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03/11/07

Porque Há Coisas que me Irritam: Michel Houellebecq

No 2+2=5, este post, que remete para uma divertida reportagem publicada no Libération, dá conta de um encontro universitário que decorreu em Amesterdão a propósito da obra de Michel Houellebecq, escritor francês perseguido pelo escândalo ou vice-versa, e no qual algumas cabeças pensantes depositaram a coroa de salvação da literatura francesa. Incompetente para falar de assunto de tal envergadura (a saber, o de saber se a literatura francesa precisa ou pode ser salva), tenho, no entanto, opinião sobre o escritor Houellebecq. Opinião que saiu reforçada pela leitura de algumas pérolas que lhe dedicaram os críticos reunidos na Holanda: agradou-me em particular esta, proferida por uma investigadora da Universidade de Oslo (seja qual for o seu significado):«Num mundo em dissolução, incontrolável, só o corpo permanece resgatável». Lembrei-me, então, de resgatar e adaptar alguns textos sobre os livros deste autor. Começo por Plataforma (Bertrand, 2002).
A história contada em Plataforma, livro que tanto sururu provovou, resume-se em poucas penadas. Michel é um funcionário público que trabalha no Ministério da Cultura. A sua vida consiste em orçamentar eventos que quase sempre abomina, «ir dar uma volta por um peep-show» ao fim da tarde e adormecer diante do televisor ao fim da noite. Um dia, durante uma semana de férias na Tailândia, cruza-se com Valérie, jovem funcionária da agência Nouvelles Frontières, e o exotismo do local trespassa-lhe a existência: apaixona-se. Valérie idem. Michel deixa de frequentar os «peep-shows» e o casal passa a fazer amor sempre que pode, por vezes com a ajuda de um ou outro parceiro (nada de particularmente promíscuo). Entretanto, a jovem muda de agência e, em conjunto com o novo chefe, decide criar uma rede de turismo lícito e sexual, ideia que recebe o apoio de uma sociedade alemã. No dia da inauguração do primeiro clube, de novo na Tailândia, um grupo islâmico fundamentalista ataca o hotel. Há mortes, e o romance acaba mal.
À conta do livro, Houellebecq teve vários processos na Justiça. Grosso modo, as acusações diziam respeito à presumível promoção do ódio contra os árabes e defesa do proxenetismo. Uma entrevista dele à «Lire» deu o toque a rebate. Bem bebido, o escritor fez declarações chocantes (ou que, pelos vistos, chocaram). Eis alguns exemplos: «A prostituição, acho muito bem. Como profissão, não é assim tão mal paga»; «O Islão é uma religião perigosa, e isto desde que apareceu. Felizmente, está condenada»; «Claro que há vítimas nos conflitos do Terceiro Mundo, mas são elas próprias que os provocam. Se os pobres idiotas se divertem a extirpar-se, deixá-los»; «Quando era novo, ele (De Gaulle) irritava-me. (...) acabo por simpatizar mais com Pétain»; «A abolição da pena de morte está bem... mas não faço disso uma questão de princípio», etc., etc. (também disse que «não há ideias de direita», para justificar porque é que só atacava as de esquerda).
Apesar de Houellebecq insistir na clássica distinção entre autor e personagem, a referida entrevista veio permitir estabelecer uma certa proximidade entre o Michel-narrador e o Michel-escritor. A primeira questão que se coloca, contudo, é saber se o facto de o segundo preferir o colaboracionista Pétain ao resistente De Gaulle é relevante para a qualidade literária. Não, decididamente. A segunda é saber se o livro é bom, mau ou assim assim.
Pois bem, é assim assim. Começa com garra, aguenta as personagens, tem cenas de sexo bem esgalhadas, mantém um estilo coerente, neutro e seco. Então, o que falha? O reaccionarismo? Que se lixe o reaccionarimo. O problema de Houellebecq é aquilo a que poderíamos chamar simpaticamente «excesso de ideias». Se em As Partículas Elementares a fusão da biologia com a física quântica vinha permitir a clonagem do «homem novo» (através de um chato arrazoado pseudocientífico), em Plataforma, agora por intermédio do sexo (que se identifica com amor, numa repescagem requentada de Reich), o que se propõe é salvar o Ocidente caduco. Megalómano, confundindo literatura com análise sociológica, o escritor perde o pé. Não resiste a apresentar soluções pueris - Oh L’amour! - e supostamente universais. Compreende-se, assim, porque insiste tanto no seu ódio a Céline. É que esse desconhecia soluções, convicto de que o mais provável é que daqui ninguém saia vivo. Em resumo: sob o manto diáfano da irreverência esconde-se um menino de coro que tresanda a kitsch.

