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01/01/22

A MEDITAÇÃO DE SEXTA NO ÍPSILON: «2021 correu muito bem. 2022 será pior.»

Se tivéssemos tido um pai com a profissão de talhante, a tarefa de olhar para trás, para o passado, ficaria muito facilitada. Bastaria enfileirar uma resma de chouriços e espreitar pelo buraco formado pelos enchidos.

O RESTO AQUI,

01/08/11

"Eu tenho horror a pobre!"

Ela é portuguesa e vive fora; ele é de fora e vive em Portugal. Em comum, uma certeza: os portugueses andam particularmente deprimidos. Mais do que é costume? Mais do que é costume.

“Depressão” recorda-me sempre Tiziano Terzani e o seu maravilhoso Disse-me um Adivinho: “Não é de admirar que a depressão seja hoje um mal tão comum. É quase reconfortante. É sinal que no íntimo das pessoas ainda resta o desejo de serem mais humanas”.
Os meus amigos conheciam o livro mas comentaram que não se devia exagerar. A crise era internacional e, fosse como fosse, a Europa mantinha-se o melhor sítio para se viver. Eu disse que talvez, mas.
Que seria bom não esquecer que ainda há 66 anos a Europa provocara uma razia no mundo e que os seus líderes actuais me faziam perigosamente pensar na piada de Lewis Black: “In my lifetime, we've gone from Eisenhower to George W. Bush. We've gone from John F. Kennedy to Al Gore. If this is evolution, I believe that in twelve years, we'll be voting for plants” (e já passaram quase 12 anos…), e também na frase de Groucho Marx em Duck Soup: “Ele pode parecer um idiota e falar como um idiota mas não se deixe enganar, ele é realmente um idiota”.

Após a fase das piadas voltámos a falar a sério da recente obsessão pelas fronteiras, dos imigrantes magrebinos afogados no Mediterrâneo, da e.coli dos pepinos que era coisa dos PIGS espanhóis, da implosão dos Impérios, da dívida americana, da extrema-direita francesa, da desorientação generalizada da esquerda, dos chineses… O costume.

E depois aconteceu o massacre na Noruega.
Um homem louro, um homem nórdico, alto, de olhos azuis, praticamente um património, um baluarte da Europa civilizada, praticamente uma Claudia Schiffer de calças, como diria Caco Antibes, matou quase uma centena de pessoas. Antes de passar à acção terá tido tempo para escrever “2083, A European Declaration of Independence”, um longo manifesto em defesa de uma nova Cruzada contra os perigos do Islão e do marxismo. Não, “as humanidades não humanizam”. Mesmo. Como dizia o raio do Steiner e eu não me canso de repetir.

31/03/10

A book a day keeps the doctor away

Este livro é uma pequena pérola. Não porque seja portátil — chega às 600 páginas — mas porque nos introduz a um Oriente expurgado de exotismos e misticismos de trazer por casa. Aliás, se há coisa que Disse-me um Adivinho prova à exaustão é o materialismo que subjaz à cultura chinesa (pragmática, tanto nos negócios como na acupunctura).
A China, apesar da sua presença recorrente, não é, porém, tema exclusivo. O autor percorre uma Ásia em uniformização acelerada (Laos, Birmânia, Tailândia, Indonésia, Malásia…), sendo ainda assim capaz de nos dar a ver nuances, idiossincrasias e mesmo incompatibilidades (e essa é certamente outra das grandes atracções do livro). E consegue-o também por isto: porque, apesar da “uniformização acelerada”, o italiano Tiziano Terzani (1938-2004) viaja devagar.
Tudo começou quando um adivinho de Hong Kong o avisou que 1993 seria o ano de todos os perigos. Estava-se ainda em 1976 e na realidade todos os perigos se resumiam a um: o jornalista não deveria andar de avião. Passadas quase duas décadas, Terzani aproveitou a profecia e desacelerou a sua vida frenética de repórter de guerra e similares, no Vietname, no Cambodja, na China (de onde acabaria expulso), na Rússia e etc. Fez-se à estrada e ao mar e desse percurso longo nasceria Disse-me um Adivinho, declaração de amor sentida a um Oriente que se desfaz a olhos vistos, libelo contra o desenvolvimento a todo o custo, confissão de um homem inquieto e por vezes angustiado: “Não é de admirar que a depressão seja hoje um mal tão comum. É quase reconfortante. É sinal que no íntimo das pessoas ainda resta o desejo de serem mais humanas.”
No seu longo périplo, o italiano vai conjugando curiosidade com cepticismo, desconfiança com abertura de espírito. As suas recorrentes visitas a adivinhos — fio condutor da narrativa — são-nos descritas com humor e inteligência. Nada aqui é a preto e branco. A ironia do viajante ajuda ao resto.
A descrição de Singapura, “a cidade com mais robôs per capita do mundo” atinge o ponto: “(…) o que é que acontece na cabeça das crianças que crescem com a impressão de que há solução para todos os problemas e que tudo é, quanto muito, uma questão de software?” E, mais à frente, ainda sobre o Estado asiático exemplar: “Um dia descobre-se que esta cidade rica e moderna é enfadonha, sem cultura e sem arte? Vai-se buscar um general ao exército e faz-se dele ministro. Ele se encarregará de dar ordens para que a cultura e as artes floresçam.”
Inteligente, conhecedor, apaixonado, desencantado, o jornalista dá-nos a conhecer uma Ásia que perde identidade (e alteridade) mas que ainda assim nos surpreende, pejada de xãmas, astrólogos, yoguis, bruxos ou simples charlatães, tu cá tu lá com o mundo invisível, e na qual o próprio Terzani se liberta por momentos do seu corpo, guiado por um mestre budista ex-agente da CIA.
Estranhos são os caminhos abertos por um adivinho e estranhos são os caminhos dos homens.
Disse-me um Adivinho, Tiziano Terzani, Tinta-da-China

