Mostrar mensagens com a etiqueta Natália Correia. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Natália Correia. Mostrar todas as mensagens

01/09/23

MEDITAÇÃO DE SEXTA: «Se me permitem, também quero dizer uma coisa»

« (...) Ora para chegar agora ao caso que vem convulsionado o mundo – ultrapassando em visibilidade e indignação o mote das alterações climáticas, da guerra na Ucrânia, situação no Níger, preço das rendas ou aumento das prestações bancárias em Portugal, dos naufrágios no Mediterrâneo, da recessão económica alemã, morte de Yevgeny Prigozhin, atentados absurdos aos direitos das mulheres no Afeganistão (a última medida anunciada pelos façanhudos talibãs – não confundir com os apanhadores de frutos secos da serra do Caldeirão – foi proibir as afegãs de passearem no Parque Nacional Band-e-Amir – classificado pela UNESCO como Património Mundial – sob pretexto de que estas não visitariam os lagos tão tapadas como manda a Lei…), da ilustríssima reunião da CPLP em São Tomé e Príncipe, ou de qualquer outro assunto de que me possa ter esquecido, incluindo a visita de Marcelo Rebelo de Sousa às trincheiras de Moschun, onde só lhe faltou gritar, naturalmente em ucraniano e enquanto tentava condecorar Zelensky à força, mão no peito e voz entaramelada de comoção, “Crimeia, Olivença, a mesma luta!” – pois, dizia eu, a grande questão que se coloca face ao caso que vem convulsionando o mundo é esta: jogou o treinador espanhol de acordo com as regras?

23/04/11

Matéria não falta

La vie est un roman como dizia o Resnais e a pátria dava com certeza para vários. O que é feito, porém, d’o delfim do Portugal de hoje desaçaimado, “só três sílabas”, “de plástico, que era mais barato”, onde “o que importa não é haver gente com fome/ porque assim como assim ainda há muita gente que come”? Bocage aviaria sem espinhas dúzia e meia de sonetos e de Natália nem se fale. A O’Neill sobrar-lhe-iam versos. Eça não teria a mãos a medir com tanto Conde de Abranhos.
Bastaria que lhe trocássemos a Universidade em Coimbra por outra na capital (Independente ou Moderna cairiam que nem ginjas). A carta de denúncia anónima teria novo destinatário: estando na moda, o DIAP. Quanto ao caso da criada, ver-se-ia substituído por aventura infecunda com aspirante a modelo. A carreira política iniciá-la-ia numa Câmara de província. Daí a conselheiro Acácio seria pequeno passo, função que acumularia com a de blogger de culto (e, de preferência, oculto).
Casa com filha de ex-ministro. Lua-de-mel no Bazaruto (where else?) e a deputação vem a caminho. Faz-se notar nas bancadas pela combatividade e certa linguagem chã. A previsível vitória da oposição leva-o a mudar de partido. Questionado sobre a sua decisão, cita Abranhos, o original: “Questões de latitude não mudam a política”. Divorcia-se com discrição. Chega a secretário de Estado. Poucos meses depois telefona em segredo para casa: “Pai, já sou ministro”. O alfaiate desliga.
Dois anos de serviço público e convidam-no para CEO. Aceita. Em missão além fronteiras, atravessa-se-lhe no caminho um sósia do Ricky Martin. Abranhos comes out of the closet e abre novo capítulo: la vida loca. A qualquer solicitação, passará a responder “I would prefer not to”. Há quem garanta que, abandonada por fim a carreira empresarial e trocado Ricky por Martin, se torna marchand em Berlim. Outros dão-no como transformista em Las Vegas. Um primo em 3º grau jura que o viu no Allgarve degustando sardinhas confitadas sur lit d’endives… Em suma: onde estão os escritores quando precisamos deles?