05/10/07

António Lobo Antunes O Maestro Sacode a Batuta

António Lobo Antunes não será um incondicional de Pessoa. Foi, porém, ao autor de Chuva Oblíqua que roubei o título, «O maestro sacode a batuta,/ E lânguida e triste a música rompe...//», início de um poema longo que termina assim: «E a música cessa como um muro que desaba,/ A bola rola pelo despenhadeiro dos meus sonhos interrompidos,/ E do alto dum cavalo azul, o maestro, jockey amarelo tornando-se preto,/ Agradece, pousando a batuta em cima da fuga dum muro,/ E curva-se, sorrindo, com uma bola branca em cima da cabeça,/ Bola branca que lhe desaparece pelas costas abaixo...».
Em tempos, o escritor disse numa entrevista: «no fundo, o que eu gostava era de escrever poesia se tivesse talento para isso». Atente-se, agora, nesta passagem do seu último romance: «(não sou a minha filha nem nunca tive bonecos, a emoção da morte enganou-me, tive uma ambulância sem rodas com a qual brincava de barriga no chão conforme eu de barriga no chão à mercê dos tais bichos da lua, ginetos mochos ratos toupeiras a aguardar que a mulher do penúltimo quarto do lado nascente ou o suspeito atravessem o apeadeiro e marchem ao meu encontro desprevenidos de mim, escutando as borbulhas de aquário quando o copo se enche ou os prédios de Ermesinde a ruírem no silêncio e tão fácil matá-los apesar da minha falta de pontaria e dos dedos que vacilam, vejo-me grego para segurar numa chávena sem entornar o líquido, tenho de levá-la à boca com o pires por baixo e mesmo assim)», pág. 47.
Para tornar mais fácil acharem-se as analogias entre os versos de Pessoa e o excerto de O Meu Nome É Legião, recorro a J-M G Le Clézio: «Les mots ne veulent pas dire les sentiments, les passions, ou les obsessions. Cela ne les interesse pas. Ils vibrent et tremblent comme des oiseaux avant de crier». As palavras, portanto, matéria-prima da ficção, trabalhadas em primeiro lugar não como veículo de sentido mas como signos encantatórios pelos quais o escritor, maestro de batuta em riste, se deixa levar para nos convocar depois. Cavalgando-as: «Faço tudo como quem desejasse cantar,/ colocado nas palavras./ Respirando o casco das palavras./ Sua esteira embatente./ Com a cara para o ar nas gotas, nas estrelas./ Colocado no ranger doloroso dos remos,/ Dos lemes das palavras.», Herberto Helder, Poemacto
Nesta ânsia de fazer corpo com as palavras, António Lobo Antunes tem vindo a complexizar-se e a ganhar fama de ser difícil de ler. É difícil de ler. A dificuldade, porém, nomeadamente em O Meu Nome É Legião, reside tão-só na exigência de atenção que a sua escrita reclama. Com uma estrutura narrativa na qual a necessidade (a ordem que possibilita a leitura) rodopia de mãos dadas com o caos, a seu propósito vem sempre à baila o «fluxo de consciência», essa técnica que pela intercepção de espaços e tempos distintos fez a glória de Joyce e continuou a ser glosada por autores tão emblemáticos como Faulkner, Salinger ou Updike. Lobo Antunes tenta ir mais longe, criando uma simultaneidade de registos e de planos que o empurra em vertigem para o barroco, no sentido em que Borges o definiu: um «estilo que deliberadamente esgota (ou quer esgotar) as suas possibilidades».
Já não se trata de mera alternância de vozes (aliás, todas as vozes aqui tendem à mesma «música triste»), torrentes confessionais ou jogos de espelhos e perspectiva. É como se o texto, enxuto das limitações bidimensionais pela não linearidade do tempo narrativo, buscasse mais, desesperado por se estilhaçar em pedaços, My Favourite Things subvertido pelo génio de John Coltrane.
E é, então, ainda seguindo Borges, que descobrimos um elemento de paródia, muitas vezes não notado:
«não assinalou as matrículas, pinheiros bravos, carvalhos
(não sou forte em botânica e estava aqui a pensar se arrisco castanheiros ou não, não arrisco, como descrever um castanheiro em condições?), pág. 18;
«o cuidado com que o meu pai lidava com a roupa era dos poucos aspectos, bela frase, que a minha mãe apreciava nele mas deixemos se não se importam a minha família de lado)», pág. 34; «lembro-me que há meses, em janeiro ou fevereiro
(para quê essa conversa, sabes perfeitamente que janeiro, o mês do teu aniversário e aquele em que a tua mãe, não te disperses, larga a tua mãe, continua)», pág. 40.
Na ânsia de chegar ao osso, acrescenta-se em vez de se subtrair («entre a dor e o nada, prefiro a dor», escrevia Faulkner). Recorrendo às técnicas habituais – o policial, o polifónico, o descontínuo, o elegíaco (nas palavras de Maria Alzira Seixo, uma das responsáveis pela edição ne varietur das obras de António Lobo Antunes) – O Meu Nome É Legião arrasta consigo uma história, no caso uma história onde a deliquência juvenil aliada à miséria mais profunda dos bairros degradados compõe um retrato que, sendo do Portugal de agora, é menos um libelo social do que um mergulho nos temas que são queridos desde sempre a Lobo Antunes: a infância (e eis de novo o poema de Pessoa), o desamor, desenraizamento, solidão extrema.
Nessa obsessão compulsiva, próxima do delírio, o estilista transfigura-se em maestro e cria frases sublimes: «se ao trancar uma cancela trancássemos a vida inteira mais o vestido da comunhão e os castigos do Altíssimo e nos tornássemos por exemplo uma folha a diminuir na água até nem as nervuras sobrarem», pág. 95, ou «Quando eu era pequeno uma velha do Bairro pegáva-me às vezes ao colo. Menino dizia ela. Menino. Depois faleceu e é bem feita. Por acaso conheço o lugar onde a sepultaram na colina. Cavei às escondidas e encontrei um sapato e uns ossos. Como não ouvi menino nenhum pus lá aquilo outra vez. Experimentei dizer menino aos sapatos e aos ossos e não serviu de nada. Se me entregassem uma escavadora acabava com a colina. Se calhar quase tantos ossos como mãos e desses tantos ossos quais seriam os dela. (...)», pág. 358.
Não será, porém, a beleza, antes a «palavra justa» que o move. Nessa busca vem Lobo Antunes construindo uma obra na qual, apesar da crueza das temáticas e da claustrofobia instalada, a compaixão pelas personagens se imprime na sua capacidade para as compreender a todas no desespero comum aos deserdados, que somos todos – aqui: polícias, filhos, putas ou criminosos –, «possessos de vários demónios» que cabe ao escritor dar a ver mas não julgar. À maneira de Tolstoi, porventura, o maior de sempre.
Agradece-se a Manuel Azevedo as sugestões, inspirações e paciência

