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04/08/07

Isto é o que eu penso sobre o livro de Zita Seabra

Há uma frase de Margaret Atwood de que gosto muito e não resisto a citar: «Interessarmo-nos pela vida privada de um escritor porque gostamos de um livro dele é como interessarmo-nos por gansos porque gostamos de “foie gras”». Zita Seabra, pelo que li, não é, nem nunca foi, discípula de Baco; o interesse que a sua vida desperta relaciona-se não com a nobre arte da culinária mas com a ciência da História. Apesar disso, decidi trazer Atwood à baila, não só porque a frase dela é uma alfinetada bem lúcida no género biográfico, mas também porque me permite sublinhar a expressão «vida privada». Não é disso que trata Foi Assim.
Cartas na mesa. Este livro é daqueles que suscita ódios e aplausos. Sem grande margem de risco, poderíamos garantir um royal flush apostanto em que, à partida, a atitude do leitor a respeito de Foi Assim coincidirá com a atitude do leitor em relação à autora do mesmo. Porque Zita Seabra, para dizê-lo de forma melíflua, é uma mulher polémica.
Do PCP ao PSD, da militância pela legalização do aborto em 1984 à firme oposição ao mesmo no recente referendo, do ateísmo comunista à Igreja católica, das camisas de xadrez proletário aos saias-casaco... tudo isto gera uma certa estupefacção, outros chamar-lhe-iam irritação. A curiosidade vem por arrasto. Mas, perante o fenómeno que, pelo menos editorialmente, este livro representa, não pude deixar de fazer contas.
Estamos em 2007. A URSS dissolve-se em 1991, o muro de Berlim cai em 1989, o Arquipélago de Gulag, de Soljenistsin, chega em 1974, a Tchecoslováquia é invadida em 1968, a Húngria fora-o em 1956, Estaline morre em 1953, Albert Camus escreve O Homem Revoltado em 1952, Arthur Koestler publica O Zero e o Infinito a seguir à II Guerra Mundial, mais ou menos na mesma altura em que Viktor Kravchenko deserta da URSS e escreve I Choose Freedom, etc. etc.
Por cá, o comunismo também não é um mar de rosas. Francisco Paula de Oliveira (Pavel), Júlio Fogaça, J.A. Silva Marques, Francisco Martins Rodrigues, Francisco Augusto Ferreira (Chico da Cuf), Cândida Ventura, Raimundo Narciso, etc., são nomes malditos ofuscadas pelo brilho atribuído a Cunhal. Alguns deles escreveram memórias: Francisco Augusto Ferreira publicou, entre outros, 26 Anos na União Soviética, Notas de Exílio (1975), J.A. Silva Marques, Relatos da Clandestinidade (o PCP Visto por Dentro) (1976), Cândida Ventura, O «Socialismo» que eu vivi (1984), Raimundo Narciso, A.R.A. Acção Revolucionária Armada (A História Secreta do Braço Armado do PCP) (2000). E, chegado apenas agora, Foi Assim, que ainda gera frisson. Vasco Pulido Valente, pouco dado a impressionar-se por dissidências tardias, veio dizer que este era «o livro que faltava para perceber a grande tragédia do comunismo português». Fui ler.
Partimos sem qualquer apriorismo: nem Santo Agostinho, nem Carolina Salgado nos guiaram. Lemos as 443 páginas e, Pulido Valente que nos permita a discordância, não ficámos a perceber mais da «tragédia do comunismo português» do que já percebíamos (ou não percebíamos) antes. Terminámos, porém, com uma dúvida acrescida: a de não entender a relação da autora com o livro que escreveu.
Vamos por partes. Não sendo uma obra-prima de estilo – faltará à ex-comunista o «dom e a capacidade de escrita», sobrando-lhe «tão-só a vontade de escrever» – e eliminada, pois, a questão do como, restam duas perguntas (o «para quê» fica, legitimamente, no foro privado): escrever o quê, e de que ponto de vista?
Decidiu a autora organizar a autobiografia respeitando a ordem cronológica e começando pelo princípio. E o princípio vem antes do PCP. Assim, o relato inicia-se pela infância e prossegue: juventude, militância, clandestinidade, pós-25 de Abril e a explusão em 1989, só com um voto contra: o de si própria. Termina aí. Mas o problema é que nada do que conta até essa data (a não ser alguns, muito escassos, episódios) é novo: os métodos do PCP, as lutas durante o Estado Novo, a organização piramidal, as casas clandestinas, as «companheiras», a actuação no pós-25 de Abril, o peso de Álvaro Cunhal, as vias de passagem ao socialismo, as infiltrações no aparelho de Estado, tudo isso está hoje documentado e constitui matéria de estudo. É verdade que alguns factos vêm gerando polémica: Raimundo Narciso nega ter estado em casa da ex-camarada; Nuno Ramos de Almeida vem defender o nome do pai, Pedro Ramos de Almeida; o «Serviço Cívico Estudantil» divide opiniões... Nada de bombástico...
E a frustação instala-se à medida que avançamos. A linguagem e os clichés de época aliados à fórmula descritiva (uma espécie de história do PCP contada às crianças, com sublinhados e repetições que chegam a ser penosos), a que se acrescenta a falta de reflexão sobre os acontecimentos (e, muito menos, sobre a actuação da autora, que se limita a repetir, à exaustão, que era assim...), tornam Foi Assim num livro menor, cujo sucesso mediático se justificará por todas as razões, menos pela sua qualidade intrínseca.
