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22/03/24

MEDITAÇÃO DE SEXTA: «Galinhas, robots e tacos de basebol»

«Em 1995, Umberto Eco foi convidado a falar na Universidade de Columbia sobre os regimes fascistas que haviam dominado a Europa e conduzido à II Guerra Mundial. A palestra acabaria por acabar impressa sob o título de Ur-fascismo ou Fascismo eterno (in "Cinco Escritos Morais", trad. José Colaço Barreiros, Relógio D’Água, 2016).
Se nada é eterno (só a morte e os impostos, disse alguém cujo nome não me ocorre), as características listadas por Eco vêm de jure et de facto granjeando uma influência que, descontados os debates académicos – imagino os presos do Forte de Peniche a interrogarem-se melancolicamente deixando-se levar pela maresia das águas: “Será isto o fascismo ou apenas um regime um bocadinho autoritário?” –, é impossível negar terem galgado o ontem para se abaterem ruidosamente sobre o hoje.
No nosso caso, o ontem foi há 50 anos e a célebre pergunta de Baptista-Bastos: “Onde é que estava no 25 de Abril?” arrisca-se a ser brevemente trasladada da TV para os cemitérios, equiparando-se, mais e mais, à hipotética pergunta: “Onde é que estava no 5 de Outubro”. C’est la vie.
Entretanto, as coisas complicaram-se. Eternidades à parte (na lista de Eco falta essa grande novidade de, online, ser um afim de um robot a pedir aos humanos que provem que não são robots…), dizia ele com razão: “Seria tão confortável para nós se alguém assomasse à cena do mundo e dissesse: ‘Quero reabrir Auschwitz, quero que os camisas negras tornem a desfilar em parada pelas praças italianas!’ Mas, ai, a vida não é assim tão fácil. O Ur-fascismo ainda pode voltar sob as vestes mais inocentes”.»

29/04/14

Os que vão morrer, te saúdam!

Pronto. Já está. Já passou. Já foi e não doeu nada. Daqui a 10 anos, os sobreviventes festejarão de novo a data apesar do reumático. A pergunta “onde é que você estava no 25 de Abril?” fará cada vez menos sentido e haverá cada vez mais gente a baralhar 1974 com 1794, ano em que Robespierre mandou guilhotinar Danton, para morrer ele próprio de cabeça decepada pouco tempo depois, episódio que ainda hoje contribuirá em muito para fundamentar a ideia de que a natureza humana é mesmo do piorio.
Por cá, tivemos o Salgueiro Maia mas, ainda assim, há quem ache que nunca fiando...
“O caso do Salgueiro Maia é um caso comovente, para nós portugueses e para nós sociedade foi um bem ele ter morrido. É muito cru dizer isto, para a família e para ele é uma infelicidade, mas nós precisávamos de um puro. (...) Se ele continuasse a viver não sei se aguentaria isso. Não é possível tanta aspiração de beleza e de pureza numa figura viva”, resumiu cruamente Lídia Jorge, naquilo que poderá ser interpretado como uma defesa do axioma “um herói bom é um herói morto”, e isto apesar de Tolstoi se ter fartado de escrever romances que provam o contrário.
Claro que Tolstoi só há um e mais nenhum, mas se o cinismo entretanto não nos matar a todos, e a descrença não nos liquidar de tristeza, alguns estarão cá para os festejos, portanto, daqui a 10 anos, mas daqui a 100, pevides.
Daqui a 100 talvez nem haja Portugal, conforme apontam as estatísticas da nossa escassa reprodução, cumprindo-se por essa via (ínvia?) o desabafo de Sena: “O nosso problema não é salvar Portugal, é salvarmo-nos de Portugal”.
O tempo, esse grande escultor, aproximará ainda mais o 25 de Abril do 5 de Outubro, mandando para o galheiro da História as declarações pomposas de Luís Montenegro (que, aliás, tinha um ano e usava fraldas no 25 de Abril): “Isto não é o 5 de Outubro na Praça do Município”, justificando assim o inconseguimento de não deixarem falar os militares de Abril na Assembleia da República, e eu se fosse militar também me chateava, pá e mandava o Luís Montenegro mudar de fraldas (citando naturalmente Eça...), já que a ingratidão é uma coisa muito feia e esta coisa do “25 de Abril é de todos”, como disse o ministro da Defesa, pode cair muito bem num salão 40 anos depois, mas o facto é que alguém teve de dar o corpo ao manifesto que não se foi lá por geração espontânea nem por obra e graça de nenhum soft power sagrado.

