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01/11/24

MEDITAÇÃO DE SEXTA: «Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia»

«(...) com quem trocar dois dedos de conversa sobre o pus dos livros quando já se foram Jorge Fallorca (“Decorrido meio século de existência, li e escrevi o suficiente para considerar a escrita – como qualquer outro acto criador – antropófaga até à vileza”, in Longe do Mundo, 2004), Juvenal Garcês (e os nossos diálogos que tanto versavam a genialidade de Ibsen como a mediocridade dos caciques culturais, sem esquecer a superioridade inquestionável das bananas da Madeira), Rui Martiniano, que conheci como Rui “Bancário” para reencontrá-lo no acaso das ruas de Lisboa, tantos anos passados e era ontem, editor da Hiena e tão minoritário como sempre fora, Francisco Brás, o meu vizinho actor motorizado, admirador incondicional de Mário Viegas com quem trabalhou e antagonista encartado do pedantismo, ou toda a outra gente morta ou em silêncio, aqui ou nas cidades, as trincheiras a abarrotar de equívocos e vaidades?

17/04/14

Jorge Fallorca: Junho de 1949/ Abril de 2014

Estava doente. Melhorou. Adoeceu de novo. Piorou. Depois morreu. Acho que foi Nabokov quem disse que a morte era uma banalidade. Quanto ao Pessoa, escreveu: “Morrer é só não ser visto.” Apesar disto, nem uma palavra? Afinal, caros senhores, morreu um poeta. E fosse o mundo um sítio recomendável, um poeta valeria decerto mais do que um alqueire de banqueiros.
Manuel António Pina vaticinou: “A poesia vai acabar, os poetas/ vão ser colocados em lugares mais úteis./ Por exemplo, observadores de pássaros/ (enquanto os pássaros não/ acabarem).” Sábio, porém, é quem discorre assim:
“Antes que seja tarde, devo dizer que considero o acto de escrever pouco saudável.
E gostaria que o tom fosse considerado como um desabafo, e não confessional.
Decorrido meio século de existência, aprendi a coabitar comigo mesmo.
Quer essa relação se assuma como um comovido flash back, ou um severo ajuste de contas.
Felizmente, sobra-me mais tempo para esquecer, do que para emendar.
Decorrido meio século de existência, li e escrevi o suficiente para considerar a escrita - como qualquer outro acto criador - antropófaga até à vileza.
Ninguém se surpreenderá se afirmar que a minha geração superou esse objectivo.
Excedendo-se no show off, ou no strip-tease onanista, onde um predisposto auditório se reconhece e excita.
A leitura das gerações que me precedem, em nada têm contribuído para perturbar, ou abalar, este assumido preconceito.
Os Pessoa, Kérouac, Ginsberg, Hemingway, Michaux, Aquilino, Cardoso Pires, o exaltante Saint John Perse, ou o inevitável Herberto, todos me recusaram uma escrita límpida e saudável.
Até mesmo em O Sorriso Aos Pés da Escada, o único Miller que conservo, a beleza é perversa e sublinhada por um fio de pus.
Todos eles me envenenaram uma predisposição que começou por ser saudada na escola, e onde a família se conformou em depositar esperanças de que continuasse a ser bonita.
E, sobretudo, que tivesse futuro.
Antes que seja tarde, devo esclarecer que ainda hoje tenho relutância em considerar o futuro, e que me reservo o maior desprezo pelo presente.
Sem pretender a honestidade que, dificilmente, reconheço nos outros, arrisco que a escrita - como qualquer outro acto criador - precisa de vítimas.
E alimenta vítimas.”
Desculpem-me a citação longa. Não é preguiça, é dar a palavra a quem sabe: Jorge Fallorca, “Longe do Mundo”, 2004. Partiu. Deixa mulher, um filho e dois netos.

10/10/13

A Teolinda Gersão para o Jorge Fallorca

Há uma frase de Paul Valéry que creio assentar como uma luva à escrita de Teolinda Gersão: “ Ce qu’il y a de plus profond chez l’homme, c’est la peau”. (Traduzo, para quem já esqueceu o francês: “O que há de mais profundo no homem é a pele”).