28/02/10

Pois é, isto anda por aí muita gente deprimida

Apesar da auto-estima de Amado que garante que lá fora é só elogios, nunca vi tanta gente deprimida por metro quadrado. Tenho para mim que tudo começou quando os portugueses assistiram pela tv às lágrimas de Carlos Cruz (claro que também podíamos recuar aos tempos de Afonso Henriques para concluir que uma nação que começa com um filho a tentar matar a mãe não augura grande futuro...).
Sem ir tão longe, diria que a partir do choro em directo tudo se precipitou. A crise ajudou à festa, Sócrates ajudou à festa, o PS ajudou à festa, o PSD ajudou à festa, o CDS ajudou à festa, o BE entrou em força na festa e o PC só gosta de festejar sozinho. De Cavaco não vale a pena falar.
Num país sem independentes a sério e onde poucos são aqueles que não têm telhados de vidro, com elites de merda, gente malcriada*, mergulhado num novo-riquismo ignorante que permite a uma empresa parceira do Estado afirmar que vende painéis solares que funcionam maravilhosamente com céu nublado, chuva e durante a noite e ninguém no governo se pergunta com que raio de energia funcionam afinal, estupidamente hipnotizado pelas “novas tecnologias” à prova de choque, seduzido por uma modernidade bolorenta que obrigou Portugal a mudar-se para a West Coast e o Algarve a dois LL, tudo antes do acordo ortográfico, onde a elementar decência é vista como burrice e a vigarice prova de inteligência, onde a autoridade se confunde com autoritarismo e à costumeira inveja se alia o encolher de ombros… Pois bem, consola-me que no meio disto tudo, assim como assim, haja tantos deprimidos: “Não é de admirar que a depressão seja hoje um mal tão comum. É quase reconfortante. É sinal que no íntimo das pessoas ainda resta o desejo de serem mais humanas.” (Disse-me um Adivinho, Tiziano Terzani, Tinta-da-China)
O problema, claro, está no quase. E nos que nunca deprimem.
*Cabe na cabeça de alguém, um primeiro-ministro, canastrão ou não canastrão quero lá saber, ser convidado de uma das poucas fábricas que funcionam em Portugal e pôr-se a fazer publicidade à concorrência directa? (ouvir aqui)

23/02/10

Por contraste com gente estúpida, cite-se um ser inteligente

Sir Stanford Raffles, em 1819, teve toda a razão em escolher Singapura como base da Companhia das Índias. Quem quisesse navegar para Sudeste evitando as monções tinha de passar por ali. A situação geogáfica de Singapura era a sua riqueza. Ainda hoje assim é, por isso Singapura é uma das grandes encruzilhadas marítimas do mundo. Um encruzilhada muito vulnerável, porém.
Bastaria abrir um canal no ponto mais estreito da península malaia, o istmo de Kra, para permitir poupar centenas de milhas marítimas a todos os navios que se dirigem da Europa para a Tailândia, Indochina, Filipinas, China, Japão e vice-versa. Com esse canal, de que se ouve falar de vez em quando, Singapura seria posta de parte e depressa se tornaria uma cidade morta, como as que cresceram e finaram no âmbito da corrida ao ouro, na América.
Lee Kuan Yew e os seus homens sabem disso e estão já a reciclar Singapura, a prepará-la para o seu novo papel, o de capital informática da Ásia, na realidade a primeira «cidade inteligente» integrada do mundo.
Singapura já hoje é a cidade com mais rôbots per capita do mundo, um dos locais mais informatizados da região e com o mais elevado conhecimento informático da população. Por toda a parte há computadores e em todo o lado se fazem cursos para aprender a usá-los. Desta forma, nesta ilha onde o materialismo grassa e onde o dinheiro já é o único critério de sucesso e moralidade, surge mais um factor de mesquinhez: a lógica binária dessas máquinas que estão a mudar não só o modo como as pessoas trabalham, mas também como pensam.
«Isto é o futuro», ouvia repetir em Singapura e deprimia-me terrivelmente a ideia de que pudesse ser não só o futuro de Singapura mas também o de milhões de outros asiáticos. E se calhar também o nosso.
Antigamente nas escolas - nas de Singapura também - ensinava-se a pensar. Agora ensina-se sobretudo a programar. Mas o que é que acontece a uma sociedade que cresce assim, sem o distinguo, apenas com a lógica do «sim» e do «não» dos computadores? O que é que acontece na cabeça das crianças que crescem com a impressão de que há solução para todos os problemas e que tudo é, quanto muito, uma questão de software?
Singapura metia-me medo porque em grande parte já funciona assim. O Estado é o computador e a sociedade é regulada, tal como a temperatura, por uma espécie de termóstato electrónico. Observa-se que os filhos dos intelectuais têm um quociente de inteligência mais elevado do que os outros? Então encorajam-se a procriar sobretudo os docentes universitários. Observa-se que os jovens não se casam em número suficiente? O Estado cria uma unidade especial de expansão social que organiza cruzeiros e bailes para facilitar as uniões.
Um dia descobre-se que esta cidade rica e moderna é enfadonha, sem cultura e sem arte? Vai-se buscar um general ao exército e faz-se dele ministro. Ele se encarregará de dar ordens para que a cultura e as artes floresçam.
(...)
in Disse-me um Adivinho, Tiziano Terzani, Tinta-da-China, 2009
Fotografia de Tiziano Terzani retirada daqui.