13/02/14

O Estado a que isto chegou II [e ainda os cravos da Joana Vasconcelos]

Viver Dentro das Nossas Impossibilidades

O primeiro-ministro foi ao Tramagal dizer, e cito de cor, que "estamos a caminhar para viver dentro das nossas possibilidades". O uso do plural majestático é manifestamente irónico embora, decerto, as figuras da retórica clássica não devam ser o "forte" da formação intelectual de Passos Coelho. Quem o conhece bem, disse-me outro dia que o chefe do governo se "sente" como um evangelista de "igrejas" como a IURD (salvo o devido respeito) que, uma vez recolhido o dízimo junto dos suspeitos do costume, fica como que tomado por uma "visão" escatológica em relação à sua função de pastor milenar da pátria. Depois de ter conseguido, pelo menos na semântica, mudar o sintagma "acima das nossas possibilidades" para o "dentro" delas, Passos com certeza quer significar por "dentro das nossas possibilidades" coisas como "habituem-se a viver na nova normalidade". O que, para a maior parte das pessoas, quer dizer "habituem-se a viver com as vossas novas impossibilidades". O que é certo é que esta mistificação, mais "espiritual" que política, vai fazendo o seu caminho comunicacional - o único que interessa fazer - enquanto o mais próximo candidato a sucessor deste notável evangelista, A. J. Seguro, cercado por dentro e por fora, aparenta não conseguir sair dos caminhos na floresta em que tanto se enfiou como o enfiaram. Por exemplo, hoje os juros da dívida 10 anos andam pelos 5%, o ministro da Defesa Nacional terá confessado a um general não entender "nada" de Defesa, o glorioso perdão fiscal do final do ano terá "custado" quase 500 milhões de euros em juros, coimas e derivados, os ajustes directos de 2013 terão ficado na orla do 2 mil milhões de euros, os famosos submarinos, em 300 milhões, o arbítrio da "avaliação do desempenho" passa a poder despedir democrático-cristã-livremente, mas um pensionista que receba três dígitos líquidos de rendimento já não tem dinheiro a meio do mês para poder "viver dentro das suas possibilidades"? As "novas impossibilidades" existem porque subsistem "velhas possibilidades" do tipo das indicadas que escapam ao vocabulário da promessa da felicidade "empresarial" que não entra no plural majestático do primeiro-ministro. Talvez a escultora do regime, a grande navegadora de cacilheiros Vasconcelos, consiga traduzir este "desígnio" original para os quarenta anos do "25 de Abril". Quem, melhor do que ela, poderia representar as nossas novas impossiblidades?

O Estado a que isto chegou.

Os cravos gigantes serão criados pela Joana Vasconcelos com a pele cristalizada de 40 toneladas de tomate (oferta da "Guloso") - cujas sobras reverterão para um mega-gaspacho na ponte 25 de Abril, confeccionado pro bono pelo Frater Sobral - e servirão para enquadrar, nas escadarias da Assembleia da República, a declamação por José Luís Peixoto (patrocinado pela República Democrática Popular da Coreia) do poema "Abril,  ó cucamandro, morrestes-mes!", enquanto, sobre o parlamento, adejará uma imensa gaivota-que-voa-que-voa montada a partir de 40 000 pensos higiénicos Evax Fina & Segura com asas.

