21/04/12
Vamos lá aproveitar então o tempo livre e febril antes que a virose se vá de vez
(assim ao calhas, pp 218-219)
"Sentaram-se juntos nos cavaletes de madeira, dois corpos cobertos de gotas de humidade, e o Pai Swiebel disse:
— O que é que fazes na vida?
O homem da barba estava pouco disposto a dizer o que fazia. O Pai Swiebel insistiu com ele para que falasse. Foi um erro. Era, na gíria demencial das pessoas cultas, contra o «ethos» do lugar. Ali, como no Downtown Club, não se falava de negócios. George gostava de dizer que os banhos de vapor eram o último refúgio na floresta em chamas, onde os animais hostis observavam uma trégua e a lei das presas e das garras estava suspensa. Temo que tenha retirado esta comparação de Walt Disney. O aspecto que fazia questão em recordar-me é o de que não estava certo que alguém se ocupasse de negócios ou fizesse ofertas comerciais enquanto se tomavam banhos de vapor. O Pai Swiebel foi responsável pela situação e assim o reconheceu.
— O tipo das barbas não queria conversar. Puxei por ele. Por isso, tive o que merecia.
Num lugar em que os homens estão tão nus como os trogloditas das cavernas do Adriático da Idade da Pedra e se sentam juntos, a pingar e enrubescidos, como o pôr-do-sol através da névoa, e, como no caso vertente, um tem uma barba cerrada, castanha e cintilante, e os olhares se cruzam no meio de ondas de suor e vapor, é muito possível que se fale de coisas estranhas. Acontecia que o desconhecido era uma caixeiro-viajante que vendia criptas, campas e mausoléus. Quando o Pai Swiebel ouviu tal coisa, tentou recuar. Mas já era demasiado tarde. Com as sobrancelhas franzidas, os dentes brancos e lábios expressivos rodeados pela densa barba, o homem disse:
— Já tratou do seu último repouso? Tem uma parcela de família? Já tomou as providências necessárias? Não? E porque não? Pode dar-se ao luxo de tanta negligência? Sabe como o vão enterrar? Impressionante! Já alguém lhe falou das condições dos novos cemitérios? Pois não passam de barros da lata. A morte merece dignidade. A exploração é tremenda. É uma das maiores fraudes imobiliárias que existem. Enganam toda a gente. Nunca dão as medidas estipuladas por lei. Vai jazer encolhido para todo o sempre. A falta de respeito é atroz. Mas já sabe como é a política... e as negociatas. Grandes e pequenos, andam todos a sacar. Um dia destes haverá uma investigação judicial e rebentará o escândalo. Muita gente irá parar à cadeia. Porém, será demasiado tarde para os mortos. Ninguém vai abrir túmulos para enterrar os mortos outra vez. De modo que continuará a jazer na sua tumba tapado com uma diminuta mortalha. Com os pés de fora. Como os miúdos nos acampamentos de Verão. E lá vai ficar, com centenas de milhares de corpos, numa morada definitiva aplanada, de joelhos levantados. Será que não tem direito a jazer com as pernas esticadas? E nesses cemitérios nem uma lápide é permitida. Terá de se contentar com uma placa de latão com o nome e as datas. Depois vêm as máquinas que aparam a relva. Costumam usar aquelas que têm lâminas múltiplas. É como estar enterrado num campo de golfe público. As lâminas riscam as letras do latão, que depressa ficam apagadas. E então deixará de poder ser localizado. Os seus filhos não conseguem encontrar o sítio. Está perdido para sempre...
— Pare! — gritou Myron, mas o homem continuou.
— Num mausoléu é muito diferente. Não custa tanto como se pensa. Estes novos modelos são pré-fabricados, mas são cópias dos melhores, a começar pelos túmulos etruscos, passando por Bernini e acabando na art nouveau de Louis Sullivan. As pessoas agora andam loucas com a art nouveau. Pagam fortunas por um candeeiro Tiffany ou por um lustre. Comparativamente, um túmulo art nouveau pré-fabricado sai barato. E assim uma pessoa distingue-se da multidão. Está no que é seu. Ninguém quer ficar encerrado para toda a eternidade no meio de um engarrafamento de trânsito numa autoestrada ou numa enchente do metropolitano."
18/03/12
Para não estar sempre a bater no mesmo ceguinho
E, a propósito de ambos os citados, cito o malogrado Christopher Hitchens: Everybody does have a book in them, but in most cases that's where it should stay.
