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16/12/10

Não é por ser d'après Baudrillard que uma aldrabice deixa de o ser

Fernanda Câncio cita João Lopes.
Gostei muito de um livro de reportagens da Fernanda Câncio. E costumava gostar muito do que escrevia João Lopes, mesmo quando não gostava dos filmes de que ele gostava (vai no passado porque há muito tempo que não o leio).
Dito isto, escusam de vir com Sade, Baudrillard e o ódio à América porque não pega. A coisa é muito mais simples.
A América iniciou uma guerra por motivos ínvios. Provocou milhares de mortos, iraquianos mas também americanos, sem justificação. Bush devia ser julgado por crimes de guerra, se o mundo fosse um lugar justo. Não é. Ainda assim, uma aldrabice é uma aldrabice. E não é preciso ter lido La philosophie dans le boudoir para perceber isto.

18/12/08

Um tipo invade um país sob falsas alegações e é reeleito presidente, outro atira-lhe um par de sapatos e arrisca de 2 a 15 anos de cadeia


A cena do par de sapatos contra Bush anda a fazer correr muita tinta. Uma manifestação nos EUA exigia hoje a libertação de Muntazer al Zaidi, mas o franco-atirador iraquiano arrisca-se mesmo a ser condenado. Pela parte que me toca, não sendo eu a Imelda Marcos, considerem que os ditos me pertenciam.

03/12/08

Não podia deixar passar em branco a anedota mais seca do ano face à qual a nossa Manuela Ferreira Leite devia ser nomeada a rainha da comédia

Iraq war my biggest regret, admitiu o Bush Júnior, a umas semanas de se pirar da Casa Branca. E a anedota só não tem mesmo graça por causa disto.*
* Infelizmente, os números que se exibem na imagem estão muito desactualizados; no momento em que publico este post já foram substituídos pela variável 89, 544 - 97, 762

18/01/08

Desculpem lá o post ser tão grande mas há tipos que têm uma cara mesmo boa para levar um par de estalos


