1. Bento XVI foi a Angola, onde repisou a nega ao preservativo. Até aqui nada de novo debaixo do Sol: sempre foi essa a posição oficial da Igreja católica.
2. Há já alguns anos, ainda a SIDA era uma criança, li uma frase de uma psicóloga francesa, salvo erro, que dizia assim: «se a SIDA se transmitisse pelos brócolos seria fácil exterminá-la, deixávamos todos de comer brócolos». Sabendo nós que não é assim, pia mais fino.
A SIDA vive ligada à sexualidade, essa coisa que, por muito que os puritanos estrebuchem, é bastante menos controlável do que os brócolos. A malta aprecia sentir uns orgasmos (pelo menos de vez em quando) e a maioria das mulheres ainda engravida segundo o velho método bíblico do conhecimento presencial.
3. As declarações de Bento indignaram muita gente. Não, naturalmente, pela sua novidade, mas, julgo eu, por terem sido proferidas num continente (e num país) onde a SIDA constitui um flagelo e dos valentes. Houve mesmo quem falasse em declarações criminosas.
4. Objectivamente, sabe-se que o uso do preservativo impede a transmissão da SIDA. Mas a prova que os humanos são muito menos racionais que o (meio) vulcaniano doutor Spock é que nem toda a gente pensa nisso no momento decisivo. E não é preciso ir a África: quem nunca correu esse risco que atire a primeira pedra.
5. Por outro lado, também objectivamente, sabe-se que a Igreja católica tem uma doutrina própria e orienta-se por uma série de princípios. Pode-se concordar ou não: felizmente que a Igreja já há muito deixou de ser um partido de filiação obrigatória.
Entre esses princípios está o entendimento da sexualidade como um exclusivo matrimonial. Antes do casamento não há brincadeiras para ninguém e, durante o casamento, a fidelidade faz parte das obrigações a que não se pode fugir. Assim sendo, é, pelo menos do ponto de vista lógico, absolutamente compreensível que face à SIDA o Papa não transgrida. Os princípios (dogmas) são isso mesmo: princípios (dogmas).
Se eu sou contra a pena de morte, devo ser contra a pena de morte – sempre. Mesmo que me tenham exterminado a família (ninguém disse que era fácil ter princípios, embora mais depressa perceba a justiça por mãos próprias que um Estado que mata em nome da Lei...).
6. Mas desçamos agora à terra. A prática dos humanos demonstra que a abstinência sexual antes do casamento, e a fidelidade absoluta durante o mesmo, é um mito. Os jovens há muito que trocaram o Romeu e Julieta pelas novelas da SIC e os casais encornam-se mais ou menos alegremente, para usar uma linguagem que toda a gente percebe.
Deveria, face a esta realidade, a Igreja rever o seu dogma? Bom, a ética, do meu ponto de vista, não é uma pragmática – não varia ao sabor das circunstâncias. E, assim sendo, entendo que Bento não ceda.
7. Apesar disso. Faz-me espécie que a regulação extrema da sexualidade faça parte dos dogmas católicos. Por outro lado, faz-me espécie que essa regulação seja tão pouco compassiva com os que não a cumprem.
Explico-me melhor: em que é que a fidelidade absoluta ou a abstinência pré-matrimonial contribuem para nos tornar melhores e aproximar-nos de Deus? (Julgo ser esse o objectivo geral da coisa apesar de não ter ido à catequese). E não será o valor da compaixão superior ao valor do matrimónio?
2. Há já alguns anos, ainda a SIDA era uma criança, li uma frase de uma psicóloga francesa, salvo erro, que dizia assim: «se a SIDA se transmitisse pelos brócolos seria fácil exterminá-la, deixávamos todos de comer brócolos». Sabendo nós que não é assim, pia mais fino.
A SIDA vive ligada à sexualidade, essa coisa que, por muito que os puritanos estrebuchem, é bastante menos controlável do que os brócolos. A malta aprecia sentir uns orgasmos (pelo menos de vez em quando) e a maioria das mulheres ainda engravida segundo o velho método bíblico do conhecimento presencial.