Excerto de a máquina de fazer espanhóis, valter hugo mãe: “Abracei o corpo da minha mulher, segurei-lhe a mão, a sua cabeça no meu ombro,criei um pequeno embalo, como para adormecê-la, ou como se faz a quem chora e queremos confortar. vai ficar tudo bem, vai correr tudo bem. o que era impossível, e o impossível não melhora, não se corrige. estávamos encostados à parede, sobre o cortinado, como fazíamos na juventude para os beijos e para as partilhas tolas de enamorados. estávamos escondidos de todos, eu e a minha mulher morta que não me diria mais nada, por mais insistente que fosse o meu desespero, a minha necessidade de respirar através dos seus olhos, a minha necessidade vital de respirar através do seu sorriso. eu e a minha mulher morta que se demitia de continuar a justificar-me a vida e que, abraçando-me como podia, entregava-me tudo de uma só vez. e eu, incrível, deixava tudo de uma só vez ao cuidado nenhum do medo e recomeçava a gritar.”
Incrível, indeed.
13/03/12
Há muito tempo que não visitava o José Luís Peixoto salvo seja ou se isto é literatura eu sou a Marilyn Monroe*
«Havemos de engordar juntos.
Normalmente, toda a gente está demasiado preocupada em colocar a barra que diz "cliente seguinte", estão ansiosos, nervosos, têm medo que aquele que está à frente lhes leve os iogurtes, têm medo de pagar o fiambre daquele que está atrás. Enquanto não marcam essa divisão, não descansam. Depois, não descansam também, inventam outras maneiras de distrair-se. É por isso que poucos chegam a aperceber-se de que a verdadeira imagem do amor acontece na caixa do supermercado, naqueles minutos em que um está a pôr as compras no tapete rolante e, na outra ponta, o outro está a guardá-las nos sacos.
As canções e os poemas ignoram isto. Repetem campos, montanhas, praias, falésias, jardins, love, love, love, mas esse momento específico, na caixa do supermercado, tão justo e tão certo, é ignorado ostensivamente por todos os cantores e poetas românticos do mundo. Bem sei que há a crueza das lâmpadas fluorescentes, há o barulho das caixas registadoras, pim-pim-pim, há o barulho das moedas a caírem nas gavetas de plástico, há a musiquinha e os altifalantes: responsável da secção de produtos sazonais à caixa 12, responsável da secção de produtos sazonais à caixa 12; mas tudo isso, à volta, num plano secundário, só deveria servir para elevar mais ainda a grandeza nuclear desse momento.
É muito fácil confundir o banal com o precioso quando surgem simultâneos e quase sobrepostos. Essa é uma das mil razões que confirma a necessidade da experiência. Viver é muito diferente de ver viver. Ou seja, quando se está ao longe e se vê um casal na caixa do supermercado a dividir tarefas, há a possibilidade de se ser snob, crítico literário; quando se é parte desse casal, essa possibilidade não existe. Pelas mãos passam-nos as compras que escolhemos uma a uma e os instantes futuros que imaginámos durante essa escolha: quando estivermos a jantar, a tomar o pequeno-almoço, quando estivermos a pôr roupa suja na máquina, quando a outra pessoa estiver a lavar os dentes ou quando estivermos a lavar os dentes juntos, reflectidos pelo mesmo espelho, com a boca cheia de pasta de dentes, a comunicar por palavras de sílabas imperfeitas, como se tivéssemos uma deficiência na fala.
Ter alguém que saiba o pin do nosso cartão multibanco é um descanso na alma. Essa tranquilidade faz falta, abranda a velocidade do tempo para o nosso ritmo pessoal. É incompreensível que ninguém a cante.»
(...)