Sublinhe-se: a questão não é Zita Seabra ter ou não ter escrito um acto de contrição. A questão nem sequer é nunca percebermos porque não entrega o cartão após o assassinato da amiga Sita Valles pelo MPLA. A questão está em que nada neste livro nos explica – nunca – a sua actuação particular como militante. E se nem todos eles seguiriam o modelo de Georgette (a temível controleira dos primórdios), porque o terá escolhido ela?
Apesar do «olhar pessoal» referido no preâmbulo, poucas vezes a vemos incidi-lo sobre si. Gasta, porém, demasiado tempo a referir nomes de quem não resistiu às torturas da PIDE ou teve comportamentos menos exemplares na dedicação à causa. E há reflexões de um primarismo inaceitável, como aquela em que, referindo-se ao «relacionamento difícil com as mulheres» de Cunhal, remata: «Os psicanalistas diriam certamente que isso vinha da relação conflituosa que ele teve com a mãe – que, como é sabido [eu não sabia, mas pronto] e ele mo relatou diversas vezes, nunca visitou o filho na cadeia durante todos os anos em que esteve preso.»
Para concluir. Contas feitas, continuará Zita Seabra convencida de ter estado no sítio certo à hora certa? Porque, se por um lado, escreve: «Que ninguém diga que ignorava: os comunistas portugueses sempre souberam de tudo», logo acrescenta: «Mas não me julgue, porque não tem autoridade moral ou ética para o fazer, aquele que não lutou pela liberdade em Portugal (...)». Arthur Koestler disse uma coisa só muito vagamente parecida. Estava-se, porém, nos anos 40, antes do Muro de Berlim e de tudo o resto que, afinal, se sabia.

23/07/07

Sigmund Freud: porque há coisas que me irritam

«Freud modificou, talvez de forma irreversível, a imagem que o homem tem de si mesmo. Comparado com isto, é de importância secundária que algumas das suas ideias válidas não tenham sido novas, que as suas concepções específicas sejam questionáveis e que os seus métodos terapêuticos sejam duvidosos» (L. L. Whyte, cit. por Frank Cioffi, «A Controvérsia Freudiana: O Que Está em Questão?», in Freud, Conflito e Cultura, 2000, Zahar).
Se se tiver esta afirmação por justa, então, só nos restará concluir que tudo vai bem no melhor dos mundos: as insuficiências da psicanálise, a existirem, não abalam o essencial da teoria nem a sua importância como facto cultural. A tese de L. L. Whyte é, contudo, muito menos inócua do que parece. Primeiro, porque atribuir «importância secundária» aos senãos da psicanálise é, naturalmente, uma asserção polémica; depois, porque garantir que «Freud (…) modificou a imagem que o homem tem de si mesmo», se para uns resta provar, para outros não passa de uma ideia feita. Acresce, como nota Frank Cioffi no artigo citado, que a referida modificação será sempre «de pouca serventia, se essa nova imagem não corresponder melhor a uma realidade que tenha existência independente».
Ora, se há coisa que merece o acordo da maioria dos críticos é que, apesar da sua pretensão a cientista, a realidade nunca foi obstáculo para Freud. Neste ponto, acompanham-no alguns ilustres. Jean-Jacques Rousseau, o «bom selvagem», arriscava com desenvoltura na introdução ao seu Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens: «Comecemos pois, por pôr de lado todos os factos, visto nada terem a ver com a questão».
Ao contrário do que a vulgata psicanalítica pretende fazer crer, a contestação a Freud não assentou, essencialmente, no anti-semitismo ou no horror vitoriano ao sexo. Desde o início, foram muitos os que se ergueram contra as suas teorias, uns por razões científicas, outros invocando somente essa categoria tão desprezada por filósofos, mas que, se levada a sério, teria com certeza contribuído para evitar muitos desvarios históricos — o bom senso.
E terá sido exactamente o bom senso a mover um psicólogo contemporâneo de Freud, quando lhe fez notar o que considerava uma excessiva sexualização do mundo onírico. Dando como exemplo o seu próprio sonho recorrente — subir escadas —, onde não vislumbrava nada de sexual, o incauto crítico não ficaria sem resposta. Em 1911 tem a honra de se ver incluído numa nota à nova edição de A Interpretação dos Sonhos: «Ficámos alerta com esta objecção e começámos a concentrar a nossa atenção no aparecimento de degraus, escadas e escadas de mão nos sonhos, e estávamos em breve em condições de mostrar que escadas (e coisas análogas) eram indiscutivelmente símbolos de copulação. É difícil não ver (…): nós chegamos ao cimo numa série de movimentos rítmicos e com crescente falta de ar e depois, com alguns saltos rápidos, podemos voltar a baixo. Deste modo, o padrão rítmico da copulação é reproduzido no acto de subir escadas».
Quanto ao filósofo vienense Heinrich Gomperz não apresentara nenhuma crítica. Pelo contrário. Impressionado com a teoria freudiana dos sonhos enquanto realizações disfarçadas de desejo, oferecera-se a Sigmund como cobaia. Ao fim de alguns meses, os resultados não podiam ser piores: «A experiência revelou-se um completo fracasso. Todas as coisas "terríveis" que ele sugeria que eu poderia ter escondido de mim próprio e "reprimido", eu podia assegurar-lhe com honestidade que tinham estado sempre nítida e conscientemente presentes na minha mente».
