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13/12/24
28/09/11
05/04/11
FMI vem dar razão a Karl Marx — o que mais nos irá acontecer?
O velho Marx está com certeza a dar gargalhadas no túmulo. Enquanto Assis, o grande socialista, fala em arcaísmos, Dominique Strauss-Kahn, o grande capitalista, vem dar razão ao autor de O Capital (querem coisa mais arcaica?), reconhecendo que se acentuou "o fosso entre ricos e pobres". E se isto não são tempos interesantes, não sei o que são tempos interessantes.
12/04/10
A castidade explicada às mulheres por Pedro Arroja: e tudo por causa da metafísica
Ele há coisas que a gente pensa que já não existem mas existem. Por exemplo: Pedros Arrojas.Eu sei que a história do mundo não tem confirmado assim tanto a escatologia feliz proposta por Hegel e Marx. Tenho até algumas dúvidas sobre os ganhos da emancipação feminina. Mas caraças! Chamarem-me estúpida é que não.
Afinal, de onde é que esse tal Pedro Arroja me conhece para afirmar assim do pé para a mão que eu seria incapaz de compreender o meu marido (que até ver não tenho...) se este resolvesse dedicar um dia da sua vida à especulação metafísica, filosófica ou teológica fechado num quarto sozinho, eventualmente rodeado de livros?
De onde é que ele eventualmente me conhece para afirmar que eu possuo um enorme sentido prático da vida e me falta sentido metafísico?
Ao autor de tais dislates paleolíticos, três coisas:
1. Desafio-o a discutir comigo (mas nunca no seu quarto, era o que mais faltava...) as provas da existência de Deus de Santo Anselmo. E se conhecer algo de mais metafísico, faça favor.
2. Peço-lhe encarecidamente que, no intervalo das suas meditações filoteológicas, me ajude em alguns problemas práticos para cuja resolução já desisti de contribuir. Assim de repente, consigo lembrar-me do lavatório de uma das casa de banho que pinga, da janela da sala do meio que não fecha, do impresso do IRS que não sei preencher, de um espelho pesadísimo que precisava de pendurar na parede, de uns quantos puxadores de porta fanados...
3. Finalmente, garanto-lhe que sou um exemplar confirmado do género feminino, não tenho bigode nem nunca me foi detectada nenhuma produção excessiva de testosterona.
E quanto ao resto [a prosa do Arroja pode ser lida na íntegra aqui] deixe-me que lhe diga: se houvesse um Prémio Nobel da Praticalidade, perdão, Imbecilidade, ia direitinho para si.
Ele há com cada um!
11/02/10
Ora aqui está outro que nunca me enganou
Bernard-Henri Lévy é como o outro: aborrece-me. Acho-o pomposo e vaidoso, malgré a indiscutível elegância no trajar. Do corte de cabelo não falo.Cá para mim, limita-se a escrever e a dizer banalidades que servirão talvez para épater le bourgeois mas pouco mais.
"Vertigem Americana" era uma bosta (quem quiser saber porquê pode ler este post da altura) e, volta não volta, alguém lhe denuncia trapalhadas (no referido post estão algumas).
No seu livro mais recente, "De la guerre en philosophie", depois de arrumar com facilidade Hegel e Marx acrescentou-lhes o Kant.
O tiro, porém, saiu-lhe pela culatra. É que para alicerçar a sua "teoria anti-kantiana" recorreu a Jean-Baptiste Botul (1896-1947), o pretenso autor d' "A Vida Sexual de Emmanuel Kant" que por acaso está vivo, é um brincalhão e chama-se Fréderic Pagès.
Botul, o fake (assim como a vida sexual do filósofo alemão que ninguém pode garantir ter existido), saltou da tumba - ou seja, do anonimato - e desmascarou o "novo filósofo" com idade para ter juízo.
Lévy, comme d'habitude e apesar dos cabelos brancos, armara-se aos cágados.