Escritora discreta, apesar do reconhecimento, “As águas livres – Cadernos II” é a sua obra mais recente. O caderno I ficou lá para trás (1984) e chamou-se “Os guarda-chuvas cintilantes”, facto que a própria se encarrega de nos lembrar agora: «O primeiro, a que na altura não chamei Caderno, foi "Os guarda-chuvas cintilantes". Dei-lhe como subtítulo Diário, o que provavelmente desconcertou os leitores. Na verdade, é um diário heterodoxo, que quebra os dois pilares em que era suposto assentar: o eu e o tempo (…).»

Confessadamente adversa a ortodoxias (nomeadamente, à dos “formatos”), Teolinda Gersão lança “As águas livres” a seguir ao romance “A Cidade de Ulisses”, surpreendendo-nos com um livro algo inclassificável. Com facilidade encontramos nele, pelo menos, três registos: o explicativo, o reflexivo e o descritivo. A sua organização e conteúdo fragmentários atravessam territórios vastíssimos, geografias diversas (dentro e fora do país) – aventurando-se também com mestria pelo universo dos sonhos –, desrespeitam o tempo-sequência, invocam questões/filiações literárias, não desprezam a política, sendo, no essencial, um exercício delicado de “atenção” ao mundo.

A oficina é discreta, o narrador é despretensioso, o texto nunca se põe em bicos de pés. A sabedoria não chega com fanfarras, a palavra dispensa paramentos, o estilo (essa dificuldade de expressão a que se referiu Mário Quintana) é desataviado. «Kierkegaard aparece às vezes de visita.» (estou a citar). 

Teolinda Gersão, As Águas Livres – Cadernos II, 2013, Sextante

10/08/13

Às vezes lá calha...

"Je voudrais bien écrire comme on parle. Je voudrais bien écrire comme on chante, ou comme on hurle, ou simplement comme on allume une cigarette avec une allumette, et on fume doucement, en pensant à des choses sans importance. Mais cela ne se fait pas. Alors, j’écris comme on écrit, assis sur la chaise de paille, la tête un peu penchée vers la gauche, l’avant-bras droit portant au bout une main pareille à une tarentule qui dévide son chemin de brindilles et de bave entortillées.", J. M. G. Le Clézio.

Ouviste? 

07/02/13

Um poema, um poema, que de resto é tudo gente feia.

Este é para ti, Jorge Fallorca.


Eu comi uma inglesa.
Foi em Sintra. Era feriado.
Com esparregado e essa tinta
mint-sauce. Em português,
molho de hortelã-pimenta
com vinagre. Uma beleza!
Alguma batata frita.
Mas eu quis fetos arbóreos,
musgo das fontes, avenca
e pétalas de camélia,
branca-rósea,
para enfeitar a travessa
e trincar, de quando em quando,
uma pétala na fímbria
das orelhas da inglesa,
dizendo: «O tempo está
tão lindo! Não achas, Daisy?»
«I like Shelley» — dizia ela, cheirando a colégio d'Oxford.
«Swifi Summer into lhe Autumn flowed...»
tem tradição. Vem de Chaucer.
«Eu também gosto» — eu disse,
paraninfo de Euridices —
«porém prefiro John Keats.
I stood tip-toe
Upon a liitle hill
tem mais naturalidade.
É como se estivesse aqui.
Quanto ao Byron, tu bem sabes
como ele soube viver Sintra:
A glorious Eden inhabíted
by savage Lusitanians.
À sova não me refiro.
Tudo isso é história antiga.»

«It's true! É verdade!»
(disseste-o, desmemoriada,
mas reticente...
e dobraste-me a parada)
«Mas não esqueça o que ele sofreu
quando dizer lhe vieram: Shelley morreu.
— Atravessou o Helesponto
a nado!...
I weep for Adonais...»

«Não, não é.» — contestei eu.
«Isso é do Shelley, dedicado
a Keats.
I weep for Adonais
because he is dead.

Eu choro Adonais
porque morreu.

Não está mal... a tradução,
mas tens razão!
Eu sou português e não
falo com a boca cheia.
Esta mania lusíada
de cuspir no chão é feia.
Nós não vivemos na selva.»

E ela, tola-lograda:
— «Don't be silly. Há o fado!
I like fado. Não gostas!
Tu tens a melena cheia
de brilhantina. You look
almost like a fadista!»