*Não vá aparecer gente ao engano
08/09/10
Já não se escrevem começos destes [ou se calhar escrevem-se]

17/08/10
Da esquerda e da direita ou como se prova de novo mais valem dois escritores a voar do que um político na mão
[Enquadramento: o pequeno texto que se segue foi retirado de Como um Verão que Não Voltará (Quetzal, 2010), livro de memórias e reflexão assinado pelo marroquino Mohamed Berrada. Viagem na primeira pessoa até ao Egipto, cobre um período que vai dos anos 50 até ao final do século XX e é um documento imprescindível para se perceber como em meia dúzia de anos se pode passar da civilização à barbárie (e note-se que na Europa também já se provou do mesmo…)]«Hammad não esquecerá o seu encontro com o poeta Salah Jahine no início dos anos setenta. Tendo vindo ao Cairo procurar elementos para a sua tese, instalara-se numa pensão perto da avenida Kasr al-Nil. Uma noite, quando estava estendido na cama, foi iluminado pelo som de um alaúde acompanhado de uma voz doce e, de tempos a tempos, por comentários e risos; os ocupantes do quarto ao lado haviam organizado uma pequena festa entre amigos. No dia seguinte de manhã, perguntou ao proprietário da pensão quem ocupava o quarto: era o compositor Sayyed Mekkaoui. À tarde, ao sair, cruzou-se com Salah Jahine, cujo rosto lhe era familiar. Cumprimentou-o e apresentou-se; começaram a conversar e, quando Hammad lhe disse que gostaria de o rever com mais tempo, o poeta concordou de boa vontade e combinaram jantar juntos. Hammad, ainda cheio de entusiasmo apesar das decepções, inclinava-se para a revisão radical da experiência da esquerda. Nasser estava morto e tinha deixado um vazio que ninguém sabia como preencher. Hammad, ao abrigo da sua juventude e inexperiência, elaborava críticas e indicava o caminho da esperança; Salah Jahine deixava-o falar, contentando-se em intervir de tempos a tempos para lembrar a sucessão de desmoronamentos e recuos que assinalava a morte do grande sonho. Havia na voz dele uma melancolia indescritível; mesmo quando gracejava, o seu riso breve não conseguia vencer o muro de tristeza que o habitava por inteiro. Depois do jantar, Salah ofereceu-se para acompanhá-lo; a conversa continuou. Hammad falava e Salah escutava pacientemente. Chegados à porta da pensão, este disse-lhe:
— Ouça, ostaz Hammad, tudo o que diz é muito bonito mas, infelizmente, não serve para nada.
— E porquê, ostaz Salah?
— Porque o povo sempre foi de direita!
Hammad lançou um olhar surpreendido ao seu interlocutor; continuava embrulhado na sua tristeza, mas, de repente, desatou a rir. Riu-se com ele e depois separaram-se com um aperto de mão. Foi o seu primeiro e último encontro com Salah Jahine [que assina os diálogos e as canções do filme abaixo, realizado antes da moda da burka].»
[Nota de rodapé incluída no livro:] Poeta e artista de génio multifacetado, Salah Jahine (1930-1986), renovador da poesia egípcia e de expressão dialectal, foi também autor de canções glorificadoras da revolução e de Nasser, bastante populares nos anos sessenta. Muito afectado pela derrota de 1967, minado pela depressão, acabou por se suicidar em 1986.
30/03/10
Só para vos fazer inveja: eu hoje acordei assim, a ler o novo Vila-Matas e a ouvir The Ronettes
Aqui estou no meu quarto habitual, onde me parece ter estado sempre. Como tantas outras manhãs da minha vida, encontro-me em casa a escrever. Ressoa, vibrante, a música Be My Baby, cantada pelas The Ronettes. Quando tinha dezassete anos, era a minha canção preferida. De repente, ouço perfeitamente que alguém acaba de chegar ao patamar, no elevador. Mas é estranho. Quem chegou não toca a nenhuma das quatro portas, nem se decide a abrir nenhuma delas. É como se tivesse ficado indeciso, aturdido ou simplesmente imóvel, ali. Vivo há tantos anos nesta casa, que controlo muito bem os sons que se possam ouvir perto da minha porta. Passam quase dois minutos até que, exactamente quando a canção termina, tocam à minha porta. Abro. Vejo um homem, mais ou menos da minha idade. É o estafeta de uma editora e veio entregar-me um livro. Dá-mo e assino um papel. «As Ronettes...», sussura o homem, melancólico. «Põem-me bem-disposto», comento sem me mostrar surpreendido - embora o esteja - por ele conhecer The Ronettes. Sorrio, despeço-me, fecho a porta devagar, com a amabilidade habitual. Fico à escuta atrás da porta e noto que o homem não entra no elevador. É possível que tenha voltado a ficar imóvel no patamar. Seguramente, deixou-se ficar encostado a uma parede, quebrado, desfeito de nostalgia e até a chorar, à espera que volte a pôr-lhe Be My Baby.»
[abertura de] Diário Volúvel, Enrique Vila-Matas, Teorema, 2010, tradução de Jorge Fallorca
09/03/10
Independentemente das alterações climáticas serem ou não resultado da acção humana, a verdade é que já não se aguenta esta chuva
Enquanto não passa, aproveite-se para ler Crónica de Wapshot de John Cheever (Relógio D'Água).Retiro o excerto do prefácio de Rick Moody: "Vistam roupa escura depois das seis da tarde. Comam peixe fresco ao pequeno-almoço sempre que possível. Evitem ajoelhar em igrejas de pedra sem aquecimento. [...] Mantenham-se sempre aprumados. Apreciem o mundo.»
