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05/04/11

Onde está a WikiLeaks quando precisamos dela?

Presidência esclarece que aquele órgão não presta esclarecimentos sobre o Conselho de Estado (...), pelo que cada conselheiro é responsável pelo que diz. Quanto à acta da reunião em que foi discutida a situação de Portugal e a dissolução do Parlamento, ainda não está feita e estará sob segredo durante 30 anos.

A fotografia foi retirada deste painel aqui.

31/10/10

Eu bem me parecia que andava no ar aquela coisa infantil de a "minha pilinha é maior que a tua"

«Com o cabelo da cor da espiga do trigo e uma franjinha que quase batia nos enormes olhos azuis, Pedro mais parecia uma boneca. Era o mais novo dos quatro irmãos — e aquele a quem a mãe (...) prestava mais atenção. Ela achava-o doce como um rebuçado, mas o pai sabia que o miúdo era dado a cóleras súbitas. Um dia, num restaurante, (...) a empregada de mesa perguntou: "O que é que a menina vai comer?". Nem houve tempo para explicações. Pedro cresceu na cadeira e, dirigindo-se ao pai, perguntou: "Pai, mostro-lhe a pilinha?"» (Felícia Cabrita, da primeira parte da biografia de Pedro Passos Coelho, na "Tabu"/"Sol)
Lido AQUI. Sobre outras pilinhas, AQUI.

14/01/09

Ainda no gamanço: da meteorologia à lógica ou de como isto anda mesmo tudo ligado

Era Outono e os índios da reserva perguntaram ao novo chefe se o Inverno ia ser frio. Educado segundo o estilo moderno, o chefe nunca tinha aprendido os antigos segredos e não fazia ideia se o Inverno iria ser frio ou ameno. Para jogar pelo seguro, aconselhou a tribo a apanhar lenha e preparar-se para um Inverno frio. Alguns dias mais tarde, lembrou-se de telefonar para o Serviço Nacional de Meteorologia e perguntar se previam um Inverno frio. O meteorologista replicou que, de facto, pensava que o Inverno seria bastante frio. O chefe aconselhou a tribo a armazenar ainda mais lenha.
Duas semanas mais tarde, o chefe ligou de novo para o Serviço de Meteorologia.
― Continuam convencidos de que o Inverno vai ser frio? - perguntou.
― Continuamos ― respondeu o meteorologista ― Tudo indica que vai ser um Inverno muito frio.
O chefe aconselhou a tribo a apanhar toda a lenha que conseguissem encontrar. Passadas duas semanas, o chefe telefonou uma vez mais para o Serviço de Meteorologia e perguntou como pensavam que o Inverno seria naquele momento.
― Agora, estamos a prever que será um dos Invernos mais frios de que há registo! ― informou o meteorologista.
― A sério? ― perguntou o chefe ― como podem ter tanta certeza?
― Os índios andam a apanhar lenha como loucos! ― replicou o meteorologista.
Thomas Cathcart e Daniel Klein, Platão e um Ornitorrinco Entram num Bar, capítulo II - Lógica/Argumento Circular, ed. D. Quixote [aqui]

26/09/08

Voltando à vaca fria: porque não tenho nada contra computadores mas tenho tudo contra a estupidez e a propaganda

Como ainda não está tudo parvo, há quem se informe. Fui parar a esta notícia via João Lisboa do blogue Provas de Contacto, que pode ser lida na íntegra aqui. Inclui a conclusão de um relatório do ano passado que concluiu isto:
LAST MONTH (Abril de 2007), THE UNITED STATES DEPARTMENT OF EDUCATION RELEASED A STUDY SHOWING NO DIFFERENCE IN ACADEMIC ACHIEVEMENT BETWEEN STUDENTS WHO USED EDUCATIONAL SOFTWARE PROGRAMS FOR MATH AND READING AND THOSE WHO DID NOT

Com o «projecto Magalhães», a INTEL, perdão, Portugal passou do «orgulhosamente sós» ao «orgulhosamente sós no comando da linha da frente».
E, vá-se lá saber porquê, esta histeria salvífica faz-me lembrar aquela coisa da «gramática com árvores» (como os alunos sabiamente apelidavam a gramática generativa), cuja mais-valia em relação aos tradicionais sujeito, predicado e complemento directo, e outra nomenclatura passadista, foi pôr as crianças a engasgarem-se com palavrões como «sintagma preposicional», e a deixarem de saber escrever frases com princípio, meio e fim.