20/09/07

PORQUE HÁ COISAS QUE ME IRRITAM. E ANDAM POR AÍ A DISTRIBUIR O FILME «A QUEDA» À BORLA

Não fora os acontecimentos narrados em A Queda terem ocorrido há pouco mais de 60 anos, poderíamos pensar neles como num engenhoso enredo, e isto apesar da pobreza dos diálogos. O problema é que aconteceram mesmo há seis décadas, levaram ao extermínio de cerca de 6 milhões de judeus e 500 mil ciganos - apenas por o serem -, e subtraíram ao mundo 50 milhões de vidas.
Grande parte dos comentários ao filme sublinhou algo aparentemente simples: pela primeira vez fora mostrado o lado humano do Führer.
Confesso que senti alguma dificuldade em compreender o que queriam dizer. Porque a não ser que partilhemos do tipo de ignorância confessada por Woody Allen - «Juro que não sabia que Hitler era nazi. Durante muito tempo pensei que ele trabalhava para a companhia dos telefones» -, dificilmente encontraremos alguém que, por muito esotérico, acredite num Hitler vindo de Marte. Conhecem-se-lhe os progenitores e não consta que a mãe tenha recebido a visita de qualquer extraterrestre alado. Sabe-se onde nasceu, quando nasceu, onde andou à escola, quanto media, e até o momento em que deixou crescer o bigode.
Declarações do realizador Hirschbiegel reforçaram as minhas dúvidas: «Tem havido vozes preocupadas por termos representado Adolf Hitler como ser humano. Mas é ridículo olhar para os nazis como enviados do diabo. O mal está presente em todos nós». Não podia estar mais de acordo. Embora também não deixe de ser verdade que alguns de nós são bastante mais mauzinhos do que outros.
Assisti à fita no Goethe Institut de Lisboa com dezenas de pessoas de todas as idades, que não arredaram pé apesar das cadeiras improvisadas e dos intervalos para rebobinar a película. No fim prolongou-se o silêncio e, pelo menos em alguns, notou-se desconforto. Bruno Ganz fora brilhante.
À parte o consenso sobre a prestação do actor suíço, houve polémica. Em Israel discutiu-se a exibição comercial do filme, em respeito pelos 280 mil sobreviventes a viver no país. Wim Wenders, notando que a morte de personagens anónimas enche regularmente a tela, questionou o pudor do seu colega em mostrar a morte do ditador e de Goebbels; na sua opinião, ao desviar o olhar da câmara dos momentos finais dos dois assassinos, Hirschbiegel contribuia para a sua mitificação. Nas palavras sarcásticas do realizador de Ao Correr do Tempo, «pelo menos em Resident Evil (um filme gore de 2002) sabemos quem são os maus».
Na mesma linha, o «New York Times» notava que «ao lado de Goebbels e de Hitler, muito dos outros nem parecem tão maus como isso». O jornal suíço «Neue Zürcher Zeitung» afirmava que combater a diabolização de Hitler era uma coisa boa, «mas obviamente muito pouco quando se abdica ao mesmo tempo de qualquer análise política». Mas talvez a abordagem mais interessante que li tenha sido a de David Denby na «New Yorker».
Num texto chamado «Back in the Bunker», Denby pergunta: «Considerado como biografia, o resultado (...) d'A Queda é mostrar que o monstro não era sempre um monstro - simpático com a cozinheira e com as jovens secretárias, gostava do seu pastor-alemão Blondi e estava rodeado por subordinados fiéis. Chegamos à questão: Hitler não era um ser sobrenatural; era um homem comum que alcançou o poder pela vontade dos seus apoiantes. Mas é isto uma resposta suficiente para o que Hitler realmente fez?»
Não. Com certeza. Nem terá Hirschbiegel querido chegar a tanto. Mas então o que pretendeu? Que Hitler tinha um cão do qual gostava muito, era educado com as mulheres, comia ravioli e acabou vegetariano, já se sabia.
Imaginemos agora um espectador que ignore em absoluto a História. Não poderia ele legitimamente resumir o que se passa na tela à tragédia de um homem abandonado pelos seus correligionários, chefe militar implacável que manda abater os traidores e premeia a coragem (a cena de condecoração dos jovens é patética, mas é-o apenas porque nós sabemos que - na realidade - aquelas crianças são marionetas de um mundo grotesco), porventura um velho demente, a espaços muito desagradável embora quase digno de dó (não se mata ele no final)? Não poderia esse espectador chegar a ver nobreza nos suicídios perpetrados por vários dos seus apoiantes?
Há, claro, a cena terrível em que os seis amorosos e louríssimos filhos de Goebbels são mortos pela mãe (com maldade, Benby comenta que «é como se os pequenos Von Trapp tivessem sido silenciados de vez»). Ainda aí, não poderá o espectador desconhecedor do verdadeiro enredo ser levado a desculpabilizar Hitler face à enormidade do gesto de Magda Goebbels? Hitler manda fuzilar o cunhado de Eva Braun apesar dos pedidos dela, mas porque ele é um traidor; mata Blondi, mas Blondi é apenas um cão; por muito que gostemos de cães nada se pode comparar à crueldade da Medeia. É verdade que Hitler lhe corrobora o crime: o crime não deixa por isso de ser dela.
Serão as palavras de Traudl Junge (retiradas do documentário Im toten Winkel - Hitlers Sekretärin, no qual a ex-secretária relata e reflecte sobre os seus anos passados ao lado de Hitler) e a referência ao número de mortos resultantes dos 12 anos de nazismo que se exibem no final de A Queda suficientes para enquadrar a barbárie nacional-socialista? Após assistirmos durante duas horas e meia a uma história contada sob o ponto de vista de Junge (representada por Alexandra Maria Lara), inocente, fascinada e apiedada pelo Führer, parece muito pouco.
Hirschbiegel disse que «não oferece nenhuma explicação. Cada um dos espectadores deve encontrá-la por si». Mas uma explicação para quê? Com certeza não para o nazismo enquanto fenómeno social (para isso reveja-se o magistral Os Malditos, de Luchino Visconti). Com certeza não para o homem que o incarnou (melhor o faria uma obra que lhe retratasse os primórdios). Para o fascínio que exercia? Para o facto de os alemães o terem seguido cegamente? E chegamos ao nó do problema.
Filme germânico feito para germânicos, não tenderá ele a absolver, através do olhar de Traudl Junge, a própria nação alemã (note-se a perplexidade de Junge quando ouve Hitler culpar os judeus pelos males do mundo)? A insistência com que se sublinha o desprezo a que o ditador vota o seu povo leva-nos a suspeitar de que A Queda, muito mais do que sobre o famigerado lado humano de Hitler, é uma obra que tenta acrescentar, à vasta lista das vítimas do nacional-socialismo, o nome dos próprios alemães. Tê-lo-ão sido igualmente (não com certeza a dedicada secretária); convém recordar que há distinções a manter.
O incómodo que este filme provaca não resulta de assistirmos a cenas de simpatia protagonizadas por Hitler. O incómodo gera-se na sua perspectiva simplista, na ausência de análise, na falta de ideias. O incómodo aumenta com a suspeita de manipulação que nos invade. E o incómodo explode quando damos por nós à beira de um sentimentalismo light.
Sinal do empobrecimento intelectual dos tempos que correm, A Queda é um filme banal e bem executado que, sob a capa do realismo («foi assim que as coisas se passaram»), nada tem a acrescentar (a não ser as excelentes interpretações dos actores). Hitler, esse continuará a assombrar-nos.
Perante a infinita crueldade que originou e deu provas, permitam-me a pergunta: que raio nos pode interessar que ele gostasse de Blondi ou fosse vegetariano?

