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29/10/10

A book a day keeps the doctor away: "Divórcio em Buda", Sándor Márai

Autor de livros que transpiram melancolia por todos os poros, Sándor Márai pertence aquela categoria de escritores que, uma vez descobertos, nunca mais se conseguem abandonar.
Desaparecido em 1989, data em que suicidou no exílio com um tiro na cabeça — faltavam dois meses para chegar à mesma idade do século —, vivia há muito arredado da glória que em tempos conhecera. Nome aclamadíssimo das letras húngaras, os seus livros haviam caído entretanto no esquecimento para só serem redescobertos na década de 90, após a sua morte.
Anti-fascista e anti-comunista, Márai abandonara a Hungria em 1948, fixando-se, por fim, nos EUA, na Califórnia, após ter residido na Itália e na Suíça. Viúvo, quase cego e cercado pela solidão, o escritor, que fora proscrito no seu próprio país e, poliglota, teimara, ainda assim, em exprimir-se em húngaro, não poderia imaginar o notável renascimento da sua obra, que muitos não hesitam em emparceirar com as de Musil ou Joseph Roth.
Cronista subtil e delicado do período entre as duas guerras, Márai cultiva a perspicácia tolstoiana conseguindo, através de personagens ambíguas e irresolutas, dar-nos a ver a decadência de um mundo que nunca mais será o mesmo: a crença no Iluminismo e na civilização humanista que, até então, muitos acreditavam ser o caminho da Europa, cairia por terra, varrida pelo nazismo e pela experiência comunista.
Em Divórcio em Buda, belíssimo retrato psicológico que prenuncia essa obra-prima intitulada As Velas Ardem até ao Fim (também traduzida na Dom Quixote), um juiz é chamado a julgar um caso de divórcio que envolve um casal seu conhecido. Caso simples, não fora os perigos que acompanham aqueles que “viajam por lugares ignotos”.
Escrito em 1935, Divórcio em Buda antecipa os anos de chumbo e revela-nos o declínio da época através da história trágica de um triângulo amoroso — mais imaginário do que real —, pondo em confronto dois homens que dialogam a propósito de uma mulher morta enquanto outra dorme tranquilamente, burguesmente, junto aos filhos inocentes.
Reflexão sobre o amor e também sobre a justiça humana, o romance coloca frente a frente o ponderado juiz Kristóf Kőmives e o desesperado médico Imre Greiner. A separá-los — e a aproximá-los — Anna Fazekas, mulher do último e flirt fugaz e remoto do primeiro.
Durante uma noite, a narrativa inesperada de Greiner porá em causa os alicerces da vida pacata e metódica de Kőmives, desencadeando no juiz uma inquietação que ele julgava selada para sempre. A vida nem sempre é um longo rio tranquilo. Kőmives sobreviverá incólume à noite da confissão? O próprio pensa que sim, embora a guerra se desenhe no horizonte. Mas isto sabemo-lo nós hoje, leitores entusiastas de Márai; talvez ele, sensitivo, também o soubesse já.
Divórcio em Buda, Sándor Márai, Dom Quixote, 2010, trad. de Ernesto Rodrigues

18/07/10

A book a day keeps the doctor away: O Complexo de Portnoy, Philip Roth

O escritor de origem egípcia Edmond Jabès resumiu o paradoxo da condição judaica numa frase: «J’ai fait un rêve, Seigneur, que j’ai trouvé, à l’instant où je le vivais, merveilleux: je n’étais plus juif» (Tive um sonho, Senhor, que achei maravilhoso enquanto o vivia: já não era judeu).
Ironia idêntica encontra-se numa passagem do romance de Philip Roth agora reeditado: «Ficou célebre na minha família a história do dia em que eu, ainda muito pequeno, virei costas à janela por onde estava a ver uma tempestade de neve e perguntei com ar expectante: "Mamã, nós acreditamos no Inverno?"»
Para quem chegou a Roth quando Roth já chegara à terceira idade, este é um livro imperdível. Para quem o acompanha há mais tempo, a oportunidade de reler O Complexo de Portnoy significará o reencontro com o texto mais hilariante saído das mãos deste autor norte-americano que não é propriamente conhecido por nos fazer rir a cada parágrafo.
As aventuras e desventuras de Alex Portnoy viram a luz pela primeira vez em 1969. A revolução sexual estava a pique e Roth galgou a onda com perícia imbatível.
O monólogo do protagonista e narrador desta comédia de (maus) costumes – sórdida, escabrosa, por vezes comovente – resultou na melhor ficção moderna alguma vez escrita sobre sexo. E, já agora, sobre o que é ser judeu fora de casa.
Uma epígrafe oferece-nos uma pista: «[o complexo dePortnoy é uma] perturbação na qual profundos impulsos éticos e altruístas entram em perpétuo conflito com desejos sexuais descomedidos, muitas vezes de natureza perversa.»
Vai-se a ver (no caso, a ler) e a culpa é do judaísmo. E dentre o judaísmo, a culpa maior cabe (claro) à mãe.
Sentado no sofá face ao analista mudo, Portnoy vai desfiando as suas misérias sexuais desde a mais tenra idade. Em paralelo, vai desfiando as suas misérias existenciais, alicerçadas estas numa inescapável alteridade: «Judeu, judeu, judeu, judeu, judeu, judeu! Já não posso mais com a saga dos judeus martirizados! Por isso faz-me um favor, meu povo martirizado: vai à merda mais a tua herança de martírio – é que por acaso eu também sou um ser humano!»
O romance, além de uma confissão descabelada sobre sexo, lança um repertório exaustivo sobre os seus fantasmas e clichés. Da obsessão masturbatória mais respectiva culpa («sou o Raskólnikov da ejaculação») às contradições insolúveis entre o ser e o dever ser («As coisas que os outros homens fazem – e impunemente! E sem ponta de remorso! (...) Mas eu, eu atrevo-me a dar uma foda um bocadinho mais fora do vulgar, ainda por cima durante as minhas férias – e agora não consigo pô-lo de pé!».
A ideia de fazer coincidir a impotência com a visita a Israel é de génio. Mas tudo, afinal, anda por lá perto neste livro em forma de anedota freudiana.
O Complexo de Portnoy, Philip Roth, 2010, Dom Quixote, trad. de Ana Luísa Faria

N, espero que concordes comigo.