30/07/08

Cohen, os gajos engraçados e a sombra do cão

Há um provérbio português que diz assim: Mais vale cair em graça que ser engraçado. Ocorre-me a máxima a propósito de um texto de João Bonifácio sobre o último concerto de Leonard Cohen em Portugal. A coisa tem dias mas só recentemente me chamaram a atenção para tão «explosiva» prosa.
Não conheço Bonifácio e do Cohen conheço-lhe apenas a poesia e as canções. Mas sei, isso sei, quando alguém se esforça desesperadamente por ter graça e parecer irreverente. Sei-o, porque há uma notória diferença entre SÊ-LO e parecê-lo.
(...) Tudo o que de mau há na música de Cohen das últimas décadas - os arranjos ao gosto de Julio Iglesias, o funk branco soft porno???, as harmonias de guitarra à Casino do Estoril, os órgãos planantes para dois dedos de Martini em varanda de resort de luxo ao pôr-do-sol - esteve ali demasiado exposto, bem ao gosto dos turistas alemães de classe média alta???.
(...) É que, por detrás daquela voz de charme e da pose de cavalheiro que está ali por acaso???, ele canta: a sida, a crueldade emocional, o sado-masoquismo, o terror, o advento do fascismo, o crack, o sexo anal, o cunilingus enquanto forma de salvação, todas as coisas bonitas de que precisamos quando estamos de férias no Algarve???.
A minha recomendação é que João Bonifácio passe umas boas férias no Allgarve, já agora, deixe de usar tantas vezes o evocativo «judeu» e, sobretudo, não faça tanta questão em ter graça. Porque não tem. A não ser que estejamos a referirmo-nos àquela sua famosa tradução do Ne me quitte pas de Jacques Brel em que Laisse-moi devenir (...) L’ombre de ton chien passou hilariantemente a Deixa-me ser o ombro do teu cão…

31/03/08

Ironias da era tecnológica

Uma aluna e uma professora engalfinharam-se por causa de um telemóvel. Desculpem lá eu não surfar com a maré mas, na minha modesta opinião, alicerçada tão-só no meu estatuto de antiga adolescente e actual mãe de família (com filhas adolescentes), quem, em primeiro lugar, devia ser chamada à pedra era a própria professora. Por uma razão etária (e falando contra mim, embora uma senhora nunca deva falar da idade): cabe aos adultos fazerem-se respeitar pelos jovens e não o contrário. Posto isto, e para que não haja confusões, imeditamente confesso não morrer de simpatia pelo Jean-Jacques Rousseau.
Creio, além disto, que se está a ignorar um dos aspectos mais relevantes do caso. É que este só provocou alarido porque um dos colegas de turma filmou a cena e a despejou na Web, para gáudio das televisões e profundo choque do Presidente da República.
Ou seja, do Procurador-Geral (crime, diz ele) a Paulo Portas, de Cavaco Silva aos jornalistas, passando pela professora (crime, diz ela) e até pelo João Carlos Espada (desta vez sem Karl Popper) todos foram ao You Tube pescar matéria para as suas reflexões.
E como chegaram lá? Através de um telemóvel. Pergunto: em que ficamos?
[Para se entender melhor a senda orwelliana que se esconderá sob a invocação abstracta de disciplina! disciplina! disciplina! ― como se ela fosse, em si própria, um princípio ético inviolável (ah! como os alemães foram disciplinados...) ― clique-se aqui. O assunto é outro, mas a lógica é semelhante à que está por trás da criminalização da indisciplina escolar.]