Informação recolhida no blogue do João Lisboa, com mais desenvolvimentos poéticos aqui.

24/04/13

De 24 para 25 foi assim lá em casa, em 1974

Fomos para a cama. Adormecemos. A minha mãe levantou-se, como habitualmente antes das 7. Eu acordei, cheirou-me a torradas e virei-me para o lado a amaldiçoar as torradas e o barulho. A minha mãe terá então ligado o rádio porque as ondas hertzianas começaram a chegar-me em sons indistintos, até que o som se tornou mais alto, inesperadamente mais alto, absurdamente mais alto.
Depois ouvi a minha mãe a passar apressada pelo corredor e a chamar pelo meu pai, vem ouvir, vem ouvir, aconteceu alguma coisa, aconteceu alguma coisa, e senti que o meu pai se levantava e ia com ela para a cozinha.
Na cozinha, as vozes do meu pai e da minha mãe misturavam-se com a música que vinha do rádio e de vez em quando um deles dizia chiu! chiu! Comecei a ficar intrigada e estava quase a levantar-me quando ouvi o meu pai gritar é a revolução, é a revolução e depois correr para a porta e começar a subir as escadas do prédio a chamar pelo Zé Augusto que era o vizinho anti-fascista do 3º andar, Zé Augusto, acorda, acorda, porra, é a revolução, é a revolução e depois, eu já levantada, vi a minha mãe ir atrás do meu pai com o pijama na mão, olha o pijama, olha o pijama, e o meu pai terá descido uns degraus para vestir o pijama e se não foi nu avisar o vizinho do 3º andar que era a revolução nem apanhou o comboio de pijama para ir ter com a revolução, nem por isso deixou de só aparecer três dias depois descalço e afónico porque tinha perdido os chinelos com que fora ter com a revolução e foi assim que se festejou o 25 de Abril lá em casa e quem nunca foi ter com a revolução de chinelos e voltou descalço que fique calado que não sabe do que fala.

23/04/13

23 de Abril de 1974

Há uns aninhos também era terça-feira. A esta hora já teria saído do liceu e vindo para casa. Devia estar de socas e calças de ganga. Provavelmente a ler um livro subversivo e a fazer festas ao gato que se chamava Pompidou. Ou então tinha ido à praia. Ou então tinha vindo a Lisboa, a Económicas, onde os putos do MAEESL preparavam a revolução. Talvez até estivesse a beber uma laranjada com o Zé Manel Fernandes que já então era um rapaz sensato. Na verdade, não me lembro se na altura bebia laranjada. Ora aí está um bom tema de investigação. Que raio de bebidas beberia eu na altura se nunca gostei de refrigerantes e era demasiado nova para apanhar bebedeiras?

29/04/12

Não é 1 de Maio, o 25 de Abril já foi, mas o que eu quero agora é falar do 27 de Julho... de 1970

É dos livros que Salazar caiu de uma cadeira e depois disso nada foi como dantes. Como seria de esperar numa terra de escravos, cu pró ar ouvindo/ ranger no nevoeiro a nau do Encoberto, a queda, embora aparatosa, foi amortecida. Tão amortecida que uma farsa se organizaria em torno do Presidente do Conselho, convencendo-se este por dois anos que continuava a mandar. Mas “Tudo É Vaidade” e a Ceifeira levá-lo-ia a 27 de Julho de 1970, dia em que muitos portugueses optaram por aprimorar-se com uma gravata vermelha, ainda as gravatas não tinham sido proibidas por Assunção Cristas.
O caso é que antes da morte do ditador se tornar oficial, na editora onde a minha mãe trabalhava se soube por portas e travessas clandestinas que Salazar já não estava entre nós. Primeiro foi a descrença, natural ao fim de 36 anos, depois foi a festa. Resumindo: a contribuição dos presentes para o Produto Interno Bruto baixou nesse dia para níveis negativos.
A minha mãe resolveu, então, avisar o marido da boa nova, certa que essa seria a retaliação possível pelos anos que este passara a olhar o mar revoltado e teatral no Forte de Peniche. Telefonou e disse: “Prepara champanhe, temos de comemorar”. Uma colega acrescentaria entre risos: “Acabaram as filmagens do Solar das Oliveiras”.
A graça acabou mal e acabaram as duas na António Maria Cardoso, no edifício da PIDE onde, em memória das vítimas, foi entretanto erguido um condomínio de luxo. A polícia chegara depressa, e elas, identificadas já pela voz, receberam ordem de prisão. Quanto a meu pai, passaria a noite à espera da mulher na rua de má memória, sem champanhe, e não sei se de gravata vermelha.
E é também por isto que gosto muito do 25 de Abril.
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24/04/12