Passei a mão pela testa
e desgrenhei a madeixa,
dizendo: — «Queres morangos,
figos, amoras ou beijos?...»

……………………………………………
«Obrigado, obrigado, Daisy.
Não sei se estás a troçar
ou a brincar...
pulling my leg para ti.
Mas, enfim, vamos passear
até ali.»

(No fundo, o que eu desejava
era mordê-la na boca,
meter-lhe a mão entre os seios,
voar a cavalo nela.)

Foi uma tarde acabada
na relva, sob pinheiros,
chamaecyparis, ulmeiros,
sequóias, abetos, faias
e a cor azul das hortênsias.

Foi sobre a relva orvalhada
pelo frescor de um riacho,
quando o sol obliquava
e em volta era tudo seiva,
que eu comi uma pantera
escura, feroz, inglesa,
com o cheiro de violetas
debaixo do meu nariz.

(Fulva, para quem quiser
modas pré-rafaelitas, a pantera!
Tanto faz! Ou morena.
Convenção como convém a uma inglesa
convencional, de ocasião.)

E quando nos despedimos
— era noite, havia estrelas —
disseste com essa fleuma
que tão mal me fica a mim:
— «I'll see you later. Do come.
Vem amanhã tomar chá.
Eu gostar muito de ti.»

Loira, era loira a inglesa
que eu comi...
Verde, devia dizer,
Branca-rósea, uma camélia,
que eu comi, ou que colhi.
Já nem sei...
A savage Lusitanian,
dei-lhe só o que ela quis.
Ou queria...
Com peitinhos de perdiz
e alguma poesia:
The air was cooling
And so very still.
Ruy Cinatti, "À Memória de António Nobre e de Cesário Verde", in «Memória Descritiva»