Deixem-me que vos fale com franqueza. Afinal, a Pastelaria é minha. O Tony Blair tem cara de parvo. Tinha cara de parvo anglicano, tem cara de parvo católico. Claro que a presente constatação está longe de justificar que se impeça o Santo Papa de dizer de sua justiça – nem que fosse para garantir que «a terra girar em torno do sol é tão falso como não ter Jesus nascido de uma virgem». Não significa isto que esteja prestes a converter-me, tipo Zita Seabra ou assim. Acho, simplesmente, que as pessoas têm direito a enunciar o que pensam. Eu, por exemplo, penso que o Tony Blair tem cara de parvo.
Na minha opinião, o elemento que mais transforma o seu rosto naquilo a que o meu pai chamaria «uma cara mesmo boa para levar um par de estalos» é a boca. Enrugadinha, amuada, uma boca que em bom vernáculo se chama «de cu de galinha». Ao orifício oral acrescenta-se a forma petulante do nariz. As orelhas são um pouco dumbescas e entre os olhos falta espaço de manobra. (Não vou pronunciar-me agora sobre Cherie, cuja quadradura do queixo denunciará uma «forte personalidade» e cujo sorriso arrebitado nas extermidades lembra uma versão adelgaçada do Joker.) Eu sei que é do senso comum apregoar que «quem vê caras não vê corações», mas também sei onde nos conduziu o senso comum pós-moderno fazendo equivaler ignorância e conhecimento. E mais não digo.
Falava, então, de Tony Blair. Longe de mim ter pretensões a que a minha visão da sua fisionomia seja algo tão verdadeiro como o facto de o Sol nascer diariamente – pelo menos até hoje à tarde, acrescentaria Hume. Mas olhemos mais de perto. O homem responsável pelo seguidismo pavloviano dos Europeus em relação a Bush e à sua criminosa invenção das armas de destruição massiva no Iraque (já agora, o que fazer com o Kosovo?) desocupou à pressa o 10 Downing Street londrino mas não foi para o countryside escrever Mémoires [apesar de, como lembrou
NSL em pertinente comentário a este post (o que deu origem ao acrescento), as suas memórias não terem sido esquecidas – e soma e segue].
Nomeado imediatamente para dirigir o Quarteto de Cordas (Estados Unidos, Rússia, Nações Unidas e União Europeia) que, em digressão pelo Médio Oriente, andou a dar música aos palestinianos e aos israelitas (recorde-se que a coisa por lá mantém-se desafinadíssima), seria convidado depois para assessor político do banco norte-americano JP Morgan, por um valor, especula-se, de 1 milhão de dólares ao ano.
Ao jornal Financial Times, Blair já tinha confessado, com candura, que sempre se interessara «pelo comércio e pelo impacto da globalização», acrescentando que «actualmente a intersecção entre a política e a economia em diferentes partes do mundo, inclusive nos mercados emergentes, é muito forte», com o «actualmente» a demonstrar que nunca lera Karl Marx.
Com a vida a correr-lhe tão bem que a única explicação só pode ser encontrada nas palavras do apóstolo Marcos: «O reino de Deus é como quando um homem lança uma semente ao solo, dorme a noite, levanta-se de dia e a semente brota e cresce alta e ele não sabe exatamente como» – ou isso, ou há tipos que nascem mesmo com o cu virado para a Lua –, pois já depois do convite milionário do JP Morgan – que com certeza por acaso é líder de um consórsio de 13 bancos de 13 países prontos a ganhar
MUITO dinheiro com a famigerada reconstrução do Iraque – entra em cena o «energético» Sarkozy.
Enquanto dá a palavra a Tony na reunião do Conselho Nacional do UMP que juntou em Paris cerca de 2 500 quadros do partido no poder em França (com a pronúncia do escocês a fazer Mário Soares corar de vergonha), o mais recente apaixonado de Bruni, metendo os socialistas europeus no saco como a viola, cozinha a candidatura do escocês a Presidente da União Europeia, um dos novos tachos consignados pelo Tratado de Lisboa, aquele de que o nosso Sócrates tanto se orgulhou antes de passar a batata quente do Kosovo à Eslovénia.
Agora digam-me. O homem terá cara de parvo, mas de parvo tem o quê? Nada. Se calhar é mesmo da Graça divina que, como se sabe, é misteriosa.
Para finalizar, dois vídeos. Um do próprio a dizer piadas brejeiras em francês (e ainda falavam do Levanta-te e Ri!). O outro de Julio Sosa a cantar Cambalache. À laia de consolo musical para o século XXI.

28/12/07

O Mundo não Cabe na Cabeça dos Provincianos. E é Pena. Porque Tudo Seria mais Pitoresco e Divertido.

Benazir Bhutto foi assassinada. Do atentado resultou a morte de mais 20 pessoas e, segundo a Reuters, pelo menos cerca de 70 paquistaneses já faleceram durante os tumultos que se seguiram ao desaparecimento da ex-primeira ministra a 27 de Dezembro, com as forças paramilitares do país a receberem hoje autorização para disparar à-vontade, em caso de alteração à ordem pública. Os votos de condolências surgiram de todas as partes do mundo, incluindo, claro, os EUA.
O presidente Bush, que tinha entretanto elegido o Paquistão e esse grande democrata que é o general Moucharraf como aliados de peso na «luta contra o terrorismo mundial», apareceu a chorar lágrimas de crocodilo. Tudo o resto — as alianças perversas, a crise energética, as armas nucleares, a situação no Afeganistão — foi varrido para debaixo do tapete, para apenas deixar ouvir um palavreado oco que, sob o bom nome da ética, esconde uma realpolitik desastrosa e um real descontrolo da situação internacional.
O mundo fica agora um lugar ainda mais perigoso, face ao qual vêm carpir a estafada ladaínha dos direitos humanos, progressivamente transformados em slogan vazio de conteúdo para enganar o pagode. A morte de Benazir Bhutto é uma tragédia. Porque morre uma mulher de coragem (independentemente das opiniões que se tenham sobre o seu percurso político), e porque o seu assassínio trouxe à tona o resultado de políticas sem escrúpulos e sem princípios. Que Bush, um cowboy ignorante e caceteiro, tenha chegado à presidência dos EUA, devia-nos preocupar. Tanto quanto o radicalismo islâmico que não é mais — ou talvez seja — do que uma forma actualizada de fascismo.
Entretanto, por cá, na West Coast da Europa, enquanto a humanidade avança pelos nove círculos do Inferno, vamo-nos entretendo com temas fracturantes e pitorescos. Por exemplo: em que locais se pode fumar depois de 31 de Dezembro? Ou: podem ou não os portugueses usar colheres de pau nos restaurantes? É o choque civilizacional no seu melhor.
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Sobre as tricas geoestratégicas que envolvem o Paquistão, aqui. Em português, para uma história política abreviada do país até ao final do século XX aqui. Do site do The New York Times, imagens do atentado, do funeral, e da vida de Benazir Bhutto.

