22/07/22

A MEDITAÇÃO DE SEXTA: «OS NOVOS PURITANOS»

«Pois assim sendo, diria eu, no que respeita à homossexualidade o mantra dominante por aqui é, mais coisa menos coisa, idêntico àquele que foi enunciado há muito pelo irlandês republicano, poeta e dramaturgo Brendan Behan (1923-1964). No seu livro Nova Iorque (publicado originalmente no ano da sua morte e editado por cá pela Tinta-da-china em 2010) pode ler-se: “A minha atitude em relação à homossexualidade é muito semelhante à daquela mulher que, aquando do julhamento de Oscar Wilde, disse que não se importava com o que faziam, desde que não o fizessem na rua e não assustassem os cavalos”. (...)

«Mesmo correndo o risco de algum desenxabimento, a sensatez é, em geral, a melhor aposta. Veja-se a formulação de Brendan Behan, ainda hoje válida e, acrescente-se, além de válida, abrangente: o que serve para a homossexualidade, serve para qualquer outro tipo de relações. Sei do que falo.

Não foi há muito que avistei do caminho que conduz ao café do monte, na casa cimeira sem muro antes da curva da antiga nora, um casal heterossexual em pleno acto. Não contentes com o ar livre e fresco da tarde, haviam-se posicionado estrategicamente em cima da mesa larga do quintal totalmente exposta à estrada. De longe, a visão tinha o seu quê de insólito, mas a minha miopia impedia-me de perceber com exactidão de que se tratava. Por fim lá percebi: tratava-se de umas nádegas alvacentas em grande plano. Sem ponto de fuga, prossegui. Naturalmente, não gritei – o que seria despropositado, até por se tratar de estrangeiros – “Aguentem os cavalos!”, mas fui-me aproximando simulando um ataque de tosse enquanto pensava com os meus botões: “Que raio! Com um quintal tão grande, com tanto espaço e logo tinham de trepar para a mesa!”. Na altura não me lembrei de Wilde.

O episódio originaria mais risos do que censuras, mesmo se a cena decorreu praticamente na rua. Por aqui, e falo do Portugal profundo – deprimido, como agora é de uso dizer-se – vive-se uma saudável indiferença pelas práticas íntimas de cada um. Por exemplo: nunca o casal de lésbicas a residir no monte se terá alguma vez sentido sujeito a qualquer tipo de crítica, a não ser, talvez, quando as mulheres correram à vassourada com o nosso louco de estimação que lhes desembestou casa adentro a pedir cigarros sem pedir licença, ocorrência que ele nunca mais esqueceu, tendo-lhes um medo de morte.(...)»

4 comentários:

Luís Lavoura disse...

Em que parte do Portugal deprimido vive a Ana Cristina?

Não fica deprimida por viver aí?

Ana Cristina Leonardo disse...

No Algarve profundo.
Não fica deprimida por viver aí? - Voluntarizei-me, bem vê...

Luís Lavoura disse...

E não há falta de água aí?
Eu da última vez que fui ao Algarve visitei São Brás de Alportel (que não é muito profundo nem muito deprimido) e achei muito bonito.

Ana Cristina Leonardo disse...

Eu da última vez que fui ao Algarve visitei São Brás de Alportel - de repente, até parecia que tinha visitado a Nova Zelândia :))
Na torneira, ainda não há falta de água. Nas barragens, uma desgraça.