"Ou bien encore Kant, le prétendu sage de Königsberg, le philosophe sans vie et sans corps par excellence, dont Jean-Baptiste Botul a montré, au lendemain de la Seconde Guerre mondiale, dans sa série de conférences aux néo-kantiens du Paraguay que leur héros était un faux abstrait, un pur esprit de pure apparence - et cela à deux titres au moins: le concept de monde nouménal où s’entend l’écho d’une jeunesse spirite, vécue parmi les ombres et les limbes, dans un royaume d’êtres énigmatiques et accessibles par la seule télépathie; l’idée, ensuite, des catégories de l’entendement, la manie du transcendantal, l’obsession de catégories rigides fonctionnant comme un corset et qui semblent parfois là pour contenir une folie souterraine, donner forme au flux chaotique des sensations, faire barrage à la confusion mentale dont les biographes savent, aujourd’hui, qu’elle le menaçait plus qu’aucun autre - Kant, ce fou furieux de la pensée, cet enragé du concept, dont toute la Critique de la raison pure pourrait se lire, dans ce cas, comme le récit d’un drame intime, une autobiographie secrète et cryptée… Pourquoi est-ce que je dis tout cela?"
Boa pergunta.
Resumindo: o rei ia nu e desta vez toda a gente viu.
O mais divertido, porém, é que o filósofo botulista tenha escrito: [Kant] "era um abstracto falso, um puro espírito de pura aparência." Acho que em psicologia se chama a isto transferência.
27/06/09
Talvez seja o facto de ter lido O Capital em pequenina que me impede de ser solidária com o Berardo em grande
Não posso jurar que Marx teve razão quando enunciou a lei da baixa tendencial da taxa de juro. Como também não sei se acertou quando previu que as contradições internas do capitalismo levarão o sistema à ruína.
Confesso que não volto a Marx há muitos anos. Do filósofo alemão terei retido apenas umas ideias vagas, mas que, sendo vagas, ainda assim explicarão o meu pé atrás em relação ao vil metal. Do qual nada espero, esclareça-se, excepto que chegue para eu pagar as contas.
E foi talvez essa leitura precoce que me levou a encarar com absoluta naturalidade as acusações feitas há dias a cinco administradores do BCP. Segundo consta, não terão sido rapazes muito honestos, facto que está na origem da profunda indignação do comendador Joe Berardo que qualificou a matéria de roubo.
Face a isto, sei que o que vou dizer agora pode ser tomado por completa ingenuidade, se não mesmo por burrice: mal por mal, prefiro tipos que enriquecem à custa de crimes de manipulação de mercado, falsificação de documentos e burla qualificada, do que criaturas que enriquecem à custa do apartheid.
Inútil será que se exija moralidade ao capital: eis o que me ficou do velho Marx. Já a um primeiro-minstro, por exemplo, deve exigir-se alguma. Porque, super e infra estruturas à parte, assim como assim há limites. Acho eu.
Ou seja, e citando mais uma vez o insuspeito Johnny Caspar, um dos mafiosos do extraordinário Miller's Crossing: «(…) I'm talkin' about character. I'm talkin' about – hell, Leo, I ain't embarrassed to use the word – I'm talkin' about ethics».
Confesso que não volto a Marx há muitos anos. Do filósofo alemão terei retido apenas umas ideias vagas, mas que, sendo vagas, ainda assim explicarão o meu pé atrás em relação ao vil metal. Do qual nada espero, esclareça-se, excepto que chegue para eu pagar as contas.
E foi talvez essa leitura precoce que me levou a encarar com absoluta naturalidade as acusações feitas há dias a cinco administradores do BCP. Segundo consta, não terão sido rapazes muito honestos, facto que está na origem da profunda indignação do comendador Joe Berardo que qualificou a matéria de roubo.
Face a isto, sei que o que vou dizer agora pode ser tomado por completa ingenuidade, se não mesmo por burrice: mal por mal, prefiro tipos que enriquecem à custa de crimes de manipulação de mercado, falsificação de documentos e burla qualificada, do que criaturas que enriquecem à custa do apartheid.
