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08/09/23

MEDITAÇÃO DE SEXTA: «No pasa nada»

22/07/22

A MEDITAÇÃO DE SEXTA: «OS NOVOS PURITANOS»

«Pois assim sendo, diria eu, no que respeita à homossexualidade o mantra dominante por aqui é, mais coisa menos coisa, idêntico àquele que foi enunciado há muito pelo irlandês republicano, poeta e dramaturgo Brendan Behan (1923-1964). No seu livro Nova Iorque (publicado originalmente no ano da sua morte e editado por cá pela Tinta-da-china em 2010) pode ler-se: “A minha atitude em relação à homossexualidade é muito semelhante à daquela mulher que, aquando do julhamento de Oscar Wilde, disse que não se importava com o que faziam, desde que não o fizessem na rua e não assustassem os cavalos”. (...)

«Mesmo correndo o risco de algum desenxabimento, a sensatez é, em geral, a melhor aposta. Veja-se a formulação de Brendan Behan, ainda hoje válida e, acrescente-se, além de válida, abrangente: o que serve para a homossexualidade, serve para qualquer outro tipo de relações. Sei do que falo.

Não foi há muito que avistei do caminho que conduz ao café do monte, na casa cimeira sem muro antes da curva da antiga nora, um casal heterossexual em pleno acto. Não contentes com o ar livre e fresco da tarde, haviam-se posicionado estrategicamente em cima da mesa larga do quintal totalmente exposta à estrada. De longe, a visão tinha o seu quê de insólito, mas a minha miopia impedia-me de perceber com exactidão de que se tratava. Por fim lá percebi: tratava-se de umas nádegas alvacentas em grande plano. Sem ponto de fuga, prossegui. Naturalmente, não gritei – o que seria despropositado, até por se tratar de estrangeiros – “Aguentem os cavalos!”, mas fui-me aproximando simulando um ataque de tosse enquanto pensava com os meus botões: “Que raio! Com um quintal tão grande, com tanto espaço e logo tinham de trepar para a mesa!”. Na altura não me lembrei de Wilde.

O episódio originaria mais risos do que censuras, mesmo se a cena decorreu praticamente na rua. Por aqui, e falo do Portugal profundo – deprimido, como agora é de uso dizer-se – vive-se uma saudável indiferença pelas práticas íntimas de cada um. Por exemplo: nunca o casal de lésbicas a residir no monte se terá alguma vez sentido sujeito a qualquer tipo de crítica, a não ser, talvez, quando as mulheres correram à vassourada com o nosso louco de estimação que lhes desembestou casa adentro a pedir cigarros sem pedir licença, ocorrência que ele nunca mais esqueceu, tendo-lhes um medo de morte.(...)»

06/07/22

BORIS JOHNSON: O CHURCHILL DA GUERRA NA UCRÂNIA E O PROBLEMA (MENOR) DOS APALPANÇOS

As peripécias onde surge envolvido o 1º ministro britânico dariam para uma british comedy ou mais. 
A última, que redundou no pedido de demissão de dois ministros do seu governo, envolve uns apalpanços. Um bom exemplo do puritanismo galopante a que a notória dificuldade de Boris em lidar com a verdade veio servir de cereja no topo do lemon cake.  
Conta-se em duas penadas. 
Chris Pincher renunciou ao cargo de vice-presidente do grupo parlamentar do Partido Conservador, após virem a público alegações de que teria apalpado dois homens no exclusivo Carlton Club. Tendo sido nomeado para o cargo por Boris, logo este foi questionado pela escolha.
Primeiro, o gabinete do primeiro-ministro britânico respondeu que não sabia de nada.
Em seguida, um porta-voz do governo veio dizer que, embora Johnson estivesse a par das alegações, era de notar que estas não haviam evoluído para uma queixa formal.
Quando um ex-funcionário do Ministério dos Negócios Estrangeiros afirmou à BBC que o primeiro-ministro tinha sido informado de uma acusação contra Pincher em 2019, o gabinete mudou de novo a sua história, garantindo que o primeiro-ministro se tinha esquecido que Pincher fora objecto de uma queixa formal e oficial.
Resumindo: porque isto anda tudo ligado, ter um mentiroso reincidente como o grande adversário de Putin na Europa, talvez nos devesse fazer pensar na estratégia que ele vem impondo na condução da guerra... mesmo deixando de fora os apalpanços.



08/04/22

A MEDITAÇÃO DE SEXTA: «BOMBAS SIM, ESTALADAS NÃO!»

«... Entre os que se dispuseram a analisar o sucedido, os campos dividiam-se basicamente em dois: aqueles que achavam que o actor tinha estado muito bem e aqueles que achavam que o actor tinha estado muito mal. Poucos foram os que consideraram que o actor tinha estado assim-assim. Curiosamente, desta vez não li ninguém a citar erroneamente Voltaire. Como se tornou prática corrente, surgiram depois as desculpas públicas, versão actualizada e mitigada das distintivas autocríticas praticadas durante a Revolução Cultural Chinesa, dispensando-se agora o desfile pelas ruas do prevaricador com um cartaz pendurado ao pescoço, bastando uma pequena frase no Twitter. O princípio não será muito diferente, mas sempre é outro asseio.

Em geral, comungou-se de um certo espírito Miss Universo, com apoiantes e detractores do gesto do actor a concordarem que nos devemos bater pela paz no mundo. (...)»

A CRÓNICA COMPLETA AQUI

16/05/11

Ainda Dominique

A imagem exibida pela polícia americana do presidente do FMI merecia uma atenção demorada. Quatro linhas de reflexão, como diria o outro.
Primeiro: o homem está algemado e rodeado por um número considerável de polícias (o campo foi reduzido). A acusação é de "acto sexual criminoso", segundo o Libération. Porque está algemado? Espera-se que salte para cima dos polícias e tente violá-los? Que tente furtar-se à justiça? Não, DSK é mostrado a todos os povos do mundo como símbolo da justiça americana, universal, não poupando os poderosos. Se o cadáver de Bin Laden podia chocar os bons cidadãos, tomai então este outro vilão.
Segundo: a imprensa responsável da Europa já publica tudo. O passado íntimo, a transcrição de tablóides, a citação de bloguers e o comentário anónimo de "pessoas bem informadas".
Terceiro: este homem, que umas horas antes era tudo, está agora desprovido de toda a dignidade (aos justicialistas que acharem a frase excessiva aconselho que se façam algemar). Foi-lhe retirada a gravata e os atacadores. Ele, que convenceu tanta gente com a palavra, não pode recusar as câmaras assestadas sobre a face. Olhem a face de DSK: é a face de Saddam, o diabo iraquiano, no cadafalso de Bagdad. O lisboeta informado, humilhado pela troika há oito dias, pode agora exultar.
Quatro: o presumível crime de DSK é pouco referido. Mas, como é evidente, o homem não foi preso por administrar o FMI. O puritanismo hipócrita exulta e, desta feita, a imprensa europeia está toda sentada no chá americano.
DAQUI, um sítio que me reconcilia com o mundo.