29/08/07

PORQUE HÁ COISAS QUE ME IRRITAM. FREUD (II): ERRO OU IMPOSTURA?

«Nós libertamos a sexualidade através do nosso tratamento, não para que o homem possa ser a partir de agora dominado por ela, mas sim para tornar possível uma repressão - a rejeição dos instintos sob orientação de uma instância superior».
Estas palavras de Freud poderiam servir para pulverizar o «sex appeal» que o persegue enquanto paladino de pulsões proibidas. Porque, embora alguns dos discípulos, nomeadamente Reich, tenham cedido à tentação da transferência entre analista e paciente, um puritanismo antigo subjaz ao edifício da psicanálise. Esse será, porém, apenas um dos aspectos em que ele foi bombardeado pelos críticos.

Bendita cocaína. Em 1884, Freud toma conhecimento de dois artigos que acredita poderem subtrai-lo à obscuridade: um descreve os resultados espantosos da cocaína em soldados em stress, o outro relata efeitos idênticos no desmame dos morfinómanos. Após testar a nova droga em si próprio, Freud aconselha-a ao seu amigo Fleischl Marxow (dependente da morfina por razões médicas), e publica poucas semanas depois um artigo em defesa da «droga milagrosa». Acontece que o tratamento prescrito apenas havia substituído uma dependência por outra. Freud considera o facto uma excepção e insiste em escrever que só os morfinómanos se tornam cocainómanos. Em 1886, porém, começam a ser conhecidos os efeitos nefastos da nova droga. A precipitação do pai da psicanálise é considerada uma irresponsabilidade, acabando por ser criticada publicamente pelos seus pares. Quando, em 1887, Freud apresenta uma lista de publicações para concorrer ao título de professor o «episódio da cocaína» é suprimido. Mais tarde, em A Interpretação dos Sonhos, responsabiliza «o infeliz amigo» pelo caso. E. M. Thornton analisará pormenorizadamente esta aventura pouco edificante em Freud and Cocaine (1983, Blond and Briggs), e o desejo de fama e desprezo pela comprovação empírica serão para sempre sublinhados pelos críticos do pai da psicanálise.

A histeria e a pobre Anna O. Em 1885, Freud parte para Paris para um estágio com o neurologista Charcot. Este, uma sumidade na época, ocupava-se, então, da histeria, doença que se veio a provar não existir, remetendo para coisas como a epilepsia ou lesões cerebrais causadas por acidentes. Apesar de, inicialmente, Charcot se inclinar para explicações orgânicas da histeria, o facto, entre outros, da hipnose parecer um método eficaz de tratamento, leva-o a conjecturar causas psicológicas com origem num acontecimento traumático do passado. Freud abraça com entusiasmo esta possibilidade. Quando regressa a Viena e se cruza com Josef Breuer a psicanálise está prestes a nascer.
Breuer fora médico da jovem Anna O., a quem diagnosticara histeria. O que cativou Freud foi o facto do amigo lhe dizer que ela parecia melhorar após o relato dos tresvarios que a assaltavam; a própria chamava a essas sessões «cura pela fala». Embora Breuer nunca tenha afirmado que isso anulava a patologia física, Freud convence-o a integrar Anna O. como exemplo em Estudos sobre a Histeria, obra assinada por ambos que faz a defesa da cura catártica pela fala. Mas o problema com o caso Anna O. - reclamado pelos adeptos como o caso fundador da psicanálise -, é que não só se tratou de «um lamentável erro de diagnóstico como de um fracasso terapêutico completo» (Jacques Bénesteau, Mensonges Freudiens). Sabendo-se que Freud confessou mais tarde a Ernest Jones, que «a pobre doente não se saiu tão bem como poderia inferir-se do relato publicado por Breuer», a pergunta de Richard Webster em Freud Estava Errado. Porquê? torna-se particularmente incómoda: «Por que razão Freud avalizou o relato do tratamento de Anna O. (...), se sabia que a informação de Breuer de a ter curado era falsa?» A pergunta continua a gerar pesadelos aos partidários do método.


