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02/07/22

GUERRA NA UCRÂNIA: DE FACTO E COMO SE PROVA NÃO BASTA MESMO ZELENSKY SER JUDEU

Se Putin usou o pretexto da "desnazificação" da Ucrânia para entrar ali adentro, a convicção apressada com que alguns vieram jurar a pés juntos que na Ucrânia nem debaixo das pedras se encontraria um nazi, acrescentando até que como podia ser se Zelensky até era judeu! — esquecendo que judeus há muitos, como os chapéus, até há uns maluquinhos que juram pela Tora que o Estado de Israel tem de ser destruído para que possa vir o tão aguardado Messias — parece ser agora posta em causa pelas palavras do embaixador israelita em Berlim que, com todas as letras, veio dizer que as declarações sobre o nazi Stepan Bandera (a quem chamou "combatente pela liberdade") de Andriy Melnyk, reconhecido negacionista e embaixador da Ucrânia na Alemanha, «são uma distorção dos factos históricos, uma banalização do Holocausto e um insulto aos que foram assassinados por Bandera».

Depois de já ter destratado o presidente alemão e Olaf Scholz, haja finalmente quem ponha o negacionista na ordem!

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20/06/22

AFIRMAÇÕES CORAJOSAS SOBRE A UCRÂNIA NO MEIO DA HIPNOSE COLECTIVA

 «L’Europe s’est bâtie sur la victoire sur le nazisme, une Ukraine qui continue à glorifier et à donner comme modèles à sa jeunesse des nationalistes ukrainiens ayant collaboré avec les nazis et massacré des dizaines de milliers de famille juive n’a rien à faire dans l’Union europ.»

«Si l’Ukraine désire rejoindre l’union européenne , le gouvernement ukrainien devra débaptiser toutes ces avenues et stades au nom de nationalistes ukrainiens ayant collaboré avec les nazis et massacré des dizaines de milliers de familles juives: Bandera, Choukheyvitch etc….»

«C’est comme si l’Allemagne avaient des avenues Hermann Goring ou des stades Himmler. l’Ukraine a toute sa place dans l’UE mais pas avec la vision de l’histoire de certains. il y a les valeurs morales de l’UE…»

Arno Klarsfeld [advogado da Associação Fils et filles de déportés juifs de France] no Twitter

21/08/10

O eterno retorno: pois é, Schulz também não correspondia ao protótipo e acabou assassinado a troco do dentista que também não correspondia ao que seja

[Nota prévia sobre o título deste post seguida de nota prévia sobre o vídeo protagonizado pelo actual ministro do interior francês
1. Bruno Schulz, artista polaco de origem judaica, conseguiu sobreviver algum tempo à "solução final" sob a protecção de Felix Landau, membro da Gestapo que admirava o seu trabalho, acabando por ser assassinado em retaliação por Karl Günther, nazi rival de Landau a quem este matara o dentista privado ("Mataste o meu judeu, eu matei o teu");
2. No vídeo de Setembro de 2009 pode ouvir-se Brice Hortefeux comentar, a propósito do jovem francês de origem árabe com quem posa para a fotografia: "Ele não corresponde de todo ao protótipo.... É sempre preciso um.... Um está bem. É quando há muitos que aparecem os problemas..." Eloquente.]




Entretanto, a argumentação avançada por Brice Hortefeux para justificar a expulsão de 700 ciganos do território francês parece tão datada como a própria natureza humana (que é o que é).
Em resumo, Hortefeux diz isto: quem os defende não tem que levar com eles, ricalhaços da esquerda bem-pensante que vivem longe do povo e das suas preocupações.
Este género de conversa lembra-se sempre o Viridiana do Buñuel mais o seu leproso miserável que era obrigado pelos pares a carregar um chocalho.
Que fique claro, pois: não nutro nenhuma simpatia de princípio pelos pobrezinhos (compaixão é outra conversa e convém que seja universal).
Mas que fique também claro que não é isso que está em causa. O que está em causa é perseverar ou não em ideias morais, por muito impopulares que estas sejam.
Nesse particular, a posição de Obama sobre a construção de um centro cultural islâmico a dois quarteirões do Ground Zero mete num chinelo o pragmatismo da direita francesa (a que veio juntar-se, sem surpresa, a italiana).
E esclareça-se que se não nutro nenhuma simpatia de princípio pelos pobrezinhos, muito menos pelo Islão.

