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01/11/24

MEDITAÇÃO DE SEXTA: «Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia»

«(...) com quem trocar dois dedos de conversa sobre o pus dos livros quando já se foram Jorge Fallorca (“Decorrido meio século de existência, li e escrevi o suficiente para considerar a escrita – como qualquer outro acto criador – antropófaga até à vileza”, in Longe do Mundo, 2004), Juvenal Garcês (e os nossos diálogos que tanto versavam a genialidade de Ibsen como a mediocridade dos caciques culturais, sem esquecer a superioridade inquestionável das bananas da Madeira), Rui Martiniano, que conheci como Rui “Bancário” para reencontrá-lo no acaso das ruas de Lisboa, tantos anos passados e era ontem, editor da Hiena e tão minoritário como sempre fora, Francisco Brás, o meu vizinho actor motorizado, admirador incondicional de Mário Viegas com quem trabalhou e antagonista encartado do pedantismo, ou toda a outra gente morta ou em silêncio, aqui ou nas cidades, as trincheiras a abarrotar de equívocos e vaidades?

03/05/24

MEDITAÇÃO DE SEXTA: «Olhai as popoilas do campo»

«... Curioso como num mundo cada vez mais afastado da natureza – apesar da crise climática e das latas de tinta arremessadas contra tanta tela exposta em museus – se vai dando, em simultâneo, um empobrecimento da linguagem, não só do número das palavras em uso, mas também da diversidade dos seus sentidos que, no essencial, tendem a abandonar a sua panóplia multifacetada (à semelhança da pluralidade dos risos) para se verem entrincheirados entre as categorias do aceitável e do não aceitável.

15/12/23

MEDITAÇÃO DE SEXTA «Cassandra, de novo»

«(...) À imagem da má literatura – quanto mais medíocre, mais enfática e mais sentimental – a linguagem pública da comunicação vai reduzindo o vocabulário enquanto insufla de ideias e sentimentos (vazios).

03/02/23

MEDITAÇÃO DE SEXTA: «NO PASA NADA»

« (...) uma nota sobre o último escândalo semântico-ó-hermenêutico que, neste caso, envolveu a agência de notícias norte-americana Associated Press (AP), uma das maiores e mais conceituadas do mundo.

Num esforço hercúleo para não excluir nem ofender ninguém (ou será para não “incluir” ninguém?) a agência pediria aos seus colaboradores para não escreverem “the French”, expressão considerada inapropriada por denunciar um monolitismo que não levaria em conta a diversidade dos cidadãos/das cidadãs e etc.

A recomendação era a de “evitar designações genéricas e muitas vezes desumanizadoras, como os pobres, os doentes mentais, os franceses, os deficientes…”

E numa tentativa de se explicar melhor, a agência acrescentaria o exemplo de “pessoas com rendimentos abaixo do limiar de pobreza”, formulação sempre preferível a “the poor” (os/as e etc. pobres em português).

Se para o estômago de um poor, como entenderá facilmente mesmo quem nunca passou fome, ser chamado “pobre” ou “pessoa com rendimentos abaixo do limiar da pobreza” não fará grande diferença, quem responderia à Associated Press seria a própria embaixada francesa mudando temporariamente o seu nome para “Embassy of Frenchness in the United States”, uma solução adequada a esta problemática conotativa/ denotativa que me levou a recordar um americano do New Hampshire a viver em Chefchaouen nos finais da década de 80 e que, à viva força, queria livrar-se da sua nacionalidade. Abandonado em Marrocos pela mulher, que o trocara por uma amiga comum, era etólogo de formação e encontrava-se no país a estudar os macacos das montanhas do Rife. Tendo já tentado emigrar para o Canadá por três vezes, a recusa das autoridades canadianas em aceitá-lo levara-o a concluir que como etólogo nunca teria hipóteses. A última vez que o vi estava a considerar tentar de novo, mas declarando-se antes canalizador ou motorista de pesados. (...)»

04/02/22

MEDITAÇÃO DE SEXTA: «DIAS ASSIM»

 «... Ignorante da história, fútil, literalista, castradora da linguagem e da imaginação, aguarda-se que a moda do cancelamento venha exigir desculpas a Flaubert pelo suicídio de Emma Bovary ou recomendar a Anna Karénina que consulte o Doctor Phil para tratar da depressão.»

O RESTO AQUI

26/04/10

Como os temas fracturantes me aborrecem um bocadinho e de momento nada tenho a dizer roubei este post à Morgada de V. em troca de um éclair

Portugueses e portuguesas, cidadãos e cidadãs comunitárias (os)estrangeiros e estrangeiras de países terceiros, apátridas & apátridos, e todos & todas quantas/os lêem este/a magnífico/a post(a)

Por razões que se prendem com o meu passado de resistente anti-guterrista, embirro com a mania de feminizar os plurais, tanto com a escola que defende o desdobramento em feminino e masculino, como com a que troca os o’s pelos @’s. Isto é uma embirração mansa que não justifica uma tomada de posição do Paulo Jorge Vieira, e só falo no assunto porque ontem recebi um email da minha própria irmã a convidar-me, a mim e a outros & outras, para uma cena vagamente alternativa na qual “todos e todas são bem-vindos(as)”, não fossem as todas achar que era uma cena só para todos ou os todos que isto é tudo deles. Passado o choque inicial (a minha própria irmã, educada nas mesmas escolas que eu!), estivemos a trocar ideias sobre o assunto no chat do Gmail. Ela diz que a linguagem é tributária da sociedade patriarcal em que vivemos, e que “enquanto não se encontrar outra solução”, acha “ofensivo” não precisar o género feminino sempre que o plural seja opressivamente masculino. Em suma, há que chamar os bois pelos nomes (e as vacas, acrescento eu). Aqui a comunicação foi cortada, o que me impediu de desenvolver esta linha argumentativa, mas soube pela minha irmã mais nova (que não andou nas mesmas escolas que eu mas herdou o meu extraordinário bom-senso, e também se riu do disparate) que o incidente abalou a sororidade que me une à minha outra irmã. Não sei como vou dizer isto aos meus pais, mas acho que a irmã que frequentou as mesmas escolas que eu, e que até há pouco tempo se regia pelas mesmas regras gramaticais, foi raptada por extraterrestres (ou extraterrestras). No entretanto, enviei à pessoa (homem, mulher ou transgénero) que usurpou o email dela (e provavelmente o Facebook também) esta crónica já antiga do Arturo Pérez-Reverte – que tem, mutatis mutandis, ideias com interesse, mas não parece ter ajudado muito os/as coisos/as.