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28/07/23

MEDITAÇÃO DE SEXTA: «E se eu, em vez de metafísica, chocolates?»

«O cineasta Billy Wilder – um ser raro, num registo diferente tão raro como o pedopsiquiatra João dos Santos: ambos capazes de casar na perfeição inteligência e sensibilidade – desabafou um dia, cito de cor, que, se alguém quisesse dizer ao público a verdade, o melhor seria fazê-lo com humor ou o público matá-lo-ia.

03/02/22

E PARA QUANDO A ACTUALIZAÇÃO DA MONA LISA?

Um grupo de artistas franceses quer actualizar a imagem de Marianne, a figura femimina criada por Delacroix que simboliza a Revolução Francesa. Já agora, acrescentavam também os bracinhos que faltam à Vénus de Milo ou davam um final decente a Bouvard & Pécuchet, o livro que Flaubert deixou inacabado, e não se falava mais nisso...

A NOTÍCIA AQUI

07/03/12

Biblioteca dos livros desopilantes e quase sempre a preços módicos (I)

Primeiro livro da estante: Bouvard et Pécuchet, uma sátira hilariante sobre a estupidez humana. Foi publicado em 1881, um ano após a morte de Gustave Flaubert, e é indiscutivelmente o livro "inacabado" mais genial da história da literatura.
O original, em francês, pode ser lido ou descarregado à borla a partir daqui.
A tradução portuguesa, assinada por Pedro Tamen, está à venda no site da editora COTOVIA por apenas 7,50€.

08/08/11

Homo economicus e tal

Como não me canso de dizer: está tudo na literatura.
Numa entrevista feita há uns anos (com Francisco Belard) a Enrique Vila-Matas, o espanhol explicou-o de modo claro: “(…) quando alguém me diz ‘Sabes o que aconteceu? Foi horrível!’, e conta uma história, dramática mas sem o ser demasiado, mais do que preocupar-me com o que se passa, e que é passageiro, sou tentado a ajudar essa pessoa explicando-lhe que isso já foi contado por Perec ou Flaubert numa novela curta. (…) Quanto mais se leu, mais coisas se sabe que aconteceram. O marido que tem uma mulher como Madame Bovary; não é assim tão dramático, está contado por Flaubert, repetiu-se muitas vezes.”
Ter lido Flaubert não aliviará ninguém do tédio do seu próprio casamento, embora ajude com certeza a pôr as coisas em perspectiva.
Foi o que pensei ao tropeçar por acaso numa frase de Dostoievski retirada a Crime e Castigo: “ (…) o senhor Lebeziátnikov, que acompanha as ideias novas, explicou há dias que, nos tempos que correm, a compaixão até está proibida pela ciência e que assim se passa na Inglaterra onde existe economia política”.
A economia política anda hoje pelas ruas da amargura. Ou com maior exactidão: a economia política anda a deixar uma caterva de gente pelas ruas da amargura. Não que a compaixão esteja proibida pela ciência: ao invés, é a própria ciência a confirmar que não fora a compaixão e já teríamos ido todos para o galheiro, contrariando, felizmente, as convicções do professor Vergerus em O Ovo da Serpente: “A antiga sociedade baseava-se em ideias românticas sobre a bondade humana. (…) essas ideias não concordavam com a realidade. A nova sociedade basear-se-á numa avaliação realista das potencialidades e limitações do homem. O homem é uma deformidade, uma perversão da natureza.”
Podemos, perante tais ideias, continuar a assobiar para o lado; a verdade é que está tudo nos livros. E no cinema. Apesar de Ingmar Bergman ter dito que “film has nothing to do with literature”. Falava, claro, de outra coisa. Eu própria, às vezes, não sei bem do que falo. Mas que me cheira mal, cheira.