25/03/09

O homem é um verme mas eu também desconfio de muitos dos que agora se indignam

Há pouco tempo tinha sido o Williamson. Agora foi o Le Pen.
Volta não volta, volta-se ao mesmo.
Quantos morreram? E será que morreram? E de quê que de gás não foi?
Apesar deste assunto cheirar literalmente mal [os pavilhões de Birkenau fedem mesmo] gostaria de fazer um reparo sobre as declarações de Le Pen.
O líder da Frente Nacional não afirmou que não tinha havido Shoah, o que ele afirmou foi que as «câmaras de gás» tinham sido um «pormenor» no contexto da II Guerra Mundial.

Lamento dizer isto, o homem é um verme, mas a frase está historicamente correcta. À época, não só as «câmaras de gás» eram um pormenor, como a própria «Solução Final» não era coisa que tirasse o sono aos Aliados.
Podemos permitir-nos hoje pintar quadros heróicos e imaginar o Bem cavalgando sobre o Mal, vencendo Hitler, o demoníaco, e dando tudo por tudo para salvar as pobres vítimas.
Podemos. Mas a verdade histórica é que, durante a II Guerra, todos cagaram nos judeus (salvo raríssimas excepções, que pouco ou nada contaram para a evolução dos acontecimentos), continuando, aliás, a fazer o mesmo após a queda do nazismo ― leia-se A Trégua , de Primo Levi .
A actual gritaria pode fazer muito efeito mas eu, pessoalmente, gostaria mais de saber, por exemplo, porque razão no século XXI o Estado português, através do seu Ministério dos Negócios Estrangeiros, paga e publica um livro como o do embaixador João Hall Temido em que se insulta a memória de Aristides Sousa Mendes e em que as «câmaras de gás», lá está, não passam de «um pormenor».

02/11/08

O embaixador João Hall Themido é um tonto, para usar uma expressão diplomática

Publica o Expresso deste fim-de-semana um artigo sobre o livro do embaixador João Hall Themido, acabado de editar pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros; João Hall Themido é aí descrito como um «dos diplomatas portugueses com maior currículo» e Uma Autobiografia Disfarçada como tendo sido esgalhado num «registo crítico, mas também humorado».
Segue-se depois a transcrição de alguns excertos, um dos quais evoca Aristides Sousa Mendes, o cônsul português em Bordéus que, desobedecendo a Salazar, salvou a vida a milhares de refugiados judeus cujo destino, não tivesse ele arriscado a carreira nesse gesto, teria sido a câmara de gás.
Passo a citar o Expresso: um «dos capítulos, porventura o mais polémico [e sublinho eu o advérbio porventura], chama-se "A mitificação de Aristides de Sousa Mendes". O embaixador acusa o cônsul de "actuação irregular". "De forma totalmente irrealista, fala-se em 30 mil" o número de vistos "concedidos em apenas alguns poucos dias pelo cônsul e seus familiares, de forma cega, no consulado e até nos cafés da vizinhança". Themido sublinha "a necessidade de manter disciplina nos serviços que de forma directa ou indirecta pudessem, com a sua actuação, afectar o estatuto de neutralidade" do país. Para o embaixador, Aristides foi um "mito criado por judeus e pelas forças democráticas saídas do 25 de Abril". E mais à frente: "quando a família" do cônsul, "grupos judaicos e forças da esquerda ressuscitaram o assunto, procurei saber mais sobre o ocorrido". Observa que Aristides apenas "pertencia à carreira consular, considerada carreira menor em relação à carreira diplomática". Por outro lado, o processo disciplinar ao cônsul em Bordéus "foi o último de vários de que foi alvo ao longo da carreira, quase sempre por abandono do posto ou concussão". Nota que a maioria dos processos "desapareceu misteriosamente" do MNE e que o de Bordéus está "incompleto". Assim, considera "incompreensível criticar" o Ministério, "incluindo o ministro, por ter aplicado a lei nas circunstâncias da época"».
Deixando de lado o «fala-se em 30 mil», «forma cega», «neutralidade», «circunstâncias», «carreira menor» e etc., concluo que para este senhor quando se trata de escolher entre salvar uma(s) vida(s) ou a «disciplina dos serviços» e a sua regularidade, não há nunca que hesitar: opte-se pelas últimas! Perante tão miserável juízo é natural que a loucura compassiva de Aristides Sousa Mendes lhe seja incompreensível. Porque é preciso possuir alguma nobreza em si para entender um gesto nobre.
A Hall Themido assentar-lhe-á antes como uma luva a frase com que define a princesa Diana de Gales: «Escondido por detrás de um sorriso estereotipado, pareceu estar uma pessoa fria e sem interesse». A mim nem me parece, tenho a certeza.