Da Teoria da Sedução ao Édipo. A hipótese de que a origem da histeria residia em acontecimentos traumáticos do passado vai refinar-se, com os traumas a ganharem carácter estritamente sexual, ao mesmo tempo que a masturbação sobe à cena, para os casos masculinos: «A origem da neurastenia é a masturbação (...) Podemos observar no círculo dos nossos conhecidos que (pelo menos em populações urbanas) os indivíduos que foram seduzidos por mulheres quando eram jovens escaparam à neurastenia», escreve Freud ao médico e amigo Wilhelm Fliess.
Guiado pela convicção grandiosa de que seria capaz de «abrir todos os segredos com uma única chave», é por esta altura que Freud elabora a Teoria da Sedução, que diz ter construído a partir do estudo de 18 casos, o que será desmentido aquando da publicação, em 1985, das suas cartas enviadas a Fliess. No essencial, a teoria defende que a histeria no adulto recua até a um traumatismo sexual (real) na infância. Ao expô-la em público, acrescenta ter verificado que as convulsões histéricas cessavam mal o paciente tomava consciência do facto reprimido.
O autoconvencimento de Freud ficou registado para a posteridade. Sabe-se mesmo que, por pouco, não matava Emma Eckstein. Aliando às suas as teses estapafúrdias do amigo Fliess, Freud diagnosticara à paciente um «reflexo neurótico nasal» provocado por masturbação, acabando por fazê-la operar ao nariz por Fliess, que lhe deixa pelo menos meio metro de gaze na cavidade nasal. Perante as hemorragias, que não paravam, Freud teima em que não passam de um sintoma histérico, resultado do desejo inconsciente de Emma de o atrair para a beira da cama (o episódio está narrado pelo próprio numa carta a Fliess que Anna Freud censuraria na primeira edição da correspondência).
Mas para a classe médica a convicção dele não basta. Recebe a Teoria da Sedução com prudente cepticismo e fala de «conto de fadas» que precisa de ser testado. É então que Freud tem uma jogada de mestre. Já que a Teoria da Sedução se mostrava demasiado singela, Freud não hesita em substitui-la por uma outra - irrefutável. Afinal, os pacientes tinham-no enganado, nunca tendo sofrido agressões sexuais. Na realidade, a bola do desejo estava do lado deles, e era esse seu desejo reprimido que explicava agora as neuroses. Freud podia escusar-se à prova. Se o desejo edipiano universal (o desejo sexual que as crianças sentem pelos pais) fosse reconhecido, tanto melhor. Se não, a conclusão era que o paciente não conseguira ainda libertar o seu próprio recalcamento. Esta circularidade falaciosa continua, até hoje, a ser o grande quebra-cabeças dos admiradores de Freud. Muitos críticos chamaram-lhe embuste, e não existe uma única comprovação empírica do complexo de Édipo.
Webster é particularmente certeiro: «Sugerir que do acto de mamar resulta prazer sexual não é mais razoável que sugerir que da copulação resulta prazer de comer. Se eu der dois terços de uma cenoura para compensar o cavalo da minha carroça e der o outro terço ao meu cão pastor, não vou admitir que o abanar da cauda deste último significa satisfação equina».

São Freud enfrenta o dragão dos sonhos. Freud propõe-se alargar o âmbito da teoria. É então que avança pelo campo dos sonhos e os define como «realizações de desejos inconscientes». O inconsciente, que tantos reclamam para ele, era conhecido há muito, embora seja certo que com o Iluminismo a Razão subira para o pedestal. Mas o que Freud faz, ao autonomizar o inconsciente sob uma aparência científica, é esvaziá-lo, de facto, de muitas das subtilezas que anteriormente tinha contido. Sob a capa de um monismo biopsicológico, eram as antigas concepções dualistas do homem que regressavam: anjo/demónio, bom/malévolo, agora importadas para o interior da mente.
Os sonhos vistos como manifestações de desejos criam um problema a Freud do qual este se descarta com a mesma facilidade com que abandonara a Teoria da Sedução. Freud conta o caso de uma mulher que detestava passar férias com a sogra. Após a ter elucidado sobre a sua interpretação dos sonhos, a mulher sonha que viaja com a mãe do marido, facto que leva Freud a perguntar-se: «Não era isto a contradição mais evidente da minha teoria de que os sonhos são realizações de desejos?» Mas nada detém um sábio: «O sonho mostrava que eu estava enganado. Era desejo dela eu poder estar enganado, e o sonho apresentava esse desejo cumprido».
O expediente argumentativo desta vez impressiona menos porque já conhecemos o truque. E embora acabe por introduzir certos matizes na teoria, Freud nunca abandona o essencial - e o essencial é poder, pelo sonho, aventurar-se pelo território do inconsciente que ele imaginava transbordando de desejos sexuais inconfessados.
Wittgenstein dá nitidamente conta desta obsessão freudiana pelo recalcamento da líbido: «Freud faz com muita frequência o que poderíamos chamar uma interpretação sexual. Mas é interessante que entre todos os relatos de sonhos que ele apresenta não haja um único exemplo de sonho sexual directo. Porém, estes são tão frequentes como a chuva». Orwell é mais demolidor: «Mas porque é que impulsos sexuais em que eu não tenho medo de pensar quando estou acordado terão de ganhar roupagens de algo diferente quando estou a dormir? E mais, para que serve o disfarce, se na prática é sempre penetrável?»
Os críticos notaram, também aqui, a incapacidade para compreender a complexidade da mente e comportamento humanos. A visão esquemática e redutora, que estenderá à sexualidade das crianças com o axioma das fases oral, anal e genital - que mais não são do que um decalque da descrição evolucionista, vigente na época, da anatomia sexual dos animais não humanos, como mostrou Frank Sulloway -, está, com certeza, mais perto do século XIX do que do nosso século. É estranho que ainda hoje alguns continuem a achá-la revolucionária.