09/08/10

A book a day keeps the doctor away: "O Papagaio de Flaubert", Julian Barnes

O papagaio de Flaubert antes de ser de Flaubert, ou sequer de Barnes, foi de Félicité, a eterna criada de madame Aubain retratada pelo mestre em Um Coração Simples, conto extraordinário, perfeito, como quase tudo o que saiu da pena do autor de Madame Bovary.
Tantos anos passados, o inglês Geoffrey Braithwaite atravessa o Canal (Barnes, o próprio, fá-lo-ia também para escrever precisamente o conjunto hilariante de histórias Do Outro Lado do Canal) com o objectivo de observar, in loco, o papagaio que havia servido de inspiração a Flaubert.
O animal está embalsamado, tal qual ficaria no final de Um Coração Simples, a ordens de Félicité que se iria também pouco depois, confundindo beatificamente a ave com o Espírito Santo.
Mas será o papagaio do Museu de Rouen, de facto, o de Flaubert? Assim parece mas, entretanto, um outro papagaio...
Julian Barnes, francófono assumido, escreve aqui um genial ensaio, apresentando-o sob a forma de romance, numa mescla de géneros que dá ao conceito de híbrido um sabor irresistível. Se toda a gente soubesse falar assim dos clássicos, estes conquistariam de certeza o coração de mais leitores. Primeira conclusão.
Segunda: Barnes é um grandessíssimo escritor. Vencedor de vários prémios, O Papagaio de Flaubert foi agora reeditado. Educação sentimental que mistura biografia com humor (a rodos) e envereda descontraidamente pelo pastiche, pelo policial (?), levando-nos a concluir pela impossibilidade das respostas definitivas, o livro questiona o mestre para lhe dar razão.
O obcecado pela objectividade do “mot juste”, o defensor convicto do apagamento do autor (apesar do paradoxo de “Madame Bovary c’est moi”), é esquadrinhado por Braithwaite, seu fã incondicional, que busca o homem por detrás da obra. Mas qual o papagaio que se pode reclamar, realmente, do eremita de Croisset?
Se há título que consegue aliar divertimento e inteligência é este. Porque o texto, claro, é digno do seu objecto.
O Papagaio de Flaubert, Julian Barnes, Quetzal, 2010

28/01/09

Who the fuk is Manuel Queiroz?

A pergunta do título é retórica. Ou seja, estou-me nas tintas para o dito. Não sei quem é nem quero saber quem seja: Manuel Queiroz não me interessa como indivíduo mas como paradigma. No caso, paradigma da bêtise a que Flaubert chamou um figo e que, como é dos livros e da praxis, nunca vem só: faz-se habitualmente acompanhar da arrogância e quem vier atrás que limpe a merda.
Mas se a estupidez é universal ― como garante a frase apócrifa de Einstein (Só há duas coisas infinitas, a estupidez humana e o universo, e quanto ao último não tenho a certeza) ― há quem a cultive de um modo genuinamente português.
Para ir directa ao assunto: são aqueles tipos que, perante uma coisa estúpida, puxam dos galões da sua suprema inteligência e tornam a coisa estúpida ainda mais estúpida, atribuindo-lhe qualidades que mais ninguém viu, intenções que mais ninguém percebeu, estratégias que mais ninguém alcançou.
Perante tais maîtres à penser de puro sangue lusitano, Niccolò Machiavelli não passaria de um menino de coro e, já que falei em coro, assim de repente recordo-me de algumas vozes esdrúxulas que, no seu apoio à invasão do Iraque, e concorrendo taco-a-taco com Bianca Castafiore, conseguiam ultrapassar em muitos decibéis qualquer general americano mortinho por uma guerra.
Quanto a Manuel Queiroz, que é o exemplo que me traz agora, viu na reabilitação do bispo Richard Williamson, um inglês ultraconservador que acha que o Holocausto é uma história para adormecer criancinhas, um gesto papal cheio de conotações abscônditas mas que ele, e refiro-me naturalmente a Queiroz, alcança de modo claro e distinto (embora, e isto sou eu a falar, num português um pouco obscuro to say the least...). Os judeus tinham ficado lixados, a esquerda tinha ficado lixada, mas ele ― ele, Queiroz! ― sabia que Ratzinger visava mais longe e se estava a borrifar para os judeus e para a esquerda. Afinal, parece que o próprio Vaticano ficou incomodado com a história e, como já vem sendo enfadonhamente habitual, pediram-se desculpas.
Apropriadamente termino, pois, concluindo que há criaturas mais papistas do que o Papa ou em inglês para condizer com o título: He may look like an idiot and talk like an idiot but don't let that fool you. He really is an idiot.