23/02/10
Por contraste com gente estúpida, cite-se um ser inteligente
Sir Stanford Raffles, em 1819, teve toda a razão em escolher Singapura como base da Companhia das Índias. Quem quisesse navegar para Sudeste evitando as monções tinha de passar por ali. A situação geogáfica de Singapura era a sua riqueza. Ainda hoje assim é, por isso Singapura é uma das grandes encruzilhadas marítimas do mundo. Um encruzilhada muito vulnerável, porém.07/12/09
Gostar de [alguns] homens: e que se lixe o feminismo pequeno-burguês de fachada socialista
(...) Como dezanove, em cada vinte dos seus devaneios habituais [das mulheres], são relativos ao amor, esses devaneios, depois da intimidade, acabam por se agrupar em torno de um só objecto; prestam-se a justificar um comportamento extraordinário, decisivo e contrário às regras do pudor. Nos homens esse trabalho não existe; em seguida, a imaginação das mulheres disseca à-vontade esses instantes tão deliciosos.
Como o amor faz duvidar das coisas mais comprovadas, a mesma mulher que, antes da intimidade, estava tão segura de que o seu amante era um homem acima do vulgar, mal julga não ter mais nada a recusar-lhe, treme ao pensar que ele poderá tê-la procurado apenas para acrescentar mais uma mulher à sua lista.
Só então surge a segunda cristalização que, porque acompanhada pelo medo, é de longe muito mais forte.
(Esta segunda cristalização não existe nas mulheres fáceis que estão bem longe de todas estas ideias romanescas)
Uma mulher acredita ter passado de rainha a escrava. Este estado de espírito e de alma é ajudado pela embriaguez nervosa nascida dos prazeres tanto mais sensíveis quanto mais raros. Uma mulher, no seu ofício de bordar, trabalho insípido que apenas ocupa as mãos, sonha com o seu amante, enquanto este, a galope na planície com o seu regimento, é posto sob prisão se origina um passo em falso.
Estou em crer, pois, que a segunda cristalização é muito mais forte nas mulheres porque o receio é mais vivo; a vaidade, a honra estão comprometodas ou, pelo menos, as distracções são mais difíceis.
Uma mulher não se pode guiar pelo hábito de ser racional, esse hábito que eu, homem, adquiro obrigatoriamente no meu escritório trabalhando seis horas todos os dias em coisas frias e racionais. Mesmo fora do amor, as mulheres tendem a entregar-se à imaginação e à exaltação habitual; o desparecimento dos defeitos do objecto amado deve ser, pois, mais rápido.
As mulheres preferem a emoção à razão; é muito simples: como, em virtude dos nossos limitados costumes, elas não têm a seu cargo nenhuma responsabilidade familiar, a razão nunca lhes serve para nada, nunca lhe acham qualquer préstimo.
Ao invés, é-lhes sempre prejudicial, já que apenas surge para as censurar de terem tido um prazer ontem, ou para lhes ordenar que não tenham nenhum amanhã.
Entregue à sua mulher os negócios com os rendeiros de duas das suas terras, e aposto que os registos serão melhor cuidados do que por si, e nessa altura, triste déspota, terá pelo menos direito a queixar-se, já que não tem talento para se fazer amar. A partir do momento em que as mulheres levam a cabo raciocínios gerais, elas fazem amor sem se aperceberem. Nas coisas de pormenor, pretendem ser mais severas, mais exactas do que os homens. Metade do pequeno comércio está entregue às mulheres, que dele se ocupam muito melhor do que os seus maridos. É uma máxima conhecida que quando se fala com elas de negócios, toda a gravidade é pouca.
É que elas estão sempre, e seja onde for, ávidas de emoção: vejam-se os festejos dos funerais na Escócia.
in Do Amor, Stendhal, Relógio D'Água, 2009 (com algumas alterações na tradução introduzidas por moi-même)
[boneco daqui]
29/10/09
Ainda em modo de meditação, a Pastelaria recomenda: "O Sindicato dos Polícias Iídiches"
Começa assim27/10/09
«Princesas, Príncipes, Fadas e Piratas com Problemas» ― um dos contos é meu

Chama-se Crispim, o Pirata que tinha medo da água e há mais cinco aventuras assinadas por Ana Luísa Amaral, Gonçalo M. Tavares, João Pedro Mésseder, Rita Saldanha e Rui Zink. O álbum, editado pela Porto Editora, tem prefácio de Manuel António Pina e coordenação de Pedro Sena-Lino.
O meu conto começa assim
«Era uma vez um pirata de perna de pau, olho de vidro e cara de mau. O pirata de perna de pau, olho de vidro e cara de mau chamava-se Crispim e estava farto de ser pirata. O que ele queria ser era apanhador de ostras.