Dada a relutância de Freud em consentir ser posto em causa, facto que a maioria dos biógrafos considera um traço fundamental do seu carácter, percebe-se que o irreverente Karl Kraus (1874-1936), também ele judeu, tenha optado não pela argumentação mas pela ironia telegráfica: «A teoria antiga negava a sexualidade dos adultos. A moderna diz que os bebés têm prazer sexual enquanto defecam. A antiga era melhor, ao menos podia ser contraditada pelas partes envolvidas» (Thomas Szasz, Anti-Freud, Karl Kraus's Criticism of Psychoanalysis and Psychiatry, 1990, Syracuse University Press). Ou como, também de forma concisa, explicou o filósofo francês Gilles Deleuze: «O mecanismo de interpretação da psicanálise pode ser resumido ao seguinte: o que quer que se diga quer sempre dizer outra coisa».
Na actualidade, entre os opositores mais firmes encontra-se Frederick C. Crews (ex-psicanalista, professor e crítico de literatura inglesa entretanto jubilado da Universidade da Califórnia, Berkeley), que não hesitou em chamar «charlatão» a Freud, acrescentando que «se um homem de ciência se comportasse hoje daquela maneira seria obviamente despedido, as bolsas de investigação ser-lhe-iam cortadas e viveria no opróbrio até ao final dos seus dias» (Conversation with Frederick Crews, disponível on-line). No livro que organizou, Unauthorized Freud: Doubters Confront a Legend (1998, Viking), onde se compilam artigos de uma vintena de autores, Crews resume sem peias o objectivo da obra: mostrar como a psicanálise começou por ser um erro para crescer até se tornar numa impostura.
Idêntica convicção terá estado na origem da revolta de numerosos intelectuais norte-americanos contra o carácter apologético da exposição dedicada a Freud, proposta pelo curador da Biblioteca do Congresso, Michael S. Roth, em Junho de 1995, e que deveria ser organizada pela IPA (International Psichoanalytical Association) e pelos Sigmund Freud Archives. Conseguindo fazer-se ouvir, os contestatários impuseram que as opiniões críticas também fossem incluídas na exposição, a qual acabaria por só abrir ao público no Outono de 1998, após ter chegado a ser cancelada.
Mais recentemente, a França também se incendiou a propósito dos 150 anos do nascimento do pai da psicanálise. A pátria de Jacques Lacan (guru parisiense que, em Março de 1996, seria lapidado pelo professor Raymond Tallis na conceituada revista médica inglesa The Lancet: «Poucos psicanalistas são tão claramente psicopatas como Lacan, o mais eminente discípulo francês de Freud») assistiu a uma guerra aberta, declarada nos media pela edição de Le Livre noir de la psychanalyse (2005, Éditions des Arènes, org. Catherine Meyer), a que se seguiu L'Anti-livre noir de la psychanalyse (2006, org. Jacques-Alain Miller, Éditions du Seuil).
Mas a crítica moderna a Freud não é de agora. Recua pelo menos à década de 70, quando destrona para sempre a biografia oficial do pai do complexo de Édipo assinada por Ernest Jones, Sigmund Freud: Life and Work, obra em três volumes publicada em 1953-57. As palavras de Jacques Bénesteau, inscritas em Mensonges Freudiens: Histoire d'une désinformation séculaire (2002, Mardaga), dão conta da apreciação generalizada dessa biografia original: «A formidável biografia de Jones é, com certeza, um delicado e muito britânico "understatement", uma suavização diplomática das verdades, mas também uma refinada alteração dos factos históricos e propaganda ideológica sob estreita vigilância dos censores», referindo-se Bénesteau ao facto de a própria Anna Freud ter supervisionado em pormenor o trabalho do discípulo inglês do pai.
Três décadas antes de Mensonges Freudiens vir a público, já Henri Ellenberger chamava a atenção para os efeitos nefastos do endeusamento de Freud e dos primórdios da psicanálise. Em Discovery of the Unconscious: the History and Evolution of Dynamic Psychiatry (1970, Basic Books), afirmava que «a psicanálise tem crescido numa atmosfera de lenda, e por isso não é possível uma apreciação objectiva antes de os verdadeiros factos históricos serem apurados (…)». Na opinião de Ellenberger, Freud era vendido ao público como «um herói solitário a lutar contra uma hoste de inimigos, sofrendo o ataque de "fundas e flechas da fortuna adversa", mas triunfando no fim». Este perfil redentor ocultava a «maior parte do contexto científico e cultural em que a psicanálise se desenvolveu», atribuindo «a Freud muito do que pertence a Herbart, Fechner, Meynert, Benedikt e Janeta», ignorando «a obra de exploradores anteriores do inconsciente, dos sonhos e da patologia sexual» (cit. por Richard Webster, Freud Estava Errado: Porquê?, 2002, Campo das Letras).
Entretanto, o edifício psicanalítico fora perigosamente minado em 1969 quando Paul Roazen, falecido no ano passado, escreveu Brother Animal: the Story of Freud and Tausk, uma leitura da relação entre o psicanalisado Victor Tausk e o movimento vienense que acaba tragicamente com o suicídio daquele em 1919, aos 38 anos. Além deste episódio, que os adeptos de Freud sempre tentaram branquear (em 1988, o freudiano K. R. Eissler publica O Suicídio de Victor Tausk, tentando pôr termo ao desagradável assunto), a obra abordava também, pela primeira vez, a análise de Anna Freud no divã do pai, o que daria origem a uma acesa desconfiança desta em relação a biógrafos e investigadores e, além disso, à sua decisão de embargar o acesso a certos documentos conservados na Biblioteca do Congresso até ao século XXII!
