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27/06/09

Talvez seja o facto de ter lido O Capital em pequenina que me impede de ser solidária com o Berardo em grande

Não posso jurar que Marx teve razão quando enunciou a lei da baixa tendencial da taxa de juro. Como também não sei se acertou quando previu que as contradições internas do capitalismo levarão o sistema à ruína.
Confesso que não volto a Marx há muitos anos. Do filósofo alemão terei retido apenas umas ideias vagas, mas que, sendo vagas, ainda assim explicarão o meu pé atrás em relação ao vil metal. Do qual nada espero, esclareça-se, excepto que chegue para eu pagar as contas.
E foi talvez essa leitura precoce que me levou a encarar com absoluta naturalidade as acusações feitas há dias a cinco administradores do BCP. Segundo consta, não terão sido rapazes muito honestos, facto que está na origem da profunda indignação do comendador Joe Berardo que qualificou a matéria de roubo.



Face a isto, sei que o que vou dizer agora pode ser tomado por completa ingenuidade, se não mesmo por burrice: mal por mal, prefiro tipos que enriquecem à custa de crimes de manipulação de mercado, falsificação de documentos e burla qualificada, do que criaturas que enriquecem à custa do apartheid.
Inútil será que se exija moralidade ao capital: eis o que me ficou do velho Marx. Já a um primeiro-minstro, por exemplo, deve exigir-se alguma. Porque, super e infra estruturas à parte, assim como assim há limites. Acho eu.
Ou seja, e citando mais uma vez o insuspeito Johnny Caspar, um dos mafiosos do extraordinário Miller's Crossing: «(…) I'm talkin' about character. I'm talkin' about – hell, Leo, I ain't embarrassed to use the word – I'm talkin' about ethics».

01/05/09

A ética, esse empecilho [a incluir na série homens de quem gosto muito]

«Face às críticas dos pais que acusam os inspectores do ME que inquiriram alunos da Secundária de Fafe acerca de uma manifestação contra a ministra de terem utilizado, nos interrogatórios dos jovens, métodos "absolutamente inconcebíveis depois do 25 de Abril" e os terem incitado a acusar e denunciar os seus professores, defende-se a Inspecção-Geral da Educação dizendo que tudo o que fez foi "legal".
Juntamente com o "cumprimento de ordens", a "legalidade" sempre foi (foi-o em momentos sórdidos do século XX e continua a sê-lo) a explicação mais à mão para justificar o injustificável. Como se só o que é ilegal fosse condenável. Os inspectores do ME terão contudo lido Jellinek na Faculdade e saberão que o direito é apenas o "mínimo ético" (e conhecendo nós quem faz as leis, podemos ter uma ideia de quão eticamente mínimo é esse mínimo…).
Ora talvez a um ministério da "Educação" seja exigível, nas relações com escolas e com jovens, um pouco mais ― a não ser que no Ministério se esteja em greve à ética ― que o cumprimento de serviços mínimos éticos. Mas, se calhar, sou eu que estou a ver mal a coisa.»
* A imagem do Miller's Crossing (História de Gangsters, em português) é só porque além do Gabriel Byrne estar lindo nesse filme e de o Albert Finney ser um actor do caraças eu achar que os irmãos Cohen são responsáveis pela melhor história sobre ética jamais passada ao cinema.

28/01/09

Estaline varria a malta do retrato depois de lhes limpar o sarampo, o PS só muda textos online: graças a deus vivemos em democracia

OU (título alternativo): ninguém tem culpa da família onde nasce, mas alguém devia ter lavado a boca com sabão a Sócrates em pequenino
OU (título alternativo ao alternativo): como eu abomino trafulhas!