06/08/08

Arte degenerada

Silvio Berlusconi, que já em 2006 tinha surpreendido o mundo com o seu voto de castidade público, volta a ser notícia. Indo mais longe do que Ágoas, que apenas proibiu massagens e distribuição de maças nas praias do Allgarve, o primeiro-ministro italiano resolveu alterar o curso da Verdade exposta no Palazzo Chigi, sede do governo.
Atrás de Silvio, no gabinete onde concede entrevistas, estava La Verità svelata dal Tempo, a reprodução de um quadro de Giambattista Tiepolo (1696-1770) em que surge, oh céus!, uma mulher com um dos seios desnudado. Temendo, supõe-se, que as suas respostas aos entrevistadores não fossem suficientemente estimulantes para competir com a visão da Verdade nua e crua, Silvio mandou cobrir, 238 anos após a morte do pintor!, a ousadia de Tiepolo.

10/11/07

Ah! Grande Vasco! ou como ainda não Estamos Todos Parvos

Quando a imprensa inglesa e americana anuncia que a proibição de fumar em restaurantes não teve efeitos visíveis na saúde pública, em Portugal essa mesma proibição entrará em vigor a 1 de Janeiro de 2008. O que me espanta nisto não é a extravagância do acto em si. Duas coisas me parecem muito piores. Em primeiro lugar, a facilidade com que em todo o Ocidente o Estado resolveu intervir na vida privada de cada um e negar radicalmente o direito de propriedade (impedindo, por exemplo, que se criem restaurantes de fumadores), sem um protesto sério em parte alguma. Em segundo lugar, a rapidez com que o fumador foi socialmente estigmatizado e o vício de fumar (há 20 anos, normal e aceitável) se tornou quase o que era antigamente uma blasfémia, uma profanação ou uma heresia. Isto não anuncia nada de bom. Por um lado, porque fatalmente à campanha contra quem fuma se vai seguir a campanha contra quem bebe e a campanha contra quem come o que não deve ou come demais. E talvez, mais tarde, a campanha contra o “sedentarismo” e a falta de exercício. Não custa nada argumentar com as doenças que o álcool e a gordura provocam (tantas como o tabaco), ou retirar do mercado “produtos de risco”, ou vigiar o que os restaurantes servem. Por outro lado, já se viu que o poder do Estado para converter a populaça ao objectivo tenebroso de “melhorar o homem” é hoje ilimitado. A metamorfose das democracias do Ocidente em totalitarismos de uma nova espécie não incomoda ninguém. Não uso a palavra descuidadamente (não uso, de resto, nenhuma palavra descuidadamente): para Hitler (que não fumava, nem bebia), o alemão perfeito não andava muito longe do perfeito espécime do Ocidente contemporâneo. Imagino muitas vezes quem, de facto, quererá este mundo sufocante e asséptico, obcecado com a “saúde”? Gente, como é óbvio, com pouca imaginação. Por mais forte que seja o culto e a idolatria do corpo, a velhice chega. E, com ela, a irrelevância, a obsolescência, a solidão. Esta sociedade de velhos trata muito mal os velhos. A ideia (e a propaganda) de uma adaptação contínua é uma grande e cruel mentira. Os velhos são um embaraço. Um peso que se atura, que se arruma num canto, que se mete num “lar”. Setenta anos de esforço para durar acabam num limbo à margem da verdadeira vida, quando não acabam no sofrimento e na miséria. O Ocidente está a criar um inferno. Por bondade, claro.
Crónica assinada por Vasco Pulido Valente no Público
(Há dias escrevi um post relacionado com o assunto: quem tiver paciência, clique aqui)

