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14/09/09

A book a day keeps the doctor away

Logo a abrir o protagonista/narrador informa os seus leitores: “Sou Juan Pablo Castel, o pintor que matou María Iribarne”. Publicado originalmente em 1948 (e já antes traduzido em Portugal), O Túnel foi a primeira incursão de Ernesto Sabato na ficção. No conjunto, apenas três obras: a que agora se reedita, o magistral Heróis e Túmulos, 1961 (com edição na Europa-América em 1973), e Abaddón el Exterminador, 1974, que eu saiba nunca passado para português.
Ex-homem de ciência que um dia abandonou a física nuclear para se dedicar aos livros (além da triologia romanesca, tem obra ensaística de peso), cidadão comprometido com o seu tempo (foi comunista e admirado pelos existencialistas, nomeadamente por Camus que não pouparia elogios a O Túnel), diria o escritor argentino da relação entre ideias e literatura: “Um crítico alemão perguntou-me porque é que nós, latinos-americanos, temos grandes romancistas mas não grandes filósofos. Porque somos bárbaros, respondi-lhe, porque por acaso nos salvámos da grande cisão racionalista”. E é precisamente disso que não se salva Pablo Castel, o assassino de María Iribarne.
Escrito na primeira pessoa, é o próprio Pablo quem nos vai narrando a sua obsessão: como conhece María, como se torna seu amante, como o amor entre eles vai crescendo, como o mesmo se vê pouco a pouco corroído pelos ciúmes... até ao desenlace fatal. Amor e loucura vão aqui de mãos dadas e, chegados ao fim, como a Capitu de Machado, nada podemos garantir sobre María Iribarne, aquela que, segundo o seu próprio carrasco, fora a única a compreender-lhe a pintura. Escrito com a precisão de um relojoeiro louco, O Túnel conduz-nos pelos trilhos e abismos de uma cabeça exacta, lógica, capaz de criar o seu próprio inferno (ajudado apenas por uma imaginação delirante?). Metáfora da criação artística? Do estado do mundo? Seja o que for, uma obra-prima.
O Túnel, Ernesto Sabato, 2009, tradução de Francisco Vale, Relógio D'Água

10/09/09

Dos modismos contemporâneos já detectados por Sabato em 1948 [ou de como os medíocres nunca dizem nada de novo]

«Foi quando já estávamos à mesa que a magra me perguntou que pintores preferia. Citei ignobilmente alguns nomes: Van Gogh, El Greco. Olhou-me com ironia e disse como se falasse para si:
Tiens.
Depois acrescentou:
― Aborrecem-me as pessoas grandiosas. Sempre te digo ― prosseguiu, dirigindo-se a Hunter ― que me incomodam esses tipos como Miguel Ângelo e El Greco! A grandeza e o dramatismo são tão agressivos! Não achas que é quase má-educação? Creio que o artista se devia impor o dever de nunca atrair as atenções. Indignam-me os excessos de dramatismo e de originalidade. Repara que ser original é de certo modo evidenciar a mediocridade dos outros, o que me parece de gosto duvidoso. Creio que, se pintasse ou escrevesse, faria coisas que nunca chamassem a atenção.
― Não duvido ― comentou maldosamente Hunter.
Depois acrescentou.
― Tenho a certeza de que não gostarias de escrever, por exemplo, Os Irmãos Karamazov.
Quelle horreur! ― exclamou Mimí, revirando os olhitos. Depois completou o pensamento ―: Parecem todos nouveaux-riches da consciência, incluindo esse moine, como se chama ele?... Zozime.»

O Túnel, Ernesto Sabato, página 91, Relógio D'Água, tradução de Francisco Vale, 2009 (reedição)