Roazen volta à carga em 1975 com Freud and his Followers, no que é seguido por Frank Sulloway com Freud, Biologist of the Mind: Beyond the Psychoanalytic Legend, publicado quatro anos depois. Embora nenhum deles fosse um crítico radical — Sulloway, que entretanto endureceu a sua posição, terminava o seu livro afirmando que, «no fim de contas, Freud era mesmo um herói» —, a reacção às duas obras foi bastante azeda, e ambos os autores se viram, recentemente, rotulados de historiadores «revisionistas» num dicionário de psicanálise francês.
Entre um dos mais indignados da altura contava-se Peter Gay, o psicanalista autor de Freud: a Life of our Time (1988), biografia que se pretende de referência e se apresenta como «desapaixonada e de cariz académico», mas que o cordato Webster não deixou de acusar ser «uma versão sofisticada e actualizada da biografia oficial de Jones, cuja atracção para os devotos da psicanálise é parecer um toque de clarim de fé e certeza no meio da dúvida, capaz de admitir a existência de muitas objecções à psicanálise sem sacrificar a obediência ao seu fundador ou renunciar à imagem dele como génio e herói científico».
Toda a contestação epistemológica ao freudismo tinha tido em Karl Popper um aliado de peso. No célebre livro Conjecturas e Refutações (2003, Almedina), publicado pela primeira vez em 1962, a sua teoria da falsificabilidade como critério do conhecimento científico havia empurrado a psicanálise para o território da pseudociência. Mas foi com a edição integral das cartas de Freud ao médico e amigo Wilhelm Fliess, organizada por Jeffrey Masson, The Complete Letters of Sigmund Freud to Wilhelm Fliess, 1887-1904, (1985, Harvard University Press; existe tradução brasileira na Imago), que, verdadeiramente, a defesa da psicanálise se tornou mais difícil.
Freud destruíra as cartas que lhe haviam sido enviadas por Fliess e tentara, sem sucesso, que a acólita Marie Bonaparte fizesse o mesmo às que, por acaso, a princesa conseguira comprar em Paris em 1936. A viúva de Fliess vendera a um livreiro as cartas que Freud escrevera ao marido, com a condição expressa de não poderem ser adquiridas pelo destinatário. Quando Marie Bonaparte informa o mestre da compra das cartas, este não deixará de insistir com ela para que as destrua. Uma primeira edição seleccionada da correspondência, controlada por Anna Freud, é publicada nos anos 50 com o título As Origens da Psicanálise. O resto é depositado na Biblioteca do Congresso, em Washington, com a condição de ninguém o poder consultar até ao ano 2000. Entretanto, Jeffrey Masson, ele próprio amigo de Anna, tendo chegado a ser director de projectos do Sigmund Freud Archives, lê as cartas. Desiludido e estupefacto com o seu conteúdo, acabará por afastar-se do movimento psicanalítico, convencido da falta de coragem moral e intelectual do homem que até então venerara.
Masson publicou outros textos críticos, nomeadamente The Assault on Truth: Against Therapy e Final Analysis, mas nada do que escreveu teve um efeito tão devastador como a edição integral das cartas. Nelas expunham-se, agora sem ganga apologética, aspectos da personalidade e do percurso do antigo mestre que provavam, entre outros, que o intrépido conquistador do inconsciente defendera teorias «científicas» indefensáveis (mesmo para a época), inventara pacientes, consumira cocaína durante pelo menos 12 anos, e, além do mais, que fora Fliess (cujas ideias tentou mais tarde denegrir), e não Freud, o responsável pela ruptura entre os dois. Se o mito persiste, desde então nunca mais pôde ser o mesmo.
Fora do espaço estritamente académico, seriam as feministas a fazer a maior mossa. Indignadas com a incompreensão confessada de Freud pelo «continente negro» — o que não o coibiu de apresentar várias teorias sobre o «segundo sexo» —, saíram a público para refutar, normalmente com grande veemência, a freudiana «inveja do pénis», reclamando o direito aos seus orgasmos clitorianos, vistos por Freud como sintoma de imaturidade. Afinal, era-lhes difícil levar a sério um homem que, perante uma situação de «ansiedade quanto a lançar-se de uma janela», a interpretava como uma fantasia feminina inconsciente de «ir à janela para convidar um homem a subir, como fazem as prostitutas». Uma história da carochinha em que só mesmo Fliess — o amigo de 17 anos que, em 1897, publicara As Relações entre o Nariz e os Órgãos Sexuais Femininos do Ponto de Vista Biológico — poderia acreditar.

12/07/07

Viva a silly season! Viva Las Vegas!

«Today», uma publicação gratuita que se apresenta como a mais votada e mais bem informadada visitor guide, exibe no seu interior um intrigante anúncio. Logo na quarta página, um convite a duas colunas para a «a maior exposição de Marc Chagall jamais realizada na América».
A ocorrência não pode deixar de me parecer insólita, entrando-me pelos olhos dentro estou eu sentada ao balcão de um coffe bar, «Do-you-want-more-coffe?-Yes-please-thank-you», tal e qual como nos filmes, acabada de chegar a Las Vegas. E Las Vegas, como se sabe, fica no meio do deserto.
Aterrara na noite anterior. Depois de esperar, com algum nervosismo, que o serviço de fronteiras de Queens (onde fizera escala) confirmasse que sou uma pessoa de bem (poupo-vos aos pormenores), lá me reconhecem o visto e posso seguir viagem.