«Crispim nascera numa família de piratas: pai pirata, mãe pirata, avós e avôs piratas, tios, tias, primos e primas, todas e todos piratas... Enfim, até onde ele conseguia descer na árvore genealógica, nunca ninguém na família fizera nenhuma outra coisa que não fosse piratear. A única excepção era o seu primo Catita, conhecido por Olho de Peixe-Agulha, que um dia, perdido de amores por uma camponesa, trocou os perigos do alto mar pela vida de agricultor. A família falava dele com um enorme desprezo e passara a chamá-lo Catita, Olho de Couve-Lombarda.
«Crispim tinha cara de mau mas não era mau de todo. Claro que quando era criança sonhara ser tão malvado como o célebre Capitão Gancho. Ao aprender a ler, porém, deixara-se dessas manias.»
(continua)
10/09/09
Dos modismos contemporâneos já detectados por Sabato em 1948 [ou de como os medíocres nunca dizem nada de novo]
«Foi quando já estávamos à mesa que a magra me perguntou que pintores preferia. Citei ignobilmente alguns nomes: Van Gogh, El Greco. Olhou-me com ironia e disse como se falasse para si:― Tiens.
Depois acrescentou:
― Aborrecem-me as pessoas grandiosas. Sempre te digo ― prosseguiu, dirigindo-se a Hunter ― que me incomodam esses tipos como Miguel Ângelo e El Greco! A grandeza e o dramatismo são tão agressivos! Não achas que é quase má-educação? Creio que o artista se devia impor o dever de nunca atrair as atenções. Indignam-me os excessos de dramatismo e de originalidade. Repara que ser original é de certo modo evidenciar a mediocridade dos outros, o que me parece de gosto duvidoso. Creio que, se pintasse ou escrevesse, faria coisas que nunca chamassem a atenção.
― Não duvido ― comentou maldosamente Hunter.
Depois acrescentou.
― Tenho a certeza de que não gostarias de escrever, por exemplo, Os Irmãos Karamazov.
― Quelle horreur! ― exclamou Mimí, revirando os olhitos. Depois completou o pensamento ―: Parecem todos nouveaux-riches da consciência, incluindo esse moine, como se chama ele?... Zozime.»
O Túnel, Ernesto Sabato, página 91, Relógio D'Água, tradução de Francisco Vale, 2009 (reedição)
18/08/09
Ora tomem lá as razões de Montherlant contra os três pontinhos… e embrulhem [a propósito de uma campanha contra o elegante !]

E transcrevo, no original, excerto de Les jeunes filles, romance de Henry de Montherland onde o escritor francês, autor, entre outras coisas, de uma peça de teatro chamada La reine morte (a qual não abona muito a favor da coitada da Inês de Castro…), desanca no uso exagerado das reticências por certos espíritos femininos.
A parte traduzida insere-se numa passagem que contém duas cartas: uma, enviada a Montherlant por uma senhora indignada com a visão misógina dele; outra, com a respectiva resposta – misógina, talvez, cínica, certamente, mas com uma graça infinita!
CARTA PARA HENRYHenry... si je puis me permettre de vous appeler par votre prénom... Les jeunes filles que vous peignez dans vos écrits auraient bien des choses à vous apprendre d'elles-mêmes... elles ne sont pas que l'expression de la niaiserie... Mais comment l'auriez-vous su... quand on sait ce qu'était votre mère... et quand on connaît vos penchants...
Mon cher ange décédé... le fait que vous étiez inverti ne me dérange en rien... (passez le bonjour à Peyrefitte... dont j'ai tant aimé «Les amitiés particulières», c'est la votre existence sur laquelle je ne dirai rien. Mais vous auriez dû en oublier celles que vous ne connaissiez que trop mal).
En revanche je vous félicite pour votre «ville où le roi est un enfant», l'histoire sentimentale est là, plus vraie que nature...
Merci quand même... car nous les femmes... nous arrivons à aimer les misogynes....
Ana de Lyne
CARTA DE HENRY
Madame,
Je voudrais bien recevoir une fois dans ma vie une lettre de femme qui ne fût pas emplie jusqu'à la caricature de ce style féminin dont le succès va malheureusement croissant. Il est vrai que les points de suspension ont cet avantage qu'ils permettent de laisser croire à quelque développement de la pensée tenu secret et comme réservé à la complicité du lecteur quand ils ne recouvrent en réalité que vide ou confusion; mais là, sincèrement, vous en abusez, et avec quelle obstination!
