Mostrar mensagens com a etiqueta Coisas que me acontecem. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Coisas que me acontecem. Mostrar todas as mensagens

07/08/09

Dias felizes

É final de percurso. Ficam ali junto ao jardim, vazios e silenciosos, e o motorista, na espera, encosta por vezes a cabeça sobre o volante. Outras vezes anda cá por fora, mãos pensativas nos bolsos, zelando pelos pneus. Já assisti a um ou outro pontapé. À luz do fim do dia a cena torna-se absurdamente nostálgica e sem que eu saiba explicar porquê deixa-me sempre triste. Parece um quadro do Hooper. Hoje de manhã, foi só depois da cadela ter cumprido aquela parte do ‘vamos lá escavar um bocadinho à procura da Maddie’ que o vi sair detrás da árvore, aos pulinhos, ainda ajeitando as calças demasiado subidas. Não sei se corou porque, com grande sentido das conveniências, a cadela puxou-me na direcção oposta. Recomeçou a brincar com a trela e voltámos felizes para casa, exorcizado o Hooper.


20/07/09

Não sei se isto é uma história com moral mas de repente pareceu-me uma parábola de qualquer coisa embora também possa ser apenas cansaço ou assim

A palavra intelectual já foi mais bem vista. A história recente da Europa terá contribuído alguma coisa para isso. Julgo. Ainda assim, haverá quem a reverencie. Por exemplo, o passageiro que este fim-de-semana se me dirigiu no comboio:
― A senhora parece-me uma intelectual. Acho que pode ajudar-me.
A adjectivação resultaria de dois factos meramente circunstânciais. Um, é que vinha a ler um livro no comboio; o outro é que estava a usar os meus óculos de ver ao perto sem os quais qualquer obra-prima se esfuma inevitavelmente no mais denso hermetismo.
Surpreendida ― não foi assim há tanto tempo que os taxistas me chamavam menina e eu dispensava óculos ― olhei para o homem e depois olhei para o panfleto que ele exibia para que eu o lesse. No título, a bold, estava escrita uma frase que acabava em ortopedia.
O homem explicou-se:
― Tem que ver com ossos, não tem? É que eu gostava de aprender sobre isso, sobre músculos e massagens e assim...
Não sei porque carga de água, embora estivesse a ver com toda a clareza a palavra ortopedia escarrapachada na folha, pensei em oftalmologia. Respondi:
― Não, tem que ver com olhos...
― Ah! ― suspirou ele ― e avançou profundamente abatido (pareceu-me ler isso na curvatura das suas costas) na direcção da saída.
Estava o dedo do homem a meia dúzia de centímetros do botão de abrir as portas, quando me dei conta do disparate. Larguei o Bullet Park do John Cheever no banco (e abro aqui um novo parênteses para o recomendar), corri para o homem e quase gritei:
― Desculpe, desculpe! O senhor tinha razão. A ortopedia trata os ossos, oftalmologia é os olhos... Enganei-me... Desculpe...
Fez um sorriso rasgado.
― Bem me parecia! Bem me parecia! Mas muito obrigado! Muito obrigado!
E desceu em Alcântara, continuando a agradecer-me da gare, enquanto eu permanecia de pé no comboio, confesso que invadida por um certo desconforto sem saber o que fazer às mãos.