Minhas senhoras e meus senhores, isto não é a União Nacional nem (ainda) o 5 de Outubro. Resumindo: estou com o Mário Soares e ninguém tem nada com isso

José Manuel Fernandes diz-se incomodado. Indignado. Talvez mesmo ultrajado. José Manuel Fernandes incomodado, indignado e talvez mesmo ultrajado dá-me vontade de rir. A pomposidade de JMF soa ridícula. O "sentido de Estado" não lhe assenta (com dois esses): "Sucede que as comemorações do 25 de Abril na Assembleia da República, lugar onde todos os partidos têm acento e têm voz..."
E transcrevo o "acento" porque erros de português são inadmissíveis quando se sai a espadeirar tão bravamente em defesa da Pátria.

Ricardo Costa diz que Mário Soares se vai arrepender. A convicção de Ricardo Costa soa a anátema (e, acrescente-se, soa também um pouco ridícula dada a idade de Costa  há frases que só podem ser pronunciadas a partir dos 50 anos...), tanto mais cruel quanto Mário Soares, a não ser que siga o exemplo de Manoel de Oliveira, já não terá assim tanto tempo para ritos penitenciais.

Pedro Passos Coelho diz, com a profundidade costumeira, estar "habituado a que figuras políticas queiram assumir protagonismo em datas especiais". Não sei se ele se refere à teimosa ausência de Teófilo Braga nas comemorações do 5 de Outubro ou à presença do seu próprio pai na data do aniversário do filho, mas confesso que as declarações de Pedro Passos Coelho já há muito deixaram de me interessar.

O facto é que Mário Soares tem todo o direito (o dever?) a não ir abrilhantar uma palhaçada.


Post-scriptum: os tempos da "União Nacional" já lá vão e, apesar dos cravos de antanho e da treta actual do "somos todos irmãos", o 25 de Abril não foi um passeio jovial ao Largo do Carmo.

25/04/09

Não, não é um post sobre o 5 de Outubro

Já faltou mais. Afinal, já passaram 35 anos desde o 25 de Abril. O que me recorda que também já passaram 35 anos desde que passei uma tarde, adolescente precoce e feita parva (mas muito, muito mais nova...), num café do Estoril aguardando instruções sobre o que fazer, como diria Lenine.
Quem não foi na conversa que o golpe podia ser do Kaúlza foi o meu pai que zarpou cedo para Lisboa de onde apenas regressou haviam passado dois dias, descalço e afónico. Perdera os chinelos de praia que levara calçados com a pressa algures para lá no Chiado e a voz fora-se-lhe de tanto cantar o Grândola.
Lá em casa tinha sido assim:
Bem cedo, a minha mãe levantou-se e ligou como sempre a rádio. Pediam calma aos ouvintes e davam-lhes música. Cheirou-lhe a esturro e não era das torradas. Decidiu chamar o marido: "Vem ouvir! Aconteceu qualquer coisa!"
Este, precipitando-se, de ouvido e coração colados às notícias, terá concluído rápido que a coisa estava do lado dele: o gosto musical coincidia. E enquanto isto eu dormitava ainda, embalada pelas interjeições que chegavam da cozinha.
Despertei para o novo mundo com o barulho da minha mãe na escada, por onde corria atrás do meu pai que, sem poder conter-se mais, galgava ao terceiro andar a avisar o vizinho dos seguros, companheiro de esperançosas tertúlias.
"As calças do pijama! As calças do pijama!" – gritava ela, evitando assim o escândalo de um homem nu pelo prédio, mesmo que só abaixo da linha da cintura.
E salvando-se naquele momento o pudor, os chinelos de praia, esses, nunca mais apareceriam.