3. As declarações de Bento indignaram muita gente. Não, naturalmente, pela sua novidade, mas, julgo eu, por terem sido proferidas num continente (e num país) onde a SIDA constitui um flagelo e dos valentes. Houve mesmo quem falasse em declarações criminosas.
4. Objectivamente, sabe-se que o uso do preservativo impede a transmissão da SIDA. Mas a prova que os humanos são muito menos racionais que o (meio) vulcaniano doutor Spock é que nem toda a gente pensa nisso no momento decisivo. E não é preciso ir a África: quem nunca correu esse risco que atire a primeira pedra.
5. Por outro lado, também objectivamente, sabe-se que a Igreja católica tem uma doutrina própria e orienta-se por uma série de princípios. Pode-se concordar ou não: felizmente que a Igreja já há muito deixou de ser um partido de filiação obrigatória.
Entre esses princípios está o entendimento da sexualidade como um exclusivo matrimonial. Antes do casamento não há brincadeiras para ninguém e, durante o casamento, a fidelidade faz parte das obrigações a que não se pode fugir. Assim sendo, é, pelo menos do ponto de vista lógico, absolutamente compreensível que face à SIDA o Papa não transgrida. Os princípios (dogmas) são isso mesmo: princípios (dogmas).
Se eu sou contra a pena de morte, devo ser contra a pena de morte – sempre. Mesmo que me tenham exterminado a família (ninguém disse que era fácil ter princípios, embora mais depressa perceba a justiça por mãos próprias que um Estado que mata em nome da Lei...).
6. Mas desçamos agora à terra. A prática dos humanos demonstra que a abstinência sexual antes do casamento, e a fidelidade absoluta durante o mesmo, é um mito. Os jovens há muito que trocaram o Romeu e Julieta pelas novelas da SIC e os casais encornam-se mais ou menos alegremente, para usar uma linguagem que toda a gente percebe.
Deveria, face a esta realidade, a Igreja rever o seu dogma? Bom, a ética, do meu ponto de vista, não é uma pragmática – não varia ao sabor das circunstâncias. E, assim sendo, entendo que Bento não ceda.
7. Apesar disso. Faz-me espécie que a regulação extrema da sexualidade faça parte dos dogmas católicos. Por outro lado, faz-me espécie que essa regulação seja tão pouco compassiva com os que não a cumprem.
Explico-me melhor: em que é que a fidelidade absoluta ou a abstinência pré-matrimonial contribuem para nos tornar melhores e aproximar-nos de Deus? (Julgo ser esse o objectivo geral da coisa apesar de não ter ido à catequese). E não será o valor da compaixão superior ao valor do matrimónio?
Ou seja, já que a santidade não é para todos, ou pelo menos não é para já (e abstenho-me de citar Santo Agostinho…), e dado que o não uso do preservativo aumenta exponencialmente a possibilidade de contrair uma doença mortal, não faria prova de compaixão (e agora falo eu: o único valor ético superlativo e o único que nos impede de sermos uns filhos de puta empedernidos) ceder ao uso do preservativo, evitando, nem que seja potencialmente, milhares e milhares de mortes?
8. Resumindo: a mim o que me parece é que se queremos discutir com a Igreja, não nos podemos limitar a indignar-nos com as declarações deste Papa, que são, aliás, fotocópia das do anterior. Teríamos de discutir, até ao fundo, a cultura de morte e desprazer que subjaz ao edifício católico. E aos seus dogmas. Tenho para mim que tudo o resto são argumentos que Bento, um teólogo formado nas melhores escolas, papa ao pequeno-almoço.
8. Resumindo: a mim o que me parece é que se queremos discutir com a Igreja, não nos podemos limitar a indignar-nos com as declarações deste Papa, que são, aliás, fotocópia das do anterior. Teríamos de discutir, até ao fundo, a cultura de morte e desprazer que subjaz ao edifício católico. E aos seus dogmas. Tenho para mim que tudo o resto são argumentos que Bento, um teólogo formado nas melhores escolas, papa ao pequeno-almoço.