«Então, é jornalista?», remata-me a autoridade no final do episódio. «Sim», respondo laconicamente, já de passaporte na mão. «E o que vai fazer a Las Vegas?». A resposta, gambling, terá saído com rapidez excessiva, deflagrando num lance de desaprovação e perplexidade no meu interlocutor. Recuo: «Estava a brincar!», e sempre recuando, desta vez em direcção à porta, eclipso-me à pressa pelos corredores do aeroporto.
Em Queens tentara repor os meus níveis de nicotina, pelo que me dirigi a uma funcionária em demanda da smoking area. «Lá fora.» «Lá fora?!», insisto, enquanto me viram as costas. E acabo a fazer horas junto aos deserdados do fumo, sucidando-me com eles por um bocadinho ao ar livre.
Repare-se, no aeroporto Mac Carran não se fuma outside. Uma sala apropriada, a que não faltam algumas máquinas de jogo, espera-nos mal tocamos solo firme, embora seja tal a espessura do ar que até eu própria desisto.
Apesar de ter dormido durante as cinco horas do voo, identifico o passageiro do lado, maço de tabaco na mão. «A primeira vez em Las Vegas?», pergunta-me enquanto esperamos pela malas. Confirmo. Quer saber de onde venho. «Portugal.» «Portugal, Europa?», comenta, surpreendido. «And you?», chuto no meu inglês emperrado. «Eu?» «Sim, o que veio fazer a Las Vegas?». Dispara-me um gambling certeiro, tão certeiro como um royal flush. Então já somos dois. Bom, no meu caso, em rigor não venho para jogar; confesso, contudo, sempre ter tido uma simpatia especial, e não apenas literária, pelo Fyodor Dostoievsky.
Anualmente, os aviões despejam em Las Vegas mais de 30 milhões de passageiros - o correspondente a cerca de 7 a 8% da população americana. O nova-iorquino Ed, motorista negro de tamanho XL que já circulou por Chicago e que há meia dúzia de anos o destino retém por aqui, cuja idade, indefinida, parece ser a idade de quem conseguiu assistir a todos os «fora-de-horas» sem que por isso o olhar lhe endurecesse o rosto, diz-me que a maioria das pessoas que transporta do aeroporto chega para jogar. Jogar ou anything else, acrescenta. Porque tudo é possível em Las Vegas... desde que se tenha dinheiro.
Atenção: Ed não é um cínico, apenas um céptico, nunca por nunca um moralista. Explica-me: «Estás sentada durante horas a desafiar uma máquina. Ficas depenada. Acabas por te ir embora. Chega um tipo qualquer e no segundo seguinte sai-lhe um jackpot daqueles! Percebes o que quero dizer? Ganhar é só uma questão de se estar no sítio certo à hora certa.» Como a vida, Ed? «Yes», como a vida, responde Ed.
Regresso a Chagall. Passados uns dias, hei-de andar de «Today» na mão à procura da Centaur Art Galleries. A coisa cheirava-me a esturro. Las Vegas não é propriamente uma cidade onde se venha para calcorrear museus (apesar do Liberace Museum, do Hermitage Guggenheim Museam e do Guggenheim Las Vegas - do tamanho da Grand Central Station de Nova Iorque, que, como se sabe, é grande). Mas, de tudo o que tinha visto, não imaginava onde poderia encontrar exposta «the largest exhibition of Marc Chagall's art ever shown in America». O mistério adensava-se porque a morada conduzia-me sempre ao Fashion Show Mall, um centro comercial onde já tropeçara vezes sem conta. E por uma vez entro.
Uma superfície gigantesca, com as lojas do costume e cuja única peculiaridade era ser bastante menos extravagante do que o habitual em Las Vegas: nenhuma Fontana de Trevi, nada de Louvres ou canais venezianos em miniatura, nada de Miguel Angelos em tamanho natural. Bastante europeu, se é que me faço entender... De Chagall, porém, nem vê-lo. Chego a pensar que se tratará de um outro Marc.
Fazendo uma última tentativa, pergunto pela Centaur Art Galleries numa perfumaria. A empregada, solícita, indica-me o primeiro andar do lado oposto àquele onde me encontro. Avisto duas enormes faixas vermelhas que caem sobre o piso térreo junto das escadas rolantes: Marc Chagall inscrito a branco. Só podia ser o mesmo.
Na galeria, dezenas e dezenas de esboços, desenhos e alguns quadros dispõem-se pelas paredes. Os que faltam, para perfazer os duzentos anunciados, amontoam-se pelo chão. Atónita, eis que um homem se aproxima - magro, cabelos apanhados na nuca, óculos de excelente design e fato de melhor corte - tomando a iniciativa de se me dirigir.
«Gosta de Chagall?», e eis que fico sem palavras. Adoro Chagall! - em tom blasé - seria a deixa apropriada? «As pessoas adoram Chagall!», antecipa-se o galerista. Eu vou olhando umas figuras a carvão que retratam os pecados mortais. «É uma série», explica-me. «Os pecados não estão identificados, embora algumas sejam fáceis de adivinhar. O preço pelo conjunto é, evidentemente, negociável. Já tem algum Chagall na sua colecção?»
Começo, finalmente, a entrar no espírito da coisa. Mostra-me as autenticações. «Temos tido imensos compradores. As pessoas, simplesmente, adoram Chagall!», repete-se. «Ao contrário do Picasso. O mês passado tivemos uma exposição e houve quem viesse de propósito só para nos dizer como o detestava!»