26/10/07

De como a Realidade da Poesia É bem Melhor do que a da Engenharia - o Progresso III

Outros ecos
Habitam o jardim. Vamos segui-los?
Depressa, disse a ave, procura-os, procura-os,
Na volta do caminho. Através do primeiro portão,
No nosso primeiro mundo, seguiremos
O chamariz do tordo? No nosso primeiro mundo.
Ali estavam eles, dignos, invisiveis,
Movendo-se sem pressão, sobre as folhas mortas,
No calor do outono, através do ar vibrante,
E a ave chamou, em resposta à
Música não ouvida dissimulada nos arbustos,
E o olhar oculto cruzou o espaço, pois as rosas
Tinham o ar de flores que são olhadas.
Ali estavam como nossos convidados, recebidos e recebendo.
Assim nos movemos com eles, em cerimonioso cortejo,
Ao longo da alameda deserta, no círculo de buxo,
Para espreitar o lago vazio.
Lago seco, cimento seco, contornos castanhos,
E o lago encheu-se com água feita de luz do sol,
E os lótus elevaram-se, devagar, devagar,
A superfície cintilava no coração da luz,
E eles estavam atrás de nós, reflectidos no lago.
Depois uma nuvem passou, e o lago ficou vazio.
Vai, disse a ave, pois as folhas estavam cheias de crianças,
Escondendo-se excitadamente.. contendo o riso.
Vai, vai, vai, disse a ave: o género humano
Não pode suportar muita realidade.
O tempo passado e o tempo futuro
O que podia ter sido e o que foi
Tendem para um só fim, que é sempre presente.
T.S. Elliot, Quatro Quartetos, Ática, 1983
Imagem: René Magritte, O Falso Espelho, 1928