Bien entendu, votre lettre n'eût pas été complète, ni assez féminine en ce sens, sans l'emploi du verbe aimer, compliqué d'un petit paradoxe exaltant de surcroît le goût du martyre public pour lequel vous êtes si douées: si vous aimez les misogynes et que vous y trouviez votre compte, eh bien tant mieux pour vous; car je crois pouvoir affirmer que ceux-ci se passent fort bien d'une telle furia amoris.
Vous faites allusion aux romans de la série des «Jeunes Filles»: si vous n'avez vu dans les personnages féminins que «l'expression de la niaiserie», je crains que votre lecture n'ait été superficielle; la niaiserie n'est jamais tragique comme peut l'être la sentimentalité, ni pathétique comme le ridicule, ni dangereuse comme la bêtise.
D'ailleurs, si ignorant de la nature féminine que vous me considériez, il semble pourtant que mes portraits soient cruellement justes; nombre de femmes en ont convenu dans une enquête menée par le magazine «Les Nouvelles Littéraires» d'août 1936, auquel je vous renvoie. De plus, d'autres femmes de mes relations ont cru, bien à tort, se reconnaître dans mes héroïnes et ont fait bien du tapage à ce sujet! Mon ambition est donc pleinement atteinte, qui désirait montrer la femme telle qu'elle est, et non à travers l'idéalisation forcenée et criminelle que nous connaissons.
Enfin, puisque «La ville dont le prince est un enfant» vous a tant charmé, apprenez que, comme je l'ai confié ailleurs, nombre de traits de ma mère se retrouvent dans ceux de Madame de Sevrais; vous jugerez donc s'il n'est pas trop hardi de votre part de prétendre savoir qui elle était, vous qui vivez presque un siècle après sa mort.
Bien à vous,
Henry de Montherlant
A CAMPANHA CONTRA O PONTO DE EXCLAMAÇÃO TERÁ COMEÇADO AQUI, GANHOU CORPO AQUI E TEVE COMENTÁRIO ATINADÍSSIMO AQUI.
23/07/09
Um qualquer Outubro na algibeira
Quando dizemos «Outubro», soltamos evocações. Apesar de longínquo, o estrépito da fuzilaria imaginária disparada em São Petersburgo sobre o Palácio de Inverno ― que Annenkov e depois Eisenstein encenaram, tornando-o «real» ―, chega-nos ainda aos ouvidos, distribuindo posições de combate e rearmando certezas. Mas porque regressar aqui a acontecimentos que, fora do universo protegido dos prosélitos mais irredutíveis da revolução proletária, nos chegam sobretudo como um rumor épico que a ficção, o documetário e os compêndios de vez em quando libertam? Talvez valha a pena fazê-lo porque eles se referem a um tempo e a um lugar onde foi possível acreditar na materialização de uma das mais antigas intenções humanas: o advento de uma época afortunada, no qual a luta entre o bem e o mal tenha sido resolvida com a vitória irrevogável do primeiro. Instante de uma «luta final» rumo a uma nova era, o Outubro ideal do qual aqui se fala condensou, e a sua dimensão simbólica ainda hoje representa, uma parte daquilo que de melhor a humanidade tem sido capaz de conceber como destino.Enquanto sinal de utopia, mobiliza as capacidades do ser humano para traçar colectivamente um mundo alternativo, desejavelmente melhor, e o facto de ter dado historicamente lugar a universos tristes e bloqueados, a regimes rudemente tirânicos, a experiências concentracionárias com o rosto negro do mal, não foi suficiente para desactivar o seu potencial criador. A Revolução de Outubro não representa apenas aquele episódio datado que na velha Rússia recém-liberta do domínio dos czares levou Lenine e os bolchequives ao assalto do poder: permanece também como sinal de esperança que nem mesmo a perversão e a derrocada do «socialismo real», e a acelerada transformação do mundo que se lhe seguiu, foram capazes de apagar. Porque, como se poderá ver nas páginas que seguem, a vontade que ela enunciou continua a produzir uma expectativa e a desenhar uma possibilidade.
Importa salienta que este livro, retomando com aperfeiçoamentos e curtas adendas um conjunto de textos escritos e plublicados no blogue pessoal A Terceira Noite ― um a um e sem plano prévio, de Setembro a Setembro nos anos de 2007 e 2008 ― não tem o formato de um estudo histórico clássico capaz de integrar processos exaustivos de pesquisa, análise e comparatibilidade. Partindo de dados objectivos e de muitas leituras sobre a matéria, trata-se antes de um ensaio que pode contribuir para a superação de algumas das perspectivas acríticas da Revolução de Outubro e da pesada mitologia produzida e conservada à sua volta. Reportando-se a factos mas integrando também, recolocando-as sem qualquer dogmatismo, memórias e crenças que continuam a moldar algumas das preocupações contemporâneas. Afinal, para uns quantos de nós ― talvez não muitos, mas uns quantos que não se conformam com o mundo tal qual ele é ―, haverá sempre um Palácio de Inverno para tomar.