Inútil será que se exija moralidade ao capital: eis o que me ficou do velho Marx. Já a um primeiro-minstro, por exemplo, deve exigir-se alguma. Porque, super e infra estruturas à parte, assim como assim há limites. Acho eu.
Ou seja, e citando mais uma vez o insuspeito Johnny Caspar, um dos mafiosos do extraordinário Miller's Crossing: «(…) I'm talkin' about character. I'm talkin' about – hell, Leo, I ain't embarrassed to use the word – I'm talkin' about ethics».
19/10/08
A empregada de João Pereira Coutinho, a luta de classes, Mailer e Steinbeck
Naquele tempo lia-se muito Karl Marx. Não vou agora pôr-me à armar e dizer que li o Das Kapital inteiro, muito menos no original. Li-o na versão que havia lá em casa, suponho que pela mesma altura em que li Praias da Barbaria e A um Deus Desconhecido. Teria sido uma heresia confessá-lo, mas já então Mailer e Steinbeck faziam mais o meu género.Do alemão apátrida retive umas noções vagas sobre a «lei da baixa tendencial da taxa de lucro» ― conceito que, traduzindo-se em fórmula matemática, arrumava com qualquer reaça de Letras ― e sobre as «contradições internas do capitalismo» ― ainda hoje a fazerem sentido para mim, já que um sistema que vive de vender coisas não pode, ao mesmo tempo, empobrecer demasiado a malta porque no fim alguém terá de ir às compras.
A cabeça ocupada com outro homem, há muito que não pensava em Karl. Voltei a pensar nele derivado à crise. Correm rumores que há quem o ande a reler. Não sou eu, mas antes isso que o berreiro de redundâncias que por aí se ouvem, pensei.
Um parênteses. Sinal do vazio de ideias (e, mais grave do que isso, do combate ao pensamento como coisa absolutely old fashion) bem podia ser Sarkozy, o «Queres-Porrada-Queres-Porrada», bramindo que os «culpados serão castigados!» e o capitalismo «reconfigurado». E logo agora que os chineses se estavam a habituar...
Ganância! Ganância! Ricos a quererem ser cada vez mais ricos! O tema já foi tratado em telenovela homónima pela SIC.
Abatida pelo clima emocional (além de abatida, e de que maneira, pela crise), eis que ontem, ao ler João Pereira Coutinho, me apercebo que nem todos estão desatentos. Há, como Marx, quem teime em compreender.
Abatida pelo clima emocional (além de abatida, e de que maneira, pela crise), eis que ontem, ao ler João Pereira Coutinho, me apercebo que nem todos estão desatentos. Há, como Marx, quem teime em compreender.
Cito Coutinho: «A minha empregada comprou casa e carro porque pediu empréstimo ao banco. Como ela própria me informou, todo o salário do marido e parte do salário dela serve para amortizar a dívida. O que sobra vai para a alimentação, roupas e outras despesas correntes. Infelizmente, e nos últimos tempos, o pouco que sobrava foi-se evaporando com a subida dos juros. As prestações sobem e ela não sabe o que fazer à vida. Eu entendo este aperto, no fundo, o aperto de qualquer português «trabalhador» [as aspas são do próprio]. Mas, em exercício de impensável moralismo, ainda perguntei: "E porque motivo comprou casa e carro quando provavelmente não os podia pagar?"».
A conclusão, se não a resposta, chega no último parágrafo: «(...) talvez tenha chegado a hora das famílias começarem a usar a cabeça porque a responsabilidade também lhes pertence. A ideia anti-igualitária que nem toda a gente pode ter casas, carros, férias ou jactos talvez não seja simpática. Mas a realidade nem sempre é simpática».
O velho Marx não teria dito melhor. A ilusão dos pobres de que poderiam ser ricos como os ricos não passa disso mesmo ― de uma ilusão.
Quem a mandou comprar carro? Casa? Tirar férias? Quem é que a corrompeu com a ideia utópica e pré-revolucionária que poderia ascender, natural e socialmente, à classe média? E é aí que Coutinho encontra Marx. Ambos concordando que pero todavía hay classes.