20/09/07

PORQUE HÁ COISAS QUE ME IRRITAM. E ANDAM POR AÍ A DISTRIBUIR O FILME «A QUEDA» À BORLA

Não fora os acontecimentos narrados em A Queda terem ocorrido há pouco mais de 60 anos, poderíamos pensar neles como num engenhoso enredo, e isto apesar da pobreza dos diálogos. O problema é que aconteceram mesmo há seis décadas, levaram ao extermínio de cerca de 6 milhões de judeus e 500 mil ciganos - apenas por o serem -, e subtraíram ao mundo 50 milhões de vidas.
Grande parte dos comentários ao filme sublinhou algo aparentemente simples: pela primeira vez fora mostrado o lado humano do Führer.
Confesso que senti alguma dificuldade em compreender o que queriam dizer. Porque a não ser que partilhemos do tipo de ignorância confessada por Woody Allen - «Juro que não sabia que Hitler era nazi. Durante muito tempo pensei que ele trabalhava para a companhia dos telefones» -, dificilmente encontraremos alguém que, por muito esotérico, acredite num Hitler vindo de Marte. Conhecem-se-lhe os progenitores e não consta que a mãe tenha recebido a visita de qualquer extraterrestre alado. Sabe-se onde nasceu, quando nasceu, onde andou à escola, quanto media, e até o momento em que deixou crescer o bigode.
Declarações do realizador Hirschbiegel reforçaram as minhas dúvidas: «Tem havido vozes preocupadas por termos representado Adolf Hitler como ser humano. Mas é ridículo olhar para os nazis como enviados do diabo. O mal está presente em todos nós». Não podia estar mais de acordo. Embora também não deixe de ser verdade que alguns de nós são bastante mais mauzinhos do que outros.
Assisti à fita no Goethe Institut de Lisboa com dezenas de pessoas de todas as idades, que não arredaram pé apesar das cadeiras improvisadas e dos intervalos para rebobinar a película. No fim prolongou-se o silêncio e, pelo menos em alguns, notou-se desconforto. Bruno Ganz fora brilhante.
À parte o consenso sobre a prestação do actor suíço, houve polémica. Em Israel discutiu-se a exibição comercial do filme, em respeito pelos 280 mil sobreviventes a viver no país. Wim Wenders, notando que a morte de personagens anónimas enche regularmente a tela, questionou o pudor do seu colega em mostrar a morte do ditador e de Goebbels; na sua opinião, ao desviar o olhar da câmara dos momentos finais dos dois assassinos, Hirschbiegel contribuia para a sua mitificação. Nas palavras sarcásticas do realizador de Ao Correr do Tempo, «pelo menos em Resident Evil (um filme gore de 2002) sabemos quem são os maus».
Na mesma linha, o «New York Times» notava que «ao lado de Goebbels e de Hitler, muito dos outros nem parecem tão maus como isso». O jornal suíço «Neue Zürcher Zeitung» afirmava que combater a diabolização de Hitler era uma coisa boa, «mas obviamente muito pouco quando se abdica ao mesmo tempo de qualquer análise política». Mas talvez a abordagem mais interessante que li tenha sido a de David Denby na «New Yorker».
Num texto chamado «Back in the Bunker», Denby pergunta: «Considerado como biografia, o resultado (...) d'A Queda é mostrar que o monstro não era sempre um monstro - simpático com a cozinheira e com as jovens secretárias, gostava do seu pastor-alemão Blondi e estava rodeado por subordinados fiéis. Chegamos à questão: Hitler não era um ser sobrenatural; era um homem comum que alcançou o poder pela vontade dos seus apoiantes. Mas é isto uma resposta suficiente para o que Hitler realmente fez?»
Não. Com certeza. Nem terá Hirschbiegel querido chegar a tanto. Mas então o que pretendeu? Que Hitler tinha um cão do qual gostava muito, era educado com as mulheres, comia ravioli e acabou vegetariano, já se sabia.
Imaginemos agora um espectador que ignore em absoluto a História. Não poderia ele legitimamente resumir o que se passa na tela à tragédia de um homem abandonado pelos seus correligionários, chefe militar implacável que manda abater os traidores e premeia a coragem (a cena de condecoração dos jovens é patética, mas é-o apenas porque nós sabemos que - na realidade - aquelas crianças são marionetas de um mundo grotesco), porventura um velho demente, a espaços muito desagradável embora quase digno de dó (não se mata ele no final)? Não poderia esse espectador chegar a ver nobreza nos suicídios perpetrados por vários dos seus apoiantes?
Há, claro, a cena terrível em que os seis amorosos e louríssimos filhos de Goebbels são mortos pela mãe (com maldade, Benby comenta que «é como se os pequenos Von Trapp tivessem sido silenciados de vez»). Ainda aí, não poderá o espectador desconhecedor do verdadeiro enredo ser levado a desculpabilizar Hitler face à enormidade do gesto de Magda Goebbels? Hitler manda fuzilar o cunhado de Eva Braun apesar dos pedidos dela, mas porque ele é um traidor; mata Blondi, mas Blondi é apenas um cão; por muito que gostemos de cães nada se pode comparar à crueldade da Medeia. É verdade que Hitler lhe corrobora o crime: o crime não deixa por isso de ser dela.
Serão as palavras de Traudl Junge (retiradas do documentário Im toten Winkel - Hitlers Sekretärin, no qual a ex-secretária relata e reflecte sobre os seus anos passados ao lado de Hitler) e a referência ao número de mortos resultantes dos 12 anos de nazismo que se exibem no final de A Queda suficientes para enquadrar a barbárie nacional-socialista? Após assistirmos durante duas horas e meia a uma história contada sob o ponto de vista de Junge (representada por Alexandra Maria Lara), inocente, fascinada e apiedada pelo Führer, parece muito pouco.
Hirschbiegel disse que «não oferece nenhuma explicação. Cada um dos espectadores deve encontrá-la por si». Mas uma explicação para quê? Com certeza não para o nazismo enquanto fenómeno social (para isso reveja-se o magistral Os Malditos, de Luchino Visconti). Com certeza não para o homem que o incarnou (melhor o faria uma obra que lhe retratasse os primórdios). Para o fascínio que exercia? Para o facto de os alemães o terem seguido cegamente? E chegamos ao nó do problema.
Filme germânico feito para germânicos, não tenderá ele a absolver, através do olhar de Traudl Junge, a própria nação alemã (note-se a perplexidade de Junge quando ouve Hitler culpar os judeus pelos males do mundo)? A insistência com que se sublinha o desprezo a que o ditador vota o seu povo leva-nos a suspeitar de que A Queda, muito mais do que sobre o famigerado lado humano de Hitler, é uma obra que tenta acrescentar, à vasta lista das vítimas do nacional-socialismo, o nome dos próprios alemães. Tê-lo-ão sido igualmente (não com certeza a dedicada secretária); convém recordar que há distinções a manter.
O incómodo que este filme provaca não resulta de assistirmos a cenas de simpatia protagonizadas por Hitler. O incómodo gera-se na sua perspectiva simplista, na ausência de análise, na falta de ideias. O incómodo aumenta com a suspeita de manipulação que nos invade. E o incómodo explode quando damos por nós à beira de um sentimentalismo light.
Sinal do empobrecimento intelectual dos tempos que correm, A Queda é um filme banal e bem executado que, sob a capa do realismo («foi assim que as coisas se passaram»), nada tem a acrescentar (a não ser as excelentes interpretações dos actores). Hitler, esse continuará a assombrar-nos.
Perante a infinita crueldade que originou e deu provas, permitam-me a pergunta: que raio nos pode interessar que ele gostasse de Blondi ou fosse vegetariano?

