tão inócuos quanto isso e apontavam para qualquer coisa de política e juridicamente tão desconfortável que só um procedimento meramente formal conseguiu travar outros desenvolvimentos. No plano político, isso é desastroso e vira-se contra José Sócrates.
E afinal quem é que mandou fazer as escutas e analisou o resultado desses procedimentos. Terão sido políticos da oposição? Jornalistas de tablóides? Paparazzi desempregados? Jovens e ineptos utilizadores do Magalhães?
A resposta é confrangedoramente simples: foram magistrados portugueses, o procurador-coordenador do DIAP de Aveiro e o juiz de instrução criminal, no exercício das respectivas funções, quem sustentou existirem indícios da prática de um crime de atentado ao Estado de direito. Tratar-se-ia de puros incompetentes? De estagiários sem saber nem experiência? De loucos furiosos de justicialismo ultra-esquerdista a dispararem contra revoadas de mosquitos na outra banda? Ou antes de gente que achou ser de tal gravidade a matéria de que lhe chegavam indícios que entendeu do seu dever não agir de outra maneira?
Fosse como fosse, independentemente de apreciações formais, os factos que, pelo processo ínvio e lamentável da violação do segredo de justiça, vieram a público, adquiriram a maior relevância política e não há argumentação jurídica, por muito fundamentada que seja, que possa dissipar o seu efeito negativo.
O que é que faz com que José Sócrates e o seu naipe de ventríloquos e demais criaturas de serviço finjam não perceber o que se passa? Não há "salto à vara" que lhes permita passar airosamente por cima da situação criada, sem um esclarecimento muito sério que, dadas as circunstâncias, devia ser um imperativo político para o primeiro-ministro.
O mais deprimente é a sensação generalizada com que se fica de que Portugal está a caminho de se transformar numa república em que as bananas crescem num lodaçal. É nesses lugares que os valores se evaporam, as leis são impunemente violadas, tudo se degrada, todos os responsáveis são cúmplices e nada nem ninguém consegue evitar isso.
Mas é muitíssimo bem feito. Elegeram essa gente? Pois têm o que merecem… Assoem-se lá a esse guardanapo. Besuntem-se com o resultado. Amanhã ainda vai ser pior...

18/05/08

Da arte do romance

Tradutor premiado, poeta encartado, cidadão interventivo, opositor firme do novo Acordo Ortográfico, romancista às vezes. Vasco Graça Moura acaba de publicar Alfreda ou a Quimera, romance cuja origem, como o próprio explica em «nota final», se encontra num conto de Verão encomendado ao autor pelo Expresso.
Se a trama assenta numa obsessão – a que a Alfreda desperta em João de Melo Saraiva, protagonista e apaixonado por livros antigos, narrador e sujeito da história que com Alfreda se cruza precisamente por causa de um lote de obras à venda – , o registo chega-nos desprovido de qualquer catastrofismo, mais perto do cinismo do que da tragédia, e isto embora João de Melo confesse, quase no final, com certeza não a despropósito, a sua paixão por esse melodrama maior dirigido por Visconti, Senso, que é também ele uma história de obsessão, mas essa de qualidade mortífera. O lirismo, aqui, quase só assenta à outra personagem que pontua o texto, a cidade do Porto (e as paisagens nortenhas), invocada tanto na sua geografia como nos tipos humanos que define, um dos quais, Pips, aliás, William Brompton-St. James, por acaso (?) é inglês.
«Há um Porto expressionsita e fragmentário, às vezes existencialmente desesperado, vivido por dentro, interiorizado por quem sente a sua pertença à cidade, liricamente escuro e visceralmente obscuro no seu dramatismo, ramificado numa dimensão do tempo que se recupera por manchas e blocos a interpenetrarem-se na memória, por vezes em violentos diálogos entre o granito, o rio, as brumas, a luz do sol, a chuva», escreve-se na pág. 69, sem distanciamento, poderíamos arriscar. Porque, no resto, adivinha-se a lonjura que vem dos clássicos, intercalada com o gozo pícaro que se destaca quando se opta pela paródia: «(...) a Bettina chegou mais cedo e disse que tinha muita pena, mas não podia deixar de ir assistir a um debate sobre o terrorismo. (...) A mim, o terrorismo não interessava, a não ser na medida em que contra ele fosse criada uma segurança eficaz para toda a gente. E, além disso, chovia. E. além disso, eu não estava vestido para ir a lado nenhum, nem estava para mudar de roupa. (...) Mas ela mostrou-me que vinha de gabardina de nylon, jeans e sapatos de ténis, garantiu que a sessão era absolutamente informal (...) que ia ser muito interessante (...) que a gente que lá ia estar era muito simpática, inteligente e informada, enfim, lá me arrastou para a sala-bar de uma cooperativa qualquer na cave esconsa de um prédio esconso de uma zona ainda mais esconsa ali para os lados da Campanhã, um espaço com um pé-direito muito baixo, cheio de fumo a pairar como nevoeiro sobre as mesas, e com as portas e as janelas fechadas por causa do frio e das correntes de ar», pág. 85.
Se da combinação destas (boas) influências seria legítimo esperar um bom romance, Vasco Graça Moura perde aqui, porém, uma oportunidade para descolar do realismo e descolando-se, fazer voar o leitor, dando-lhe a conhecer mundos menos óbvios ou imediatamente identificáveis. Apesar da subtil mordacidade do anticlímax do final, imagine-se esta femme fatale, mulher que viveu várias vezes, nas mãos de Henry de Montherland. Imaginem-se estes inspectores de polícia nas mãos de Cardoso Pires. Imagine-se esta burguesia cultivada nas mãos de Eça.
Há neste último romance de Vasco Graça Moura um efeito de reconhecimento que o empobrece, que não ultrapassa a fronteira que G. K. Chesterton sabia distinguir a ficção da literatura: a primeira, uma necessidade, a segunda, um luxo (com História). Parafraseando Milan Kundera, em A Arte do Romance, depois de Cervantes se interrogar sobre a aventura, Samuel Richardson «desnudar a vida secreta dos sentimentos», Balzac descobrir «o enraizamento do homem na História», Flaubert explorar o território desconhecido do quotidiano, Tolstoi se debruçar sobre o irracional, depois de Proust ter sondado o passado e Joyce o presente, ou Thomas Mann os mitos, só restará ao romance reinventar-se ou morrer. Com Alfreda ou a Quimera, infelizmente, Vasco Graça Moura não o ressuscita.
Alfreda ou a Quimera
Vasco Graça Moura, 2008, Bertrand