24/04/08

Pois, amanhã é 25 de Abril

Decorridos 34 anos do golpe militar que pôs fim ao Estado Novo (durante o qual colunas rebeldes obedecem ordeiramente aos sinais de trânsito, segundo relato do capitão Salgueiro Maia), as comemorações da data tendem paulatinamente a confundir-se com as do 5 de Outubro, se não no calendário pelo menos na pompa e numa ou outra circunstância. Com uma diferença: do 25 de Abril há um pouco mais de sobreviventes.
As do ano passado chegaram assombradas pela entrega da medalha de ouro a António Oliveira Salazar no concurso televisivo Os Grandes Portugueses. As interpretações sociológicas, políticas e ideológicas do facto foram muitas e variadas. Uns defenderam, simplesmente, que o natural de Santa Comba Dão não devia estar na lista; outros desvalorizaram o resultado, considerando-o inexpressivo (contas feitas, se o vencedor chegou aos 41% e o número total de votos contabilizados não ultrapassou os 159.245, então, estiveram com ele apenas 0,6% da população portuguesa).
Houve quem falasse em manifestação de protesto, sem vínculo salazarista, pelo rumo actual do país; quem ficasse mais chateado pelo segundo lugar de Cunhal do que pelo primeiro de Oliveira; e alguma extrema-direita, mesmo cantando vitória, anunciou considerar o programa uma ofensa à História de Portugal (curiosamente, alguma esquerda disse o mesmo).
Por fim, houve quem viesse lembrar que o homem tinha vencido um concurso, não tinha ganho eleições.
O que seria, aliás, uma impossibilidade. Morreu há 37 anos, a 27 de Julho de 1970, e mandou oficialmente no país entre 1932 e 1968. Nesse ano passou o testemunho ao discípulo Marcelo Caetano, e apenas porque a tal cadeira resolveu pregar-lhe a partida de se encontrar fora do sítio. À queda, grave, sobreveio, operado e refeito do susto, uma hemorragia cerebral.
Incapacitado, vive até ao fim na residência oficial numa grotesca encenação do poder que já não tem (segundo Fernando Dacosta, por sugestão da governanta Maria). Ministros e acólitos prestaram-se ao enredo, visitando-o e dirigindo-se-lhe como se do Presidente do Conselho se tratasse ainda. E enquanto em Portugal decorria esta farsa caseira, lá fora Luther King era assassinado em Memphis, rebentava a guerra do Vietname, Paris enfrentava a intempérie de Maio e em Praga acabava a Primavera, Bobby Kennedy era baleado em Los Angeles, Nixon chegava a Presidente dos EUA, Neil Armstrong pisava a lua, Beckett ganhava o Nobel, os Beatles zangavam-se de vez, etc., etc., etc. O mundo mantinha o seu curso imparável; por cá chegava ao fim o reinado da referida Maria.
Não se pense, porém, que tudo era mau. Até final dos anos 60, Portugal manteve-se, em muitos aspectos, na pole position dos países europeus ocidentais (ver António Barreto, «Mudança Social em Portugal: 1960-2000», in Portugal Contemporâneo, coordenação de António Costa Pinto, Dom Quixote, 2004).
Assim: era o único império colonial sobrevivente; podia orgulhar-se de exibir o ditador com mais anos no poder; apresentava as mais altas taxas de analfabetismo e mortalidade infantil; o menor número de médicos e enfermeiros por habitante; o mais baixo rendimento por habitante; a menor produtividade no trabalho; o menor número de estudantes no ensino básico e superior; o menor número de pessoas abrangidas pelos sistemas de segurança social, a menor industrialização e a maior população agrícola.
No fundo, no fundo, números à parte, tratava-se de um paraíso verde. Além das paisagens bucólicas e das viúvas de portentos buços, havia Fátima, havia fado e havia futebol. E no que toca a futebol, Eusébio era o mais que tudo. Tão mais que tudo, que Salazar lhe vetou a carreira internacional, informando-o, tão simplesmente, de que ele era «património do Estado».