Vislumbro uma frecha por onde se esfuma o tema incómodo da minha colecção de arte privada. «Detestava?!», sublinho em tom admirativo. «Sim, consta que era horrível com as mulheres!» Começo mesmo a entrar no espírito da coisa. Esboço um sorriso. «Bom, não acho muito relevante. Por mim, até podia bater na mãe.» Encara-me surpreendido por detrás dos óculos. «Claro, sim, como artista, claro...», balbucia, como se reflectisse sobre isso pela primeira vez.
Apeteceu-me gritar-lhe: «Bolas, homem! Apesar do Siegel ter ido desta para melhor ainda nenhum de nós era nascido, não precisa de ser tão previsivelmente correcto!» (Fui incapaz de lhe dizer isto em inglês)
Bom, na verdade, até Andy Warhol - Guillermo Cabrera Infante, O Livro das Cidades, capítulo «Viva Las Vegas» - não aguentou o ritmo. E Andy não ficou para a história por ser um menino de coro.
Cito: «Não é de estranhar que Andy Warhol, quando veio e viu, saísse a correr e dissesse 'eu gosto das coisas aborrecidas', querendo dizer que só gostava das coisas aborrecidas e que Las Vegas era, nas suas palavras, 'Demasiado!' De desmaiar.» Pois. Como quando o Howard Hughes, entre gemidos e injecções de morfina, ali-logo-na-hora, contestou o pedido da gerência do Hotel-Casino Le Desert Inn para que cedesse alguns dos quartos do andar que ocupava por inteiro: o pacote pelo dobro do preço real foi a sua última oferta. Em cash (será possível?).
Se me perguntassem agora: «Com o que é que se parece Las Vegas?», só poderia responder: «Las Vegas não se parece com nada.» Recorrendo ainda a Cabrera Infante: «Disse-se que Las Vegas é um caleidoscópico arraial de luzes coloridas. Mas isso não basta. Las Vegas é a única cidade do mundo em que as luzes de néon e as lâmpadas são a arquitectura.»
Confirmam-se as palavras do escritor cubano do cimo da torre do Hotel-Casino Stratosphere (350 metros de altura obrigatórios). Isto de noite, naturalmente. Mas há que subir também à claridade do dia para termos a exacta dimensão do delírio. Porque se do pó viemos ao pó voltaremos. Assim está escrito. E o deserto continua lá.
Areia e montanhas pardacentas (não muito longe fica o Grand Canyon e a cidade mais próxima, LA, a 400 km) estrangulam uma gigantesca cratera na qual se amontoam milhares de casas baixas com garagem e quintal acoplados, e só depois o olhar encontra a Strip - um traçado longo de seis quilómetros onde se alinha pouco mais de uma vintena de edifícios em altura, sede de todos os sonhos e de todos os pesadelos: «Rien ne vas plus!» e soltam-se todas as tremuras ao Fyodor -, que a esta hora se resume a uma inofensiva, desinteressante e estimável avenida.
Se esperarmos até ao anoitecer, a cidade acender-se-á e à sua volta não há-de restar senão uma negritude anterior ao mundo. As luzes e os néons são a arquitectura. Mas mais do que isso: a cidade torna-se paisagem absoluta. E nunca o fake foi tão a única verdade.
Na Strip será preciso esquecer tudo o que julgávamos ser um hotel ou um casino (estão excluídos os que conhecem os locais de jogo no Oriente), e levar um mapa para não nos perdermos no interior destas labirínticas cavernas platónicas onde o sol não entra (ou não o suficiente para se ter uma Ideia do calor que faz lá fora).
Eis-nos no coração dos simulacros soberanos: o dinheiro que remete para as fichas; as fichas que remetem para a sorte; a sorte que remete para o dinheiro; o dinheiro que remete para si próprio (quanto ao Belo, ao Bem e à Felicidade chegarão por acréscimo) - aqui está, meu caro filósofo, o que aprenderíeis em Las Vegas.
Note-se: os hotéis não têm casinos, os casinos têm hotéis e a própria cidade não é mais do que um imenso casino onde nos dão lições grátis pela manhã para que joguemos à noite: «Faites vos jeux madames et messieurs! Faites vos jeux!»
No Paris, uma perna da Torre Eiffel assenta na sala de jogo, as outras duas no passeio público amparando o Arc de Triomphe, o Louvre, a Place de la Concorde e outros clichés; no Caesars Palace (onde Dustin Hoffman, o irmão autista, quase leva a casa à bancarrota - obviamente, uma contradição nos termos), a piscina evoca as termas de Pompeia e uma estátua de César Augusto espera-nos à entrada - Os Que Vão Perder Te Saúdam!, digo eu; o Luxor reproduz em tamanho natural a pirâmide de Gizé, e a Esfinge, também com as medidas exactas, vigia a entrada do hotel; no New York New York podem-se tirar fotografias ao lado da Estátua da Liberdade e ninguém notará a diferença; o Mandalay Bay inspira-se na Birmânia e esconde uma lagoa artificial de tamanho suficiente para nela caberem duas praias de águas tranquilas e uma com ondas de sete metros para surfar no deserto; no MGM Grand (com 5005 quartos - o maior hotel do mundo até à construção do Venitian), meia dúzia de leões passeia-se numa jaula envidraçada, rugidos dobrados e falhos de sincronia que ressoam desgraçadamente pelo lobby; o Venetian (agora à frente, com seis mil acomodações), que veio substituir o mítico Sands onde Sinatra costumava actuar e que chegou a fazer parte do testamento de Hughes, encontrou modelo na cidade italiana, reproduzindo a Praça de São Marcos, as pontes, e até um canal de 400 metros onde casais se passeiam de gôndola sem risco de submergirem, a não ser nas lojas de marca e galerias; The Mirage decidiu-se por uma gigantesca cascata num jardim de mais de mil palmeiras onde, de noite, de 15 em 15 minutos, um vulcão vomita fogo; no Treasure Island evocam-se piratas e na baía em frente ao hotel, onde estão ancorados dois navios, diariamente entre as 16h e as 21h30 os bons do HMS Brittania atacam os maus do Hispaniola (ou será o contrário?).
