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14/12/10

Diálogos sob o nevoeiro

— Vamos?
— Vamos.
— Hoje foi rápido.
— Pois foi. Vamos a pé?
— Quer ir a pé? Não prefere que vá buscar um táxi?
— Não, podemos ir a pé. Mas, antes disso, arranja-me aí um cigarrinho.
— Qualquer dia recusam-lhe os tratamentos...
— Ora, porquê? Por causa de um cigarrinho? Os cigarros ligam bem com este tempo...
— Com este tempo...
— Sim, não vês que está um bom dia para passear à beira do Tamisa?
— Tamisa?! Queria dizer Tejo, não?
— Eu disse Tejo?
— Não, disse Tamisa.
— E era exactamente o que era queria dizer. Shall we go? (risos)

26/11/10

Diálogos ao final do dia

— Que dia é hoje?
— Quinta.
— Já?!
— Já. Como tem estado a dormir o tempo passou mais depressa…
— Se calhar injectaram-me com pentatol…
— Pentatol?!
— Sim. O que usava o KGB e a CIA…
— Que disparate! Eles aqui já não usam disso.
— Tens a certeza?
— Quase que apostava. Mas quer que pergunte?
— E achas que eles iam dizer? (risos)
— Pentatol! Vai lembrar-se de cada coisa!
— Pentatol, sim senhor. O soro da verdade.
— E para que é que o Figueiredo ia querer saber os seus segredos?
— Também tens razão. E trouxeste algum pastelinho de nata? Dieta líquida, dieta líquida e fica para aqui um homem cheio de fome.

22/11/10

Keept it simples: da relatividade de Einstein ao valor do dinheiro

Aqui há uns anos lia-se muito Piaget. Eu, pelo menos, lia. De um dos seus livros, ou de algum livro sobre ele, recordo uma história em que se contava que as crianças não tinham qualquer dificuldade em compreender a relação entre tempo e velocidade proposta por Einstein.
Até uma determinada idade, os putos achavam absolutamente natural — e mesmo uma evidência sem necessidade de demonstração — que quando se anda mais depressa o tempo passa mais devagar.
A mesma clarividência parece desenhar-se a propósito de finanças.
Tentem explicar a um miúdo as guerras cambiais entre a China e os EUA com a Europa pelo meio. Façam-no recorrendo a exemplos domésticos e deixem os esoterismos de lado.
A resposta, verão, será invariavelmente a mesma: Tens falta de dinheiro? Bom, mas nesse porque é que o governo não fabrica mais notas e pronto?, dirá ele, borrifando-se completamente para as valorizações e desvalorizações da moeda.
Ou seja, as crianças não só percebem com facilidade Einstein como, ao que parece, também concordam com Occam: entia non sunt multiplicanda praeter necessitatem. E tudo isto sem saberem nada de física, de latim, ou de finanças. Abençoadas!

13/11/10

Ser de esquerda é estar um homem nas urgências do hospital e lembrar-se que foi dali que fugiu o Henrique Galvão

Ele: Não fomos para o São José, pois não?
Ela: Não, estamos no Santa Maria. Já lhe tinha dito.
Ele: Pois, de repente não me lembrava. Santa Maria, dizes?
Ela: Sim, Santa Maria.
Ele: Foi daqui que fugiu o Henrique Galvão.
Ela: Daqui?
Ele: Sim, daqui. Estava preso quando fugiu…
Ela: Preso no Hospital?
Ele: Preso. O Salazar tinha-lhe um pó que se não tivesse fugido ainda hoje estaria dentro (risos).
Ela: Mas fugiu daqui?
Ele: Daqui, não. Do primeiro andar. Estamos no rés-do-chão, não estamos?
Ela: Sim, acho que sim.
Ele: O Galvão fugiu lá de cima. Enfiou uma bata branca e ala que se faz tarde. Saiu pela porta principal. Boa-tarde, senhor doutor, boa-tarde, senhor doutor. E o Galvão, boa-tarde, boa-tarde…
Ela: Estão a chamar pelo seu nome.
Ele: Vamos lá então… Eles aqui são rápidos.

10/11/10

Quem devia ter chamado o FMI era eu

SEVEN. The magnificent seven. The last frontier. Quem o disse foi o Teixeira dos Santos: depois do 7, o déluge.
Pois bem. Eu paguei muito mais do que isso. E passo a explicar.
Por motivos idiossincráticos que se prendem com uma péssima relação com a autoridade e com a arrumação de papéis, vi-me não há muito confrontada com uma dívida choruda ao fisco. Para resumir a coisa: eu teria a receber uma pipa de massa mas no fim quem pagou a conta? Quem? Adivinharam.
Perante o facto de me ser impossível continuar a viver cabelo ao vento sem documento, fui às Finanças tentar negociar com o Estado.
Eis o que me disse o Estado.
— A senhora tem várias hipóteses. A) Vai para casa, esquece que falou comigo e vai pagando como pode; B) Propõe um pagamento faseado; C) Pede um empréstimo bancário e paga tudo.
A primeira hipótese é simplesmente retórica. Porquê? Porque as Finanças lhe vão fazer a vida num inferno. Seja a sua dívida 20 cêntimos ou 10 mil euros, para o computador é igual. A partir do momento em que a classificou como devedora ao fisco, nunca mais a larga. E vai esmifrá-la em roda livre. Francamente, não lhe aconselho.
A segunda hipótese implica que nos traga algo para a troca. Uma casa, um carro, uma garantia bancária… Conversamos e chegamos a um valor mensal. Sinto-me obrigado a avisá-la, contudo, do seguinte: os juros são a 12%.
O que nos conduz à terceira hipótese. Vai ao banco, tenta o empréstimo e liquida tudo de uma vez. Os juros nunca serão tão altos.
E foi assim que o Estado negociou comigo. Com um acrescento. Como o funcionário era simpático, adiantou-me uma quarta hipótese off the record.
— Emigre, vá-se embora daqui e não pague nada!
Os mercados e blábláblá são uns bandidos, diz o Teixeira dos Santos? Pois. E ele é o quê? Um darling, queres ver?
[também publicado aqui]