Um agradecimento dirigido a todos os que me incitaram a escrever até ao fim este conjunto de textos e a publicá-los em livro. Destacando o apoio próximo e crítico da Adriana Bebiano e do Miguel Cardina. Também eles, ao que julgo saber, com um qualquer Outubro na algibeira.
Outubro, Rui Bebiano, 2009, Angelus Novus
[Os bolds são meus]
10/07/09
Só para vos fazer inveja: Dona Laura e o pudim voador
Voltarei mais tarde a Dona Laura. Por agora, transcrevo uma história. Como aperitivo.
"Quando me casei, aos 21 anos, era perfeitamente ignorante em matéria de cozinha. Fui morar em Houghton, uma cidadezinha mínina, no norte de Michigan, à beira do Lago Superior, nos Estados Unidos.
(...)
Durante muito tempo só usei receitas americanas, porque me sentia mais segura com a exatidão delas, o que não impedia, entretanto, que fizesse muita comida ruim, como galinha meio crua e macarrão cozido demais, até adquirir alguma prática.
(...)
Uma vez, ainda em Houghton, fiz uma coisa extraordinária: um pudim de claras! Fiz tudo como mandava o figurino e coloquei o pudim no forno em banho-maria. Quando devia estar pronto fui olhar. O pudim tinha sumido. Não sabia o que podia ter causado o fenómeno, mas descobri: o pudim tinha levantado voo - subiu e ficou grudado no teto do forno. Durante um tempão a casa ficou cheirando a açúcar queimado toda vez que se ligava o forno. Dessa vez a exatidão não funcionou."
29/06/09
Um poeta atira-se à jugular da prosa
José Agostinho Baptista conta uma história. Chama-se O Pai, a Mãe e o Silêncio dos Irmãos e foi agora publicado, como habitualmente, pela Assírio & Alvim. Termina assim:«Rondarei as cavernas, a cria do urso branco, as ossadas de um mercador e de um peregrino. Entre o gelo e o degelo, pressentirei a alcateia que desde a infância me conhece tão bem como conhece as suas crias. Alisarei a pedra, o punhal, o machado, cortarei as urzes e o zimbro, matarei a lebre e a serpente, e depois será outono e depois inverno e depois primavera e depois o verão. Um dia, o condor subirá até estas paragens e à aproximação do crespúsculo regressará às cordilheiras do sul. À porta do templo dos cem tigres esceveria, se soubesse: eu era o guardião mas agora não sou nada, não quero nada, ando por aí. Só tenho uma flauta de canas verdes e um cão. Tudo o resto sonhei.»
O lançamento de O Pai, a Mãe e o Silêncio dos Irmãos vai acontecer no próximo dia 4 de Julho, no Restaurante Many, a partir das 18 horas, na Fajã da Areia, São Vicente, Ilha da Madeira.
23/06/09
Don DeLillo: retrato exacto de uma geração em 429 palavras [como só um escritor seria capaz, claro]
(...) «Toda a gente já leu sobre como foi difícil para vocês, veteranos do Vietname, a transição para a vida civil. Estavam tão bem nos campos de prisioneiros, a supervisionar a tortura de um ou outro camponês.»«É melhor ir com calma», disse ele.
«E de repente vêem-se de volta à América e andam por aqui, desconcertados. Não admira que conservem o mesmo sorriso. Eu sei, os camponeses eram perigosos. O inimigo estava por todo o lado.»
«Está a sair dos seus domínios.»
«É verdade», disse ela. «É uma insolência da nossa parte, os não combatentes, criticarmos Os Que Estiveram Lá. Eu compreendo esse ponto de vista e até simpatizo com ele. Ainda assim, sempre senti que a melhor forma de ver as coisas é objectivamente e, às vezes, a distância permite-nos uma visão mais clara e precisa. Uma distância de milhares de quilómetros. Os sofrimentos testemunhados em ambos os lados do conflito podem não passar de uma mentira. Mas você tem razão, em termos gerais. No meu ridículo esforço para ser imparcial, consigo compreender o seu ponto de vista. E, sim, admito que estou fora dos meus domínios. Por isso, voltemos atrás. Falemos antes de coisas que vi e ouvi.»
O táxi seguia agora para o centro da cidade pelo lado oeste do parque.