14/11/08

A book a day keeps the doctor away

A crítica está para a arte como o bufo está para o soldado; e o que se segue não é, naturalmente, uma crítica. A primeira proposição roubei-a grosseiramente a Gustave Flaubert (1821-1880) ― «On fait de la critique quand on ne peut pas faire de l'art, de même qu'on se met mouchard quand on ne peut pas être soldat» ―, a segunda serve de justificação a esta curta nota: porque acaba de ser reeditado A Educação Sentimental, um daqueles livros obrigatórios se fosse o caso de embarcarmos para uma ilha.
Assinado pelo maníaco do «mot juste», dessa obra diria Eça de Queiroz: «Na Educação Sentimental, [Flaubert] concebe esta ideia de génio: pintar numa larga acção a fraqueza dos caracteres contemporâneos amolecidos pelo romantismo, pelo vago dissolvente das concepções filosóficas, pela falta de um princípio seguro que, penetrando a totalidade das consciências, dirija as acções; e explicar por esta efeminação das almas todas as instabilidades da nossa vida social, a desorganização do mundo moral, a indiferença e o egoísmo das naturezas, a decadência das classes médias, a dificuldade de governar a democracia...». É uma leitura de época que se mantém justíssima.
Num registo que oscila entre o lirismo e a mais pura paródia, com a paixão do jovem Frédéric Moreau por Madame Arnoux (reedição do próprio amor do jovem Flaubert por Élisa Foucault) a servir de pano de fundo a um retrato ultra-realista da época, A Educação Sentimental trata não só das ilusões amorosas, mas também das ilusões políticas. Deixando aquele lastro de desencanto intemporal que Flaubert sempre soube subtrair a todo o sentimentalismo.
A Educação Sentimental, Gustave Flaubert, Relógio D’Água, 2008, trad. de João Costa [o romance pode ser lido no original a partir daqui]

18/07/07

A book a day keeps the doctor away VI

É o livro definitivo sobre a idiotice humana e, mesmo assim, ficou inacabado. No original, pode ser descarregado da web e há uma edição portuguesa na Cotovia, traduzida por Pedro Tamen.

«On leur avait préparé une soupe à l'oignon, un poulet, du lard et des oeufs durs. La vieille femme qui faisait la cuisine venait de temps à autre s'informer de leurs goûts. Ils répondaient : "Oh très bon ! très bon !" et le gros pain difficile à couper, la crème, les noix, tout les délecta ! Le carrelage avait des trous, les murs suintaient. Cependant, ils promenaient autour d'eux un regard de satisfaction, en mangeant sur la petite table où brûlait une chandelle. Leurs figures étaient rougies par le grand air. Ils tendaient leur ventre, ils s'appuyaient sur le dossier de leur chaise, qui en craquait, et ils se répétaient : - Nous y voilà donc ! quel bonheur ! il me semble que c'est un rêve!
Bien qu'il fût minuit, Pécuchet eut l'idée de faire un tour dans le jardin. Bouvard ne s'y refusa pas. Ils prirent la chandelle, et l'abritant avec un vieux journal, se promenèrent le long des plates-bandes.
Ils avaient plaisir à nommer tout haut les légumes: "Tiens: des carottes! Ah! des choux." Ensuite, ils inspectèrent les espaliers. Pécuchet tâcha de découvrir des bourgeons. Quelquefois une araignée fuyait tout à coup sur le mur ; et les deux ombres de leur corps s'y dessinaient agrandies, en répétant leurs gestes. Les pointes des herbes dégouttelaient de rosée. La nuit était complètement noire; et tout se tenait immobile dans un grand silence, une grande douceur. Au loin, un coq chanta. »
Bouvard et Pécuchet, Gustave Flaubert