03/01/08

Do Fumo à Dúvida Teológica

Este post poderia começar apropriadamente, citando Cesário Verde:
Eu hoje estou cruel, frenético, exigente
Nem posso tolerar os livros mais bizarros.
Incrível! Já fumei três maços de cigarros
Consecutivamente

Não seria verdade. Não cheguei a tanto. Ainda assim, e porque o que me irrita não é o combate ao fumo mas a prepotência irracional da lei recém-higienista — as leis proto-higienistas levavam a assinatura de um partido chamado Nationalsozialistische Deutsche Arbeiterpartei à frente do qual estava um senhor de bigodinho que não comia carne, não fumava, e quanto ao resto só sei o que dizem as más línguas — é com prazer que relato a seguinte cena.
Passando eu ontem no Edifício São Francisco de Sales, para onde em tão má hora se trasladou o semanário Expresso, e faço um interregno para descrever o primeiramente referido:
Trata-se de um edifício de tipo inteligente construído em vidro, material que, como se sabe, é o que mais se adequa ao nosso clima frio, onde as janelas não se mexem nem para trás nem para a frente nem para os lados, como nos hotéis a partir do terceiro andar não vá algum hóspede suicidar-se antes de pagar a conta, espaço organizado em open space, de per si uma coisa bestialmente moderna que no início gerava um burburinho ensurdecedor paulatinamente substituído depois por um silêncio de repartição porque como a malta vê estas coisas nos filmes americanos em que há aquelas redacções fantásticas que decidem o futuro dos presidentes mas depois esquece-se da parte da insonorização, quem trabalha em open space à portuguesa acaba por ter de calar o bico e pronto.
Dizia eu. O edifício é espaçoso, dando para alojar uma série de títulos e serviços além do Expresso. Quando se entra, há um átrio bem capaz de meter no chinelo muito centro comercial da periferia (com um café e uma cantina ao fundo).
Olhando para cima, o céu é o limite. O edifício organiza-se pelas laterais, com os andares dispostos em torno do núcleo central, vazio, cada um deles rematado por um passadiço com varandim onde desembocam os elevadores, e onde até dia 31 de Dezembro vinham também desembocar os fumadores.
Pois passando lá eu ontem, como estava a dizer, descortinei ao longe um friso humano e friorento de umas 10, 15 pessoas à porta, do lado de fora, todas, curiosamente, com um cigarro na mão. Apesar de visíveis até da estrada, exibiam sem excepção um look clandestino, naturalmente inapropriado até porque tudo isto se passava em plena luz do dia. Chegada ao segundo andar, e comentando o estranho comité de recepção em que tropeçara à entrada, fui informada que Francisco Pinto Balsemão, o próprio, ao abeirar-se do seu edifício pela manhã e confrontado com espectáculo semelhante comentara: «Mas que disparate vem a ser este?!» e depois acrescentou: «No meu gabinete podem fumar!».
Frase de circunstância ou não, confesso que me falou ao sentimento. Dei por mim a aplaudir de pé: Ah! Grande Balsemão! Empolgada, informei ir fumar eu própria um cigarro ao agora imaculado passadiço. O que fiz. E eis que já não era eu, mas sim a própria Dolores, La Pasionaria!
Depois deste longo desabafo, que alguns terão tido a paciência de ler até aqui, confesso que o que eu queria mesmo dizer se resume a isto: «Vivre Est Dangereux Pour la Santé». Transformar o simples acto de fumar num gesto de desobediência civil, só prova o grau de autismo a que chegou este velho continente, a rebentar de si próprio pelas costuras.
E só antes de me ir embora, uma dúvida que me ocorreu aqui há dias, para justificar o título do post:
Qual o pecado maior? Um padre celibatário fumar um cigarro às escondidas no escurinho do confessionário ou render-se ao apelo das hormonas enquanto lê Teresa D'Ávila?
Duas informações úteis mesmo para finalizar:
Parece que no restaurante Stop, a Campo de Ourique, continua-se a poder fumar.
Parece que um atestado médico passado por um psiquiatra permite puxar do cigarro sem sermos tomados por gangsters. E se os fumadores portugueses enlouquecessem de vez? Antes isso do que encher os bolsos à indústria farmacêutica que anda por aí tão diligente a querer tratar-nos da saúde.