Perante o que me parece ser uma demência encartada, o histórico Flamingo passa por um exemplar de discretíssimo classicismo... E tudo aqui é tão fake que, antes de ver realmente vistos os pássaros que saltitam por Las Vegas - uma variante de corvos -, apostei que o seu intenso chilrear vinha de uma gravação dissimulada por entre a folhagem das árvores.
As lagostas perseguem-me. Um empregado de papillon e fisionomia hispânica exibe um horrível crustáceo sob um sorriso luminoso: «The ultimate lobster experience». O cartaz está por todo o lado. Hei-de testemunhar, nas ementas gastronómicas, que a lagosta é quase tão democrática como as máquinas caça-níqueis.
O barulho metálico das moedas a serem engolidas - ou despejadas - por estes artefactos luminosos inventados no princípio do século XX, originalmente para distribuição de pastilhas elásticas (três sabores para três rodas giratórias - laranja, cereja e ameixa; quando se alinhavam três iguais levavam-se mais pastilhas para casa), tilinta 24 horas. Aguarda-nos de manhã, quando saímos do hotel, e aguarda-nos à noite, quando regressamos ao hotel.
De slot machines passaram, nos anos 50, a one-arm bandits (bandidos de um só braço) e juro que vi, tão realmente vistos como os pássaros que não eram virtuais, seriam já umas quatro da manhã, uma recém-casada, ainda de bouquet e vestido branco de noiva, um noivo e um padrinho alugado - Presley saído do Viva Las Vegas de 1964 -, puxando afincadamente o único braço do bandido. Red/White/Blue: prémio máximo... não registei os dólares.
O casal, recém-chegado da Wedding Chappel do hotel, acrescentava-se à interminável lista dos famosos que deram o nó em Las Vegas (segundo as estatísticas, um casamento cada cinco minutos; alguns deles durarão mais ou menos o mesmo). Ao longo do tempo, em paralelo à presteza dos serviços matrimoniais, também o jogo se desenvolve. Os dados foram definitivamente lançados em 1931, quando as apostas se legalizaram no Estado do Nevada; a paixão dos americanos pelas artes do azar parece, contudo, ser muito anterior. Roubo a prova a Bill Bryson e a Made in América: «Mark Twain conta a história de um homem do Oeste que vinha dar à viúva de Jo Toole a notícia da sua morte: 'O Joe Toole vive aqui?' e, quando a viúva respondeu que sim, ele disse: 'Quanto aposta que não?'»
Joga-se compulsivamente. Isto, mesmo se os caixas dos casinos nos distribuem prospectos, junto com as fichas, sobre como resistir ao vício na sin city e telefones para onde pedir ajuda (não com certeza monetária).
Tratar-se-á, no essencial, de uma medida cosmética: como transformar a cidade do pecado num resort de férias em família. É verdade que se vêem muitas crianças na rua (à mistura com grupos de hispânicos e índios que distribuem folhetos de sexo full service). Mas o que verdadeiramente distingue Las Vegas de uma qualquer Disneylândia é, não só a origem do dinheiro que lhe corre nas veias como maná dos céus - com o capital não se brinca, nem nos States nem em parte nenhuma do mundo, deve ter sido isto que pensaram Lucky Luciano e Frank Costello imediatamente antes de Ben Siegel ser abatido na sua casa em Hollywood, enquanto lia o jornal na companhia de Virginia Hill que depois nem se deu ao trabalho de aparecer no enterro -, como também, e antes de tudo, o seu passado. E o passado é uma doença de pele: não há lifting que nos livre dele.
Que o diga Deedee Wanwinkle, mais real que todas as luzes da Strip, «silly woman» como ela apostava que eu a haveria de definir quando escrevesse uma história a seu respeito. «Vais escrever uma história sobre mim?», os olhos a brilhar «Oh my god! Não acredito», eu sem saber o que dizer, sabendo-lhe o dinheiro emprestado da licença para croupier perdido num bacará azarento, um filho numa morada provisória a centenas de milhas da casa de onde haviam fugido a um destino que Deedee imaginou poder contrariar em Las Vegas, e agora «faço tudo, menos sexo». Deedee, nome encantador, e eu a querer chamá-la Alice e a desejar-lhe um happy end tão feliz como o do antigo Alice Já Não Mora Aqui do mesmo Scorsese do Casino, retrato de uma época que chegava ao fim.
No Casino participou Oscar B. Goodman, fazendo de si próprio - advogado de Joe Pesci a vestir a pele de Nicky Santoro, na vida real o temível Tony Spilotro -, eleito mayor da cidade em 1999 e um dos juristas mais reputados dos EUA cuja lista de clientes é a prova provada que o Mal existe e não foi inventado nos filmes.