13/04/10

A book a day keeps the doctor away: "Diário Volúvel" de Enrique Vila-Matas

Vila-Matas inventa Vila-Matas e até aqui nada de novo. Novo é que em Diário Volúvel autor, narrador e protagonista coincidam, o que, voyeurismo oblige, desembestará talvez o apetite de muitos vilamatianos. Faça-se notar, porém, em especial à atenção de um ou outro mais crédulo, que, não com certeza por acaso, Enrique Vila-Matas aparece na capa do livro… de costas. Ou seja, para citar o próprio: Diário Volúvel “no es ningún striptease".
A escrita pretensamente confessional alia-se à brevidade dos textos, o que nos permite abrir o volume ao acaso e lê-lo sem regra nem preceito. Façamo-lo.
Pág. 33 (que nem de propósito): “Sobressalto. Vejo três críticos literários (três!!!) na esquina da Travessa do Mal com a Verdi e, imediatamente, numa atitude instintiva, escondo-me atrás de um camião.”
Pág. 52: “Adivinhar o futuro do livro face à suposta ameaça digital é como especular sobre o resultado que no domingo alcançará a nossa equipa favorita”.
Pág. 165: “Sei que há muitas pessoas que, quando estão sozinhas a tomar duche, sentem um repentino terror por se recordarem da cena do assassinato de Janet Leigh em Psico, de Hitchcock.”
Pág. 233: “Alguns dos meus patrícios odeiam as citações: não olham com bons olhos uma certa erudição e têm como estúpida palavra de ordem que ‘quando se escreve não se deve ficar a dever nada a ninguém”.
Pág. 269: “Procuro o recolhimento, porque a literatura costuma ser mais interessante do que a vida. Não sei se é paradoxal, mas gosto imenso da vida, porque, digam o que disserem, é parecida com um grande romance”…
Os assuntos são como as cerejas e Vila-Matas percorre-os a todos com desenvoltura, não faltando, claro, aqueles episódios coincidentes que só mesmo ele para os detectar. Como este, delicioso, a propósito de o que se passa quando não se passa nada.
"De novo na esplanada do café de Perec, espero, em vão como sempre, que passe Catherine Deneuve, que vive na praça. Mas, uma vez mais, ela não aparece. Surpreende-me, um pouco mais tarde, ler na revista Lire que Vargas Llosa também vive nesta praça, tem um dúplex num edifício do século XVIII: 'Neste bairro, sinto-me como em casa. É um bairro muito literário. Umberto Eco também vive na praça. Há quinze anos que espero ver Catherine Deneuve, mas ela nunca aparece.'
"Nesse momento aparece Deneuve. Fico mudo de surpresa e pergunto-me se, durante um momento, Deneuve não foi 'o que se passa quando não se passa nada.'"
Organizado a partir da compilação, selecção e adaptação de crónicas assinadas na edição catalã de “El Pais” (Dez. 2005/ Abril 2008), mais alguns inéditos, Diário Volúvel confirma as obsessões do escritor e a sua cultura literária; transversal ao conjunto, a ironia como condição de sobrevivência.
Ficção, realidade e biografia reinventam-se neste título que, bem vistas as coisas, não se afasta assim tanto de todos os outros já por si assinados, ou, como bem disse Pedro Almodóvar, Diário Volúvel lê-se como um romance “cujo narrador nos oferece informação exaustiva sobre o protagonista, que por acaso é o mesmo”.
Absolutamente conseguido – divertido, amargurado, inventivo, esperançoso, versátil e implacável –, reflexão acrobática de hábil execução, é Enrique Vila-Matas em grande forma (apesar da doença que nos relata), num híbrido literário que não poupa o autor, a realidade, nem o que se vai publicando por aí.
Gosto em especial deste momento de auto-ironia: "As moscas são todas diferentes, mas tão parecidas entre si que há quem acredite que, na realidade, só existiu uma mosca em toda a história do universo. Nunca conheci melhor especialista em insectos do que Augusto Monterroso, que escreveu em certa ocasião: 'A mosca que hoje poisou no teu nariz é descendente directa da que ficou parada no nariz de Cleópatra.' O mundo das moscas sem lei atraiu-o sempre e planeou uma antologia universal sobre esse emaranhado universo. Finalmente, acabou por abandonar o projecto, porque viu que o volume teria de ser forçosamente infinito. Mas em Movimiento perpetuo ofereceu aos seus leitores uma pequena mostra da história mundial das moscas. Movimiento perpetuo começava assim: 'Há três temas: o amor, a morte e as moscas.' Um categórico início para um livro inclassificável, escrito muito antes de haver tantos livros híbridos e inclassificáveis como agora. (...)"
Diário Volúvel, Enrique Vila-Matas, Teorema, 2010, tradução de Jorge Fallorca
Um versão abreviada deste texto foi publicada no semanário Expresso

30/03/10

Só para vos fazer inveja: eu hoje acordei assim, a ler o novo Vila-Matas e a ouvir The Ronettes

"DEZEMBRO
Aqui estou no meu quarto habitual, onde me parece ter estado sempre. Como tantas outras manhãs da minha vida, encontro-me em casa a escrever. Ressoa, vibrante, a música Be My Baby, cantada pelas The Ronettes. Quando tinha dezassete anos, era a minha canção preferida. De repente, ouço perfeitamente que alguém acaba de chegar ao patamar, no elevador. Mas é estranho. Quem chegou não toca a nenhuma das quatro portas, nem se decide a abrir nenhuma delas. É como se tivesse ficado indeciso, aturdido ou simplesmente imóvel, ali. Vivo há tantos anos nesta casa, que controlo muito bem os sons que se possam ouvir perto da minha porta. Passam quase dois minutos até que, exactamente quando a canção termina, tocam à minha porta. Abro. Vejo um homem, mais ou menos da minha idade. É o estafeta de uma editora e veio entregar-me um livro. Dá-mo e assino um papel. «As Ronettes...», sussura o homem, melancólico. «Põem-me bem-disposto», comento sem me mostrar surpreendido - embora o esteja - por ele conhecer The Ronettes. Sorrio, despeço-me, fecho a porta devagar, com a amabilidade habitual. Fico à escuta atrás da porta e noto que o homem não entra no elevador. É possível que tenha voltado a ficar imóvel no patamar. Seguramente, deixou-se ficar encostado a uma parede, quebrado, desfeito de nostalgia e até a chorar, à espera que volte a pôr-lhe Be My Baby
[abertura de] Diário Volúvel, Enrique Vila-Matas, Teorema, 2010, tradução de Jorge Fallorca