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26/09/10

Rui, mau mas mau mesmo é que seja qual for a escolha, do ricipe ninguém nos safa

"Não diria que é aquilo que mais temo perante a possibilidade de a crise política que se adensa nos empurrar para as mãos de Pedro Passos Coelho. O que pode acontecer aos destinos do país e à vida das pessoas, entregues de vez à volúpia da «cultura empresarial», afigura-se bem pior do que o aspecto de quem venha a gerir o estabelecimento. Mas é este, seguramente, um dos factores que me perturba. Ponderar como inquilino da residência de S. Bento um típico e obstinado beto dos eighties, seguido por um séquito de réplicas, é um pesadelo que me tem povoado as noites. Ser governado por alguém que aparenta querer impingir-nos a qualquer momento um pólo da Lacoste ou da Ted Lapidus, penteado «à Joe Dassin», de discurso tenso e redondo, soturno e previsível, ter de conviver diariamente com a seriedade enfatuada e a representação icónica do aborrecimento, constitui para mim uma preocupação adicional de ordem estética e ecológica. Talvez pareça um tanto frívolo e com angústias de baixa densidade política, mas não encontro nada que afaste de mim este enjoo. (...)"

Sobre o significado de ricipe ver aqui. Sócrates explica.

15/08/09

A book a day keeps the doctor away

É um livro pequeno sobriamente ilustrado, cabe no bolso e tem capa vermelha. Chama-se Outubro e debruça-se sobre a revolução bolchevique de 1917.
O autor, Rui Bebiano (RB), professor de História Contemporânea na Faculdade de Letras de Coimbra, mantém um blogue, A Terceira Noite, e foi lá que estes textos, agora compilados e ligeiramente alterados, apareceram pela primeira vez.
Quando comecei a ler Outubro lembrei-me de Arthur Koestler, o homem de O Zero e o Infinito, ex-comunista que desde logo percebeu que a utopia igualitária era, na verdade, uma realidade monstruosa.
Koestler escreveria no 1º volume da sua autobiografia, Arrow in the Blue: 'Nos anos 30, a conversão à fé comunista (...) foi a expressão sincera e espontânea de um optimismo nascido do desespero (...). Deixar-se atrair pela nova fé, penso-o ainda, foi um erro louvável. Estávamos enganados pelas boas razões; e continuo a acreditar que, apenas com algumas excepções (...) aqueles que, desde o início, denegriram a revolução russa o fizeram por motivos menos louváveis do que o nosso erro. Existe um mundo entre o amoroso desencantado e os seres incapazes de amar'.
Entretanto, muito tempo decorreu e muitos cadáveres passaram debaixo das pontes. Como questiona o próprio RB, a quem interessará hoje Outubro ‘fora do universo protegido dos prosélitos mais irredutíveis da revolução proletária?’.
Di-se-á que, desde logo, aos historiadores, mas porventura também, e concordando com RB, a todos os ‘que se não conformam com o mundo tal qual ele é’.
Abordando aspectos vários – do pragmatismo leninista, levado ao paroxismo por Estaline, aos compagnons de route; da invenção do ‘realismo socialista’ ao Gulag – Outubro, reflexão sobre o potencial utópico, dimensão simbólica e crimes reais da revolução soviética, será, sobretudo, na sua versão de pequeno ensaio, uma tentativa honesta de pensar o desencantamento.
Outubro, Rui Bebiano, Angelus Novus, 2009
[Imagem: reprodução de um cartaz de Aleksandr Rodschenko]

23/07/09

Um qualquer Outubro na algibeira

Quando dizemos «Outubro», soltamos evocações. Apesar de longínquo, o estrépito da fuzilaria imaginária disparada em São Petersburgo sobre o Palácio de Inverno ― que Annenkov e depois Eisenstein encenaram, tornando-o «real» ―, chega-nos ainda aos ouvidos, distribuindo posições de combate e rearmando certezas. Mas porque regressar aqui a acontecimentos que, fora do universo protegido dos prosélitos mais irredutíveis da revolução proletária, nos chegam sobretudo como um rumor épico que a ficção, o documetário e os compêndios de vez em quando libertam? Talvez valha a pena fazê-lo porque eles se referem a um tempo e a um lugar onde foi possível acreditar na materialização de uma das mais antigas intenções humanas: o advento de uma época afortunada, no qual a luta entre o bem e o mal tenha sido resolvida com a vitória irrevogável do primeiro. Instante de uma «luta final» rumo a uma nova era, o Outubro ideal do qual aqui se fala condensou, e a sua dimensão simbólica ainda hoje representa, uma parte daquilo que de melhor a humanidade tem sido capaz de conceber como destino.
Enquanto sinal de utopia, mobiliza as capacidades do ser humano para traçar colectivamente um mundo alternativo, desejavelmente melhor, e o facto de ter dado historicamente lugar a universos tristes e bloqueados, a regimes rudemente tirânicos, a experiências concentracionárias com o rosto negro do mal, não foi suficiente para desactivar o seu potencial criador. A Revolução de Outubro não representa apenas aquele episódio datado que na velha Rússia recém-liberta do domínio dos czares levou Lenine e os bolchequives ao assalto do poder: permanece também como sinal de esperança que nem mesmo a perversão e a derrocada do «socialismo real», e a acelerada transformação do mundo que se lhe seguiu, foram capazes de apagar. Porque, como se poderá ver nas páginas que seguem, a vontade que ela enunciou continua a produzir uma expectativa e a desenhar uma possibilidade.
Importa salienta que este livro, retomando com aperfeiçoamentos e curtas adendas um conjunto de textos escritos e plublicados no blogue pessoal A Terceira Noite ― um a um e sem plano prévio, de Setembro a Setembro nos anos de 2007 e 2008 ― não tem o formato de um estudo histórico clássico capaz de integrar processos exaustivos de pesquisa, análise e comparatibilidade. Partindo de dados objectivos e de muitas leituras sobre a matéria, trata-se antes de um ensaio que pode contribuir para a superação de algumas das perspectivas acríticas da Revolução de Outubro e da pesada mitologia produzida e conservada à sua volta. Reportando-se a factos mas integrando também, recolocando-as sem qualquer dogmatismo, memórias e crenças que continuam a moldar algumas das preocupações contemporâneas. Afinal, para uns quantos de nós ― talvez não muitos, mas uns quantos que não se conformam com o mundo tal qual ele é ―, haverá sempre um Palácio de Inverno para tomar.
Um agradecimento dirigido a todos os que me incitaram a escrever até ao fim este conjunto de textos e a publicá-los em livro. Destacando o apoio próximo e crítico da Adriana Bebiano e do Miguel Cardina. Também eles, ao que julgo saber, com um qualquer Outubro na algibeira.
Outubro, Rui Bebiano, 2009, Angelus Novus
[Os bolds são meus]