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30/08/24

MEDITAÇÃO DE SEXTA: «Riso Amarelo»

«(...) não se espere da minha parte qualquer contribuição relevante para o debate actual em torno do idadismo – a nova palavra da moda que, aposto, irá ultrapassar um dia a praga do populismo.

21/08/11

Old chap, o caraças! [ainda os motins ingleses...]

Como quase sempre acontece, ninguém esperava.
A mais velha democracia do mundo (diz-se) viu-se literalmente a ferro e fogo durante vários dias. Pilhagens, incêndios, vandalismo, cinco mortos (no momento em que escrevo); 1500 detidos, cerca de metade, menores.
A esquerda decifrou nos acontecimentos um sinal de revolta contra o capitalismo. A direita leu-os como a demonstração dos malefícios do multiculturalismo.
As duas visões fazem-se espécie. A primeira, porque, por muito que me esforce, não vejo pingo de anti-capitalismo em gamar ténis de marca para uso pessoal. A segunda, porque ainda não percebi onde poderá estar o multiculturalismo quando o que os saques denunciam é o mais puro mimetismo consumista.
Acrescem a estas duas interpretações, os alicerces ideológicos do costume. A esquerda, paternalista, acha que eles são pobres e coitadinhos! A direita, desapiedada, acha que eles são madraços e bandidos!
Há muito que estes adjectivos deviam ter sido abolidos da conversa. Buñuel realizou Viridiana em 1961 e, pelo menos desde aí, ficámos a saber que a perversidade moral é algo muito bem distribuído pelos vários rendimentos.
Cameron optou pela explicação musculada: “criminalidade, pura e simples”. Para além de podermos discutir (noutra altura) o que é a criminalidade “pura e simples”, talvez se devesse esperar/exigir um pouco mais de reflexão.
Segundo alguns dos participantes, aquilo foi “para mostrar aos ricos que fazemos o que quisermos” (a luta de classes dá logo outra credibilidade à coisa…).
Vai daí, desataram a assaltar o comércio e a sair com o último gadget na moda, um plasma gigante ou uma T-shirt de marca. Faz sentido (e relembro que metade dos amotinados era menor): embalados (literalmente) desde o berço por publicidade agressiva que os convida ao consumo desenfreado, da marca de cereais ao smartphone mais eficaz para viver o momento, NOW!
O romance de Bioy Casares Diário da Guerra aos Porcos (os porcos são os velhos) foi escrito há 42 anos. Não mete smartphones, mas é altamente.

27/09/09

A book a day keeps the doctor away

Apesar do que se diz ― a escrita ser a mais solitária das artes e tal (e é bem capaz de ser verdade…) ― produções literárias a várias mãos não são uma raridade. E nem precisamos de recuar ao Livro primordial (a Bíblia, naturalmente) para o comprovar. Um dos textos mais famosos da literatura portuguesa não tinha um autor mas três. Falamos de Novas Cartas Portuguesas, que, publicado com grande escândalo em 1972, trazia assinatura de Maria Velho da Costa, Maria Teresa Horta e Maria Isabel Barreno. A primeira, aliás, reincidiria várias vezes nas parcerias.
Quem ama, odeia pertence a essa categoria da escrita colectiva. No caso, também criativa. No sentido nobre do termo.
Os seus autores, o casal formado pelos argentinos Silvina Ocampo (1903-1993) e Adolfo Bioy Casares (1914-1999), ensaiam um texto de estrutura policial, paredes-meias com o fantástico, um género que Bioy Casares levaria mais tarde à perfeição com A Invenção de Morel, muito antes de alguém poder falar de realidade virtual ou de Second Life. E se os capítulos de Quem ama, odeia não trazem autoria, nem por isso é difícil ao leitor imaginar o que se devem ter divertido Silvia e Adolfo, cada um passando ao outro a continuação do mistério.
Um médico homeopata, Humberto Huberman, parte de férias para o mar. O hotel onde se aloja, propriedade de familiares afastados, situa-se em paisagem bizarra, sempre sujeito a temíveis tempestades de areia (que obrigam a janelas blindadas), rodeado de bosques labirínticos e de um sapal povoado de caranguejos. Nele terá lugar a morte de um dos hóspedes, envenenado por uma dose mortal de estricnina.
As férias literárias imaginadas pelo erudito Huberman (que levava na bagagem Satiricon, de Caio Petrónio, tendo prevista a sua adaptação) transformam-se, assim, ironicamente, numa caça ao assassino do Bosque del Mar.
Claro que o que conta aqui não é, em primeiro lugar, o deslinde do crime. Quem ama, odeia é, sobretudo, uma piscadela de olho literária, um divertissement cheio de malícia, um exercício de escrita exemplar. Pisamos terreno lúdico. Como é fácil de perceber, logo no final do primeiro capítulo, face às perguntas a roçar o sarcástico de Huberman: “Quando renunciaremos ao romance policial, ao romance fantástico e a todo esse fecundo, diversificado e ambicioso campo da literatura que se alimenta de irrealidades? Quando encaminharemos os nossos passos para a picaresca saudável e para o ameno quadro de costumes? O cheiro a maresia já começava a penetrar pela janela. Fechei-a. Adormeci.”. É todo um programa.
O mesmo “programa” que conduziria Jorge Luis Borges, amigo do casal, por aqueles caminhos que infinitamente se bifurcam.
A vertigem que assola o leitor de Quem ama, odeia perante as várias hipóteses que vão sendo criadas para solucionar o crime é semelhante aquela que se apodera de nós quando entramos pelos universos borgeanos adentro, reproduções ad infinitum de si próprios. Aqui, contudo, há uma solução última. Algo pueril, talvez, mesmo se marcando de morte a inocência. Ou, quem sabe, seria precisamente isso o pretendido. Porque quem ama, odeia. Esse é ponto de partida e de chegada.
Não se espere, porém, apesar do título, uma novela romântica. O amor está lá, com os seus equívocos, mas o que sobressai é o distanciamento dos autores que o contam. Cristalinos, modernos e divertidos: “Quanto a mim, redigi as páginas que acabais de ler, porque algumas amigas da minha mãe – as únicas amigas que tenho – quiseram que a minha actuação na pesquisa ficasse documentada”.
E depois viveram felizes para sempre. O casal protagonista do livro, à imgem de Silvina Ocampo e Adolfo Bioy Casares.