18/10/07

I am Relevant

Bush é importante e importa-se. Dois vetos presidenciais recentes são a prova do quanto ele se importa.
Primeiro, importa-se com as células estaminais, sobre as quais proferiu a palavra definitiva numa cerimónia onde havia bebés por todo o lado, adaptados quando ainda eram embriões congelados excedentários: «Estas vidas não são matéria-prima para explorar, mas dádivas».
Segundo, importa-se com o destino do dinheiro dos contribuintes, o que provou ao impedir o aumento do financiamento do State Children Health Insurance Program aprovado pelo Congresso, e que permitiria melhorar os cuidados de saúde a cerca de 10 milhões de crianças pobres.
Importa-se e explica-se:
Sometimes the legislative branch wants to go on without the president, pass pieces of legislation, and the president can then use the veto to make sure he’s a part of the process. And that’s what I fully intend to do. I’m going to make sure. And that’s why when I tell you I’m going to sprint to the finish, and finish this job strong, that’s one way to ensure that I am relevant. That’s one way to ensure that I’m in the process. And I intend to use the veto.
Se isto não é cultura pró-vida e prova de relevância que se abata sobre Bush esta praga da Fuzeta: «Permita Deus que toda a comida que hoje comeres vás amanhã cagar ao cemitério, e já de olhos fechados».

18/09/07

O Jogging Leva-nos Longe. Às Vezes

A viagem foi relâmpago; quanto à velocidade a que correu Sócrates, não sabemos. Da agenda, o reforço sempre anunciado das relações entre a Europa e os EUA, seguido do usual carpido sobre a situação na Palestina, Afeganistão e Iraque. Enfim, a cefaleia do costume chamada Médio Oriente. Ah, e a questão do Kosovo.
E se nada de novo nos chegava do reino da Dinamarca, também nada de novo nos chega agora do Estado de Washington DC. Sócrates disse o que era de se esperar que dissesse e falou em inglês (não apenas técnico, supõe-se). Que Bush é amigo; que seria bem-vindo.
De tudo, o mais notado foi o elogio do chefe da Casa Branca à forma física do nosso Primeiro: «um exemplo para o mundo».
Run por run, desentubei isto:

E ainda descobri isto:

que, por acaso, fiquei a saber ter ganho o Grande Prémio da Cidade do Fundão 2006, do Festival IMAGO.
Confesso, porém, que a primeira coisa que me veio à cabeça foi o fabuloso livro Rabbit, Run de John Updike (um dos grandes romancistas norte-americanos vivos), recentemente reeditado em Portugal.
Embora, claro, ter nascido para correr não seja definitivamente para todos. Como se prova:
Contas feitas, e antes que me lembre de mais alguma coisa, não sei se hei-de agradecer a Bush ou ao nosso Sócrates.
PS - Por falar em agradecimentos, já me esquecia: segundo o site Iraq Body Count, aqui, o número de mortos no Iraque oscilava hoje, às 17h15m, entre os 72 596 e os 79 187. Run baby run.