21/08/07

RAUL HILBERG 1926-2007


Raul Hilberg, in Shoah, de Claude Lanzmann
Falha imperdoável minha, só hoje fiquei a saber que Raul Hilberg tinha morrido. Autor desse estudo monumental sobre o Holocausto, The Destruction of the European Jews, obrigatório para quem queira tentar perceber a tragédia que se abateu sobre a Europa há cerca de 60 anos, o historiador faleceu no passado dia 4 nos EUA. Foi há poucos anos que comprei o seu livro, em Bruxelas, numa versão francesa actualizada. Com um rigor de copista e uma obsessão pelos factos que lhe valeram muitas críticas, inclusive da própria comunidade judaica (críticas que subiram de tom quando veio a público defender Norman Finkelstein, o autor de A Indústria do Holocausto), Hilberg descreve e interpreta, num livro de mais de mil páginas, a máquina burocrática nazi que permitiu cumprir a mortandade. Texto de referência, vale certamente mais do que todos os discursos que Elie Wiesel possa proferir sobre o tema. E quando tanta gente entre nós parece sentir-se atraída pela judaísmo ‑ porventura levando demasiado a sério o estatuto de «Povo Eleito» ‑, talvez a leitura de Hilberg ajudasse a clarificar as coisas. E as coisas são isto: J’ai fait un rêve, Seigneur, que j’ai trouvé, à l’instant où je le vivais, merveilleux: je n’étais plus juif. Edmond Jabès, que era judeu, saberia do que falava.

15/06/07

Kurt Waldheim, «Alegadamente» Nazi?!

O advérbio de modo incluído em muitas notícias que dão conta da morte do antigo Secretário-Geral da ONU e presidente austríaco Kurt Waldheim causaram-me uma crise de urticária. Porque não há «alegadamente» nenhum que o salve de um passado comprometido com o nazismo. Até que ponto, é outra conversa. Mas convinha manter barreiras morais, mesmo sabendo-se como elas são difíceis de manter.