«Dirigir um casino é como assaltar um banco sem haver chuis por perto. Para tipos como eu, Las Vegas limpa todos os pecados. É como levar a moralidade a uma lavagem automática de carros», dizia para a câmara De Niro, Sam «Ace» Rothstein, na vida real Frank «Left» Rosenthal, o outro cliente de Goodman, homem que se descreve a si próprio como um «um cavaleiro que combate a rainha negra do FBI» e que chegou ao poder já a cidade fora declarada limpa do crime organizado.
O «boom» (palavra exacta, porque tiroteio era o que não faltava) regista-se na década de 40 - mas o maior jackpot só deflagrará em 1995, no Las Vegas Hilton: 11,9 milhões de dólares!
Será necessário, porém, recuarmos ao século XIX (em rigor, a 1829) para travarmos conhecimento com Rafael Rivera, um jovem mexicano que, seguindo numa caravana pelo antigo trilho espanhol em direcção a Los Angeles, se aventura pelo deserto e descobre... água! O local ficará assim hispanicamente baptizado para sempre: «vegas», que significa várzea. O caminho até LA encurta-se e os mórmones da Igreja de Jesus Cristo dos Santos do Último Dia chegam ao vale tentando dominar os elementos. O último a desistir parte em 1857 e deixa para trás um forte que ainda hoje faz parte das atracções locais.
No início do século XX, a construção do caminho-de-ferro e, posteriormente, de uma grande barragem no Colorado - a Hoover Dam - atrai ao local milhares de forasteiros. Aos novos residentes, muitos deles fugindo à Grande Depressão, acrescentam-se os militares da Las Vegas Aerial Gunnery Scholl, fundada já a II Grande Guerra galgava desenfreada, mais os que vieram para o deserto testar a desarmonia atómica.
Em 1940, Las Vegas tem 8400 habitantes. Actualmente é a urbe americana com maior índice de crescimento anual - conta com um milhão e quinhentos mil recenseados, a que todos os meses se adicionam quatro mil.
Os primeiros hotéis localizavam-se na Downtown. O Nevada, de 1906, ainda lá está, e chama-se hoje Golden Gate Hotel. É também na Downtown que fica a Fremont Street, uma rua fechada ao trânsito por onde noutros tempos andou a fazer gincanas o escocês Sean Connery, um Bond à velocidade dos 70 escoltado pela voz de Shirley Bassey que jurava a plenos pulmões que os Diamonds are Forever.
De casinos muito menos ostentatórios que os da Strip, na cobertura da Fremont, longa de 400 metros, exibem-se à noite, de hora a hora, sofisticados exercícios pirotécnicos ao som de temas com um vago sabor country, contraponto das vozes metálicas e estranhamente doces que nos garantem continuamente pelas ruas que o «jackpot is happened here!» e que, enquanto esperamos a nossa vez, podemos saborear «three, free, frozen margaritas now!».
Poesia pura, como parece ser a opinião do porteiro do Casino Royale que me pergunta, enquanto tomo nota de um pormenor qualquer: «Are you writting a poem?»
Em 1941 surge o primeiro hotel fora de portas. El Rancho Motel constrói-se na Los Angeles Highway ou Route 91 e, sem que ainda se soubesse, estava a assistir-se ao nascimento da Strip (de nome oficial, mas só oficial, Las Vegas Bouvelard). Clark Gable, Zsa Zsa Gabor, Spencer Tracy, Paul Newman tornam-se clientes habituais, até que o hotel desaparece num incêndio nos anos 60, os terrenos comprados posteriormente por Howard Hughes.
Quando o «gangster» galante e elegante Ben «Bugsy» Siegel chega a Las Vegas acompanhado por Virginia Hill, a Strip resumia-se ao El Rancho, Last Frontier... e futuro Flamingo. A ideia não foi de Ben, apesar de no Padrinho II Meyer Lansky, outro judeu, no filme Hyman Roth, anunciar que ele «foi um homem com visão de futuro». Um futuro curto.
O verdadeiro dono do Flamingo chamava-se Billy Wilkerson, um bem-sucedido empresário de Los Angeles e editor do Hollywood Reporter. Quando decidiu construir um casino em Las Vegas, escaparia a Billy o pormenor que o havia de levar à ruína: ele próprio era um jogador. Endividado o sonho, nada mais lhe restou do que aceitar a proposta irrecusável de Ben «Bugsy» Siegel/Warren Beaty que, na tela, como na vida, acabaria mal. Poucas semanas depois da abertura do Flamingo, Siegel cairia crivado de balas em Beverly Hill, acusado de defraudar os cofres da Mafia. Mas repito-me.
Luzes! Luzes! Luzes! Apenas por quatro vezes Las Vegas se dignou baixar o brilho (um brilho tão eléctrico que basta tocar num puxador em metal para sentirmos uma descarga a percorrer-nos o corpo): por ocasião da morte de Kennedy, na sequência do atentado de 11 de Setembro, e quando Dean Martin e Frank Sinatra (a dupla do inesquecível Deus Sabe Quanto Amei) subiram aos céus.
Fiat lux! terá alguém gritado sobre a várzea, encontrada água naquele buraco perdido no deserto. São sempre insondáveis os caminhos dos homens.
Os mórmones há muito tinham desistido, antes do Último Dia e muito previamente ao primeiro, esse em que algum bandido de um só braço terá apostado ao póquer em como se há-de erguer aqui uma cidade capaz de ofuscar as estrelas e exortar os homens ao vício, tão certo como termos vindo do pó e ao pó voltarmos - o deserto lá está para o provar - e a luz fez-se! E que a arrogância lhes seja perdoada assim como todas as dívidas de jogo.