O sexo e o efeito aspirina. As críticas a Freud são muitas e de diversa ordem. Uns indignam-se com a teoria, outros com a prática sectária, outros com o branquear da história do movimento psicanalítico, outros, ainda, com o negócio. Cioran foi directo: «Freud é um profeta, um chefe de seita, um reformador 'religioso'. Confundiu sempre a sua missão com a verdade, em detrimento desta última. Entre os homens de ciência não conseguimos imaginar um espírito menos objectivo. Havia nele algo de fanático, de homem da Antiga Aliança».
Os que o censuram concordam com Cioran, realçando o dogmatismo, o desprezo pelos factos (ou mesmo a invenção de factos - Bénesteau, por exemplo, resume os casos clínicos de Freud a seis, realçando-lhes o fracasso terapêutico), a crença na equação definitiva, no fundamento derradeiro. Se olharmos mais de perto, as explicações de Freud sobre a sexualidade enquanto razão de ser das neuroses parecem-se com as de alguém que, tendo uma dor de cabeça e verificando que ela passa depois de tomar uma aspirina, conclui que a falta da aspirina era a causa da dor de cabeça.

Webster, que tem do homem de Viena uma visão menos negativa do que muitos dos seus críticos, não tem ilusões: «Freud não fez quaisquer verdadeiras descobertas intelectuais. Ele foi o criador de uma pseudo-ciência complexa que deve ser reconhecida como uma das grandes loucuras da civilização ocidental». Crews escreve em Skeptical Engagements que «o freudismo tornou-se para mim o exemplo paradigmático de uma doutrina que obriga a uma lealdade irracional». E certos autores, como Ernest Gellner, sublinham a ligação de Freud à doutrina cristã do pecado original, substituído nele pelo inconsciente, esse lugar obscuro de onde brota o complexo de Édipo, desejo inconfessado de matar o Pai.
O crítico Walter Kendrick terá colocado a questão para a qual nenhuma pirueta interpretativa de Freud encontraria resposta: «Como é que se pode matar o Pai que nos ensinou que a sua morte deve ser o nosso desejo?» («Voice Literary Supplement», Junho/1984). E insistiu em pôr o dedo na ferida: «Certos autores abordam a psicanálise de diversos ângulos e fazem o seu trabalho de demolição de diversas maneiras, mas, à mistura com um desejo frenético de pulverizar Freud, partilham da crença ingénua que se pode varrer o século XX nesse processo. Nenhum deles tenta explicar por que é que um vetusto castelo de cartas como a psicanálise, pronto a desmoronar-se com qualquer aragem, foi arrematado por grosso por toda a cultura que ainda lá mora».
Talvez a resposta a isto dada por Adolf Grünbaum seja aceitável, pelo menos para alguns: «Como frisou Henri Ellenberger, a prevalência de conceitos freudianos vulgarizados torna difícil determinar, de maneira fidedigna, até que ponto as verdadeiras hipóteses psicanalíticas se tornaram realmente influentes na nossa cultura como um todo» («Um Século de Psicanálise», in Freud: Conflito e Cultura). E remata: «Devemos também ter cuidado com a tese bizarra (...) de que a difundida influência das ideias freudianas na cultura ocidental avaliza a justeza comprobatória da empreitada psicanalítica e a validade das suas teorias. Porque a ampla influência cultural de Freud valida tanto os seus princípios como a hegemonia cultural cristã justifica a crença no nascimento virginal de Cristo ou na sua ressurreição».

10/06/07

A Vingança de Gaia

Eles não se entendem. Há um alemão que prevê furacões, há um português que prevê seca. E nunca a meteorologia foi tão mediática. O aquecimento global tornou-se conversa de café, apesar de haver cada vez menos cafés onde se converse. Embora seja um post gigantesco, vou transcrever o texto que escrevi para o jornal Expresso e que foi publicado este fim-de-semana. Traz entrevista com James Lovelock, o cientista que nos aconselha a fugir o mais depressa possível para o Norte. Não do país, mas do planeta. Segue o artigo:

No final de 2006, James Lovelock afirmava à revista «Veja»: «Até ao fim do século XXI, é provável que cerca de 80 por cento da população humana desapareça. Os restantes 20 por cento irão viver no Árctico e em alguns, poucos, oásis de outros continentes, onde as temperaturas forem mais baixas e houver um pouco de chuva». A citação vem assinada por um homem de ciência que não faz futurologia nem tem conversas com Deus. Ainda assim, o retrato que traça da evolução próxima da Terra (A Vingança de Gaia, Gradiva, 2007) está longe de nos garantir o sono dos justos. Poderá ele estar enganado? Afinal, ao contrário das religiões, errar é próprio da ciência: «Na ciência não existem certezas, apenas possibilidades. Penso, porém, que a probabilidade de catástrofe climática é tão grande que não nos podemos atrever a ignorá-la», concluiu na entrevista, via e-mail, que acedeu dar ao Expresso. São palavras sensatas que, em certa medida, nos confortam da histeria politicamente correcta levada ao rubro pela jornalista Ellen Goodman nas páginas do «Boston Globe»: «Let's just say that global warming deniers are now on a par with Holocaust deniers, though one denies the past and the other denies the present and future»
De súbito, sem cerimónia e sem que nos apercebessemos, o aquecimento global puxou da cadeira e sentou-se à nossa mesa. Como tema de conversa, ultrapassou a biodiversidade, a fome em África, a guerra no Iraque, a pedófilia, a vida íntima de Cristo ou qualquer outro assunto da agenda global. A preocupação com o estado do tempo, tradicionalmente uma esquisitice britânica, conquistou o público de todos os continentes, da Europa à Austrália, passando pelos EUA, e aí apesar de Bush mas certamente graças a Al Gore e ao seu oscarizado Uma Verdade Inconveniente, filme que se manteve nos tops de bilheteira, mesmo depois das contas de electricidade do antigo candidato à Casa Branca terem sido tornadas públicas pelo «Tennessee Center for Policy Research»: mensalmente, um gasto de energia 20 vezes superior ao de que qualquer outro lar americano.
Lovelock não é um político. Em A Vingança de Gaia não se mostra excessivamente entusiasmado com o Tratado de Quioto e, à nossa pergunta sobre a corrida aos créditos de carbono (possibilidade oferecida às indústrias ou países mais poluidores para continuarem a emitir GEE negociando créditos alheios), o cientista respondeu num tom «blasé» pouco abonatório para os homens da governação: «Não se deve culpar as empresas por quererem realizar lucros quando os governos são suficientemente idiotas para oferecem subsídios». Os subsídios a que se refere dizem respeito a dois ítens que fazem as delícias dos Verdes e sobre os quais se mostra particularmente crítico: «Não duvido do valor das energias renováveis e a verdade é que utilizámos largamente a energia hidráulica muito antes de terem começado as preocupações ambientais, e o mesmo seria verdade para a energia das marés se optássemos pela sua utilização. São económicas e não necessitam de subsídios. Já a energia eólica e os biocombustíveis, considero-as pouco económicas e eficazes, sendo propostas em grande parte como gestos políticos. Além de sujeitas a subsídios, o que geralmente permite concluir que se trata de um empreendimento com falhas, ambientalmente são mais nocivas do que benéficas». Sabendo-se que, até 2010, Portugal vai investir (segundo estudo da Espírito Santo Research) 6,4 mil milhões de euros em energias renováveis, 69,4 por cento dos quais nas eólicas, percebe-se melhor por que é que o criador de Gaia, não sendo um político, pode ser, por vezes, tão incómodo.
Prolífero e polémico também. Nascido em 1919, tem formação em química, medicina e biofísica. Inventor encartado, ganharia visibilidade quando, na década de 70, lança, com a bióloga Lynn Margulis, a hipótese de Gaia, uma visão da Terra que, metaforicamente, a propõe à imagem e semelhança de um organismo vivo. Gaia, nome sugerido a Lovelock pelo escritor William Golding durante um passeio dos dois pelo campo inglês, transformar-se-ia numa bandeira «New Age», embora o cientista, bem positivo, nunca tivesse pisado tais pântanos. O facto é que se viu criticado pelos seus pares: «Os críticos de Gaia foram, de início, principalmente cientistas especializados em disciplinas como a biologia e a geologia e eram muito ruidosos. Os cientistas especializados em clima acolheram bem Gaia e continuam a fazê-lo. Como não sou uma pessoa insensível, foi-me difícil aguentar as críticas e estas duraram mais de 20 anos», confessou na entrevista ao Expresso.
O corte radical com os Verdes (que já tinha sido ensaido na polémica que os opôs a Lovelock a propósito dos CFC) dá-se quando, para surpresa de muitos, o homem a quem a revista «New Scientist» atribuíra o título de «Ghandi da Ciência» aparece a defender o nuclear como única alternativa real aos actuais problemas energéticos. Quando lhe perguntamos «Mas, e então Chernobyl?», a resposta chega rápida: «Se nos últimos 40 anos a indústria aeronáutica tivesse tido dois acidentes, um causando a perda de 75 vidas e o outro apenas três, acha que a consideraríamos pouco segura e teríamos medo de voar? Aparentemente não, porque houve milhares de acidentes mortais e mesmo assim continuamos a andar de avião. Portanto, porquê pegar só nos acidentes negativos em 40 anos de energia nuclear? A maioria das histórias contadas pelos lobbies dos Verdes sobre energia nuclear são disparates, histórias semelhantes às que nos impingiam no século XIX sobre o diabo e os lobisomens. A última contagem das agências das Nações Unidas sobre Chernobyl afirmava que houve 75 mortos entre os trabalhadores da central e as equipas de limpeza. E foi tudo. Veja o sítio UNSCEAR na web». A sugestão fica dada.
Todos estes e outros assuntos estão devidamente explanados em A Vingança de Gaia, um livro não aconselhado a pessoas sensíveis. Energias alternativas, agricultura biológica, desenvolvimento sustentado, todos os conceitos que nos habituámos a pôr na lista dos bons da fita são passados a pente fino. Por e-mail, Lovelock reafirma o que escreveu: «A teoria de Gaia é interdisciplinar e vê a Terra passando agora do estado frio que os geólogos denominam «casa de gelo» (icehouse) para um estado de calor a que chamam «estufa» (greenhouse). Uma vez iniciado, o movimento é irreversível – aquilo que fizemos foi desencadeá-lo. Não só o movimento é efectivamente irreversível como, mesmo que o pudéssemos contrariar, a inércia das reacções humanas impediria qualquer acção útil em menos de 30 anos. Acha que podemos esperar que a China, a Índia e os EUA deixem de queimar carvão nesse prazo de tempo? É por isso que digo que precisamos de retirar de forma ordeira para as regiões mais frescas do Norte, onde os alimentos possam continuar a ser cultivados».
Mas, e o se o aquecimento global for um mito, como alguns cépticos insistem em defender? Pusemos a questão: «O climatologista Richard Lindsen tem sido uma das vozes mais críticas, falando mesmo de perseguição aos cientistas que discordam da “visão alarmista do aquecimento global por acção humana”. Dada a posição de cientista independente que sempre fez questão de manter ao longo da sua carreira, com as subquentes vantagens e desvantagens de tal estatuto, a presente unanimidade climática não lhe causa nenhuma estranheza?». Lovelock respondeu: «Apenas uma pequena minoria de cientistas duvida de que somos a principal causa do aquecimento global. Richard Lindsen é um cientista respeitado e pode, como eu nos primeiros tempos de Gaia, ter razão. O que há de maravilhoso na ciência é que a natureza é o árbitro final.». Ora aí está uma resposta que as Ellen Goodman deste mundo nunca nos conseguiriam dar.