20/10/10

Assim como assim bem podiam anunciar a extinção do país...

Vinha eu de passear com a minha Princesa quando ao virar da esquina dou com o Diário de Notícias pendurado no quiosque: "Governo anuncia extinção de entidades que já não existem".
Lido o artigo online, fiquei particularmente enternecida com estas entidades
Estrutura de Missão Parcerias em Saúde (dirigido por Jorge Abreu Simões)
Estrutura de Missão para a Extensão da Plataforma Continental (dirigido por Manuel Alexandre Ferreira Pinto de Abreu)
Estrutura de Missão Lojas do Cidadão de Segunda Geração (dirigido por Eduardo Elísio Silva Peralta Feio)
"Estrutura de Missão" — nunca tinha ouvido falar. Será coisa de influência lacaniana?

27/09/10

Descontrai baby* que assim como assim estamos lixados [seguido de explicação concisa e precisa]

"(...) Por outras palavras, o problema do défice e da dívida no contexto em que estão inseridos não têm solução. O país não vai gerar rendimentos para pagar a dívida, porque não cresce – e vai crescer ainda menos ou mesmo decrescer – e mais tarde ou mais cedo vai chegar-se a uma situação de incumprimento. Entretanto, imensas somas de dinheiro continuarão a ser transferidas para os predadores financeiros, sem que daí resulte qualquer vantagem (a não ser para eles) para a economia nacional.
O que se passa com Portugal, passa-se com a Grécia, a Irlanda e a Espanha. Como no seio da União Europeia não há a menor predisposição para encarar com realismo o que está a acontecer e apenas se raciocina na base da coerção, como se as leis económicas pudessem ser “domadas” pelo receio das sanções ou mesmo pela imposição das ditas, não se pode esperar da União uma via de solução que, atendendo ao problema de alguns, possa ser, a prazo, do interesse de todos.
Assim sendo, e tendo sempre presente que o actual caminho, aqui sintetizado nas imposições de Bruxelas e exigências dos predadores, não leva a qualquer solução, por muito que os governantes se esforcem por fazer crer o contrário, a única saída possível para o problema assenta numa posição de força dos devedores. Algo como: “Assim, não pagamos!”, de modo a forçar uma solução alternativa com saídas credíveis, socialmente aceitáveis. (...)"
LER NA ÍNTEGRA AQUI.

* Uma das minhas filhas esteve a ouvir o FMI no youtube com o avô e meteu o Zé Mário Branco, que não conhecia, na página dela do facebook. Talvez isto queira dizer alguma coisa.

22/03/10

Quando se tem um limoeiro em flor na varanda deve ser mesmo a Primavera que chegou seguido de um poema

When daisies pied, and violets blue,
And lady-smocks all silver-white,
And cuckoo-buds of yellow hue
Do paint the meadows with delight,
The cuckoo then, on every tree,
Mocks married men, for thus sings he:
“Cuckoo!
Cuckoo, cuckoo!” O word of fear,
Unpleasing to a married ear.

When shepherds pipe on oaten straws,
And merry larks are ploughmen’s clocks,
When turtles tread, and rooks, and daws,
And maidens bleach their summer smocks,
The cuckoo then, on every tree,
Mocks married men, for thus sings he:
“Cuckoo!
Cuckoo, cuckoo!” O word of fear,
Unpleasing to a married ear.
William Shakespeare

20/09/09

As minhas alfaces aparecem no google earth: será que é um assunto de estado que interesse a joão marcelino ou ao josé manuel fernandes?

A gente lê esta notícia, esta, esta e esta, mais esta, esta e esta, ou mesmo esta, ou até esta, que já não é notícia mas é muito boa, etc. e etc., e fica é com uma enorme vontade de recolher as alfaces abusivamente espiadas.
Pela parte que me toca as minhas já estão a salvo: comi-as em salada temperada com queijo, azeitonas, azeite gourmet e vinagre balsâmico, tudo do pingo doce.

14/10/08

Grito do Ipiranga pré-adolescente (mesmo que esse seja um estádio inventado nos morangos com açucar ou similares)

Cena doméstica após novo ataque de Anopluras na escola.
Eu: Ema, não podes pôr já amanhã mais shampoo para os piolhos... Vai-te fazer mal ao cabelo...
Ema: Desculpa, mas eu estou mesmo farta disto. Além disso, sabes que mais? Eu já tenho idade para tratar dos meus próprios piolhos!