Só os portugueses em crise de meia-idade, ou já refeitos dela, se podem lembrar de como era antes. E a verdade é que tinha pouca graça. Antes. Claro que nos podemos rir hoje da licença de isqueiro, obrigatória desde os anos 30 e só abolida em Maio de 1970 pelo decreto-lei 237/70. Claro que mesmo os incondicionais de Chomsky ou Michael Moore já não terão de ir ao Ultramar para beber um gole pecaminoso de Coca-Cola, só comercializada entre nós a partir de 1977. Em Portugal Continental, como se dizia, fora proibida nos anos 30, dela só sobrando a prova dos dotes publicitários de Pessoa que lhe inventara um slogan: Primeiro estranha-se, depois entranha-se.
Podemo-nos rir, ainda, do Decreto-Lei nº 31247 de Maio de 1941, que regulava o uso do fato de banho, zelando pela moralidade pública (...) no sentido de evitar a corrupção dos costumes, e que obrigava, para elas, a fato inteiro sem descobrir os seios, com costas decotadas sem prejuízo do corte das cavas ser cingido na axilas e, para eles, a calção com corte inteiro, justo à perna e reforço da parte da frente, e justo à cintura cobrindo o ventre, regras a que os cabos de mar tiveram de começar a fechar os olhos quando, na década de 60, turistas bem menos atafulhados de roupa desataram a invadir o Estoril e o Algarve.
Continuamo-nos a rir desta obsessão moralista e bafienta (que fez do iconoclasta José Vilhena o autor mais censurado do antes 25 de Abril), com as calças proibidas às raparigas nos liceus e as gravatas obrigatórias para os rapazes, mais as portarias camarárias em prole do decoro vigente. O escritor Luís Sttau Monteiro, cujo pai foi embaixador em Londres até 1943, ano em que bateu com a porta a Oliveira Salazar, contava que, criança, numa audiência a que assistira, o ditador reparara nas suas botas e lhe perguntara onde as comprara. Quando lhe respondeu que fora em Londres, este comentara: Modernices! Modernices!
O sorriso começa talvez a amarelecer quando nos lembramos das cargas da polícia de choque, como as do Verão de 1969, nos Salesianos do Estoril (num festival que misturava bandas rock e os chamados cantores de intervenção), apesar da forma pícara como José Cid recorda os acontecimentos: uma das cenas mais impressionantes foi a polícia batendo num grupo de turistas japoneses. Quando os policiais começaram a agredir os jovens, que estavam ali pacificamente, numa de música, os japoneses puxaram das máquinas fotográficas e começaram a tirar fotografias; assim que a polícia viu aquilo... máquinas para cá. O sorriso desmaia à medida em que recordamos o milhão e meio de imigrantes obrigados a dar o salto, entre 1960 e 1973, sangria de pobres que o escritor José Cardoso Pires resumiria de forma lapidar: Da minha terra natal tenho uma definição simplista: deserto de Pedras, Padres e Pedintes. Aldeia emigrada, portanto.
O sorriso já se foi por completo quando chegamos aos cerca de 10 mil soldados mortos na guerra colonial e, ajudados pelo livro de Ferreira Fernandes Lembro-me que… (Oficina do Livro, 2004), nos lembramos, também nós, dos poucos ou nenhuns direitos das mulheres cujas vidas valiam penas de dois anos, como a aplicada a Adélio da Custódia pelo assassínio da mulher Maria Pais Pimenta, explicada assim pelo juiz corregedor do Círculo Judicial de Viseu: Porque se justifica perfeitamente a reacção do réu contra a mulher adúltera que abandonou o lar, o marido e dois filhos de tenra idade, para seguir um saltimbanco.