«Você e o senador andam atrás do mesmo. Eu sei do que se trata, embora não possa dizer que compreenda plenamente que interesse vêem naquilo. Mas não importa. O que importa é que um homem foi morto à conta disso.»
«E acha que isso é importante.»
«Acho que merece ser tido em consideração.»
«A mim não me parece que seja importante.»
Mudger estava inclinado para ela, coarctando-lhe um pouco o espaço, com o seu braço esquerdo estendido sobre o topo do banco.
«Está a aprender a falar comigo?», perguntou ela.
«Como?»
«Disse que não sabia falar comigo. Que por isso é que aqui estava.»
«Estou a aprender alguma coisa. Não sei bem o quê. Acha então que é importante. Um homem foi morto. E há dez anos, também achava que foi importante? No tempo do seu perito em demolições?»
«Está a par disso. Claro.»
«Claro que estou. O grande Gary Penner, já falecido. E ali andava você, muito magra e perdida, no seu casaco com dragonas. Quantas pessoas é que o Gary mandou pelos ares, nas suas aventuras? Você devia saber. Vivendo com ele. Tendo vivido com ele. Meia dúzia de seguranças. Alguns transeuntes. Um braço aqui, uma perna acolá.»
Moll olhou pela janela.
«Você não interveio directamente. Assistir da bancada já era suficientemente divertido. Mas entretanto amadureceu, não é verdade? O terror já não é tão excitante como outrora. Sabemos demasiado. Vimos coisas. Agora dedicamo-nos à jardinagem biológica.»
«Acha mesmo que amadureci?»
«Um pouco», disse ele. «Em certa medida. O suficiente para estabelecer limites.»
(...)
Cão em Fuga, Don DeLillo, Relógio D’ Água, 2009, trad. de José Miguel Silva
02/05/09
Oh! o antiquíssimo método das bengaladas
[...]O Sr. Luciano de Castro (interrompendo com grandes punhadas na mesa): – O ilustre deputado tem estado simplesmente a dizer refinadíssimas petas...
Vozes: – Apoiado, apoiado!
O orador (voltando-se e desabotoando o colete): – Petas? oh! formidável patife! (apoiado, apoiado). Eu, sr. presidente, não posso consentir que esse celerado entre no meu foro interior!
Vozes: – Fora, fora!
O Sr. Coelho do Amaral (espancando com grande dignidade o Sr. Barros e Cunha) : – E aqui está, sr. presidente, como se prova que o Sr. Barros e Cunha não tem razão alguma nos princípios que estabeleceu.
O Sr. Mariano de Carvalho: – Mas a ditadura foi nefasta! E não há biltre nenhum que me prove o contrário... (tira o casaco).
O Sr. Coelho do Amaral (continuando o espancamento): – Não me interrompam o discurso!
O Sr. Presidente (aos Srs. Mariano e Santos Silva): – Os senhores não têm direito a interromper sovas que o regimento garante (berreiro).
O Sr. Presidente do Conselho: – A Câmara está-se sepultando na mais profunda abjecção!
(O sr. presidente do Conselho sucumbe, sob uma chuva de bengaladas).
O Sr. Braamcamp (batendo com a bengala sobre a mesa, a um continuo) :–Dois cafés! Um cabaz!
Vozes (atravessando o corpo legislativo). –Salta, meia de Colares!
O Sr. Pinheiro Chagas (deitado, fumando com ar melancólico):
Branca visão doutros Céus!»
Vozes: – Ele cisma! Ele cisma!
A oposição atira cebolas ao Sr. Pinheiro Chagas. Alguns senhores deputados dizem obscenidades, que o ruído impediu que chegassem à mesa dos taquígrafos.
O orador: – A Câmara não quer escutar-me? Pois bem, eu passo a outros argumentos... (Distribui bengaladas).
Tumulto. O sr. presidente atira a campainha à cara da maioria, e o tinteiro aos queixos da oposição. Alguns senhores deputados miam de gato. O Sr. Santos e Silva, no auge da sua indignação dá cambalhotas. O Sr. Jota Moniz, no seu zelo pelos princípios, retira-se da sala. O Sr. Luís de Campos termina por distribuir, bem a seu pesar, uma prodigiosa quantidade de pontapés, com uma nobre imparcialidade.
O Sr. Presidente: – Para amanhã continua esta interessante discussão.
A Câmara sai correndo, gritando, rebolando pelas escadas abaixo.
Os contínuos levantam as garrafas de Colares.
Imagem encontrada aqui.
20/03/09
Ah! como a inteligência pode ser afrodisíaca mesmo quando o assunto é a crise

16/03/09
A cabeça entre as mãos porque isto de rir sempre também cansa ou então até logo

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