Subjugada pela clareza do raciocínio (quase tão transparente como fora para mim, em tempos, a fórmula mágica da «lei da baixa tendencial da taxa de lucro» que entretanto esqueci), eis que a realidade me entra porta dentro sem pedir licença [e deve ser por isso que Platão, na sua busca desesperada por ordem, ainda hoje me comove tanto: é que a minha realidade sempre tendeu a ser turva e dada ao caos (a ficção é que me lixa, eu sei)].
Então. O caso da empregada de João Pereira Coutinho. No meu caso, D. Alice tem carro e duas casas (uma delas é de campo), eu ando a pé e pago renda. Não me queixo, mas como encaixar na Teoria este verdadeiro escândalo empírico? Nem Marx nem Coutinho o consideram. E rendo-me à evidência: vá-se lá perceber o mundo fora da literatura!
O velho Marx não teria dito melhor. A ilusão dos pobres de que poderiam ser ricos como os ricos não passa disso mesmo ― de uma ilusão.
Quem a mandou comprar carro? Casa? Tirar férias? Quem é que a corrompeu com a ideia utópica e pré-revolucionária que poderia ascender, natural e socialmente, à classe média? E é aí que Coutinho encontra Marx. Ambos concordando que pero todavía hay classes.
Subjugada pela clareza do raciocínio (quase tão transparente como fora para mim, em tempos, a fórmula mágica da «lei da baixa tendencial da taxa de lucro» que entretanto esqueci), eis que a realidade me entra porta dentro sem pedir licença [e deve ser por isso que Platão, na sua busca desesperada por ordem, ainda hoje me comove tanto: é que a minha realidade sempre tendeu a ser turva e dada ao caos (a ficção é que me lixa, eu sei)].
Então. O caso da empregada de João Pereira Coutinho. No meu caso, D. Alice tem carro e duas casas (uma delas é de campo), eu ando a pé e pago renda. Não me queixo, mas como encaixar na Teoria este verdadeiro escândalo empírico? Nem Marx nem Coutinho o consideram. E rendo-me à evidência: vá-se lá perceber o mundo fora da literatura!
24/03/08
Será que Karl tinha razão? Só um bocadinho, pelo menos?
«Parece que, afinal, as notícias de que a Santa Sé teria declarado como novo pecado mortal ser-se rico demais eram ligeiramente exageradas. A Santa Sé não disse tanto (...) Bem o podia ter feito, que vinha mesmo a calhar, agora que o mundo vive na iminência de uma recessão económica global e grave, causada pelo excesso de ganância dos muito ricos.«Alan Greenspan, ex-presidente da Reserva Federal Americana, lembrou-se agora de avisar que vem aí a maior recessão económica dos últimos 60 anos. (...)
«Os Estados Unidos vão precisar de injectar biliões de dólares de dinheiros públicos para evitar a falência em série do sistema financeiro e, por arrasto, de todo o sistema empresarial. O que lhes poderá evitar a repetição de 29 é que agora a economia é global e eles esperam evitar a falência de um Estado já altamente endividado através das trocas comerciais: vendem ao mundo inteiro mais barato e não compram nada de volta porque, com o euro a 1,60 dólares, ninguém consegue vender nada aos americanos. Ou seja: provocaram a crise e agora somos nós que temos de a pagar. (...)
«Obviamente, devia haver licões a extrair deste cenário de catástrofe e das razões para ele. Entregue a si próprio, após a queda do muro de Berlim, o capitalismo internacional parece que fez questão de confirmar que tudo o que de pior os marxistas tinham dito dele ao longo de um século só pecava por defeito. Só pode ser uma comédia histórica ver a Igreja Católica (decerto impressionada pelo exemplo indecente dos irmãos da Opus Dei no nosso tão católico BCP e outros) insinuar que ser escandalosamente rico é capaz de ser pecado mortal, e ver o Partido Comunista da China declarar que "ser rico é glorioso e revolucionário". O mundo está de pernas para o ar (...).»
Miguel Sousa Tavares, «A cor (suja) do dinheiro», Expresso, 21 de Março de 2008
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