06/06/07

Enrique Vila-Matas em Fuga

Terminei a leitura de Enrique Vila-Matas em Barcelona. A circunstância geográfica seria irrelevante, não fora o gosto do próprio pelos acasos e coincidências. «Desgraciadamente», como diria Borges, «el mundo es real», e não me cruzei com ele na sua cidade, nem tão pouco com o seu avatar, Doutor Pasavento, também título do livro que levo na bagagem. Última obra de Vila-Matas publicada entre nós (teria merecido tradução e revisão mais cuidadas), Doutor Pasavento conta a história de um homem que, digamos assim, decide desaparecer para ver o que acontece. Escrito à sombra do «vagabundo imóvel» Robert Walser, escritor suiço que passou os últimos 23 anos de vida numa instituição psiquiátrica dedicando-se à delicada tarefa de ser um louco exemplar, Pasavento deseja também experimentar libertar-se de si próprio, decidindo-se por uma fuga sem fim, à semelhança de Franz Tunda, personagem «supérflua» criada por esse outro deserdado da literatura chamado Joseph Roth. Como quase sempre na escrita de Vila-Matas, tudo aqui se confunde. Vida e literatura, verdade e fingimento, ensaio e ficção. Um escritor espanhol ensaia o desaparecimento, na vã ilusão de que, como a Agatha Christie, alguém dê pela sua falta. A ele, contudo, ninguém o procura. Transformado em Doutor Pasavento, e noutros heterónimos como Ingravallo ou Pynchon, deambula pelo mundo (até por Lisboa...), prova viva do «desaparecimento do sujeito», mistura de Walser, Bove, Cravan, Blanchot, Salinger, Pynchon, todos, enfim, parentes mais ou menos próximos desses «escritores do Não» que Vila-Matas já havia visitado em Bartleby e Companhia. Fragmentário e elíptico, Doutor Pasavento é um projecto sem fim nem solução à vista: «(...) suspeito que toda essa paixão por desaparecer, todas essas tentativas, chamemos-lhe suicidas, são ao mesmo tempo tentativas de afirmação do meu eu». O autor, que «no fundo, queria ser poema», é um persuasivo farsante. Parafraseando Borges: «yo, desgraciadamente, soy Vila-Matas»?

Bernard-Henri Lévy on the road

Não é a primeira vez que «The New York Review of Books» discorda de Bernard-Henri Lévy. Aquando da saída do seu livro Quem Matou Daniel Pearl? (Livros do Brasil, 2003), William Dalrymple seria demolidor, acusando-o de erros factuais, informações falsas e investigação amadorística. A propósito de Vertigem Americana, não se pode dizer que tenham sido mais simpáticos. «Lévy is short on the facts, long on conclusions», resumiu Garrison Keillor, directamente «to the point». No «San Francisco Chronicle», Michael O’Donnell não foi mais meigo. Referindo-se ao subítulo da obra, «Uma viagem pela América profunda seguindo os passos de Tocqueville», sublinhou a vacuidade da ideia que lhe subjaz, segundo ele tão despropositada como a de alguém que pretendesse ter escrito Madame Bovary II. A ideia, porém, não foi de Lévy. Vertigem Americana resulta de um convite feito pela revista «Atlantic Monthly», para que, durante um ano, ele refizesse a viagem aos EUA do francês Alexis de Tocqueville (1805-1859), da qual nasceu A Democracia na América (Principia, 2002), obra que se tornaria num marco do pensamento político, inspirada defesa da democracia e não menos inspirada reflexão sobre os perigos que ela própria engendra. Vertigem Americana não corre esse risco. A intenção parecia boa. Como Tocqueville, também BHL se propunha «misturar as coisas vistas com o pensamento», e isto apesar das suas interrogações, passados 172 anos, serem outras. Em primeiro lugar, o anti-americanismo. Depois, «a questão ontológica» europeia. Finalmente, o actual estado de saúde da democracia americana. Todo um programa! Tocqueville fora mais modesto. A sua viagem visava, tão só, estudar o sistema prisional americano. Chegado, porém, a esse Novo Mundo em turbilhão, «open mind» «avant la lettre», mergulha numa realidade que o surpreende e fascina e dessas «coisas vistas» cria um pensamento original. Ora, nada do que Vertigem Americana nos traz é particularmente original ou, sequer, novo. Claro que nas 366 páginas escritas por BHL (sem qualquer episódio de humor, mesmo tendo ele percorrido 20 mil quilómetros!), podem colher-se informações interessantes ou desconhecidas para o leitor. Páginas somadas, as ideias são fracas e a maioria das reportagens banal. A entrevista a Sharon Stone, a cruzar e a descruzar as pernas enquanto critica Bush, é patética. O retrato de Woody Allen a tocar clarinete em Nova Iorque não acrescenta nada, mesmo que nunca o tenhamos ouvido tocar clarinete ou ido sequer a Nova Iorque. O encontro com uma bailarina de «lap dancing» de Las Vegas confirma a «miséria erótica em meio puritano», mas teria sido preciso ir ao deserto? E que aprendemos de novo sobre o criacionismo, os malls ou o lobby das armas? E, já agora, o que é que Lévy realmente pensa de Billy Kristol ou de Fukuyama? A descrição de Los Angeles como «anti-cidade» é dos piores momentos do livro, exemplo maior da pomposidade do estilo e do vazio de ideias. Como assinalou David Singerman, no fim, a única coisa que conseguimos concluir é que LA é grande. Além de que alguém percebe o que quererá dizer: «Uma cidade ininteligível é uma cidade cuja historicidade não é mais do que um remorso sem idade»? No final, BHL conclui que os EUA, apesar dos erros e fragilidades, não são o Império do Mal, possuindo energia suficiente para «entrar em beleza no novo século». Para filósofo, é pouco. Por estas e por outras, para entender a América de hoje, será preferível ler Tocqueville ou Notas sobre um País Grande, de Bill Bryson. Quanto a BHL, foi-lhe dedicado Une imposture française (2006, Les arènes), de Nicolas Beau e Olivier Toscer, jornalistas, respectivamente, do «Canard Enchaîné» e do «Nouvel Observateur». Também podíamos ler. E só um acrescento: o que era aquele prefácio do Diogo Freitas do Amaral?!! (e, repare-se, eu que detesto pontos de exclamação neste texto já usei vários).