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27/02/09

Para acabar de vez com o Courbet: a minha definição de pornografia, e sem bonecos

Pornografia é as televisões terem passado a morte de um homem em directo enquanto os portugueses comiam a sopa [mas também ninguém o mandou ser baleado à hora do jantar, não é?], e não só os portugueses terem continuado a comer a sopa como ainda terem comentado à sobremesa que o gajo merecia morrer e mais nada.*
E aposto que, mais coisa menos coisa, serão esses mesmos portugueses que se vêm agora escandalizar porque a senhora que posou para o quadro do Courbet não foi à depilação.
* refiro-me ao assalto à dependência do BES - Campolide em Agosto passado, do qual resultou a morte de um dos assaltantes, que caiu sob o disparo de um atirador especial

26/02/09

Et encore du Courbet ― desta vez lembrando o cariz quase libertário e sem limites e tal... bom, o melhor é lerem

Detecto muito de hipocrisia e de oportunismo em algumas das indignações, de cariz quase libertário, que por aí emergiram em face da decisão de mandar recolher, da venda indiscriminada ao público, exemplares de uma obra que, ao que li na imprensa, se apresentava na capa com uma famosa, bela e impúdica pintura de Courbet (coloquem a palavra "Courbet" no Google Images e logo a verão).
A esses espíritos tão sensíveis à preservação, sem limites, do direito de expor em todas as dimensões públicas e privadas, independentemente da idade dos que a elas têm acesso, todo o tipo de obras de arte, eu gostaria de perguntar se acaso têm sobre a mesa da sua sala, à vista das crianças da casa, os albuns desse fotógrafo de eleição que é Mapplehorpe. Ou se considerariam natural se certos poemas conhecidos de Bocage ou de António Botto fizessem parte das leituras postas à disposição dos seus jovens filhos.
Por princípio, não é muito saudável ver os poderes públicos arvorarem-se em juízes do que alguém pode ou não ver. Em regra, tudo deve estar acessível a todos e também começa a ser óbvio que o conceito daquilo que possa ser uma imagem chocante tem vindo a variar ao longo dos anos - com impacto nos critérios do seu acesso a determinadas faixas etárias.
Mas sejamos honestos: neste caso do quadro de Courbet, a questão não é do domínio da censura, mas apenas de mero bom-senso.
Francisco Seixas da Costa [embaixador em Paris (os bolds no texto são meus)]


Lido aqui. O que só reforça o bom senso do que se escreve neste aqui anteriormente linkado, e que já agora reproduzo e não se fala mais disto. Quero eu dizer, da defesa intransigente da liberdade de expressão.


Ainda a propósito da apreensão de alguns exemplares do livro Pornocracia, Eduardo Pitta faz uma leitura pertinente do «acontecimento», citando alguns artistas «malditos», ainda hoje censurados nos circuitos mais «cultos» por essa Europa fora. (João Pinto e Castro, com mais economia de palavras, levanta a mesma questão nestes termos: quem foi a luminária que decidiu que, lá por uma coisa ser arte, não pode ser também pornografia?) Mas, se me permitem, a questão não reside aí onde a colocaram. A questão tem a ver com a liberdade de expressão e as competências para a sua regulação em caso de conflito com outros interesses jurídicos ou socialmente relevantes. A liberdade de expressão, como pilar fundamental das democracias, não pode ser entregue ao arbítrio das «mães de Bragança» e da polícia. O que se passou na feira do livro de Braga é o mesmo que uma «mãe de Bragança» entrar numa galeria de arte onde se expõem telas de nus masculinos e femininos e ir a correr para a esquadra da polícia mais próxima pedir para encerrar a galeria. E a polícia agir de imediato. E depois dos livros e das galerias, acabávamos por chegar ao cinema, ao teatro e por aí fora. Outra coisa diferente é um galerista, um museu ou um editor se recusar a expor ou a publicar esta ou aquela obra, este ou aquele artista. Ainda bem que a uma só voz se defende a liberdade de expressão, contra arbitrariedades, mesmo quando a arte se «confunde» com pornografia.
Tomás Vasques (os bolds são meus)

― Ah c'etait du Courbet! ― Pois era, chefe. ― Oh diabo! Então, vamos ter que devolver (diálogo imaginário)

Os factos são por demais conhecidos: puseram o Courbet numa capa e, passados uns anitos, a polícia não está de modas ― apreende os livros nuns saldos. É triste, mas não vou falar disso agora.
Vou falar antes do que me fez espécie nesta história, para além do rapto dos livros.
1. Fez-me espécie que, com excepção dos três bófias ignorantes, toda a gente conhecesse Courbet de trás para frente.
2. Fez-me espécie que a indignação com o rapto se baseasse na admiração generalizada pelo Courbet, o grande artista!
Ora bem, eu tenho uma tia que se dedica a pintar aguarelas deslavadas. Vamos supor que a minha tia, em vez de se dedicar às aguarelas deslavadas, se dedicava a passar ao papel os pesadelos do Sade. Por exemplo. Pensem comigo. A minha tia não está, nem nunca estará, recenseada em nenhuma enciclopédia. Mas imaginem que um desses seus desenhos, desprovidos de valor artístico e tão-só denunciadores de uma mente perversa e pornógrafa, recalcada e alimentada por séculos de judaico-cristianismo e um marido chato como a potassa (continuamos a supor...), ia parar à frontaria de um livro (com o horror de frontarias que por aí há, não seria de todo impossível...).
E agora digam-me: como é que os três bófias de Braga iam poder saber quem era a minha tia?

24/02/09

190 anos passados, provoca alterações na ordem pública e incita ao cometimento de outros crimes: ah grande Courbet que não foste anarquista em vão!

O Comando da PSP de Braga já veio explicar os motivos da apreensão dos livros que reproduzem o quadro de Gustave Courbet (1819-1877), L' Origine du monde, uma obra que, se me permitem, não me importaria nada de ter na parede da sala.
Parece pois que houve uns pais que se queixaram, por considerarem que o quadro ofendia o olhar dos seus rebentos. Aconselho tão zelosos educadores a nunca vistarem Florença. Se as crianças tropeçam na pilinha do David ficam traumatizadas para a vida!

23/02/09

Courbet: se alguém lhes conta das poucas-vergonhas do Louvre, ainda se vão masturbar para lá!

No mesmo dia em que se soube que um tipo que tentou subornar um vereador com 200 mil euros foi condenado a pagar 5 mil e vai com deus, e passados três ou quatro de uma juíza do Ministério Público ter decretado que com o Magalhães não se brinca, nem mesmo no Carnaval, para depois vir esclarecer que afinal estava a brincar, em Braga ― onde pontifica um senhor que enriqueceu por obra do Espírito Santo, entidade, aliás, que tem por lá muitos adeptos, membros daquela igreja que considera a homossexualidade anti-natura mas depois acha normal que a cura da Guilhermina, que se queimou com óleo quando estava a fritar peixe, tenha ficado a dever-se à intervenção milagrosa do nosso D. Nuno Álvares Pereira, opinião partilhada, presume-se, pelo actual presidente que também crerá que o Santo, vários séculos passados depois da última vez que foi visto, ainda está em condições de exercer oftalmologia ― em Braga, dizia, quem se lixou foi o Courbet.
A PSP local chegou, abriu a boca perante aquele nu despudorado e pornográfico… e toca a apreender os livros que reproduziam o quadro. Se alguém lhes conta das poucas-vergonhas do Louvre, ainda se vão masturbar para lá!