E sem motivo aparente vem-nos à cabeça o drama privilegiado do poeta Alexandre O’Neill, que em Nora Mitrani encontrara l’amour fou. Uma francesa de passagem por Lisboa espera agora por ele em Paris, mas a PIDE nega-lhe o passaporte e O’Neill nunca tornará a rever Nora que se suicida em 1961.
Chegamos, assim, à parte de que já ninguém fala: a censura e a polícia política do regime, com os pides a receberem actualmente boas reformas, supõe-se que pelos serviços prestados à nação.
Em entrevista a António Ferro, Dezembro de 1932, a propósito dos boatos que punham em causa o bom-nome da polícia, Salazar explicara-se bem: (…) quero informá-lo de que se chegou à conclusão de que as pessoas maltratadas eram sempre, ou quase sempre, temíveis bombistas, que se recusavam a confessar, apesar de todas as habilidades da polícia, onde tinham escondido as suas armas criminosas e mortais.
Linhas à frente, surge a prova mil vezes repetida da brandura dos meios e rectidão evidente dos fins: Eu pergunto a mim próprio (…) se a vida de algumas crianças e de algumas pessoas indefesas não vale bem, não justifica largamente, meia dúzia de safanões a tempo nessas criaturas sinistras. E nesta “meia dúzia de safanões” se fundaria o mito urbano que continua a rever e a absolver a tortura, desrespeitando os mortos com nome próprio.
Quanto à censura (uma prática que, em Portugal, verdade seja dita, recua aos tempos da Inquisição praticamente sem interrupções), prévia e de lápis azul em riste, no caso da imprensa, preferia a apreensão ulterior quando se tratava de livros.
Segundo a Comissão do Livro Negro sobre o Fascismo, o regime de Salazar/Caetano proibiu cerca de 3300 obras e até o velho Aquilino Ribeiro foi alvo de um processo-crime, pelo crime de ter escrito Quando os Lobos Uivam. O Secretariado Nacional de Informação (SNI) mostrava-se quase sempre de uma eficácia imbatível: em 1965, em apenas quatro dias, apreendia 70 mil títulos à Europa-América, em dois anos subtraía à Seara Nova milhares de contos de livros; quanto à editora Minotauro, era simplesmente encerrada.
Música, artes plásticas, filmes (de acordo com os dados recolhidos aqui só entre 1964 e 1967 foram apresentados à censura 1301 filmes, dos quais 145 foram proibidos e 693 autorizados com cortes) e TV a preto e branco (a cores só em 1980!), nada escapava à mutilação.
A justificação para o zelo recuava ao Decreto-Lei 22469 de Março de 1933: A censura terá somente por fim impedir a subversão da opinião pública na sua função de força social e deverá ser exercida por forma a defendê-la de todos os factores que a desorientem contra a verdade, a justiça, a moral, a boa administração e o bem comum e a evitar que sejam atacados os princípios fundamentais da organização da sociedade.
Apesar da bondade expressa dos censores, alguns jornalistas insistiam em alvoroçar os dias. Uma vez, no República, Vítor Direito discorria a propósito da densidade das nuvens: Manhã de nevoeiro transforma a cidade (…) Não se vê um palmo à frente do nariz (…) Andam por aí certos senhores, feitos meteorologistas de trazer por casa, a prever “boas abertas”. Mas o nevoeiro persiste.
Afinal, eram tempos divertidos. Acabaram com o 25 de Abril.