Imagem roubada aqui

15/03/10

Prémio Leya 2009 atribuído ao historiador moçambicano João Paulo Borges Coelho ― há muito que a literatura é outra coisa

[Uma versão abreviada deste texto foi publicada no semanário Expresso, caderno Actual]
À boleia dos versos de Natália ― “ó subalimentados do sonho! / a poesia é para comer”― arriscaria que entre as artes literária e culinária existem certas afinidades electivas. A culinária parte, todavia, em vantagem: os seus ingredientes base podem ser mais ou menos nobres ou mais ou menos variados; a literatura está confinada ao verbo ― alquimia de fracos recursos, vive do mistério que transforma a palavra vulgar em romanesca ou poética.
Nele entrados, terá de obrigatoriamente acontecer aquilo que o nobel J-M G Le Clézio resumiu assim: “Les mots ne veulent pas dire les sentiments, les passions ou les obsessions. Cela ne les intéresse pas. Ils vibrent et tremblent comme des oiseaux avant de crier" (in L'Inconnu sur la Terre). Acrescente-se ao manuseio do verbo o pesado lastro da história da literatura e perceber-se-á que contar (mais) uma história não basta.
João Paulo Borges Coelho tinha uma para contar. Melhor, várias. Escreveu O Olho de Hertzog e venceu o prémio Leya 2009.
O tempo da acção recua ao fim da Grande Guerra, o cenário fica na África Austral (entre Moçambique e a África do Sul), o protagonista é Hans Mahrenholz, um misterioso militar alemão que deambula por Lourenço Marques ― onde se cruza com uma plêiade de personagens, recriadas, umas (como a do jornalista mulato João Albasini de quem o livro reproduz alguns editoriais), ou imaginadas de raiz, outras ―, o cocktail doseado em partes exactas de História e thriller.
Quem é Hans Mahrenholz, chegado num zepelim de onde se atira de pára-quedas em socorro de um exército que já havia perdido a guerra? O que procura ele em Lourenço Marques, disfarçado de inglês sob o nome de Henry Miller? Quem é Rapsides, o homem da cicatriz? E Glück, essa figura sombria à luz da qual se vai desenhando Mahrenholz?
Estas perguntas delimitam o enredo; das respostas, infelizmente, não resulta um grande livro.
Borges Coelho ensaia estratégias conhecidas.
Alternância temática de capítulos (a fuga ao exército português no mato versus peripécias urbanas); alternância da primeira e terceira voz do narrador; tentativa de cruzamento dos tempos da acção dentro de um mesmo plano, vide mesmo parágrafo (de todo não conseguida, sobretudo atendendo a essa obra-prima de Saul Bellow intitulada A Autêntica); recurso hiper-realista a listas de publicidade de época (já ensaiado jocosamente, entre outros, por Camilo, mas que aqui pouco mais é do que um acrescento ornamental), analepses, encontros e desfechos forçados (inverosímeis no registo realista adoptado), inconsistência das personagens (mesmo João Albasini parece uma caricatura)…
Se a isto juntarmos a cacofonia das aliterações, as soluções frásicas duvidosas (“soluços molhados do tempo”, logo na primeira página), uma linguagem que não levanta voo e um esqueleto organizacional à vista, sobra o rigor histórico, o ineditismo do material ficcionado, uma ou outra imagem conseguida ("... caminhando pelos capinzais como se anda nas ruas da cidade, olhando as árvores como se olhasse as montras"), o jogo de identidades (ninguém é quem parece ser num tempo e espaço históricos que se encontram, eles mesmos, pejados de indefinições), e, sobretudo, esse achado delicioso do contabilista A.O. Salazar.
Encerrando o balanço estritamente literário (prémios e negócios à parte), diria que não basta ser historiador para escrever um romance histórico (leia-se Guerra e Paz) e que, em O Olho de Hertzog, Glück perde demasiado para Kurtz, sendo impossível ― além de inadmissível― entrados no século XXI, vir falar de arte literária e ignorar Conrad e Tolstói. Logo os dois. E que dois!
O Olho de Hertzog, João Paulo Borges Coelho, Leya, 2009

28/07/07

Coisas que vou descobrindo por aí

Não há revolta no homem
que se revolta calçado.
O que nele se revolta
é apenas um bocado
que dentro fica agarrado
à tábua da teoria.
Aquilo que nele mente
e parte em filosofia
é porventura a semente
do fruto que nele nasce
e a sede não lhe alivia.
Natália Correia