Não há alternativa a Sócrates... e nunca uma frase foi tão insistentemente repetida.
Dizia o pragmático Goebbels que «uma mentira repetida muitas vezes transforma-se numa verdade». Mas, de facto, quem para substituir José Sócrates?
Enquanto a pergunta continua à procura da resposta, a política (a dele e a dos outros) vai-se afundando na sua própria trampa, com a ajuda de uma crise que não pára de empurrar gente para o abismo.
De um lado, uma oposição metida até ao colarinhos (brancos) em negócios obscuros; do outro, um alucinado que em tudo vê sucesso e vê progresso. Pelo meio, descontadas as fórmulas passadistas, temos os tais que clamam que não há alternativa.
Confesso-me baralhada. Acredito que a realidade, que pode mais, há-de acabar por solucionar o imbróglio. Não sei se a nosso favor. Espero que sim. Espero, sobretudo, que nos poupe ao número dos Messias. Com ou sem bigodinho.
E vem este curto desabafo a propósito do tão falado Relatório, da OCDE só de nome. Apresentado com pompa e circunstância pelo primeiro-ministro, como prova de que até «lá fora» lhe reconheciam o mérito, era afinal um estudo encomendado e pago pelo próprio Governo, realizado sem transparência e sem independência.
Se isto fosse um país decente, a aldrabice teria nome; sendo um «sítio mal frequentado», o PS fez apenas o seguinte: substituiu, na sua página na NET, o texto em que se afirmava ― preto no branco ― que o Relatório era da OCDE por um outro em que se refere apenas «um estudo sobre política educativa». Se formos tentar ler o primeiro, evaporou-se do site, sem nenhuma explicação. Mas se fizermos a busca online, em cache ele lá aparece. Transcrevo:


Relatório da OCDE elogia politica de Educação do Governo PS
27-Jan-2009
O primeiro-ministro elogiou a forma como a ministra da Educação resistiu às dificuldades e incompreensões, considerando lamentável a atitude da oposição que diz que o Governo está apenas a trabalhar para as estatísticas.
No encerramento da cerimónia de apresentação do relatório da OCDE sobre política educativa para o primeiro ciclo (2005-2008), José Sócrates declarou que "valeu a pena resistir, não desistir, enfrentar as dificuldades. Este é o caminho para o sucesso". Elogiando a ministra da Educação, o primeiro-ministro recordou as "dificuldades" e incompreensões que as políticas de Maria de Lurdes Rodrigues têm enfrentado ao longo dos últimos anos, concluindo que "valeu a pena".
José Sócrates lembrou também algumas das reformas levadas a cabo nos últimos anos no primeiro ciclo, como o encerramento de escolas com poucos alunos e sem condições, o alargamento do horário de funcionamento dos estabelecimentos ou a introdução do inglês. "Foi uma reforma muito importante para este Governo, como foi para mim", defendeu.
Na sua intervenção, o primeiro-ministro criticou ainda a oposição, lamentando que digam que o Governo está apenas a trabalhar para as estatísticas. "Que pobreza de debate político, que lamentável a atitude dos partidos políticos de dizerem que lá está o Governo a trabalhar para as estatísticas, como se as estatísticas não fossem importantes", afirmou, sublinhando que prefere a existência da medição do sucesso das medidas à "ausência de medição".



José Sócrates elogia resistência da ministra da Educação
27-Jan-2009
O primeiro-ministro elogiou a forma como a ministra da Educação resistiu às dificuldades e incompreensões, considerando lamentável a atitude da oposição que diz que o Governo está apenas a trabalhar para as estatísticas.
No encerramento da cerimónia de apresentação de um estudo sobre política educativa para o primeiro ciclo (2005-2008), realizado por peritos internacionais independentes, José Sócrates declarou que "valeu a pena resistir, não desistir, enfrentar as dificuldades. Este é o caminho para o sucesso". Elogiando a ministra da Educação, o primeiro-ministro recordou as "dificuldades" e incompreensões que as políticas de Maria de Lurdes Rodrigues têm enfrentado ao longo dos últimos anos, concluindo que "valeu a pena".
José Sócrates lembrou também algumas das reformas levadas a cabo nos últimos anos no primeiro ciclo, como o encerramento de escolas com poucos alunos e sem condições, o alargamento do horário de funcionamento dos estabelecimentos ou a introdução do inglês. "Foi uma reforma muito importante para este Governo, como foi para mim", defendeu.
Na sua intervenção, o primeiro-ministro criticou ainda a oposição, lamentando que digam que o Governo está apenas a trabalhar para as estatísticas. "Que pobreza de debate político, que lamentável a atitude dos partidos políticos de dizerem que lá está o Governo a trabalhar para as estatísticas, como se as estatísticas não fossem importantes", afirmou, sublinhando que prefere a existência da medição do sucesso das medidas à "ausência de medição".
Resumindo, e para citar Johnny Caspar, o mafioso italiano com que abre Miller's Crossing: «I'm talkin' about ethics».