14/12/07

Encontrei 2 Provas Irrefutáveis da Divindade de Cristo Perdidas nos Confins da WEB. É a minha Modesta Contribuição para o Movimento Fuck Christmas

De vez em quanto, surgem uns bloguistas a propor cadeias... de qualquer coisa. De livros, filmes, frases, lugares, etc. Dizem eles: «Escolhe 5 — qualquer coisa — e passa a palavra.»
Venho agora anunciar que o proselitismo e as listas, mesmo as de compras, causam-me crises de urticária. Mas o pior não é isso. O pior é que — e grande é a minha irritação —, sempre que alguém me escolhe para próxima vítima, a zona do meu cérebro onde se alojam inconfessáveis superstições acende uma luz vermelha e o terror instala-se: «Será que se interromper a cadeia, o cabelo me vai cair?», ou: «Acordarei transformada em insecto, como o Gregor Samsa?»
Indo directa ao assunto. Nunca ninguém me propôs que participasse na cadeia: «Cinco coisas que me marcam na pessoa de Cristo». Porém, ela existe. E por sua causa as minhas convições nunca mais serão as mesmas.

As respostas de Davi Lago deram-me que pensar. As três primeiras, nem por isso. A virgindade de Maria, a Trindade, o pecado original e tal, isso é fácil. Mas repare-se nas duas últimas alegações.
Dois mil anos de esforço intelectual e 300 de fogueiras, e que eu me metamorfoseie já aqui se alguém conseguir citar um único Padre da Igreja que bata em clarividência este Pastor da Igreja Batista Getsêmani, um Jesus freak, nas palavras do próprio.
Rendo-me. E que os
incréus façam o mesmo!
«5 coisas que me marcam na pessoa de Cristo
[...]
4. Sua ressurreição. Você pode visitar o caixão de Nietzsche, Sartre, Freud, Marx, Darwin, mas não o de Jesus.
5. Sua influência na História. Ele não é uma lenda, ele andou entre nós. Tudo que Jesus tocou foi transformado. Tudo é Antes ou Depois de Cristo. “Que dia é hoje?”. “Hoje é 17 de julho do ano 2007 depois de Cristo”.»
E escusam de vir cá com o argumento de que hoje, afinal, é 14 de Dezembro.

07/12/07

Afinidades Electivas

Um dia ia acontecer. Da série TOM WAITS: AUTOBIOGRAFIA EM PEQUENAS PRESTAÇÕES, DITOS DE ESPÍRITO E SABEDORIA, o post XXV roubado ao Provas de Contacto. [a fotografia veio por arrasto]

«Não tenho computador. Está no fundo da piscina do meu quintal com a televisão e as bolas de golfe. O cibermundo cria a ilusão da comunicação. Coloca-se a palavra 'ciber' antes de outra qualquer e parece que fica logo tudo 'novo e melhorado'. Faz parte do vírus publicitário. Ciberconversas, ciberpaixões, ciberdescobertas. É uma forma de nos venderem coisas que já estavam disponíveis. Desconfio muito disso. Parece-me que o progresso é obsessivo e compulsivo. Tenho a sensação que as pessoas não estão a sair de casa. Passam a vida à frente dos computadores e tudo lhes chega através do ecrã. É o que toda a nação realmente quer mas qualquer coisa que seja assim tão popular ou tão facilmente acessível habitualmente não é boa para nós. É como a água da torneira, não é boa para beber, não passa de químicos e mijo reciclado. Acho que estamos no meio de uma revolução e ninguém sabe de que lado vêm as pedras.» [o bold é meu]

Este é especialmente dedicado ao PCR. Se ele e outros ainda estivessem no Público talvez Hugo Chávez não tivesse ganho por antecipação.