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07/05/09

A propaganda dá sempre merda!

Estou francamente farta do assunto. Que volte a ele significa que a propaganda resulta. Num mundo ideal não devia. Não vivemos num mundo ideal. Ah! pois é.
O último 1º de Maio gerou um "não acontecimento". As escaramuças entre Vital Moreira e alguns participantes da manifestação convocada pela CGTP para a data transformaram-se num caso nacional, e até o primeiro-ministro veio dizer que se tratara de "uma vergonha para a democracia".
Uma onda de indignação varreu o país porque o candidato europeu fora injuriado, esmurrado, pontapeado, enfim, ferido no mais fundo da sua alma e à superfície da epiderme também.
Até hoje, não vi nenhuma imagem que comprovasse tais factos. Mas, como diria Goebbels, um mestre da propaganda, uma mentira repetida muitas vezes torna-se verdade.
Saramago, diz-se que convertido já na terceira-idade aos valores democráticos, cumpriu o seu papel de bardo e falou alto.
Num artigo em que a partir do segundo parágrafo desata a referir-se a si próprio na terceira pessoa, como se do rei de Espanha se tratasse, e, significativamente intitulado "Expulsão", pede identificações e exige purgas.
Entretanto, vão-se trocando galhardetes em praça pública, pedidos de desculpa, mais galhardetes e mais pedidos de desculpas. Não se trocam bengaladas nem sapatos.
Depois alguém vem acrescentar que, pelo menos um dos arruaceiros, não era do PCP. Era do Bloco de Esquerda. Dão-lhe nome. Dão-lhe rosto. Rosto que o BE terá apagado do seu site, à semelhança do que Estaline fizera a Trotsky.
Chegada aqui, perdi-me.
Perdida, só quero dizer o seguinte porque eu cá não nasci das ervas: mentir é muito feio, andar à cata de pessoas é muito feio, denunciar é muito feio... e brincar com o Photoshop também, pelo menos às vezes.
Quanto ao Goebbels, que sem dúvida era um mestre, acabou mal. O pior, claro, tinha sido o resto.

02/05/09

Oh! o antiquíssimo método das bengaladas

[...]
O orador (concluindo): – E foi assim, sr. presidente que se passaram os factos.
O Sr. Luciano de Castro (interrompendo com grandes punhadas na mesa): – O ilustre deputado tem estado simplesmente a dizer refinadíssimas petas...
Vozes: – Apoiado, apoiado!
O orador (voltando-se e desabotoando o colete): – Petas? oh! formidável patife! (apoiado, apoiado). Eu, sr. presidente, não posso consentir que esse celerado entre no meu foro interior!
Vozes: – Fora, fora!
Uma voz suplicante: – Sr. presidente, estão-me aqui a dar pontapés (sussuro).
O Sr. Coelho do Amaral (espancando com grande dignidade o Sr. Barros e Cunha) : – E aqui está, sr. presidente, como se prova que o Sr. Barros e Cunha não tem razão alguma nos princípios que estabeleceu.
O Sr. Mariano de Carvalho: – Mas a ditadura foi nefasta! E não há biltre nenhum que me prove o contrário... (tira o casaco).
O Sr. Coelho do Amaral (continuando o espancamento): – Não me interrompam o discurso!
O Sr. Presidente (aos Srs. Mariano e Santos Silva): – Os senhores não têm direito a interromper sovas que o regimento garante (berreiro).
O Sr. Presidente do Conselho: – A Câmara está-se sepultando na mais profunda abjecção!
(O sr. presidente do Conselho sucumbe, sob uma chuva de bengaladas).
O Sr. Braamcamp (batendo com a bengala sobre a mesa, a um continuo) :–Dois cafés! Um cabaz!
Vozes (atravessando o corpo legislativo). –Salta, meia de Colares!
O Sr. Pinheiro Chagas (deitado, fumando com ar melancólico):

«Oh virgem pálida e triste
Branca visão doutros Céus!»

O Sr. Aires de Gouveia: – O que diz ele?
Vozes: – Ele cisma! Ele cisma!
A oposição atira cebolas ao Sr. Pinheiro Chagas. Alguns senhores deputados dizem obscenidades, que o ruído impediu que chegassem à mesa dos taquígrafos.
O orador: – A Câmara não quer escutar-me? Pois bem, eu passo a outros argumentos... (Distribui bengaladas).
Tumulto. O sr. presidente atira a campainha à cara da maioria, e o tinteiro aos queixos da oposição. Alguns senhores deputados miam de gato. O Sr. Santos e Silva, no auge da sua indignação dá cambalhotas. O Sr. Jota Moniz, no seu zelo pelos princípios, retira-se da sala. O Sr. Luís de Campos termina por distribuir, bem a seu pesar, uma prodigiosa quantidade de pontapés, com uma nobre imparcialidade.
O Sr. Presidente: – Para amanhã continua esta interessante discussão.
A Câmara sai correndo, gritando, rebolando pelas escadas abaixo.
Os contínuos levantam as garrafas de Colares.
[...]
in As Farpas, Eça de Queirós e Ramalho Ortigão
Imagem encontrada aqui.