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25/02/22

MEDITAÇÃO DE SEXTA: «Livros Maus como as Cobras»

«... Diz-se que o mundo, a propósito das tensões a Leste [...] assiste a uma corrida aos armamentos. Entre nós, a propósito do Inquérito às Práticas Culturais dos Portugueses 2020, encomendado pela Fundação Calouste Gulbenkian ao Instituto de Ciências Sociais, assistiu-se, dir-se-ia, a uma corrida às estantes. Falamos, claro, do conteúdo reservado às práticas culturais relacionadas com a leitura.

Escândalo! Vergonha! Alarme! — repercutiu-se estrondosamente das trincheiras minhotas às algarvias, ilhas adjacentes incluídas. 61% dos portugueses não leram um único livro impresso em 2020 e a leitura em formato digital ficou-se pelos 10%. O horror! O apocalipse! E perante tal rasgar de vestes que não de páginas, apetece perguntar: e novidades, há?

A pergunta não é retórica nem pretende ter graça. Desgraçadamente, num estudo a pedido da Comissão Europeia, realizado entre 22 de Agosto e 27 de Setembro de 2001, concluía-se que Portugal apresentava os piores resultados no que respeita a hábitos de leitura: 67% dos cidadãos assumiam que não tinham lido nenhum livro nos doze meses anteriores. Em 2007, a percentagem descia para 57,8%; em 2011 subia para 59,5%, sempre na penúltima posição mais gravosa, a última a manter-se na Roménia. Em 2016, chegava-se aos 62%, taco a taco com os valores apresentados pelo recente Inquérito… referente a 2020. Perante os números, a conclusão não é difícil, mesmo para quem aplauda a frase que Mark Twain atribuiu (indevidamente, parece) ao primeiro-ministro britânico Benjamin Disraeli, “There are three kinds of lies: lies, dammed lies, and statistics”. E a conclusão é esta: para onde quer que se olhe, por onde quer que se espreite, há décadas que mais de metade dos portugueses não pega num livro.»

O RESTO AQUI

15/04/10

Silogismos de pendor aristotélico a propósito das declarações de Tarcisio Bertone ou, literalmente, da relação entre o cu e a batina

Percebo que o Vaticano tenha vindo tentar pôr água na fervura [embora não tenha entendido bem a especificidade da pedofilia entre o clero versus pedofilia em geral].
Feita a ressalva, a verdade é que até a mim escapara o modo como as declarações do cardeal Tarcisio Bertone, que pretenderam estabelecer uma relação causal entre homossexualidade e pedofilia, poderiam ser favoráveis à Igreja.
Senão vejamos. Em traços gerais, o que o cardeal disse foi:
1. Não há relação entre celibato e pedofilia
2. Há relação entre pedofilia e homossexualidade.
Aceitemos a bondade das afirmações proferidas. Temos assim:
1. Todos os padres são celibatários
2. Alguns padres são pedófilos
3. Não há relação entre celibato e pedofilia
4. Há relação entre pedofilia e homossexualidade
5. Todos os padres são celibatários e alguns, além disso, são pedófilos e homossexuais
Conclusão: 3 em 1?
Nota: A questão central que o Cardeal Tarcisio Bertone parece ter esquecido é que a pedofilia é crime e a homossexualidade não.
Quanto à relação causal – pretensamente baseada em estatísticas – vale o que vale. Ou seja, zero.
O que me recorda uma anedota lida algures online: 33% dos acidentes de trânsito envolvem pessoas embriagadas. Logo, 67% envolvem pessoas completamente sóbrias. Conclusão: é sempre preferível conduzir bêbedo.